segunda-feira, 16 de março de 2015

PÁSCOA/2015


«O espírito é que dá vida, a carne não serve para nada. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida. Mas há alguns de vós que não acreditam»
                                                        Jo 6, 63


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A PÁSCOA DE S. FRANCISCO DE ASSIS




Guiado pelo teu louco amor por tudo
Penetraste o núcleo de dor da existência
Passando a porta estreita proposta por Jesus
Que te esperava lá
No centro de tudo
No cume do mundo
No centro de ti
No fundo desse abismo assustador
Que enlouquece aqueles que preferem não ter de o recordar

Voltaste trazendo as Santas Chagas
A marca da Verdade sobre a carne
E a certeza de que o segredo desvairado
Que o Mestre dos Mestres ensinara
É bem mais certo que o mais sensato teorema:

Renunciar a tudo é ter o mundo inteiro

19/3/2015

                         Fernando Henrique de Passos


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AS PRIMÍCIAS DA PALAVRA

Igreja de S. João de Gatão, Amarante

«A Verdade é aquilo em que nós acreditamos.»
Teixeira de Pascoaes

                                                   (convoco, para a Musa-Madre, o 10 de Copas Arcano)

Q' rido Sol, a ser essénio,
O meu Cristo é só d' Amor.
Sou do Espírito e convénio,
É da Paz o Bom Pastor.

E se o Verbo, irmão, te inspira,
Se é da quadra uma quimera,
Sou do Espírito e a Lira,
É da Páscoa a Primavera.

Se o mar é barca, e Maria,
Se é da Paz, d' Iria Cova,
Sou do Espírito, e da Via,
É da Páscoa a Boa Nova.

E se a Mena doura e dança,
Se é da loura, lis e lais,
Sou do Espírito e a Esp'rança:
É da Páscoa Pascoaes.

Queluz, 19/ 03/ 2015

AD MAJOREM DEI GLORIAM

                     Paulo Jorge Brito e Abreu


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A DESCRENÇA CRIADORA DA FÉ



«O apóstolo Tomé, à vista do Ressuscitado, terá sido realmente liberto, para sempre, de todas as suas dúvidas, ou, pelo contrário, ter-lhe-á Jesus mostrado, "pelas suas chagas", o único lugar em que aquele que busca e o que duvida podem efetivamente "tocar Deus"?»

«Jesus identificou-se com todos os pequeninos e com os que sofrem – assim todas as feridas dolorosas, todo o sofrimento do mundo e da humanidade, são «as chagas de Cristo». Crer em Cristo, poder dizer «meu Senhor e meu Deus», só posso fazê-lo se tocar nestas suas feridas, de que também o nosso mundo está, hoje, cheio.»

«Onde tu tocares no sofrimento humano – e talvez só aí! – ficas a saber que eu estou vivo, que «Eu sou». Encontras-me por toda a parte onde os homens sofrem.»


Tomás Halík, O Meu Deus é um Deus Ferido, Paulinas Editora, 2015.


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A PÁSCOA DAS CRIANÇAS INOCENTES  
  

À beira da Cruz agitam-se frases infames.
O desdém sobe até às divinas tábuas.
É a Cruz com uma nova Páscoa
para as crianças desfalecidas de mágoa.
Os seus braços largos estendem-se
ao  verem os malvados derrubar a criança.

As mãos impuras incendeiam as suas faces.
Uns levantam-se e querem livrar
os inocentes das mãos dos malvados.
Outros, defendem o seu 'bom nome',
os desvarios já foram castigados.
A Cruz dá os longos braços.

Mas as crianças inocentes não lhes chegam.
Os pequenos bracinhos temem
as investidas dos malvados.
E a serena Cruz escuta, abismada.
“As crianças inocentes não valem
mais do que os malvados, estes
devem ter novas oportunidades”.

As palavras confundem a Cruz que oscila fundo.
Estremece. As tábuas vergam.
Vive-se uma densa escuridão.
O silêncio parece eterno.
O abandono é visível.
Os braços da Cruz em pedaços, caem por terra.
Desmorona-se. Como pode oferecer os seus
braços às crianças inocentes?

E desfalecida, a Cruz ainda consegue escutar.
“Que importa defender as crianças inocentes?
Para que servem? O corpo desfigurado.
Mutilado. Se ainda não são pessoas crescidas,
que importa vê-las perigar?”
Então, as crianças inocentes veem
um braço da Cruz a elevar-se.
E ouvem estas palavras:
“Importa, sim. São puras. Basta”.

