quinta-feira, 21 de maio de 2026

MARIA TRANSPARECE NO MAGNIFICAT

" O Deus escondido desde o princípio e que só é reconhecível pela imensa
Criação, humaniza-se para dar um sentido à vida humana e, precisamente, um sentido
muito mais do que carnal, essa limitação perecível. Será Jesus que oferece à vida
humana um sentido e um sentido que não é perecível, antes eterno, o sentido
espiritual: «O Espírito é que dá vida, a carne não serve para nada. As palavras que
Eu vos disse são espírito e vida» virá a dizer Jesus. Aludia ao facto de a carne se
corromper pela sua natureza efémera. Contudo, vai ser a carne de Jesus que, sendo
a morada do espírito de Deus, servirá como meio de atingir o fim supremo que se
encerra n’Ele, que é a morada do Seu espírito incorruptível. Foi, desde logo, o corpo
de Maria que serviu a Deus para alcançar uma redenção que pode conduzir à “casa”
do Espírito Santo. E Jesus, o Deus incarnado, ao nascer na carne de Maria e ao
ressuscitar dessa mesma carne, pôde oferecer a toda a humanidade a libertação do
estigma do maligno, esse estigma a que chamamos pecado e que domina o mundo
da matéria, sempre à beira do colapso. Em Maria, construiu Deus uma nova Mãe
pronta a unir-se-lhe para alcançar a vitória final e definitiva sobre o mal, que atormenta
a condição humana. Não viria Jesus a proclamá-la? A questão é clara: «Digo-
-vos isto para terdes paz em Mim; no mundo tereis aflições, mas tende confiança!
Eu venci o mundo».
Maria transparece no Magnificat. É essa belíssima oração de Maria o documento
máximo com a sua assinatura. Este documento que Lucas registou, marca o
começo do caminho que conduzirá ao triunfo final do bem sobre o mal, à derrota de
satanás, à recompensa dos puros, dos humilhados, dos pobres, dos abandonados,
de todas as vítimas da injustiça."

Teresa Ferrer Passos, Stabat Mater, Hora de Ler, Leiria, 2020, pp.50-51.

terça-feira, 19 de maio de 2026

 A JOIA DE DEUS

"Maria guardou durante nove meses a joia de Deus, o Seu Filho único, a sua incarnação permaneceu por aquele tempo no seio de uma virgem, toda recolhida no silêncio da humildade, toda concentrada na obra de Deus que a estava a habitar. Ela, que viabilizara a visão de Deus pelos homens – «Quem Me vê, vê o Pai» dirá Jesus –, tornar-se-ia, na hora da crucificação, a mãe
de toda a humanidade, tal como o Pai o era já. E só o seu filho, Jesus, tornaria possível a maternidade de Maria a par com a paternidade de Deus em relação à humanidade. Reparemos, assim, nas palavras do Evangelho de S. João: «Aos que crêem n’Ele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus». Desde a primeira hora, desde que foi chamada, Maria envolveu-se plenamente neste altíssimo processo. E «o Verbo fez-Se homem e habitou entre nós». Mesmo até à última hora, a da ressurreição de Jesus, Maria esteve presente. Ela foi a «stabat mater» que nenhum sofrimento, por mais cruel que fosse, conseguiu abater. O Deus escondido transparece no mundo, Ele é o próprio filho de Maria, Ele é o Messias proclamado pelos profetas, o Salvador. Esse a quem o discípulo João alude deste modo proléptico: «Quando vier o Espírito da Verdade, Ele guiar-vos-á para a verdade total, porque não falará de Si mesmo (…) Ele glorificar-Me-á (…) Tudo quanto o Pai tem é Meu». É um Deus que não se expõe. É antes um Deus que sugere, insinua, aconselha, na intimidade de Si e de cada um. É o transcendente na pessoa de Jesus, que transmite quem é: «Eu conheço-O porque venho de junto d’Ele e foi Ele Quem Me enviou». Enviou, diz João. E para quê? Para que com a sua carne e na carne, sofresse como o ser humano. O sofrimento foi a sua voz, a sua palavra, o seu gesto dialogante. Escondido, Deus quer sofrer por nós e sofrer connosco, para alcançar a nossa única forma de redenção. Como escreveu, oportunamente, o cardeal Walter Kasper, «se Deus não tivesse sofrido em pessoa na cruz, se o próprio Deus não tivesse morrido por nós na cruz, a morte de Jesus não seria mais do que a morte de um ser humano»".

In Teresa Ferrer Passos, «Stabat Mater», Hora de ler, Leiria, 2020, pp. 49-50.

segunda-feira, 18 de maio de 2026


OS FIOS CONDUTORES DE MARIA

"Outro aspeto relevante da Anunciação a Maria foi ter-lhe sido dado o poder de

aceitar ou recusar a proposta divina, apresentada pelo anjo. Assinalou, por outro

lado, uma clivagem abruta entre o juízo de Deus sobre a mulher e o baixo estatuto

social em que ela vivia na Palestina. Lembremos o que se escrevia no Eclesiástico:

«Foi pela mulher que começou o pecado, e é por causa dela que todos morremos.

Não dês saída à água, nem à mulher perversa a liberdade. Se ela não andar sob a

direção da tua mão, aparta-a da tua pessoa». A mulher não se sentava à mesa

com os homens, mas devia servir-lhes as refeições; fiava, tecia, fazia o pão, mas uma

mulher não podia falar a um homem na rua; devia dar filhos ao esposo e a esterilidade

podia levar o marido a repudiá-la. Como escreveu Daniel Rops, «era tão verdade

que estava na dependência do marido que, segundo a Lei, a mulher de um escravo

era vendida com ele». E chegava-se ao ponto de, «os compromissos que tomava

podiam ser desfeitos pelo marido (…). Enfim, regra geral, nada herdava, nem do

pai, nem do marido». A mulher devia obediência ao pai e depois ao marido. De

facto, a mulher era um ser quase ignorado no que respeitava a direitos fundamentais.

Ora, contrariando os costumes judaicos, o Espírito Santo ofereceu a Maria um

estatuto altíssimo em relação às leis sociais em vigor. É Deus que a enche de graça,

e oferece-lhe, em seguida, a possibilidade de aceitar ou recusar a Sua vontade: ser a

mãe do Salvador do mundo, o prometido Messias. Quando Maria apresenta um

obstáculo incontornável: «Como será isso se eu não conheço homem», e, por

isso, não poder ser mãe do Salvador, usando o argumento da impossibilidade de tal

acontecimento, o anjo contrapõe que «nada é impossível a Deus".

In Teresa Ferrer Passos, Stabat Mater, Hora de ler, Leiria, 2020, pp.45-46.

sábado, 16 de maio de 2026

«Rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele mesmo nos dirigiu. Uma Palavra que, ao longo dos séculos, ressoou na voz dos profetas e depois, na plenitude dos tempos, fez-se carne. Esta Palavra – esta comunicação que Deus faz de si mesmo – pudemos ainda escutá-la e vê-la diretamente (cf. 1 Jo 1, 1-3), porque se deixou conhecer na voz e no Rosto de Jesus, Filho de Deus. Desde o momento da criação, Deus quis o ser humano como seu interlocutor e, como disse São Gregório de Nissa, [1] imprimiu no seu rosto um reflexo do amor divino, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente: cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros. A tecnologia digital, no caso de falharmos nesta preservação, corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas. O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios. Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinónimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos, a opacidade e os riscos.»

Excerto de uma mensagem do Papa Leão XIV, no Dia das Comunicações Sociais (17 Maio de 2026), in Pica Pau