domingo, 26 de março de 2023

Passagem do livro «Um Cientista e uma Folha de Papel em Branco» de Teresa Ferrer Passos (2ª edição, Hora de Ler, Leiria, 2023, pág. 112):

«Os olhos cerrados de Taoj trazem a Protágoras a impressão do fim do Homem, exatamente esse Homem, medida maior e inexcedível de tudo o que existe. A medida é o humano. Nada o excede, nem os limites da selvajaria nem os da virtude. Nada se lhe assemelha, na crueldade nem na paixão. Tudo se lhe submete pela audácia e pela esperança ou pela cobardia e pela vergonha. Toda a matéria ganhou no humano a força da própria divindade, uma divindade que fala só por ações e por sons da natureza. O humano revelou-se o criador de linguagens novas a que a matéria se submete, na aceitação do diferente mesmo que a deforme. É aqui, nestas ideias que continua a viver Protágoras.»

Breves passagens do artigo publicado em Pastoral da Cultura (21/3/2023) de Domenico Marrone in «Settimana News » intitulado "Sínodo: A Igreja nasceu e renascerá dos debates. É preciso libertar a palavra e encorajar o pensamento":

«Os “estaleiros” sinodais contribuem para gerar uma cada vez mais espalhada prática da escuta.
Porém, pergunto-me: ao enfatizar a escuta (escutar, e escutar e escutar), não será possível que estejamos a ocultar também a nós próprios o défice de debate, de opinião pública na Igreja? Com efeito, regista-se a ausência de um verdadeiro debate intraeclesial. Uma ausência que, por sua vez, deriva da falta de uma autêntica opinião pública dos crentes católicos».
...
«É verdade que, para que isto aconteça, é preciso que o outro se exponha. Tome posição. Afirme-se a si próprio. Exprima opiniões, ideias, análises. Não se limite a anuir, confirmar, calar. Antes explique, argumente, discuta.»
...
«O problema é que, demasiadas vezes, o outro não existe. Se goza de poder formal, comanda. Mostra a posição, a divisa, o papel. Transmite, não comunica. Faz retórica. Passa “slogans”. Impõe-se: não fala, antes faz falar o título, o estatuto.»
...
«Todos os estímulos que poderiam vir, em particular, dos fiéis leigos são sufocados na origem e, quando alguém se comporta como cristão adulto e ousa pensar com a sua cabeça, eis que se desencadeia a reprimenda da parte de outros leigos que se erguem como juízes e defensores oficiais da tradição e da autoridade, quando em muitos casos são apenas defensores do hábito e do poder.»

sábado, 18 de março de 2023

Duas Memórias de CAMILO

A propósito do nascimento de Camilo Castelo Branco em Lisboa, a 16/Março/1825) 

1.

«(...) – Longe, longe de Lisboa, a cidade da minha infância, a cidade da casa onde nasci, mas de que mal me lembro. Recordo apenas o local onde ficava: a Rua da Rosa. De resto nunca me considerei verdadeiramente de Lisboa, ao contrário do meu amigo Eça de Queirós que, tendo nascido na Póvoa, só queria ser lisboeta, ou de preferência, creio (se lhe fosse dado escolher) parisiense. Eu nunca teria (nem tive) tal apetite, devo dizê-lo. Sou muito mais do Porto, apesar de nunca me terem aceite muito bem (...)»

Maria do Carmo Sequeira (excerto de post no Facebook, 16/3/2019)

2.
«Apesar das adversidades dos tempos e dos lugares, não é difícil Camilo ter-se visto como um homem mais do Porto (ou de Seide) do que de Lisboa. Esta é uma cidade que sempre sofreu de descaracterizações (tão almejada pelos que nela não tinham nascido, como Queirós...) e desprezou com frequência aqueles que nela nasceram, como se fossem estranhos. A sua falta de fronteiras humanas torna-a, ainda hoje (ou mais do que nunca, hoje) uma cidade para conquistar por estranhos ou para ser motivo de fuga dos seus naturais. O Porto é bem diferente: é mais coeso, mais íntimo, mais íntegro, para quem aí nasceu ou não. E como o escritor Camilo a isso foi sensível.»