15 de Março de 2015
                                    Teresa Ferrer Passos


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O QUE ESTÁ PARA VIR


«"Redivivo. E foi por essa mínima palavra que apareceu não/ se sabe o quê que arrancou/ à folha e à esferográfica canhota a poderosa superfície/ de Deus, e assim é/ que te encontraste redivivo, tu que tinhas morrido um momento antes,/ apenas"» (Herberto Helder, Ou o Poema Contínuo, 2001,p.126)

«Redivivo. Foi por essa mínima palavra que fui reler o penúltimo versículo do Antigo Testamento e aprender, em comentários da apocalíptica judaica, que redivivo é «o que está para vir», o que há de apascentar, da opacidade à luz, os corações.

E que, depois, cheguei a um dos primeiros textos cristãos, o Evangelho de Lucas, sobre o qual passo os dias a trabalhar, para descobrir também aí, nesse texto que está, afinal, tão perto de mim, a palavra redivivo.

Para minha surpresa era a interrogação que João Batista mandou, por emissários, colocar a Jesus de Nazareth: "És tu o redivivo?". Não sei de pergunta mais bela que um homem tenha feito a outro homem.»

                  José Tolentino de Mendonça (in Internet, Pastoral da Cultura, publicado em 24/3/2015)

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S. BENTO À PROCURA DE CUMPRIR JESUS CRISTO


S. Bento da Porta Aberta, Santo Tirso

O Santuário de S. Bento da Porta Aberta foi elevado a Basílica Menor, hoje, dia 21 de Março, pelo Papa Francisco, data em que se comemora o dia da morte de S. Bento. Proclamado Padroeiro da Europa, em 1964, por Paulo VI, foi o autor da célebre expressão «Ora et labora» («Reza e trabalha»)
De facto, para S. Bento (480-547), «o trabalho não é um puro exercício ascético, a não ser que conserve o seu próprio valor como meio de produção utilitário. Com o trabalho não se pretende a mortificação do corpo, mas fazer do mosteiro uma unidade económica capaz de satisfazer a maior parte das necessidades da vida. Por isso, é o trabalho manual bem organizado, atendendo às pessoas, aos lugares e às necessidades e ocupa a maior parte das horas do dia monástico. (...) O mosteiro beneditino não pretende mais do que ser a realização da comunidade cristã ideal». («Introduccion General», in San Benito Su Vida y su Regla, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 1968, pp.110 e 140) 
“Quem passar por aqui deve levar este encargo de mostrar que o "ora et labora" tem alguma coisa a dizer ao dia-a-dia das pessoas”, afirmou D. Jorge Ortiga, bispo da diocese de Braga, referindo-se ao lema de S. Bento e à sua pleno atualidade.
Deste modo, neste tempo de Páscoa de 2015, se recorda, em Portugal, a capacidade inovadora de Bento de Núrcia, ao elevar-se um dos santuários que, na Europa, lhe é consagrado, à dignidade de Basílica.
Que a obra de S. Bento, a expandir-se, desde o século VI, com a fundação de numerosos mosteiros por toda a Europa (desde a primeira fundação no Monte Cassino em Itália), seja o dinamizador de uma nova civilização mundial, assente na fraternidade cristã e na paz (lema da Ordem Beneditina).
Que a nova civilização que urge erguer, possua, como possuiu no pensamento de S. Bento, uma dinâmica condutora ao respeito pelos valores espirituais que Cristo transmitiu, sem perder de vista a importância que a produção económica contem para todos os homens. 
T.F.P.
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A ETERNIDADE ESTÁ FORA DO MUNDO TEMPORAL



«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por Minha causa, salvá-la-á. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, perdendo-se ou condenando-se a si mesmo?»
                                                           Lc 9, 23-25



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VIA SACRA




Que saco!
Resmunga o cidadão,
Agendando a correção
De um erro que não foi seu.

Oh! Meu!
Murmura o consumidor,
De volta ao vendedor
De um aparelho que pifou.

Qualé, m’ermão!
Diz um jovem a outro gajo,
Na recusa do bagulho,
Hoje, em dia, em cada esquina.

Santo Deus! Mas que rotina,
Mais uma Semana Santa,
Cada vez com menos dias,
À vida santificada.

Eis-me, aqui, Senhor,
À Vossa disposição,
Este humilde servidor,
Ainda na flor da idade.


