torno-me lento,
cada vez mais lento,
capaz de desvendar
qualquer mistério
sem possuir
qualquer talento
para além da arte
de saber esperar
Um poema de Fernando Henrique de Passos,
a introduzir estas passagens de BYUNG:
«A aceleração generalizada do processo de vida priva o homem da capacidade contemplativa.»
«Só o ser dá lugar ao demorar-se, porque está e permanece. A época da pressa e da aceleração é, por isso, uma época do esquecimento do ser.»
«Só o homo doloris teria acesso ao aroma da "eternidade".»
«Os homens sucumbem ao "ruído dos aparelhos que tomam, quase, pela voz de Deus. Deus aparece em cada "silêncio" que surge quando os aparelhos técnicos se apagam".
"Deus estabiliza o tempo. A aceleração remete para a morte de Deus".»
«Deus revela-se como Deus da lentidão, como Deus da terra.»
in BYUNG-CHUL HAN, O Aroma do Tempo, Relógio d' Água, 2016, pp.87, 92, 94 e 95.

O REINO MESSIÂNICO«Brotará uma vara do tronco de Jessé, e um rebento brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o espírito do Senhor; espírito de sabedoria e entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor. Não julgará pelas aparências, nem sentenciará somente pelo que ouvir dizer; mas julgará os pobres com justiça, e com equidade os humildes da terra.»
Isaías. 11, 1-4
Um poema único escrito pela pena do grande poeta João de Deus, lembrando o tempo em que as crianças interrogavam as mães sobre quem era Deus.
“Minha mãe, quem é aquelle
Pregado n'aquella cruz?”
- Aquele, filho, é Jesus…
É a santa imagem d’Elle!
“E quem é Jesus?” – É Deus!
“E quem é Deus?” – Quem nos cria,
Quem nos dá a luz do dia
E fez a terra e os céos;
E veio ensinar à gente
Que todos somos irmãos,
E devemos dar as mãos
Uns aos outros irmãmente:
Todo amor, todo bondade!
“E morreu?” – Para mostrar
Que a gente, pela Verdade
Se deve deixar matar.
João de Deus, «Campo de Flores», Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pág. 372.
ENTRADA TRIUNFAL DE JESUS EM JERUSALÉM
A PEDRA ANGULAR
os ramos de palmeira agitam-se nas mãos das crianças.
as mães vibram gritos de alegria, esperam os milagres imprevistos.
chegou o profeta, oh Jerusalém! Jesus está aqui, ainda!
as flores brancas cobrem as ruas empedradas que se tornam níveas,
é preciso que Jesus passe com o seu jumentinho por elas
e as santifique e lhes dê uma palavra. Coragem.
as lágrimas encharcam os lenços pálidos e os cânticos ditos em uníssono.
quem não vai ser trespassado pelo sangue desse Inocente cheio
de misericórdia pelo seu povo, esse povo ávido de
lhe suplicar a compaixão em mais um dia em que é bem vindo?
esse dia inédito pleno de paixão e já tão próximo da páscoa
em que este profeta, ou o Messias (como muitos dizem),
será a pedra angular de uma nova terra.
ele saberá ouvir os gemidos do seu povo pecador!
ele será o seu pastor pleno e o seu Deus amante,
até ao fim dos tempos. Ou até ao fim do tempo?
Domingo de Ramos, 29/3/2026
Teresa Ferrer Passos
A CRUZ UNS DOS OUTROS
«Somos peregrinos da esperança. Caminhamos em direção a um lugar maior, um lugar que rompe o tempo e o espaço, um Lugar que a Páscoa nos revela. E fazemo-lo uns com os outros, cuidando uns dos outros, quaresmando uns com os outros, com os olhos postos no infinito.
(...)
Permitam-me o espanto. E a esperança. A que projetamos em cada Pai-nosso. A que nos faz mover em direção ao amanhã. Permitamo-nos o amor. O que nos leva a segurar a cruz uns dos outros.»
Graça Alves, «Com a esperança na ponta dos dedos», Fátima Missionária, Abril, 2026.
A ÚLTIMA CEIA
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| «Última Ceia» de Leonardo da Vinci |
um cálice a transparecer o sangue.
um cálice a derramar a vida amortecida.
a vida a perder-se do mundo.
a vida a eclipsar-se na morte próxima
do resgate imenso de Jesus.
a vida a ser vida ainda, pelo seu amor infinito.
"bebei"- disse Jesus aos discípulos.
e todos beberam.
depois pegou num pedaço de pão
e dividindo-o, ofereceu-lhes
dizendo: "este é o meu corpo que está pronto,
o meu corpo exausto de vida e sôfrego
da morte que se aproxima para salvar
a todos da morte que derruba e queima e corrompe.
fazei isto num memorando sem fim
e sereis resgatados por mim e pelo Pai na sua imensa
misericórdia perante esse diabólico destino
a que ninguém poderá escapar sem esta
magnífica oferta de divino amor.
Quinta-feira Santa (2/4/2026)
Teresa Ferrer Passos