Teresa Ferrer Passos (Facebook, 17/ 3/ 2019)

terça-feira, 7 de março de 2023

ABUSOS SEXUAIS SOBRE MENORES

D. Nuno Almeida
Bispo Auxiliar da Diocese de Braga

Afirmações do bispo auxiliar da diocese de Braga, D. Nuno Almeida, em texto de 6/3/2023:

«Não é possível manter a impunidade nem o silêncio», escreve.
«Entre as providências a tomar, perante as denúncias, estão “medidas de tipo administrativo contra a pessoa denunciada, que poderão levar a limitações no ministério”.
O texto sublinha que as “medidas cautelares” propostas pela Santa Sé admitem que a Igreja “poderá ou deverá ter de retirar o agressor identificado da atividade pastoral”, dado que as “medidas cautelares” preveem a possibilidade de afastamento ou proibição de exercício do ministério, enquanto decorre a “investigação prévia”, ou após a sua conclusão.»

Fonte: Ecclesia

***

A PROPÓSITO DO CRIME DE ABUSO DE MENORES

À ATENÇÃO DE PADRES DA IGREJA CATÓLICA

DISSE JESUS:

«Se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar.

Ai do mundo, por causa dos escândalos! São inevitáveis, decerto, os escândalos; mas ai do homem por quem vem o escândalo!»
São Mateus, 18, 6-7

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

BREVE PASSAGEM de «UM CIENTISTA E UMA FOLHA DE PAPEL EM BRANCO», 2ª EDIÇÃO



Acaba de ser publicada a 2ª edição de «Um Cientista e uma Folha de papel em Branco», Hora de Ler, Leiria, 2023. Eis um pequeno excerto (pp. 74-75):

« - Também não quero morrer quando a morte chamar por mim. Não quero morrer precisamente nesse instante; vou inventar castelos de palavras com paredes de róseo mármore e altas torres de granito feitas de raras sintaxes e montanhas de sentidos e de ideias em direções infinitas. Vou tornar a minha vida um pouco semelhante ao mar. Construir mesmo os sonhos nunca pensados antes; torná-los tão visíveis como a minha visibilidade de corpo. Tudo poderá ser apenas uma gruta ou um tugúrio, mas as palavras os tornarão grandes. Serão florestas intermináveis ao longo de planaltos abandonados pelos deuses»

Teresa Ferrer Passos

sábado, 25 de fevereiro de 2023

LANÇAMENTO EM HUELVA, ESPANHA, A 9 DE MARÇO

Alcantarilha antiga
do pintor Inácio de Mendonça 

 
Foi apresentado em Huelva, Espanha, a 9 de Março, «EL LIBRO DE POSEÍDON O MI ALMA DE AUSENCIAS» do Poeta Manuel Neto dos Santos:

Aqui, uma passagem do livro publicado pela Editorial Autografia (edição bilíngue), Barcelona, 2022, pág. 43:
«Neste instante, inclinado sobre o caderno, o poeta rodeia- se de sons como se fossem frutos maduros para que a voz se vá escapulindo entre as grades das cordas vocais e do meio da cinza do silêncio se inscreva e emerja a sonoridade do poema. Faça-se, pois, silêncio em minha alma com esse desapego de um cristal embaciado pelo último suspiro e aconteçam tréguas dentro em mim, como fragmentos de horizontes sanguíneos sobre a tela de uma folha em branco»

domingo, 19 de fevereiro de 2023

No 29º aniversário do nosso casamento

PRODÍGIO




um lírio cresceu apagado, obscuro, 
desajeitado e a morte destino triste,
esperava-o desabrigada.
mas uma gota de água tocou-o, 
deu-lhe amparo lentamente,
com paciência infinita.
todo o mundo duvidou do efeito benfazejo
só o lírio sequioso absorvia-a em delírio.
os anos passavam cheios de pasmo cada dia
e a gota de água e o lírio dentro do seu casulo
escreviam com doçura a fervura da vida.
o tempo ao ver tal prodígio
apagou-se da terra
e deixou que para sempre existissem.    

19/2/2023

Teresa Ferrer Passos



OS NOIVOS TRANSPARENTES

Há dois noivos em frente a um altar
Mas podeis ver à transparência
Um futuro à beira de chegar
Feito de amor e paciência.

Há já andaimes que se elevam
Preparando a nova construção.
Da terra ao céu, urgência é o que levam,
Mas a pressa não convém à perfeição.