                       Luiz Martins da Silva (Brasília, Brasil)


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BOA PÁSCOA
aos leitores do nosso Blogue!

domingo, 15 de março de 2015

A pedofilia: um problema grave





«Destruir uma criatura é horrível, é horrível»

«A nova comissão criada para estas situações tem como objetivo a proteção do menor, a prevenção, e não o tratamento de cada caso»
«O problema do abuso de menores é um problema grave»
«O padre tem a obrigação de fazer crescer este menino, esta menina, na santidade, no encontro com Jesus. E o que faz é destruir o encontro com Jesus»
«Os abusadores são “antropófagos” que destruíram os menores.»
                                                         Papa Francisco (excertos de uma entrevista no dia do 2º aniversário da sua eleição, a 13 de Março de 2015)

quinta-feira, 12 de março de 2015

Perguntas & Respostas

ACERCA DA MILENAR PERSISTÊNCIA DE UM RATIO DESFAVORÁVEL ENTRE A VARIÁVEL “NÚMERO DE PERGUNTAS RESPONDIDAS” E A VARIÁVEL “NÚMERO DE PERGUNTAS FORMULADAS”





Why do we never get an answer?
The Moody Blues

Pára…
Não te contraias mais…
Não queiras nada…

…Deixa-te estar em frente das perguntas,
No meio das perguntas.
Faz-te pergunta.
Tu mesmo és a pergunta.
Tu mesmo serias a resposta
Se acaso houvesse alguma forma de resposta
Que fosse mais do que a pergunta a que responde.

Não escrevas nada;
Não tentes deter as perguntas a meio do seu voo;
Deixa que esse ébrio bando de brandas borboletas
Repouse apenas quando a tua mente
Lhes oferecer poiso seguro:

A vastidão de uma planície
Sem tocas nem recantos
Nem inesperados ninhos de lacraus
Debaixo de pedras inocentes.

12/3/2015

Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 9 de março de 2015

A humildade de Deus

Papa Francisco na Capela de Santa Marta
(ao lado a imagem da Virgem e do Menino)

«O estilo do bom Deus não é dar show: Deus atua na humildade, no silêncio, nas coisas pequenas. (...) é possível observar isso em toda a história da salvação, a partir da Criação, em que o Senhor não pegou “a varinha mágica”, mas criou o homem com o barro.

Quando Ele quis libertar o seu povo, libertou-o pela fé e a confiança de um homem, Moisés. Quando Ele quis fazer cair a poderosa cidade de Jericó, o fez através de uma prostituta. Também para a conversão dos samaritanos, pediu o trabalho de outra pecadora. 

Quando Ele enviou David para lutar contra Golias, parecia loucura: o pequeno David diante do gigante, que tinha uma espada, tinha muitas coisas, e David apenas uma funda e pedras. Quando disse aos magos, que tinha nascido o Rei, o Grande Rei, o que eles encontram? Uma criança, uma manjedoura. As coisas simples, a humildade de Deus, este é o estilo divino, jamais um show.» 

                             Papa Francisco (Missa de 9 de Março de 2015 na Capela de Santa Marta)

quinta-feira, 5 de março de 2015

Padre António Vieira para o Papa Francisco



Uma delegação da Universidade de Lisboa ofereceu ontem a Obra Completa do Padre Jesuíta António Vieira aproveitando a ocasião do aniversário, no próximo dia 13 de Março, da eleição de Mario Bergoglio para Papa com o nome de Francisco. 
«Quatro séculos antes, Vieira criticou a inveja e a corrupção, como grandes males do mundo. No sermão de Santo Santo António aos Peixes - cujo título os portugueses tão bem conhecem - Vieira denunciou a corrupção, "os protocolos feudais que aprisionavam as nossas instituições, contrapondo que a verdadeira fidalguia está na ação; criticava a desvalorização que é feita em Portugal dos seus talentos e dos seus valores, sendo mais fácil quem nasce nesta terra encontrar reconhecimento e valorização no estrangeiro; acusava a mesquinhez e a maledicência sistemática que dificulta e desestimula quem empreende e faz o que deve ser feito". Este sermão foi pregado no Brasil, em São Luís do Maranhão em 1654.»





Projecto

Do espaço fechado
Nas circunvalações dos medos e desejos
Até à superfície horizontal imensa,
Semeada de cor e primaveras,
Vibrante de luz e de presença.
Porque esperas?

