quinta-feira, 3 de abril de 2014

DOSSIER PÁSCOA/2014




«Ressuscitou, como disse»...

Qual lírio a ressuscitar em cada Primavera...


Lírios nos campos

«Jesus disse aos discípulos: "Cumprir-se-à tudo quanto foi escrito pelos profetas acerca do Filho do Homem(...), dar-Lhe-ão a morte. Mas ao terceiro dia ressuscitará".
Eles, porém nada disto entenderam. Era para eles incompreensível aquela linguagem e não entendiam o que lhes dizia»
Lc 18, 31-33

Lírio a desabrochar
«Chamou os doze e durante o caminho disse-lhes:"Vamos subir a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos escribas que O condenarão à morte e O entregarão aos pagãos para O escarnecerem, açoitarem e crucificarem. Mas Ele ressuscitará ao terceiro dia"».
Mt 20, 17-19   
                                                      
Lírio com lágrimas de chuva
«Os príncipes dos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos e disseram-lhe: "Senhor, lembrámo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: 'Ressuscitarei depois de três dias'. Ordena pois que o sepulcro seja mantido em segurança até ao terceiro dia, não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ressuscitou dos mortos. E seria a última impostura pior do que a primeira"»


Mt 27, 63-64

Lírio branco com pétalas abertas, a parecerem asas




A difícil palavra


                             «Jesus dizia-lhes: "O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens que O hão-de matar, mas, três dias depois de ser morto, ressuscitará"»
                                                                                                                                      Mc 9, 31

  As paredes erguiam-se nas mentes. O flagelo das palavras. A compaixão exposta entre altos muros de silêncio. E, Jesus, ali, aberto, a tocar cada um dos seus discípulos, a tentar arrancar portas e a quebrar o cerco que trava a voz humana. Abria janelas com palavras doces. Respirava o dentro abafado. Insuflava pronto, estoirava na largueza das palavras a fechadura que, para Ele, nunca tivera chave.

   E os apóstolos ensurdeciam, imersos em nuvens negras de incerto silêncio. Neles, não passavam as Suas palavras: "Ressuscitarei três dias depois". Depois, Jesus oferecia-lhes, com a voz, todos os espaços, como uma luz sem muros. E, a livre corrente da Sua consciência ensopava-se de repetidas palavras.


    A transparência, eclodia como um luzeiro perdido na noite densa a entorpecer, sem palavras. E Jesus repetia com o som das sílabas em catadupa, "Voltarei depois". Repetia. Mas, o mistério, a clarear com palavras de água, sepultava-se à beira dos ouvidos exaustos dos discípulos. Ali Jesus, com tanta verbosidade. O Verbo estava entre eles e não entendiam o que dizia.


    O discurso insustentável ficava na memória vazia. E Jesus continuava a procurar. E forjava chaves para portas de palavras, só para as abrir. Com palavras, criava as imagens nuas da Verdade. "E não entendiam o que lhes dizia"...

Páscoa/2014
Teresa Ferrer Passos



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Entre Sexta e Domingo


Conheço bem de mais a sexta-feira,
O fim da luz às três da tarde,
A sombra adunca da figueira
À espera do cobarde.

Conheço o cheiro do vinho derramado,
Misturado com fel e com suor,
E o horror do pão que foi pisado,
E o forno vazio e sem calor.

Conheço bem a hora em que as promessas
São um corpo descendo à sepultura,
A hora absurda em que regressas
Da vida que não foi senão futura.

Conheço bem de mais a sexta-feira,
Mas tanto a conheço que adivinho
Que traz em si a Vida e a Videira
Que voltará a dar-nos do Seu vinho.

                                            12/4/2014

                                   Fernando Henrique de Passos


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A Páscoa Mariana



de todo o coração, a Sua Santidade,
o Papa Francisco

Fui liança, fui a Roma
E fui aos velhos alfarrábios; 
Rosacruz, Amor me toma
No sidéreo: são os Sábios.

É Palavra, já caindo
Meigo e meigo tamarindo,
És o si, o Santo e sina
Em cidade Bizantina.

És a Mãe, Tu és Madrinha,
Mansa, mansa Ela me chama,
E Tu voas, andorinha,
Numa plaga Franciscana.