Esperai e vede, à luz da transparência,
O edifício que se ergue devagar.
Não vos falei em paciência?
Vereis no fim como foi bom esperar…

19/2/2023

Fernando Henrique de Passos

MEMÓRIA de JACOB e RAQUEL


Do romance inédito, em elaboração, São Joaquim, uma alma à procura de Deus:

 «Com a criatividade à sua beira, esculpia-se a energia da paixão, tão semelhante e tão diferente de um para o outro. Abismados de espanto, olhavam o céu coberto de aves esvoaçantes e clamavam, a cada instante, pelo amparo do Altíssimo, que os habitava, sem disso se aperceberem de verdade. Mais próximos um do outro do que de todas as outras criaturas, pela sua natureza, pelos seus atributos, pela espontaneidade das suas vontades, pelas suas pessoas diversas e a imaginar os caminhos da comunhão, como se nada lhes fosse estranho e, na verdade, tudo lhes fosse irremediavelmente estranho; o amor vagabundo que os nutria e que se refletia tantas vezes no vago olhar, criava à sua volta um mágico jardim, jardim feito de perfumes de mil flores que desconheciam o que era mais do que um sonho em vigília.»

Teresa Ferrer Passos


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

DEVASTAÇÃO DAS ALMAS

 MEMÓRIA BREVE DE UM TERRAMOTO

Da Síria para a Turquia, numa noite interminável, entre o sono longuíssimo e o sonho impossível, a realidade e o irreal, entre o sorriso de uma criança e a lágrima fugitiva de uma mãe, de um pai, à espera ainda. Com a sombra fria do terror, o mundo torna-se mais estranho. Perplexos, sem palavras, acabrunhados, a pensar neles estamos. Eis a única presença que nos é permitida oferecer-lhes na hora do colapso da vida, qual desdita, qual dor tamanha, qual solidão imensa!

T.F.P.

sábado, 14 de janeiro de 2023

NO DIA DOS TEUS ANOS


 
PRENDA  IMPROVÁVEL

 
a treva dos minutos brada entre instantes.
foi ao levantar.
a dúvida dos lugares perpassa
e os movimentos descontrolados paralisam-me,
descem e sobem as paredes deslocadas,
descrevem círculos que me afastam da vontade,
como se não me quisessem obedecer
e as cadeias da consciência me rejeitassem.
os passos inseguros desalentam-me
mas a luz surge enfim da madrugada
arrasada de súplica
e a cura improvável nasce com o andar
sem estontear.
Ontem não pude comprar a prenda dos teus anos.
ah, mas que entrevejo?
Esta é a prenda que tenho, hoje,
no dia dos teus anos.
 
14 de Janeiro de 2023
                                              Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Santo Agostinho, o teólogo pregador

 «Na verdade, viestes poucos, mas se escutastes bem, já sois um grande número.»

Santo Agostinho (de um sermão)



domingo, 1 de janeiro de 2023

A MORTE do PAPA BENTO XVI (1927-2022)


JOSEPH RATZINGER, o Papa Emérito, faleceu aos 95 anos no mosteiro Carmelita do Vaticano. Um Papa de grande saber teológico e filosófico que teve a coragem de abdicar das honras de Chefe da Igreja Católica, quando sentiu que o que se passava na sua Igreja - o escândalo dos padres pedófilos e o escândalo de ordem financeira - rompia com a doutrina ensinada por Jesus Cristo.

Em sua memória, aqui transcrevo uma passagem de uma das suas excelentes obras de teologia:

«Se se diz do homem que ele é imagem de Deus, isto significa que ele é o ser construído como relação; que ele através e dentro de todas as suas relações, procura a relação que é a base do seu existir. Então a aliança é a resposta ao homem como imagem e semelhança de Deus; nela esclarece-se quem e o que somos e quem é Deus; para Ele, que é totalmente relação, a aliança não é algo que se coloca fora da história, longe da sua essência, mas é dar a conhecer o que Ele é, ou seja, "o esplendor do seu rosto"»
Bento XVI - Joseph Ratzinger, Paulo O Apóstolo dos Gentios, Paulus Editora, 1ª edição, 2008, pág. 77.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Aniversário Natalício de minha querida mãe, ontem, Dia de Natal

