quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Orgulhosamente sem Deus...

Cardeal Robert Sarah (1945-...)

«O homem não pode ter a pretensão de dispensar Deus sem correr o risco de morrer e de desaparecer, pela violência que ele próprio cria, as guerras, todas as situações de conflito, de barbárie. Foi o homem que criou tudo isso, porque virou as costas a Deus, porque pensamos que somos autónomos, independentes, que podemos fazer tudo o que queremos»

19/10/2016
                                 Robert Sarah (autor de Deus ou Nada)

domingo, 20 de novembro de 2016

É assim o nosso Rei





Celebrar a Festa de Cristo Rei do Universo não é celebrar um Deus forte e dominador que Se impõe do alto do seu trono, que comanda tropas ou conquista terras. É celebrar um Deus que serve, que acolhe e que reina nos corações com a força desarmada do amor.

(in Facebook)
Darci Vilarinho

*

Desarmado, sem terra, com um exército de mãos vazias, Jesus Cristo, o Rei do Universo, com uma mão cheia de amor segura o mundo todo seu.

(in Facebook)

20/Novembro/2016

Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Retratação do Sol perante os planetas



Perdoai-me as sombras que provoco
Nas vossas faces ocultas e secretas
E que vos fazem orbitar em meu redor
Como fantasmas notívagos de insetos
Presos em redes invisíveis,
Como farrapos flébeis do crepúsculo
Sorvidos por vórtice de pez.

Perdoai-me, deixai-me libertar-vos
E parti pelo espaço à aventura!

17/11/2016
                            Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Conhecer-se a si próprio


«Ser aquilo que verdadeiramente somos». Esta afirmação de Kierkegaard não invalida o desejo de um indivíduo querer ser mais perfeito, o que pode levá-lo a descobrir a sua verdadeira natureza (e depois aceitá-la). Como dizia o filósofo Aristóteles (na linha de Sócrates [arte da maiêutica], a verdadeira natureza de cada pessoa pode estar escondida dela própria e, por isso, tem de ser extraída da sua interioridade. A verdadeira natureza de cada pessoa não passa apenas pelo que ela julga que é. A consequência é que não se pode invalidar o querer a mudança no seu "eu".

16/11/2016
Teresa Ferrer Passos

sábado, 12 de novembro de 2016

Poesia e mística em Leonard Cohen



Leonard Cohen, nascido em 1934, em Montréal (Canadá), morre recentemente, na mesma cidade, com oitenta e dois anos. Foi um nome de grande sucesso com "world music", a que não faltou uma forte espiritualidade. Detentor de uma cultura bíblica assinalável (de uma família judaica) esteve mesmo num mosteiro Zen. Publicou os romances «The Favorite Game» em 1963 e «Beautiful Losers», em 1966. Treze livros de poesia, entre os quais, "Death of a Lady's Man" em 1978, "Book of Merci" em 1984 e "Dance me to the end of Love" em 1995, revestiram grande merecimento. O reconhecimento literário surgiria com o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras, em 2011. Ao gosto pela literatura, Leonard Cohen aliou a composição musical e o canto com grande expansão internacional. Destacamos "Hallelujah" ("Aleluia"), lançado pela primeira vez no álbum de estúdio de Cohen, "Various Positions", em 1984.

12 de Novembro de 2016
                                                   Teresa Ferrer Passos

sábado, 5 de novembro de 2016

Tinteiro de amor


Tinteiro antigo



               Ao Fernando, como no princípio…


No nosso tinteiro de largas ruas, passam rios
estreitos, com muitas fragas rasgadas e sem vida. 
Mas, cada dia, é mesmo assim, um reencontro.
Cada dia é um perfume de alecrim e de hortelã,
é o sorriso dos anos a romper,
é a tinta com que escrevemos hoje.
Cada dia é uma paz insuspeita ainda ontem,
é um imenso Sol que nos envolve na esperança,
é uma vitória à procura de nós, 
em cada madrugada.


5 de Novembro de 2016

                                        Teresa Ferrer Passos

Amor-Além





Um dia, um compromisso, a vida inteira,
A estrada do tempo estendida como esteira
Ao longo do espaço e da distância,
Além do conhecido,
Firmando a concordância
E o sentido
De duas vidas enlaçadas
Desde as primeiras madrugadas
Até ao derradeiro dia,
O interminável dia a que conduz
A conversão em luz
De todos os mistérios da filosofia.