Diva é Deus, a mim oblata
A minha prece: «Maran Atha»,
Que és o rio, Tu és a ria
E um só nome: Maria.


                                          Queluz, 07/ 04/ 2014

MISERANDO ATQUE ELIGENDO



                              Paulo Jorge Brito e Abreu


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A Páscoa em cada dia de Jesus




Cada dia, no despertar das horas,
no pulsar das tardes e das manhãs,
Jesus bebia a sua Páscoa...
No acto simples de um almoço.
No bom-dia ao camponês.
No agradecer de uma ceia.
Eram dias sempre novos.
A cada instante uma semente germinava,
um botão de rosa vermelha incandescia
na folhinha protectora. 
Eram dias cheios de trigo no pão.
E também, dias com gemidos de mãe aflita
com a filhinha doente. 
As sandálias de correias largas calcorreavam
os pés e o peso das palavras a ecoar no vento
da sua memória de cruz.
Entre ervas ruins, os passos de Jesus
enterravam-se como num túmulo vazio.
Porém, dava um sorriso coberto de Páscoa
ao desamparado que tinha fome,
fome de ver porque não via.
A sua túnica dividia-a com as lágrimas dos paralíticos 
a esperarem a redenção das caminhadas.
E aí fazia nascer a Páscoa como um templo de alegria.
No olhar, Jesus transportava Páscoa, a viver intensa
entre os lírios contorcidos
em tons de lilás e de branco. 
Nesse suave tecido, nessa doçura infinita,
nessa fragrância, que nem Salomão
com toda a sua riqueza envergava,
Jesus via a humildade como a coisa mais bela
e a simplicidade sem tempo algum,
sem fim,
à beira da Verdade que não morre
e a ser a nova Páscoa como Jesus...


                                       3 de Abril de 2014

                                  Teresa Ferrer Passos

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Páscoa






Jesus todos nós somos,
Ao acordar todo dia,
Desde uma noite de sono,
Ou da grande anestesia.


Jesus é cada manhã,
Cada aurora, cada trigo,
Cada estação renovada,
Cada uma forma de vida.
   
 Jesus é vento, canção,
Cada pingo de orvalho,
Cada lágrima não contida.

 Voltar à criança, na fé,
Do símbolo que se renova
Num ovo de chocolate.

                     
                                Luiz Martins da Silva (Brasil)


Lírios brancos pelas veredas da serrania

BOA PÁSCOA!!!


E... DOCES AMÊNDOAS!




À distância de um sussurro

Paro à entrada da pergunta.
Já parei em muitas mais entradas,
De muitas mais perguntas.
Jamais uma só me encorajou
A atravessar o limiar das suas sombras,
A pisar o musgo virginal,
A tactear no escuro o húmido tremor
Da sua respiração expectante.

Estou à entrada da pergunta.


2/4/2014

Fernando Henrique de Passos

domingo, 30 de março de 2014

Vida e Evangelho

Santa Catarina de Siena cuida de um doente

«Tome cuidado com a sua vida, talvez seja ela o único Evangelho que as pessoas lêem»
                                                                         S. Francisco de Assis

quinta-feira, 27 de março de 2014

As mais belas camélias

Em Vila Nova de Famalicão
as mais belas camélias em pratos da Vista Alegre...
na Semana da Camélia (Março de 2014)


Camélias de paz

Entre o branco e o vermelho
vejo mil e uma camélias.
E como quebram o frio do inverno...
Abertas como uma alma,
lembram-me a primavera adiada.
Ou, talvez, uma esperança
inscrita entre os salpicos de chuva
e os raios esquivos de sol.
Nas largas quintas irrompem
pela altura das nuvens,
e, nos pequenos jardins,
coroam-se os tufos de pétalas em enxames.
Nos ares ecoam as cores! E na sua fragilidade
clama uma beleza encantada...
Sem espinhos, julgam-se rosas,
e tocam, de súbito, a primavera.
E com ela, nasce a paz. 

27/3/2014

                                          Teresa Ferrer Passos




domingo, 23 de março de 2014

A fé mais forte...

    
Tomás Halik (1948-...)