 

Num DIA de NATAL nasceu minha muito querida mãe, no ano de 1909. Foi ONTEM que recordei a minha «Carta-Memória à Mãe», ao relê-la, como sempre com um sentimento de consternação ou de contrição e, ao mesmo tempo, com a alegria de a ver ali, ainda cheia de uma memória encantatória, aquela que eu deixei escrita nos últimos dias da sua vida e naqueles que se seguiram à sua morte (carta começada em 1 de Julho e terminada a 3 de Novembro de 1990):
«Só. Como coração gemendo a angústia do impossível desta ponte tombada em ruínas, sem fé, sem espera, sem uma estrela na escuridão maior. E tudo se perdeu e se fez nada... Amanhã. Até amanhã...» (Teresa Bernardino, Carta-Memória à Mãe, Lisboa, 2000, p. 50).

Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

NATAL / 2022


Presépio da nossa casa

"Então o lobo habitará com o cordeiro e o leopardo deitar-se-á com o cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá".
                                                                     Is. 11, 6





"O Senhor diz:

«Olhai: coloco em Sião uma pedra-testemunho,
 uma pedra angular, preciosa, de base:
Aquele que confiar nela não tropeçará»"
                                                            Is. 28, 16



"Para seguirmos o exemplo de Maria, para deixar Deus entrar
 e agir na nossa vida, temos de Lhe abrir a porta. Maria pôs-se 
ao dispor de Deus. Isto é que é acreditar! A fé implica-nos."

        Twitter, 2021
                                   Cardeal Manuel Clemente



                                                   

A VIDA SILÊNCIO AZUL


a água escorre do céu aos tropeções,
desliza célere sobre o deserto das almas
e as casas perdem-se de si na procura das mesas
onde havia o pão e o leite e a fruta.
exaustas, já gastas e enlameadas,
sentem-se perto do dilúvio.
a água intrépida, incontinente,
alaga os corações suspensos
como se fosse um trovão a descer com raios fulminantes,
os raios do mal. E tudo à volta é abatido.
a água vem do alto sem um suspiro de dor,
tudo retira dos lugares que pareciam inamovíveis.
resta apenas uma pequena faúlha: o sóbrio bem.
sustenta-o a audácia grácil e uma língua de azul
emerge das negras nuvens apagando-as.
a vida resiste. Resiste mais uma vez,
como um silêncio imaculado e sem fim.

13/12/2022

                                          Teresa Ferrer Passos





AS ORIGENS DO NATAL

“Que cansaço estar sempre aqui em cima –
Os seres humanos parecem-me formigas,
As formigas parecem-me micróbios,
E não tenho amigos nem amigas.
 
Gostava de poder brincar –
Às escondidas, por exemplo.
Ninguém me ia encontrar
Se me escondesse no meu Templo!
 
Gostava de não ser omnipotente –
Ter de pedir que me levassem pela mão
A ver o sol poente
No final de uma tarde de Verão.
 
Gostava sobretudo de ter mãe –
Que me passasse a mão pelos cabelos com meiguice,
Mas que me ralhasse também
Se eu fizesse uma tolice.
 
Gostava de não ser omnisciente –
Não conhecer o meu destino
E só saber que tinha de ir em frente.”
 
… E assim Deus se fez menino.


In Fernando Henrique de Passos, Breve Viagem nas Margens do Mistério, Hora de Ler, Leiria, 2018, pág. 12. 





Um dos presépios da Exposição da ALDEPA, em Alcantarilha

O MAGO DA ETIÓPIA

«Este é o Filho do homem, ao qual a justiça pertence, o qual revelou todos os tesouros do que é escondido»(1)


o olhar do mago das terras da Etiópia
fixava-se no céu, havia muito tempo. Procurava
onde morava a justiça, a verdade tão ausente
e onde se escondiam os mistérios da vida.
o mago de rosto queimado queria tudo desvendar.
olhava as estrelas que brilhavam e não lhe respondiam.
pedia-lhes que revelassem um só segredo que fosse,
a elas, sábias, que tudo conheciam.
Numa noite mais escura do que era costume
viu uma estrela de pouco brilho.
que estranha, tão apagada! e movia-se
─ coisa mais estranha ainda ─
para um deserto vasto, o deserto do Sinai.
Com as pálpebras avermelhadas de cansaço,
o mago daquelas terras áridas e secas
aventurou-se a segui-la. Que largo caminho à sua frente…
E de novo um deserto, o de Neguev e outro ainda, o de Judá!
Aqui chegado, a estrela quase a apagar-se,
mostrou-lhe um pequeno lugar: Belém.
Aí, viu um estábulo que deixava transparecer
um Menino, todo feito de luz.
e essa luz que emanava tudo lhe revelou.

