sexta-feira, 22 de março de 2024

DOSSIER PÁSCOA/2024

 

CORDEIRO PASCAL, pintura de Josefa de Óbidos
 (datação incerta entre1660 e1670)

 CHRISTO

 

 « Minha mãe, quem é aquelle
Pregado n´aquella cruz?
- Aquelle, filho, é Jesus...
É a santa imagem d'elle!

«E quem é Jesus? - É Deus!
«E quem é Deus? -Quem nos cria,
Quem nos manda a luz do dia
E fez a terra e os céos;

E veio ensinar à gente
Que todos somos irmãos,
E devemos dar as mãos
Uns aos outros irmãmente:

Todo amor, todo bondade!
«E morreu? - para mostrar
Que a gente pela Verdade
Se deve deixar matar.


João de Deus, Campo de Flores, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893 (com Observações Prévias de Theophilo Braga), pág. 373.
 

  ***

SENHOR


Senhor se da tua pura justiça
Nascem os monstros que em minha roda eu vejo
É porque alguém te venceu ou desviou
Em não sei que penumbra os teus caminhos

Foram talvez os anjos revoltados.
Muito tempo antes de eu ter vindo
Já se tinha a tua obra dividido

E em vão eu busco a tua face antiga
És sempre um deus que nunca tem um rosto

Por muito que eu te chame e te persiga.
                                   
                                                    *

O TEU ROSTO

É o teu rosto ainda que eu procuro
Através do terror e da distância
Para a reconstrução de um mundo puro.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Mar Novo" in Obra Poética, II, págs.46 e 47.


***

DOMINGO DE RAMOS

«Uma grande multidão, cortava ramos das árvores e espalhavam-nos pelo chão. E todos diziam em altos brados: ‘Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!’»
Mt 21, 8-9

 

Um jumento aproximou-se. Tocou as suas mãos.
O lombo pôs a jeito. Jesus subiu.
Em alvoroço, o animal seguia à frente
da correria dos jovens descalços,
das crianças em algazarra e dos velhos ávidos
da atenção daquele profeta emergente que olhavam
como o Messias, o prometido, havia tantos séculos.
O profeta Zacarias o tinha propagado.
Com que pormenores o previra!
O povo sábio não o esquecera ainda.
E a esperança estava viva nele
como no curso de um rio vasto a penetrar no mar.
As palavras sábias que o tinham anunciado
tiniam na sua memória a dourar-se
de futuro, um futuro aberto à vida,
toda a renascer,
sem sombra de guerras,
sem derrotas amargas.
E a paz vaticinada no tempo Antigo,
seria a lei maior que já não se romperia,
não se ia perder nunca,
como antes acontecia.

24/3/2024
Teresa Ferrer Passos

***

TEOLOGIA PASCAL EXPERIMENTAL

Rezo com o corpo.

Como é que se reza com o corpo?

Reza-se com o corpo desligando as tensões do corpo.
Abrindo uma clareira de paz
nesse perpétuo campo de batalha que é o tempo
devido às múltiplas incertezas do futuro.

(E a irmã da irmã paz é a irmã mansidão,
capaz de suportar a tensão de um coração contrito
até a transformar em mel.)

Rezar com o corpo é anular a base fisiológica do medo
abrindo espaço para o amor.

Rezar com o corpo é seguir a estratégia
de aniquilar as causas suprimindo os seus efeitos:

Aniquilas o medo suprimindo a tensão nervosa
e suprimes a vontade própria aniquilando o medo,
pois o teu medo é o efeito da tua vontade
e a tua tensão é o efeito do teu medo.

Então já estás a caminho da Páscoa!

Deixa Jesus Cristo entrar por essa clareira de paz
que tu mesmo abriste no teu coração.

Deixa a vontade de Jesus Cristo substituir
a vontade própria que tu próprio suprimiste.

Deixa o mel correr pelas tuas veias como novo sangue.

Deixa-te governar pela doçura do amor.

Nessa altura o teu eu egoísta terá morrido
e tu terás ressuscitado como irmão do Cristo.

E tudo terá acontecido
por teres aprendido a rezar com o teu corpo.

30 de Março de 2024 (Sábado de Aleluia)


Fernando Henrique de Passos


***


BOA PÁSCOA!

FLORES NA NOSSA MESA

NA MEMÓRIA DE JESUS RESSUSCITADO


sábado, 2 de março de 2024








APRESENTAÇÃO pelo poeta Manuel Neto dos Santos do livro MEMÓRIA DE PAZ de autoria de Teresa Ferrer Passos no Salâo Paroquial, em Alcantarilha, Silves (24/2/2024)


«A poesia sublima cada coisa, vinculando-a, particularmente com todo o restante (…). A poesia é a gestação da harmoniosa sociedade, a família universal, o belo lar do universo. (…) Cada indivíduo vive em tudo e tudo vive em si. Devido à poesia, surge a máxima empatia e mútua reciprocidade, a mais íntima comunidade.» [versão de tradução livre M.N.S.]

                                                               NOVALIS, Schriften, pág. 533.



Creio na urgência das palavras que nos salvam, nesse lugar de antanho, a que mais fortes regressamos: à aldeia singela, sendo ela todo o universo. Assim a poesia de Teresa Ferrer Passos.

Um livro de poemas é sempre o refulgir de um farol, no seu “prismático” reflexo, como se cada um de nós fosse frágil embarcação no mar alteroso da vida.

Frágeis, doridos, reflexos de ausência mas, agora e sempre, renitentes como essa fortaleza do sonho.

Sonho renascido do desespero pela travessia existencial. Desafio perene que se impõe às almas genuínas. Deixar falar o coração dado que à sua “linguagem” outra não existe que não seja tudo o que não podemos silenciar ("Novíssimo Sol", Memória de Paz, pag.48).

Na escrita de Teresa Ferrer Passos existe esse lugar de plácido apaziguamento, sagrado e infinito como “a mística equação que se ergue devagar”. Estamos perante um gesto invocatório, buscando dar sentido à “infinitude” da “Matéria Escura ” (Memória de Paz, pág. 50).

Mas também, e essencialmente, de evocação se compõe esta obra; regresso natural de lembranças e imagens, dando corpo a um livro de poemas. Ilustremos, pois, de forma muito clara esta incursão por dentro dos “universos” vividos, agora resgatados e recorrentes sobre o papel. “Santa Mãe” (Memória de Paz, p.58).

Sem sombra de dúvida, estamos perante um corolário de emoções onde a ressurreição da Esperança é recorrente como se pode constatar em “A vida não passará” (Memória de Paz, pág. 26).

Profundamente tocante o domínio da síntese para partilhar convosco toda a imensidão do amor maternal. “Caminho” (Memória de Paz, pág. 57).

                      MANUEL NETO DOS SANTOS

 


FOTOS: No Salão Paroquial de Alcantarilha, Teresa Ferrer Passos com o seu Apresentador, o poeta Manuel Neto dos Santos, natural de Alcantarilha (24 de Fevereiro de 2024).