 «No seu best seller, What Jesus Meant, Garry Wills tem toda a razão ao descrever Jesus como um adversário explícito da "religião da elite do templo" e ao interpretar no mesmo tom, não só a cena bem conhecida de Jesus e dos comerciantes, mas também várias outras passagens dos Evangelhos, incluindo a maldição da figueira estéril e a sua declaração subsequente de que "este monte" – o Monte do Templo! – podia ser levantado e lançado ao mar pela fé dos seus discípulos.»
                             Tomás Halik*, Paciência com Deus, Lisboa, Paulinas, 2013.

*Este teólogo e psicoterapeuta recebeu, em 13 de Março de 2014, o Prémio Templeton que galardoa obras que contribuam para o progresso religioso e espiritual. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Começar a partir do sopé da colina ...

     
São Pedro Fabro (1506-1546)
     «Pede a Deus a graça do que é pequeno; assim, encontrarás graça para fazer o que é grande, para acreditar e esperar. Põe os teus olhos no mais pequeno, pensa-o e ama-o, para o realizar. Assim Deus te dará coisas maiores! Põe os olhos, dá-te totalmente naquilo que podes com a mais pequena graça de Deus e Deus te dará a grande graça com a qual poderás fazer o sobre-humano!»


                                            Pedro Fabro, Memorial

quarta-feira, 19 de março de 2014

A preto e branco


Buraco negro, buraco branco –
Qual é qual,
Se forem tudo o que existe
No espaço sideral?


17/3/2014

Fernando Henrique de Passos


terça-feira, 18 de março de 2014

No Princípio...





«Investigadores acreditam ter pela primeira vez detectado sinais da ultra rápida expansão nos primeiros instantes de existência do universo, registos que comprovam a teoria de que na origem de tudo o que conhecemos esteve a criação do espaço, do tempo e de toda a matéria baptizada de Big Bang.(...) Os sinais foram obtidos na experiência BICEP2, um telescópio que recolheu imagens de radiação cósmica de fundo no Pólo Sul entre 2005 e 2008.»

Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, EUA, in Jornal I


«Deus disse: 
"Faça-se luz".
E a luz foi feita.
Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas.»

                                                  Génesis, 1, 2

sexta-feira, 14 de março de 2014

A criança e a co-adopção




A co-adopção de uma criança por pessoas do mesmo sexo é um assunto sério demais para se colocar à votação, mais por razões políticas do que outras, numa assembleia de políticos, a quem interessa passar, por razões eleitoralistas futuras, por vanguardistas em matéria social.
14/2/2014
                                                        Teresa Ferrer Passos

Os Direitos da Criança



“A dignidade e os direitos da criança não se ajustam, nem compadecem com enunciados políticos dos direitos dos adultos, até porque nenhum adulto tem direito a uma criança - esta sim, tem Direito a uma Família - à sua, ou a uma análoga à que a gerou”.

Luis Villas-Boas, director do Refúgio Aboim Ascensão e fundador da Emergência Infantil (Ver RR)

Teoria da Percolação


Um canal… Outro canal…
Microperfuração da massa empedernida,
Da alma atulhada de lixo em forma fóssil.
Um canal… Outro canal…
O esforço dos dias baptizados pela dor,
A broca fina escavando galerias,
O sonho de um caminho ininterrupto
Desde o Alto até ao coração.
Um canal… Outro canal…
– E a água corre, finalmente.
Ainda gota a gota, por enquanto,
Mas anunciando já a força da torrente
Que arrastará consigo o espaço-tempo
E nos trará o Reino que esperámos tanto.


13/3/2014

Fernando Henrique de Passos

quinta-feira, 13 de março de 2014

No 1º Aniversário do Pontificado do Papa Francisco



Francisco, o Papa que renunciou à "Corte"

 «(...) Francisco encontra tempo para ler pessoalmente, a cada dia, cerca de 50 cartas e mensagens, entre as milhares que recebe. Algumas, depois de ficarem algum tempo na sua secretária, estão na origem das chamadas que o papa faz pessoalmente, sem intermediários, usando o telefone fixo.»