1/3/2015

Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 4 de março de 2015

Trilogia de Helgoland

Ilha de Helgoland (Alemanha)

O sms SECRETO DE BOHR A HEISENBERG
QUANDO ESTE SE ENCONTRAVA EM HELGOLAND

As raízes da razão mergulham na loucura
Como tentáculos descendo um precipício:
A primeira esteve no início
E a segunda estará no fim desta procura.

Não esperes clarões nem fogo-de-artifício:
A gruta da serpente é infinitamente escura
E deverás proceder ao sacrifício
Do resto de luz que em ti perdura.

9/1/2015
 
ÀS PORTAS DO MISTÉRIO

Estou na superfície do sol e chove intensamente.

Termina aqui o mapa que encontrei
Quando passeava no sótão de um chalé
Onde memórias de laços e de rendas
Jogavam uma partida de canasta
Entre teias de aranha e maços de jornais
Com numerações mais baixas do que o zero.

A mensagem cifrada fala em caves
Onde se guardam bibliotecas
De livros interditos a adultos.

Presumo então que devo mergulhar
E procurar debaixo das lagoas
Onde borbulha o ouro liquefeito
A sombria raiz do arco-íris.

12/1/2015
 
À TRANSPARÊNCIA

A madrugada despe-se dos medos.
Vejo-a pela praia entreaberta,
Quase ao alcance dos meus dedos,
Já só coberta
Por translúcidos sussurros e segredos.

A brisa está alerta
E a água que corre entre os rochedos
Aguarda a hora ‒ imprevisível e contudo certa ‒
Em que os meus sonhos serão como brinquedos
Nas mãos da luz então por fim desperta.

14/1/2015

Fernando Henrique de Passos

terça-feira, 3 de março de 2015

Sonata à lua

A lua é a razão desta presença
Na estepe que alguém me estipulou
Sem me avisar dos perigos da jornada
Nem me informar do que antes se passou

É a lua que inventa os passatempos
Com que o tempo nos enche de preguiça
E de ferrugem nos gestos e na força
Que a terra húmida cobiça

A lua é a razão da tempestade
E das areias perdidas nos desertos
Onde se passam anos de procura
E onde os passos se tornam tão incertos

Porque a lua se junta ao que é real
E seduz as vontades e convence-as
A trocarem as almas cristalinas
Pela ilusão de falsas transparências

5/1/2015

Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 2 de março de 2015

O Centro do Mundo

O Centro do Mundo é azul
Como azul é o mar
Como azul é o céu
Como azuis são as safiras
E como verdes são as esmeraldas
E a luz da esperança nos teus olhos
Sempre que os dois nos encontramos
A sós no Centro do Mundo

24/2/2015

Fernando Henrique de Passos

domingo, 1 de março de 2015

Recomeçar 17 anos depois...



RECOMEÇO

Encontrei a minha cabeça
E a de São João Baptista
E agora que a vida recomeça
Vou avisar todos os da lista.

(Sempre estivera em cima dos meus ombros
Mas foi preciso o prédio desabar
Para que, no meio dos escombros,
Surgisse um espelho capaz de a revelar.)

Estamos sempre às portas do Segredo,
Muitos pensamos estar numa masmorra ‒
Das ilusões criadas pelo Medo
Não há quem nos socorra?

A resposta está nos labirintos
Que o tempo vai gravando em cada vida ‒
‒ Sinais mágicos, nítidos, retintos
De uma mensagem à espera de ser lida.

… E São João perdoa a Salomé
Os filtros que ela o fez beber
E mergulha sem medo na maré
Do que há-de acontecer.

1/3/2015

                     Fernando Henrique de Passos
(Resposta ao poema "A lista negra" transcrito a seguir)


 A LISTA NEGRA

Devolvam-me a minha cabeça!
Gritou São João Baptista,
E eu com ele,
E comigo todos os outros da lista.

Os condenados não podem gritar!
Gritou Salomé,
E com ela Herodes, que estava sentado,
E com ele o povo, que estava de pé.

Do fundo de um escritório escuro e poeirento,
Bogart empunhou o revolver e disparou.
A Lua suspendeu o seu movimento
E Kennedy tombou.

A enfermeira assinou o papel,
E sussurrou, suave como mel:
Antes que me esqueça -
Por favor, devolva-me a minha cabeça.

6/7/1998
                 Fernando Henrique de Passos

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Dois poemas de Fernando Echevarría



Fernando Echevarría (1929-...) acaba de receber o Prémio Literário de Correntes d'Escrita, realizadas no Casino de Póvoa de Varzim. O júri seleccionou o seu livro Categorias e outras Paisagens (512 páginas), editado por Edições Afrontamento, em 2013.