5/11/2016

Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Dia de Fiéis Defuntos

Maria de Carvalho (1879-1973)

À Memória dos dias que passaram...

«À memória dos dias que passaram
E das sombras amadas que fugiram;
À memória daqueles que partiram,
E por vida ou por morte me deixaram;
A tudo quanto é belo neste Mundo,
A tudo quanto amei,
A tudo o que é profundo
E que foi minha lei;
À luz que me alumia,
E da noite sombria
Faz um céu constelado;
A quem me tenha amado
E a quem me queira mal;
À vida triunfal
Que desejei,
E à terra que pisei
Nos meus primeiros passos;
A todos esses laços
Que me prenderam pela vida fora;
A tudo quanto sofre e quanto chora,
A tudo que sonhei e que vivi,
E à Madre Natureza,
Pela sua beleza:

Estes humildes versos que escrevi.»
  
            Maria de Carvalho, Estrela da Tarde, Edições Ática, Lisboa, 1957, pp.7-8.

Dia de todos os Santos



Nós somos somente aquilo que damos aos outros
e o que lhes deixamos de nós.

1 de Novembro de 2016
                                                          Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Maria, a Inocência suprema


Georges Bernanos (1888-1948)

«A Virgem não teve nem triunfo nem milagres. Seu filho não permitiu que a glória humana a tocasse, ainda que com a mais ténue extremidade da sua grande asa selvagem».

«Pois afinal ela havia nascido sem pecado, que espantosa solidão! Uma fonte tão pura que ela nem podia ver nela a própria imagem.»

              Georges Bernanos, Diário de um Pároco de Aldeia (1ª edição, Paris, Plon, 1936), S.Paulo, Editora Paulus, 1999, pág. 210.



sábado, 29 de outubro de 2016

Num mundo às avessas





Num mundo às avessas, tropecei
em fogos invisíveis. Em desequilíbrio, não caí.
E o coração desordenado entrou na tua paz.

Num mundo às avessas, vi
um pequeno mundo de malmequeres.
Erguiam-se dos teus olhos cor de mel.
E as flores faltavam na nossa casa velha
e de móveis carcomidos.

Num mundo às avessas, havia afinal um pequeno
mundo de malmequeres, mesmo ali, no passeio
em frente do marco do correio.
E foi quando vi os teus olhos
mais largos do que o vento,
naquele pequeno mundo de malmequeres...

29 de Outubro de 2016

                                   Teresa Ferrer Passos

Recordação de um dia bom



Bom dia!
Vamos abrir uma fenda no espaço
Espalhar as flores que trazes no regaço
Semear versos e colher fantasia!

Bom dia!

Vamos beijar-nos como namorados
Contar galáxias do cimo de telhados
Fazer delirar a astronomia!

Bom dia!

Vamos inventar somas sem parcelas
Descobrir intersecções de paralelas
Exponenciar a alegria!

Bom dia!

Vamos entrelaçar-nos com palavras
Videira virgem e roseira brava
Partilhando a seiva e a poesia!

Bom dia!

Quero abrir a vida como uma janela
E quero-te a meu lado quando olhar por ela!
Queres ser a minha companhia?

29/10/2016


                           Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

In Memoriam de...


Poeta A. M. Couto Viana (1923-2010),
colaborador da revista Limiana (Viana do Castelo)

Soneto Breve e Leve

( in memoriam de António Manuel Couto Viana )

invoco, para a Musa minha, o 3 de Copas Arcano
Coas mãos esmigalhadas p’lo mundo da dor
Se ergue sempre o Poeta na sua fantasia.
O homem não contente cria mesmo com Amor:
Se hoje ele é Poeta, amanhã será Poesia.
Urge transformar num só verso maior
Poalha de poeira que é, no fim do dia,
Sal e escuridão volvendo-se em estertor:
Quando um mundo acaba, o outro principia.
Tiremos, entretanto, a Cristo a sua Cruz,
Louvemos o zagal e todos os trigais,
Crisantos animais que somos todos nós;
Pois assim era Buda e assim era Jesus,
Nitentes e notáveis doando aos naturais
A Virgem, visionada, e cansada, a minha voz.