(Public. em Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura)

Ler e escrever também... na Idade do Computador


     «O historiador Campbell e os seus discípulos, a partir dos anos 70, observaram que a sociedade contemporânea, aos poucos, modificava a tradição da transmissão de informações e cultura pela forma escrita (como se fazia desde a popularização da imprensa, por volta de 1440), para uma comunicação essencialmente auditiva e visual (com a utilização massiva do telefone, da rádio, da televisão e, mais recentemente, da internet). Estava instituída a Aldeia Global»


            Joseph Campbell e Bill Moyers, O Poder do Mito 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Quando as pessoas não O procuravam...

«Jesus não estava o dia trancado na sinagoga, Ele procurava, procurava todo o dia na rua, procurava as pessoas»

                                                                       Papa Francisco

As fronteiras dos seres

(para uma Teoria dos Conjuntos não cartesiana)

Filósofo e Matemático René Descartes (1596-1650)


A velha marca fronteiriça,
Coberta de hera, escondida pelo mato,
Num bocejo de paz e de preguiça
Desobedeceu às ordens de Renato.

Regiões contíguas – coisa estranha –
Hesitaram sobre o conceito de pertença.
(Como se, de Portugal e Espanha,
Nenhum soubesse de quem era Olivença.)

O mundo sorriu secretamente,
Aliviado da nitidez em excesso.
Passado e futuro entraram no presente,
Ínfimo ponto assim feito processo.

Sabedoria da pedra desgastada,
Vitória do todo sobre a parte:
Do rosto exacto de René Descartes
Não resta mais que a foto desfocada.

8/3/2014

Fernando Henrique de Passos 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Desesperadamente, à beira das coisas...

«As relações do indivíduo com o meio social passam pelos objectos e pelos produtos transformados nas expressões mais tangíveis da presença da sociedade no seu ambiente, desde o momento em que tomam o lugar das "coisas naturais". A psicologia da vida social orientar-se-á para o estudo das relações do indivíduo com as coisas, uma vez que estas coisas são produtos sociais bem mais caracterizados e mais actuais do que os seres humanos que os realizaram.»
(...)
«Consumir é a nova alegria das massas, consome-se Mozart, museus, Sol, consome-se as Ilhas Canárias, (...). Consumir é muito mais que a simples aquisição pela qual o homem pretende inscrever-se no eterno (...); consumir significa antes exercer uma função que faz desfilar pela vida quotidiana um fluxo acelerado de objectos entre a fábrica e a lata de lixo, o berço e o túmulo, numa condenação necessária ao transitório.»
                
                  Abraham Moles, O Kitsch, A Arte da Felicidade
                   

domingo, 2 de março de 2014

Deformação e/ou arte?

Joan Miró
( pintor espanhol surrealista)

«A primeira consequência da deformação do gosto, enquanto faculdade estética, é a perda total de discernimento ante qualidades e valores: o indivíduo já não consegue distinguir entre o som e um ruído, a palavra e um rabisco, a cor e uma mancha no papel. Mais ainda, não sabe separar utilidade de senso estético, nem funcionalidade de beleza.»

                    Ângelo Monteiro, Arte ou Desastre, Realizações Editora, S. Paulo, 2013, pp. 53-54.

sábado, 1 de março de 2014

O valor da competência

    
     Vítor Gaspar, que consideramos o mais competente Ministro das Finanças de Portugal depois da revolução de 25 de Abril de 1974, desempenhou um papel fulcral no desenvolvimento da política de recuperação financeira de Portugal, sob o Governo de Passos Coelho (após a queda do Governo chefiado por José Sócrates que deixou o País chegar perto da bancarrota), de que se estão agora a ver os primeiros bons resultados.
     Devido a pressões de membros do Governo de coligação, pediu a demissão do cargo. Foi substituído por Maria Luís Albuquerque (sua colaboradora como Secretária de Estado do Tesouro) que lhe assegurou a continuidade da estratégia financeira nacional.
     Actualmente a desempenhar a função de Consultor do Banco de Portugal, Vítor Gaspar foi recentemente nomeado (após candidatura ao FMI) por Christine Lagarde, Directora-Geral do Fundo Monetário Internacional, para o alto e prestigiante cargo de Director do Departamento de Assuntos Orçamentais desta instituição financeira. 
     Como afirmou a Directora-Geral do FMI, Vítor Gaspar "traz com ele credenciais de gestão impressionantes e um registo formidável de experiência em política pública ao nível europeu e nacional". 

