sábado, 13 de junho de 2026

 UM POEMA DO LIVRO «NO MOMENTO INCERTO DOS POEMAS»

NA MINHA LÍNGUA, VIAJO

Perdido e sem sentido.
Mas nosso, o mar.
À sua beira, nos areais, Tejo adentro,
crepita nos ares um cheiro a perda,
a desconcerto, a rompimento.
O povo pobre, disperso ou em uníssono,
grita dentro de si um arraial cheio de mares
descobertos e em ruínas.
Ninguém troca palavras de esperança,
antes um desespero, que toca
as raias do inferno, avança.
E os pobres não podem ser dispensados
de contribuir para pagar a dívida do estado,
que não teve norte e foi injusto na governação.
Metam-se na barca e rompam novos mares,
os cofres estão vazios!
Os pobres, ao ouvirem isto, responderam.
O mar é a nossa língua cheia de naufrágios,
de caravelas e de Adamastores medonhos.
Não teremos medo, largaremos pelo salgado,
Não, não temam as saudades da natal terra.
Rumem ao mar.
Aí está a salvação. Depois do temporal, regressem.
Portugal vai renascer.
Os pobres responderam. Iremos!
Levaremos o mar imenso da nossa língua.
E o mar da nossa língua em que viveremos
No momento incerto dos poemas
não se perderá do nome de Portugal,
mesmo sendo nós pobres,
sacrificados por governos que defraudam.
No mar distante ganharemos uma nova paz.
O mar é do povo que o atravessou
no século grande de Quatrocentos.
O mar que nos levou a outros mundos.
Esse mesmo mar será ainda nosso,
como o foi de Vieira, de Pombal e de Pessoa.
O mar nos abraçará com as suas infinitas ondas
e nos abrirá as portas para reconstruir o mundo,
e o escreveremos em língua lusa.


Nessa língua lusa a escrever-se no além
a exaltar-se e a dobrar os novos
e não menos difíceis Cabos das Tormentas.
Ainda e sempre voltaremos ao mar obscuro.
Disse o povo.
E o mar que era ainda nosso,
recebia na Atlântida imensa
a pequena terra lusitana.
IN Teresa Ferrer Passos, «No Momento Incerto dos Poemas», Hora de ler, 2026, pp.30-31. UM POEMA DO LIVRO «NO MOMENTO INCERTO DOS POEMAS»

A PROPÓSITO DO 13 de Junho, Dia de Santo António



Santo António nasceu junto à Sé de Lisboa, em 1195, com o nome de Fernando de Bulhões. Em 1220 deslocando-se para Coimbra, fez-se frade franciscano e seguiu para Marrocos como missionário. Doente, resolve voltar à Pátria. Porém, Deus alterou-lhe o seu projeto e o barco em que seguiu, vitimado por uma tempestade, levou-o para Itália. Novo caminho que não recusou, mas aceitou com paixão. Assim se tornaria um grande missionário não do Norte de África, mas de uma certa Europa que tentou reconstruir com a sua espantosa Palavra sacra e os seus milagres, que o tornaram um santo inesquecível.
T.F.P.

terça-feira, 9 de junho de 2026

UM POEMA INÉDITO PARA O DIA DE PORTUGAL , DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

 