                        Que Luz, 05/ 10/ 2016
                                                             AD MAJOREM DEI GLORIAM

                                  Paulo Jorge Brito e Abreu

domingo, 23 de outubro de 2016

Fraternidade única, nunca vista




Um anjo anunciou o meu nascimento a uma jovem de Nazaré que, com o espanto no coração, aceitou a vontade do Alto. A voz vinha do Espírito, vinha daquele que era. Noiva de José, a escolhida para ser minha mãe, aceitou a missão. Na aparência, impossível. Ela a tornaria possível.

As lágrimas confundiam-se com a alegria. A escolha era determinante. Decisiva. Alguns meses depois, ela, que se chamava Maria, seria o ventre materno da encarnação de Deus. À luz do Espírito, Deus e o homem iam unir-se numa fraternidade única, nunca vista.


 Teresa Ferrer Passos, Jesus até ao fundo do coração, Chiado Editora, 2016, pág.6 (a publicar brevemente).

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

No vale do mundo


Os olhos habituam-se à penumbra
E vão a pouco e pouco percebendo
O virginal delírio colorido
Das borboletas que voam só de noite.

Uma raposa espreguiça-se na relva
E a relva é branca como no Antártico
E os olhos brancos da raposa branca
Tingem de ser o nada do deserto.

10/10/2016

Fernando Henrique de Passos

sábado, 1 de outubro de 2016

Nossa Senhora da Paz, uma Devoção de Benavente

Imagem de Nossa Senhora da Paz
Igreja matriz de Benavente
(a antiga igreja ficou destruída pelo terramoto de 1909,
mas esta imagem conservou-se intacta)

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A ilusão do centro: pecado original


“(…) mas quanto ao fruto da árvore
que está no meio do jardim,
Deus disse: ‘Nunca o deveis comer,
nem sequer tocar nele,
pois, se o fizerdes, morrereis” (Gen 3, 3)



Só figuras finitas têm centro.
O ilimitado é desprovido desse lugar geométrico.

No Jardim do Éden temos tudo,
No Jardim do Éden somos tudo,
E o Jardim do Éden não tem centro.

A ilusão que nos faz ver um centro no Jardim
É a mesma ilusão que nos faz querermos mais
Além de tudo o que já somos.

E é essa a raiz de todo o Mal.

15/9/2016

Fernando Henrique de Passos


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Albert Camus e a arte do romance

Albert Camus (1913-1960), Nobel da Literatura em 1957

«O artista forja-se neste ir e vir perpétuo de si para os outros, a meio caminho da beleza sem a qual não pode passar e da comunidade a que não pode subtrair-se» (Estocolmo, 1957)

                Albert Camus, O Avesso e o Direito seguido de Discursos da Suécia, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pág. 127 (esta publicação inclui outros textos de A. Camus).

terça-feira, 13 de setembro de 2016

A violência, cenário de guerra

       
A queda das torres gémeas em Nova Iorque por embate aéreo

       A violência veiculada pela tecnologia cresce...
    E desde a declaração de guerra do fundamentalismo islâmico ao Ocidente em 11 de Setembro de 2001 nos EUA, o confronto Islão-Ocidente não deixou de crescer em várias zonas do mundo.
     Chega às próprias relações dentro da família, 15 anos depois...

11 de Setembro de 2016
                                                                           Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

S.João de Deus, exemplo da misericórdia



S. João de Deus num painel de azulejo (Igreja do Hospital de Montemor-o-Novo)

«Hoje assiste-se ao renascimento de um neo-estoicismo, uma espiritualidade pop, new age, em que o acento volta a reincidir no sujeito enquanto carente de equilíbrio e de paz interior. Nesta perspetiva é necessário distanciar-se das fontes de sofrimento, tais como os pobres ou as questões mais prementes da sociedades. Esta mentalidade cultiva um ensimesmamento estéril, um narcisismo inconsequente, e é bem sucedida na mobilização de neófitos, homens e mulheres sedentos de afeto que cresceram em contextos desestruturados»

      Nélio Pita, "Expressões de Misericórdia" in Suplemento de Hospitalidade, nº312 / Abril-Junho 2016, pág. III.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Dia Mundial da Fisioterapia

Para o Dia 8 de Setembro de 2016:
"Adicionar vida aos anos"



      A fisioterapia é fundamental em doentes com graves problemas musculares, neuro-musculares e degenerativos. Através da reabilitação, ainda que lenta, dos órgãos doentes, nasce na pessoa com deficiência uma dimensão nova para a vida.
     