28 de Fevereiro de 2014
                                                                               Teresa Ferrer Passos





quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Sinais



Os olhos sem luz do nado-morto
(No espelho do quarto do hotel do Porto)
O não descolar do aeroporto
(No espelho do quarto do hotel do Porto)
Os efeitos secundários do conforto
(No espelho do quarto do hotel do Porto)

Três riscos na cinza que cobria os dias
Três rasgões na terra, fecundando-a
Com sangue e profecias

26/2/2014

Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Liberdade e Moral


Se largarmos uma pedra, ela cai. Não há nisto nada de odioso ou assustador. O caso das cargas eléctricas é mais interessante: uma carga eléctrica pode ser repelida ou atraída por outra carga eléctrica, dependendo dos sinais de ambas. Também isto não tem nada de odioso ou assustador. Há uma lei biológica muito parecida: os organismos vivos dotados de sistema nervoso tendem a ser atraídos pelas fontes de prazer e repelidos pelas fontes de sofrimento. Chamemos LPS a esta lei: Lei do Prazer e do Sofrimento. O ser humano é um organismo vivo com sistema nervoso: está portanto sujeito à LPS. Também não há nisto nada de odioso ou assustador. Mas causa um certo incómodo, não causa? Somos como uma pedra que cai? Como um pedacinho de papel atraído por um pente que foi friccionado? Como o pólo norte de um íman repelido pelo pólo norte de outro íman? Bem, claro que não somos. Ou melhor, somos, mas só enquanto crianças de tenra idade. Em adultos não somos assim, pois não? Ou somos um bocadinho assim? Sim, uns mais, outros menos, somos todos um bocadinho escravos da LPS. E isso é desagradável, de facto. Ninguém gosta de ser escravo de nada. Todos prezamos a liberdade, seja qual for a nossa ideologia, não é? Bem, há ideologias que não prezam nada a liberdade, mas nós também não gostamos muito delas, pois não? E depois, há outra coisa. Não vale a pena dar exemplos, qualquer pessoa conhece muitos exemplos, mas a verdade é que se nos deixarmos guiar exclusivamente pela LPS, acabamos muitas vezes por fazer o mal: a outros, ou a nós próprios. E assim chegamos ao problema do mal, e entramos no domínio do odioso e/ou assustador: porque há pessoas capazes de fazer muito mal a outras pessoas, ou a si próprias, em última análise apenas porque se deixaram guiar exclusivamente pela LPS. E aqui entra a moral. A minha tese é a de que, na sua génese, as leis da moral não são os ditames arbitrários de um Deus caprichoso, antes visam apenas libertar o ser humano da escravidão da LPS. E isso é bom por duas razões: 1) pelo simples facto abstracto de ser uma libertação; 2) por acabar com todas as consequências nefastas da obediência cega à LPS. Independentemente de permitir uma reavaliação do verdadeiro significado da moral tradicional, tão ridicularizada pelo pensamento moderno, este ponto de vista parece-me útil para o combate que (quase) todos travamos contra o mal: se pensarmos no mal como o resultado de algo semelhante à tendência de uma pedra para cair, isso já não nos desperta sentimentos nem de ódio nem de medo. O que é bom, porque do ódio e do medo só pode nascer mais mal. (Embora uma pedra que cai sem quaisquer entraves acabe por ir mergulhando em abismos sempre mais e mais profundos, o que também é um bocado assustador…)


20/2/2014

Fernando Henrique de Passos

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A procura divina


«Aquele que caminha sem deixar pegadas não serve para nada»

«Jesus não estava o dia trancado na sinagoga, Ele procurava, procurava todo o dia na rua, procurava as pessoas»

                                                                    Papa Francisco

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Explicação (nos vinte anos do nosso casamento)



Segredo ancestral das sombras góticas
Que espera paciente a hora certa
Em que um raio de sol sobre um vitral
Despertará o Rei desaparecido
De um sono de estepes invernosas
Para a luz ágil de algum Maio
Que sonhe com oiro e com trigais:

É desta matéria volátil mas real
Que é feito e vive o nosso amor.