PÁTRIA, ONDE ESTÁS?
«Tive castelos, fortalezas pelo mundo...
Não tenho casa, não tenho pão!
Tive navios... milhões de frotas... Mar profundo,
Onde é que estão?... onde é que estão?! (...)
E tive um nome... um nome grande... e clamo e clamo,
Que expiação!»
In Guerra Junqueiro, «Pátria».
no regaço de um povo
as raízes mais fundas se desfazem.
lenta convulsão. século amargo.
eis a pátria amada.
ainda assim no coração do poeta sobrevive.
de alma compulsiva, o vate inquieto tem sede
de concórdia e de cálidas sementes nos torrões.
em acesas discórdias o poeta participa
e com ânimo efervescente polemiza.
mas o poeta não desencanta um sentido de pátria,
sequer um cabo das tormentas ultrapassado,
com rumo certo e firme como outrora.
oh arrogância oh raiva oh desatino
como o povo se esvai em questiúnculas!
e o poeta vê as discordâncias fruto não darem. nem guiadas
pela prudência nem pelo juízo sensato de um rei.
a ordem justa ausente. o povo perde-se da tradição passada.
lenta morte a da pátria. que gélido cenário.
a palavra pátria morre. ninguém a pronunciava.
oh tempos, sem o sopro de um vento aberto
às praias de honorosos desembarques!
a pátria soçobra em denso nevoeiro.
não se ouve a voz de um rei...
a hora é extrema e desditosa para o poeta!
resta-lhe erguer com som estridente o argumento
maior para uma pátria ser inteira. o argumento da liberdade.
a Pátria renasce. a Pátria vive.
a Pátria ganha uma voz nova até à eterna idade.
Teresa Ferrer Passos

sábado, 6 de junho de 2026

 O ANÁTEMA DO SUPREMO-SACERDOTE DO TEMPLO


Um caminho novo impunha-se. A procura de Deus. Nascia no seu coração, uma impetuosa vontade de o convocar. Mas, onde e como procurar Deus? A cada momento que passava, a sua visão parecia mais obscurecida; ao mesmo tempo, uma certa luz débil, mas suave e mansa, erguia-se; essa pequena luz levava-o a intuir a ideia de que era, de facto, imprevidente transmitir a Ana o medonho anátema apontado por Rúben. Então, antes que alguém o expulsasse daquele habitáculo da classe eclesial ao serviço de um Deus escondido, envolto em enigmas impenetráveis e que julga, repudia ou aceita com um critério impenetrável para os humanos, era preciso agir, sem perder tempo. Um Deus tão distante da transparência da chuva, tão longínquo do azul do céu, do calor do sol, da brandura das árvores, da proximidade dos montes, dos caminhos múltiplos dos vales, era difícil de entender. Sentia-o agora com uma grande premência. Com estes pensamentos a fustigarem as raízes níveas da sua alma, uma nostalgia imensa crescia em Joaquim.

Teresa Ferrer Passos, S. Joaquim e a Oratória do Nascimento de Maria (romance), pág. 7 (obra inédita, concluída, a publicar em 2027)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

 DIA DO CORPO DE DEUS

"Pega na tua cruz e segue-Me" disse Jesus, a encarnação de Deus para salvar a humanidade. Que quer Ele ensinar ao dizer estas palavras? Pergunta que muitos fazem, desanimados. São palavras, aparentemente, tão misteriosas, tão exigentes para se porem em prática!

Porém, se pensarmos um pouco, talvez não sejam assim palavras tão radicais, tão exigentes. E porquê? Porque a nossa cruz simboliza a nossa vida, com as frustrações que a encerram, com os obstáculos que a definem, com os sofrimentos próprios ou com o sofrimento daqueles que amamos. E esta cruz, digamos, esta condição do viver, que é a natureza da vida, é para ser levada com o amor que nos dá a paz interior de o possuir.
Ao dizer para o seguirmos, Jesus diz que sigamos os caminhos que Ele ensinou para tornar a nossa vida melhor, menos infeliz, mais cheia de sentido, mais confiante, com mais momentos de felicidade e ter ainda a Vida para além da vida. Se amarmos o próximo, e isto é seguir Jesus, a cruz será mais leve e tanto mais leve quanto mais o amarmos.
Jesus só quer dizer que amando o outro, estamos a amá-Lo e, ainda mais, diz que só receberá o nosso amor se for oferecido através de uma pessoa concreta. Amar a Deus não nos aliena dos homens; antes, amar a Deus tem de partir do nosso próximo. Se não partir, Deus não o poderá aceitar, porque para Ele não é verdadeiro amor.
Junho de 2015
Teresa Ferrer Passos