Natal/2022
Teresa Ferrer Passos


(1) Livro de Hanokh (versão etíope, copta), 300-200 a.C.(?), Capítulo 46, 2.




Menino Jesus de um dos presépios da Exposição
da ALDEPA, em Alcantarilha


UMA JANELA SOBRE O VENTO Num impulso violento, Mas simultaneamente terno, Abriu-se uma janela sobre o vento, Talvez no Solstício de Inverno, E os ouvidos de Deus escutaram o lamento Do frágil ser que queria ser eterno. Deus, tendo pena do tal ser, Fez-se menino num estábulo em Belém; Vieram bichos para o aquecer, Que o estábulo era frio, e húmido também; O vento uivava como que a dizer Que aquele menino ia ser alguém. O menino cresceu até ser vendaval, E soprou, e soprou, e virou do avesso O ser miserável, débil e mortal. Deu-lhe um novo alento, deu-lhe um recomeço, Deu-lhe a vida eterna, livrou-o do Mal. Mas o ser humano – é mesmo verdade! – Preferiu o Mundo à Eternidade. 24 de Dezembro de 2022 Fernando Henrique de Passos




UM NATAL NA ALEGRIA DE CRISTO!
                                                                 

sábado, 10 de dezembro de 2022

Papa Francisco e D. José Tolentino de Mendonça
na Biblioteca do Vaticano

JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA, perfeito do Dicastério para a Cultura e Educação do Vaticano, em entrevista à RR, após apresentação do seu livro «Metamorfose Necessária» em 9 de Dezembro de 2022, na Fundação C. Gulbenkian:

A EUTANÁSIA... “uma visão errada daquilo que pode ser o contributo das sociedades em relação ao percurso do ser humano que deve ser amparado desde o início até ao fim”.
"Uma grande derrota de civilização que entristece".
"Uma derrota daqueles valores que colocam no centro a pessoa humana”.
“Escolher a eutanásia ou propor a eutanásia como possibilidade de resolução da vida, sem dúvida que é uma redução da esperança”.


Comentário no Facebook (10/12/2022):

Na Europa só 4 pequenos países praticam a eutanásia: Holanda, Bélgica, Luxemburgo e Suiça; na América do Norte só 5 estados dos Estados Unidos e o Canadá; e na América do Sul só a Colômbia. É UMA PERCENTAGEM MÍNIMA em relação aos 200 países do mundo que não a aprovaram. SE A LEI DA EUTANÁSIA FOR APROVADA EM PORTUGAL SERÁ A PROVA DE QUE PORTUGAL SE ACHAVA NUMA SITUAÇÃO DE GRANDE ATRASO EM RELAÇÃO AO RESTO DO MUNDO E ERA URGENTE A SUA APROVAÇÃO?!
                                                                                                              Teresa Ferrer Passos

domingo, 4 de dezembro de 2022

UM POEMA de FERNANDO HENRIQUE DE PASSOS:



RETRATAÇÃO DO SOL PERANTE OS PLANETAS


Perdoai-me as sombras que provoco
Nas vossas faces ocultas e secretas
E que vos fazem orbitar em meu redor
Como fantasmas notívagos de insetos
Presos em redes invisíveis,
Como farrapos flébeis do crepúsculo
Sorvidos por vórtice de pez.
Perdoai-me, deixai-me libertar-vos
E parti pelo espaço à aventura!

In «Ecos Abaixo do Audível«, Hora de Ler, Leiria, 2020, pág. 26.

Comentário:

Entre ciência, filosofia e religião, inscreve-se uma magnífica construção poética em que perpassa a vida de toda a existência dos seres menores, só menores nas dimensões...