O Poeta Fernando Echevarría nasceu em Santander (Espanha), mas é filho de pai português e mãe espanhola. O seu amor a Portugal reflectiu-se na preferência que sempre deu à língua portuguesa na sua obra publicada. Tendo desenvolvido uma poética de largo fôlego reflexivo, Fernando Echevarría deve o timbre erudito dos seus poemas, em parte à sua formação académica em Filosofia e Teologia.

Por uma coincidência feliz, Echeverría completa hoje 86 anos. Lembremos, num tom de homenagem, palavras proferidas após ser-lhe atribuído o galardão:
«A poesia é um género que exige muita atenção, que exige muita leitura e por isso é que se lê tão pouco. Custa, mas tudo o que custa dá prazer».


Dois Poemas de Fernando Echeverría:


«A solidão é sempre fundamento 
da liberdade. Mas também do espaço 
por onde se desenvolve o alargar do tempo 
à volta da atenção estrita do acto. 
Húmus, e alma, é a solidão. E vento, 
quando da imóvel solenidade clama 
o mudo susto do grito, ainda suspenso 
do nome que vai ser sua prisão pensada. 
A menos que esse nome seja estremecimento 
— fruto de solidão compenetrada 
que, por dentro da sombra, nomeia o movimento 
de cada corpo entrando por sua luz sagrada.»

                             In Sobre os Mortos, 1991.

                                                ***

Da nossa própria noite se levanta 
aquela imóvel espécie de negrura 
onde tudo é possível – as galáxias, 
ou pulsar nulo de galáxia alguma. 
E até a expansão, a criar alta 
invisibilidade. Mas que suga, 
quanto o assunto for mais denso, a graça 
de um maior brio de altura. 
E a outra noite pela nossa canta, 
não luzes de prestígio, a só penúria 
que, quase instrumental, se exerce. Instaura 
um dentro fora de dimensão alguma. 
E é de aí que a noite se levanta 
e o mundo da insistência continua. 

                         in Geórgicas, 1998

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Meditações Cristãs


Editor e Poeta José Manuel Capêlo (1946-2010)
Pintura de Emília Matos e Silva 

«Ai de mim», diria o Apóstolo, «se eu não evangelizar». Nesta altura em que Portugal faz, de novo, uma descida aos infernos, Cristo, mais que nunca, é medicamento e alimento - e, em crítica acribia, Ele é o maior Poeta de todos os tempos. E por isso, num escorço breve e leve, esquadrinhemos: falante e aflante, o que é a Eucaristia???

Ela é, sobremodo, a caroal fracção do pão. Ou melhor: sempre que alguém reparte o pão, a título graciano, ele é da minha Via, ele faz, «ipso facto», Eucaristia - e a mesa no altar, esse Ágape cordial, é isso que nós vemos na palavra «companheiro»; e «companhia», portanto, é da Paz e «cum panis». Que o seminário, aqui o vemos, é o alfobre das sementes.

E semear é palavrar, lavrar em Pã, a fim de que a sementeira em Cristo floresça. E se a Palavra é pois o Verbo, e o «Logos» em acção, sejamos nós os novos Companheiros de Emaús. Sejamos, dessarte, o «Homo Viator» - que a viagem pois a Fátima, a Roma ou Compostela, ela começa, simplesmente, com um passo pequenino. Na sociedade dos Amigos, ou amáveis, a comunidade não será, propriamente, comunista; ela é, sim, pacifista, pessoal e comunitarista. 

Retomemos a colação, e a lição, de Kant Emanuel: «Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio.» Ou melhor: se a Filosofia Portuguesa é ligada, ou aliada, da franca Teologia, procuremos pois a Arte, como busca da Beleza, a Religião, como práxis de Bondade, e finalmente e alfim a Filosofia, como apaixonada e cultual indagação da Verdade. 

Na atitude poética, e nanja tecnocrata, comunicar deriva de um impulso eucarístico de comungar, congregar ou pôr em comum: e por isso, meus Amigos, o comunitarismo. Nós queremos dizer, e dessarte aduzir: o dinheiro, em si, não é um mal - e, se a plutocracia provém de Plutão, o dinheiro, deveras, é força esterquilínia: concentrado, ele fede e cheira, mas, disseminado, ele faz crescer as frutas, a planta e a vegetação - e estamos de novo a falar da partilha do pão. 