     Apenas com um pequeno passo na evolução motora, há o ganho que soa a vitória. E, na vida, é com as pequenas vitórias que se constroem aquelas grandes que o sonho imagina.

     Mesmo que esse sonho seja inalcançável. Porque é o sonho que nos dimensiona para além das nossas fragilidades humanas, para além de nós.  

Dia Mundial da Fisioterapia
                                                                
                                                          Teresa Ferrer Passos




domingo, 4 de setembro de 2016

PARA QUEM O TRABALHO, OU A NOVA POBREZA…*

Aqui publico um texto que escrevi em 1998,
numa Pequena Homenagem a Madre Teresa de Calcutá,
neste dia 4 de Setembro de 2016,
em que é Canonizada pelo Papa Francisco 

Madre Teresa de Calcutá com os pobres

  «Tive fome e deste-me de comer»
Jesus Cristo

   Missionárias da Caridade - uma Ordem Religiosa fundada por Madre Teresa de Calcutá, em 1950. Por estes anos do Pós-Guerra, o pobre torna-se o centro das preocupações da sua fundadora.
   Missionárias em busca dos que sofrem para lhes dar mais do que alimentos para o corpo, também alimento espiritual de que não eram menos carecidos. Cinquenta anos decorreram desde o lançamento deste projecto de ligação ao pobre - «no pobre, Cristo é pobre»1.
   A entrega das Missionárias da Caridade ao serviço dos pobres significa que no pobre Cristo, vivem. No pobre - o pobre que significa aquele que precisa de pão, mas que está igualmente ávido de apoio espiritual - está o Cristo vivo, o Cristo a viver connosco todos os dias sem que demos pela sua presença.
   Numa sociedade mundializante e todos os dias a criar novos reforços para a totalização dessa mundialidade (vivemos, no momento, o exemplo da União Europeia), a Ordem das Missionárias da Caridade não perdeu o sentido, não se tornou mais uma congregação humanitária; pessoas como as Missionárias fundadas por Madre Teresa de Calcutá são progressivamente mais necessárias.
   A sociedade da abundância, provocou uma  explosão de pobres (a quem nem sequer se inclui entre as estatísticas dos desempregados), envergonhados, silenciosos, que nada reclamam, a quem algumas horas em serviços a prazo ou sem contrato consolam da sua desdita. O que na verdade esses pobres se julgam é inábeis, incapazes de saber viver (a par dos empregados sempre vistos como os mais aptos, os bem sucedidos).
   Pelas Índias das castas, às quais os miseráveis não repugnam; pelas Áfricas em que as crianças subalimentadas são o espectáculo masoquista e, em simultâneo, motivo da indiferença dos que, na certeza da segurança, não se interessam pela incerteza do futuro dos outros (designadamente os Estados poderosos); pela Europa das Uniões Económico-Financeiras, ufana de um igualitarismo propagado até à exaustão em que explodem promessas eleitoralistas ou para-eleitoralistas de novos empregos e de mais trabalho para todos - por todos os continentes, em suma, grassa a hipocrisia dos governos ao serviço e a servirem-se dos grandes grupos capitalistas e das maiorias populares.
   Em todo este mundo, sem compreender a sua própria realidade social, nem sequer tentar auscultar-lhe as deficiências lesivas das minorias sem ruído, há uma frenética ânsia de dar a imagem de um planeta a caminho do progresso, sem recuos ou máculas - um progresso fundado na esperança ou na espera de mais segurança, mais emprego, mais abundância e bem-estar social.
   Em Portugal os exemplos abundam: novos cursos superiores, mais democratização do ensino com a abertura de mais vagas, mais escolas, mais, sempre mais vias para mais postos de trabalho. «O emprego espera por vós», parece ser constantemente afirmado. E  todos, todos têm a espera, talvez uma esperança vã  pela frente.
   Escritores um pouco por todo o mundo e, mais perto de nós, nos países da Europa de que fazemos parte - e refiro-me àqueles que ainda pensam, são capazes de olhar o outro, ou aquele que passa a seu lado, sem se deixarem vender às maiorias dominantes e, não raro, dominadoras (as ditaduras surgem das maiorias que esmagam as minorias, em vez de as libertarem) - estão a alertar para o perigo de se estar a enganar o tecido social da maioria votante (que dá o voto para ser governada, na espera de dias melhores, como lhe prometem), com toda uma falaciosa realidade que já nada tem de real. Trata-se de toda uma propaganda política ligada aos grandes monopólios económicos mundiais - privados e dos estados -, sempre a intervir com a reafirmação da criação de mais emprego. A verdade é que tudo isto não passa de uma falaciosa esperança. O emprego será cada vez mais desnecessário num mundo profusamente maquinizado, tecnicizado.
   A viabilidade de conseguir mais trabalho para todos os que ainda estão à espera, é praticamente nula, se essas margens que são já milhões de pessoas em termos mundiais, não fugirem ao esquema actual do sistema e àqueles que se preparam para manter esses indigentes do trabalho - silenciados, como numa culpabilização generalizada pelos insucessos individuais.
   Nasce, assim, uma das maiores injustiças sociais da época contemporânea: a desigualdade camuflada de igualdade; a submissão  ocultada sob uma pretensa  liberdade; a oligarquia plutocrata e a ditadura mascaradas de democracia.
   Neste contexto mundializante (e que se estende cada vez mais a Portugal), Madre Teresa de Calcutá e as suas Missionárias almejaram um sentido mais vivo e mais fundo. Resta, aos que sofrem na desilusão e na descrença de si próprios, ainda quem se coloque do seu lado, como as Missionárias  da Caridade. Mas outros estão a usar outros meios: a palavra escrita e propagada através do livro.  
   A situação não está a passar-se sem que haja quem se aperceba da farsa social que são, designadamente em Portugal, as chamadas Acção Social, Segurança Social, Luta contra a Droga ou as leis favoráveis à desagregação da família - edifício ético sobre o qual deve assentar uma sociedade psiquicamente saudável.
   As Missionárias da Caridade que Madre Teresa de Calcutá dirigiu até à sua morte, em 1997, estão, não no mundo, mas num mundo incluído num outro mundo, que não está perplexo, que não está a fazer uma autocrítica dos seus actos, mas que apenas procura ludibriar a situação degradante de muitos indivíduos. É um facto que «vendeu a alma» ao poder.
   Afirmava Madre Teresa: «Se não estivéssemos profundamente convencidas de que Cristo permanece oculto no rosto dos deserdados deste mundo, a nossa Missão não se justificaria». A situação é grave. Na verdade, as consequências psicológicas e morais (o suicídio e as doenças mentais), atingem  indivíduos, ou seja, pessoas, que se distinguem de massas anónimas.
   O cidadão, ou é considerado por si próprio ou a sociedade perde o seu sentido essencial. O Poder não pode ter em vista apenas fins, sem olhar aos meios, sob pena de se tornar imoral.
                                                           Teresa Ferrer Passos