19/2/2014

Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A face comovida de Jesus


     Oh Jesus, meu Bom Deus, é hoje a Tua Noite de Natal! Mas… o que vejo? Vejo as Tuas faces pálidas pelos muitos que rejeitam o amor dos irmãos; as Tuas faces angustiadas pelos que perseveram em não reconhecer os seus pecados; as Tuas faces caídas de tristeza pelos que nada querem receber dos pobres, porque são ricos. As Tuas faces desmaiadas ao veres aqueles que recusam a companhia dos irmãos porque o orgulho não os deixa ver que estão sozinhos.
     Como deves estar magoado, oh Jesus nosso! Na Tua Noite de Natal não vês a alegria do encontro fraterno dos que estão divididos nas vontades. E, mesmo assim, abres os braços porque vês os que não desejam a solidão e sentem saudade do irmão.  Perdoa, Pai, o orgulho que nos afasta uns dos outros e não deixes de ensinar-nos a humildade como naquele Dia em que Tu, coberto de vexames, já a ficar com o corpo desfigurado, dependurado na vileza do madeiro, sentias a alegria da companhia do bandido arrependido, a Teu lado. 
     Nesta Tua Noite de Natal peço, um pouco a tactear a Tua bênção, por todos os que sofrem o desespero da doença, peço a Tua imensa piedade. E peço-Te (atrevimento meu) que cries uma grande família com o cimento do amor a esculpir a verdadeira terra da comunhão. Que sejamos, enfim, capazes de criar laços para o grande Banquete, Contigo, no reino do Pai! Não nos largues das tuas mãos até ao fim dos tempos! Que a Tua carne, esfacelada na cruz, ressuscite todos os dias no mundo, para nos salvar das pedras em que tropeçamos a cada momento.
    
Dezembro de 2013

Teresa Ferrer Passos

A propósito do Dia Mundial do Doente




«Três anos após ter sofrido um atentado na praça de S. Pedro em Roma, experimentando por conta própria o limite da vida, João Paulo II publicou a 11 de Fevereiro de 1984 a carta encíclica sobre o sentido cristão do sofrimento (Salvifici Doloris).»

«É inesquecível a última aparição pública do Papa João Paulo II: no limiar das forças físicas, foi conduzido à janela do “Angelus”, tentando sofregamente dizer algumas palavras à multidão que estava na Praça de S. Pedro e não o conseguindo fazer.»

«Uma bala entrou no corpo do Papa João Paulo II. Saiu-lhe em palavras ensanguentadas na Salvifici Doloris. Trinta anos depois, que entre uma bala no corpo muralhado da Igreja. Quem sabe, ela se esvai em forma de testemunho.»

                               Padre José Vilaça (excerto de artigo «Uma bala... trinta anos depois» publicado em 4 de Fervereiro no “site” da Arquidiocese de Braga)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

?


Faz-te esponja.
Mergulha na pergunta.
Deixa-te embeber pela pergunta.

Vai mais longe:
Dissolve-te agora na pergunta
E esquece-te de ti, primeiro,
E depois, dela.

Quando acordares
Procura entre os cristais
Depositados no fundo dos ecos dos teus sonhos.

A pergunta que olhaste tanto tempo
Aí habita agora
Na sua nova forma –
Isto é, como resposta.


1/2/2014

Fernando Henrique de Passos

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

4 de Fevereiro - Martírio de S. João de Brito

S. João de Brito
Missionário Jesuíta e Mártir (1/3/1647 - 4 /2/1693)

«A culpa de que me acusam vem de ser que ensino a lei de Deus Nosso Senhor, e que de nenhuma maneira hão-de ser adorados os ídolos. Quando a culpa é virtude, o padecer é glória.»

                   Excerto de uma carta do Padre jesuíta João de Brito do cárcere de Oriyur na Índia, na véspera do martírio, dirigida ao Superior da Missão de Maduré, Padre Lainez.


«Como não lembrar, entre outros, aqui em Lisboa, o exemplo de São João de Brito, jovem lisboeta que, deixando a vida fácil da Corte de Portugal, partiu para a Índia, a anunciar o Evangelho da Salvação aos mais pobres e desprotegidos, identificando-se com eles e selando a sua fidelidade a Cristo e aos irmãos com o testemunho do martírio?»

                                                                           João Paulo II, falando aos jovens em Lisboa (Parque Eduardo VII), a 14 de Maio de 1982.