                                                                        Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

A RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA


 

A RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL em 1640, no dia primeiro de Dezembro, após 60 anos de dominação espanhola, a data inesquecível do Povo Português. Este Povo que nunca aceitou o colapso da Pátria no fatídico ano de 1580 - o ano da morte de Camões, o Poeta que com excelência cantou nos seus versos a História dos insubmissos Lusíadas, dos arrojados Lusitanos.

1/Dezembro/2022

T.F.P.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Um poema do livro de Teresa Ferrer Passos, MEMÓRIA DE PAZ, Hora de Ler, Leiria, pp. 9-10:


RÉSTIA DE PAZ

As estevas brancas e o joio
cresciam lado a lado.
Entre amores-perfeitos e estrelas-do-egipto
nada se distinguia com nitidez.
De mãos entrelaçadas, esperávamos
as horas silenciosas do crepúsculo.
Inflamados pelas cores azuladas das alcachofras,
esperávamos a hora nova ou do nunca.
Depois, pela janela larga e debruçada da casinha
enquadrada na serra enevoada,
víamos crescer o sol,
de cansaço prostrado aos nossos pés.
Abismados, os nossos olhos sucumbiam naquela visão
procurando ainda uma réstia de paz.
Firme como no primeiro dia,
vimos o sol brincar às escondidas
com os contorcidos troncos
e as folhinhas da velha oliveira.
Como a sorver uma grande paz,
desvendámos aqui o segredo da vida:
verdes rebentos brotavam, com audácia,
da sua escavada carcaça,
inquebrantáveis de força!

domingo, 27 de novembro de 2022

«MEMÓRIA DE PAZ», Hora de Ler, Leiria, 2022, pág. 7:



Árduos são os tempos e os lugares que semeiam os finos arcos da poesia. A poesia a irromper nos dias que vivi na fadiga dos momentos, em que cresci devagar num canteiro de interrogações brutais e quiméricas. A busca da paz introduz-se em cada verso, livre de intenções ou de projetos. Em cada página, as palavras rodam entre luz e sombra, como um carrossel. E tudo coado por nuvens transparentes ou pesadas como uma chuva que não chega ao nosso olhar. Em cada página vibra uma torrente de memórias a soltarem-se, precipitadas e urgentes, em datas inesquecíveis, com os seus sentidos e os seus sentimentos a brotar como um rebento de minúsculo malmequer do campo. E tudo isto enleado nos dramas de uma sociedade lançada num pântano obscuro e, ao mesmo tempo, a penetrar em ideias edificadas sobre falhas que se julgam edénicas, de súbito. A poesia eclode como um sussurro incandescente, uma imagem do divino ausente ou enternecido, um verbo conjugado com a força de caminhos desconhecidos, mas prontos a serem trilhados. A poesia perfila-se como uma paz que tudo sustenta, vagarosa e sólida, que gira em torno de um real que se esconde e se descobre, sem eu ou tu, mas a espraiar-se no grande enigma de sermos nós.

Setembro de 2022

Teresa Ferrer Passos

sábado, 19 de novembro de 2022

UM POEMA do livro «MEMÓRIA DE PAZ», Hora de Ler, Leiria, 2022, pp. 11-12:

Alcantarilha antiga vista do lado nascente

 

MEMÓRIA DE ALCANTARILHA


Ali, ao crepúsculo, vibrava o espaço numa sinfonia
Imensa. Os sons, irreconhecíveis, prolongavam-se
Na minha alma cansada e ansiando paz.

Ali, ao crepúsculo, o piar do cuco tímido e choroso
Fazia-me pensar em todas as solidões do mundo.
Mas, os sinos da igreja desviavam-me o pensamento.

Ali, ao crepúsculo, esquecia-me de mim,
Extasiada pelo colorido azul-róseo do céu
A convocar-me a um cântico novo ao criador.

Ali, ao crepúsculo, esvoaçavam os pássaros
Com trinos rápidos, na excitação pelo fim do dia.
E as árvores inclinavam-se às verdes folhas paradas.

Ali, ao crepúsculo, via passar, de súbito, a cegonha,
Pesada de esperança nas asas ávidas de vida.
E, sem olhar para trás, rumava ao alto ninho.

Ali, ao crepúsculo, descia à terra o silêncio.
Então, frente à beleza do cenário,
Parecia-me que, sem saber, rezava.

Teresa Ferrer Passos