*  Stella (revista) Set/Out 1998, nº579, pp.22 e 26.
1 José Luís González-Balado, Madre Teresa  dos  Pobres mais Pobres, Edições Paulistas, Lisboa, 1991, p.41.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Tudo começou aqui


Teresa com 4 meses e sua mãe

Tu nasceste neste dia
Enquanto eu me aborrecia
À espera da minha vez.
Fiquei encantado ao ver-te
E desejei logo ter-te
Para minha companhia.

Liguei lesto pra Viana
(Apesar de ser tão longe)
Onde o meu futuro pai
Já só pensava em ser monge.

Ele ouviu a voz do alto
Dizendo “ruma a Lisboa”
E julgando que era Deus
Tirou como conclusão
Que aquela ideia era boa.

Como era muito indeciso
(O filho fora mais rápido…)
Levou ainda um par de anos
Até se fazer à estrada
Pondo em ação os meus planos.

Correu tudo muito bem
A partir desse momento
E passado o tempo certo
Deu-se o nosso casamento.

E foi assim, querida Teresa,
Que eu te levei ao altar
E mesmo não sendo príncipe
Desposei uma princesa.

Mas tudo sabes tudo isto
Quase melhor do que eu sei
Pois com respeito ao meu pai
Começaste por ser nora
Mas – se o posso revelar –
És a biógrafa agora!

9 de Agosto de 2016

            Fernando Henrique de Passos

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

No 1º Centenário da Morte de Mário de Sá-Carneiro


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quási vivido...

Do poema "Quási" de Mário de Sá-Carneiro in «Dispersão»
Edições Presença, 2ª edição, 1939, p. 47.