A Rosa, por exemplo: de que se nutre, ela, a Flor, senão do estercorário??? Um reparo, porém, aos usurários, aos videntes de profissão: como se lobriga em «Actos dos Apóstolos», 8, 20, o Espírito Santo não se compra com dinheiro. 

Um pouco mais longe e eu promulgaria: a espiritual Medicina, ela é prática gratuita, o Amigo do ABC, ele se porta, e comporta, qual Amigo do «abaissé» - e essa a escola, e o escopo, de nossos progredimentos. E esse o escol, a escolástica, o sinal, o Império, mavioso, da Paz universal................... 


Queluz, 20/ 02 / 2015

                                            Paulo Jorge Brito e Abreu    

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sentimento vivo



Nas palavras de cada um dos teus poemas,
há um sentido nosso e que ninguém entende.
É o sentido do sentimento vivo que nasceu
em dois corações que se não distinguem,
senão por um bater à parte mas indistinto.
Ninguém vê, na verdade, o que nós mesmos somos.
E iludem-se, julgando ver claramente,
o que nunca poderão ver.
Só colhem dos nossos versos 
o avesso da nossa verdade.

19 de Fevereiro de 2015

                                Teresa Ferrer Passos

A ciência do amor





Teresa e Fernando, em 2005, junto a uma casa em ruínas,
em S. Brás de Alportel 
Anda comigo ‒
Vamos de mãos dadas.
Deixaremos o tédio das estradas
E só desejaremos para abrigo
A inocente luz das madrugadas.

Pisaremos a terra e não asfalto,
E a meninice eterna desses dias,
Além de gerar prosas e poesias,
Fará de nós dois sábios ao assalto
Do castelo das velhas teorias.

O mundo será vasto como um sonho
Mas caberá contudo num só verso:
Um verso firme, oposto ao seu reverso,
Um verso que será ‒ assim proponho ‒
A chave da expansão do universo.


19/2/2015 (no 21º aniversário do nosso casamento)

                Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Do poema "Exorcismo"

Mesa de trabalho de Fernando Henrique de Passos

(...) E transformo numa prece esta poesia,
Pedindo aos Céus a paz e a harmonia
De me contentar com o pouco que aprendo em cada dia.
E que me dêem os Céus serenidade
Para nunca abandonar a busca da Verdade.

"Exorcismo" (3/2/2001) de Fernando Henrique de Passos

in Retábulo, 1ª edição, Universitária Editora, 2002, p. 41.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A escrita transparente de Jón Kalman Stefánsson


Romancista Jón Kalman Stéfánsson (Islândia)

«Assim subiu e desceu a história pelo mundo fora, os anos juntam-se em séculos e, durante todo o tempo, as mulheres aqui no fim do mundo acordaram diante de Deus e dos homens para se ajoelharem à lareira e soprarem para os pedaços de feno a que tinham confiado o fogo na noite anterior. Pode demorar até uma hora a despertar o fogo de manhã; sopram até começarem a suar, sopram mas não desistem; o que é a vida sem fogo e rodeada de gelo? Sopram e cansam-se; os seus olhos brilham quando o fumo finalmente surge, ou ficam molhados quando este lhes cai sobre os rostos ao mesmo tempo.» 
              Jón Kalman Stefánsson, A Tristeza dos Anjos (excerto do romance), Cavalo de Ferro Editores, 2014.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Um olhar de Jorge, o filho louco

Ana Augusta Plácido (1831-1895)

«Olho os lírios brancos (há pouco eram vermelhos) e tropeço com o pensamento no vestido negro ou púrpura de Ana. Entre os seus dedos o charuto de formato cilíndrico e aroma inebrian­te de que não se cansa de tirar fumaças no ar pesado e lento desta terra a esvair-se em cinzas. Esse fumo vibra no meu e­spírito, como se fosse uma condenação maior do que a vida, em que me desdobro sem conseguir esvoaçar um pouco, nem sequer abrir o coração en­sanguentado de gritos.

   espero a libertação. Entre os grilhões de uma biblioteca infinita. Sinto a via para a liberdade pura. Doi-me o pensamento de ver Ana a ficar, de súbito, atónita, lânguida, perversa. Parece-me, cada dia que passa, uma desconhecida, uma figura vagabunda a agredir a solidão dos meus dias sem amanhecer e das minhas noites infindáveis»

Teresa Ferrer Passos, O Segredo de Ana Plácido, Ed. Gazeta de Poesia, 1ª edição, 1995; Ed. Nova Vega, 2ª edição, 2000 (assinou com o ortónimo Teresa Bernardino).