sábado, 29 de abril de 2023

ACERCA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA), DO TIKTOK OU DO INSTAGRAM e das suas consequências na humanidade:




As novas tecnologias disponíveis num simples computador, como nos diz Noam Chomsky, «criam uma atmosfera onde a explicação e a compreensão não têm qualquer valor». E acentua o autor de uma das melhores análises do 11 de Setembro: «Este é o mais radical ataque ao pensamento crítico, à inteligência crítica e particularmente à ciência que eu alguma vez vi».
A estratégia da IA é «impedir as pessoas de falarem umas com as outras. Todos estão sozinhos, a perseguir as suas próprias fantasias, sejam elas quais forem». O seu objetivo maior é dar uma certa verdade que as pessoas julgam faltar-lhes: «Pode dar algo de tranquilizante, confortável, alguma coisa de que o utilizador gosta e encaminhá-lo para este tipo de mundo. Dar essa ilusão». A verdade é esta: são precisas medidas urgentes. Porém, não basta recusar esta recente expansão da realidade virtual na vida das pessoas, porque não há regresso ao passado, mas a criação de «meios de autodefesa pessoal» impõe-se. E o mais eficaz é uma nova «educação» dos indivíduos.

Esta evolução das tecnologias internéticas, estando a prosseguir a uma velocidade assombrosa, precisa de uma ferramenta essencial, segundo Chomsky: o espírito crítico que só o ser humano ainda possui, mas que corre o risco de se perder irremediavelmente e dentro de um tempo demasiado curto. Sem dúvida, estas reflexões são um alerta pertinente para o nosso mundo à beira de uma nova Ordem global.

NOTA: As citações foram retiradas de uma entrevista do Filósofo e Linguista Noam Chomsky ao jornal Público (Suplemento Ipsilon, 28/4/2023).

Teresa Ferrer Passos


domingo, 23 de abril de 2023

PASSAGEM DO ROMANCE INÉDITO "S. Joaquim - Uma Alma à procura de Deus" de Teresa Ferrer Passos no Dia Mundial do Livro


Ruínas do castelo medieval de Alcantarilha


«Pensou que só lhe restava procurar Deus, descobri-lo onde quer que fosse; e tinha de ser antes de falar com Ana sobre a ofensiva rejeição da dádiva. A oração fora o caminho de Job, lembrou-se de súbito. Job desprezado, depois de tantos anos de proteção divina em atenção à docilidade do seu coração. ‘Que melhor lembrança me poderia surgir?’ A verdade era que, quando menos esperava, Joaquim, senhor de um matrimónio feliz, sentia-se perseguido, via-se odiado com palavras que o consternavam até ao mais fundo da sua alma; naquele dia, a longa felicidade do seu casamento fora eclipsada pela acusação indecorosa ─ o máximo juiz de Jerusalém retirara-lhe a confiança na presença de Deus que ele julgara sempre a seu lado. Deus, que fora a sua força ante toda e qualquer adversidade da vida, o seu amparo nas hesitações perante os caminhos a seguir, onde estava agora?»

sexta-feira, 14 de abril de 2023

PARA A CONSTRUÇÃO DO AMOR


«Para sermos verdadeiramente felizes, precisamos de educar os nossos corações para a compaixão e o altruísmo, pois a porta da felicidade só se abre para fora e aqueles que tentam forçá-la para dentro fecham-na ainda mais.»

Simone Olianti, "Tenho medo de te amar" (23/Março/2023) in «Mensageiro de Santo António» (tradução do italiano) online.

terça-feira, 11 de abril de 2023

NOTA DE LEITURA SOBRE O LIVRO «O PORTUGUÊS VISTO POR (ALGUNS) PORTUGUESES» DE MARCELLO DUARTE MATHIAS (Editora D. Quixote, 2022)


 

O Autor chama Introdução, àquilo que é muito mais do que uma Introdução. Trata-se de um Depoimento sobre o tema da Identidade de Portugal ou mesmo da identidade pátria, nos conturbados tempos destas últimas décadas. A vivência da Portugalidade, como diria Afonso Lopes Vieira, sobretudo após a adesão de um país pós-revolucionário à Comunidade Económica Europeia, tem sido muito questionável. Adesão rapidíssima, mal estruturada ainda estava a nossa nova identidade nacional. A unidade política começava a diluir-se numa grande comunidade chamada União Europeia. Facto incontornável. As palavras de Marcello Duarte Mathias revelam que a pátria portuguesa ainda não se reconstruiu, ainda está perdida num naufrágio sempre iminente, sempre previsível, perante os olhos estupefactos dos políticos e dos, não menos estupefactos, do povo. A questão é estarmos perante uma pátria amortecida, a descrer das soluções à vista e a submeter-se a um destino pobre que parece não ter remédio. Entrámos numa União Europeia para nos socorrermos da perda das colónias, continuamos a querer socorrer-nos da propaganda e dos interesses partidários que têm o objetivo de conquistar o poder, mais do que servirem os Portugueses. Destaco, por fim, uma referência do Embaixador Marcello Duarte Mathias às sequelas da Ocupação Filipina de 1580 a 1640, pelo decorrente enfraquecimento do tecido nacional (pp. 47 e seguintes), já muito afetado pela pesada derrota em Alcácer-Quibir. E a análise de M.D.M. aborda, a finalizar, um ponto que considero fundamental para que se crie um novo rumo no nosso país, um rumo em que o povo não continue perdido da coesão indispensável a uma nação soberana e não subserviente perante a globalizante União Europeia, com que não nos identificamos senão por imitação ou por não ver outra saída para sobreviver. Cito o embaixador Marcello Duarte Mathias: «(...) o que importa acima de tudo é estar na História e não sair dela. E ter vontade para tanto, ciente de que não há legitimidade no plano internacional superior à da soberania nacional, e ao mesmo tempo restaurar o Estado-Nação que constitui, face a uma sociedade civil ainda incipiente, a nossa melhor proteção coletiva, tendo sido aliás a nossa moldura institucional durante séculos» (p. 56).

Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 7 de abril de 2023

DOSSIER PÁSCOA/2023

Jesus Cristo
Mosaico da Basílica de Santa Sofia,
Estambul, Turquia


              «Vai chegar a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja. Deus é Espírito e os Seus adoradores em espírito e verdade é que O devem adorar.»

Jo 4, 23-24

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Cruz em mosaico (arte bizantina), Basílica
de Santo Apolinário o Novo, Ravena, Itália.


«A denominação ambrosiana “Semana Autêntica” ajuda-nos a colher o aspeto histórico, autenticamente narrativo de quanto celebramos, ao mesmo tempo que nos encoraja a reconhecer que a Páscoa é precisamente o acontecimento que gera “conversão”, isto é, mudança de olhar, de direção, de sentido de viver.»

Enrico Parazzoli, "A vida entrevê-se nas feridas"(excerto deste artigo) in «Vino Nuovo», 3/4/2023 (public. em Pastoral da Cultura)

***




VEREDICTUM

Vejo. Além, a cruz esvaziada. Onde está Aquele que a habitava de braços abertos para receber o pecador redimido? Retiraram-no, estava a mais, não podia estar ali à espera de convertidos ou a chamá-los para se converterem. Convertidos para quê? Todos unidos não precisam mais de um salvador. Todos unidos salvam-se. Para quê um  salvador? Não há já nada para converter. A natureza não se converte, os animais não se convertem. Para quê converter os seres humanos? Para quê? Converter-se, pertence a outros tempos, oh séculos passados, oh gerações onde reinava a ignorância. Hoje, nós não precisamos que nos ensinem nada, não precisamos de corrigir nada, não há nada para emendar. Atingimos a perfeição, o absoluto mora em nós e tudo o que fazemos é sagrado, abençoado pelo Pai, o Pai gosta de nós mesmo assim, mesmo sem nos aproximarmos d'Ele, como outrora se escrevia nos Evangelhos, nas cartas dos santos, nas leis irrisórias que nos fazem rir, nos nossos dias, às gargalhadas. Como, se é só preciso cada um, ser como é, cada um ser aquilo que quer, obedecer à sua vontade e só a ela. Não é preciso pensar, sequer pensar se o que faz, é bem ou é mal. Afinal, não pode haver fronteiras entre um e o outro, bem e mal. Confundidos, são uma só realidade, uma só verdade. O que cada um faz é indiscutível, não interessa ser bem ou mal, tudo é e tem de ser considerado belo. Tudo é  belo, mesmo o feio. Só é preciso ser feliz, cada um à sua maneira, sem critérios, sem ética, sem  sujeições à moralidade. A moral morreu. Paz à sua alma que morreu dentro de si apagada por uma sociedade que se venderá aos robots de inteligências artificiais, em breve. O mundo, estamos já no dealbar de um novo mundo. Declaramos a morte da espiritualidade, do sentido do bem e do sentido do mal. Agora somos radicais, não vamos cair na falácia dos conceitos de bem e de mal, não vamos seguir as ideias distintas com que até Descartes sonhou. Queremos a democracia, o poder do povo, soberano e radical, sem transigência, sem condescendência, com a força do irracional, com a brutalidade da ira. Não pactuamos com os que se não reconhecem nos nossos caminhos, deixemo-los soçobrar, cair de cansaço, submersos em leituras de vida que não são as nossas. Porque eles têm de ser apagados do mundo sob o peso dos nossos caprichos infalíveis, imortais.

Sexta-feira Santa (7/Abril/2023)

Teresa Ferrer Passos

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«(...) Foi com espanto que soube que a Liga de Clubes marcara um “jogo grande” como o Benfica - Porto para o serão de Sexta-feira Santa, justamente hoje à hora da Via Sacra. Não me estou a queixar, mas esse sinal é a evidência de que Portugal já não é um país católico. Estamos prestes a recolher às catacumbas.»

Excerto de uma postagem de João Távora no Facebook (7/4/2023)


***

ELE NÃO ESTÁ AQUI!
RESSUSCITOU, COMO DISSE.


AQUI NÃO JAZ NINGUÉM

O sepulcro está vazio,
Está vazio como convém.
Não mais temereis a morte
Pois aqui não jaz ninguém.

Desci ao Reino dos Mortos,
E, firme como um rochedo,
Olhando sempre de frente
Enfrentei o Grande Medo.

Voltei para dar a todos
A Vida que há no Além.
Alegrai-vos! Exultai,
Porque aqui não jaz ninguém!
 
6/4/2023, Quinta Feira Santa
 
                  Fernando Henrique de Passos


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Que a Páscoa de Jesus seja
uma Passagem para cada ser humano 
alcançar com Ele a vitória sobre a morte!

FELIZ PÁSCOA

domingo, 26 de março de 2023

Passagem do livro «Um Cientista e uma Folha de Papel em Branco» de Teresa Ferrer Passos (2ª edição, Hora de Ler, Leiria, 2023, pág. 112):

«Os olhos cerrados de Taoj trazem a Protágoras a impressão do fim do Homem, exatamente esse Homem, medida maior e inexcedível de tudo o que existe. A medida é o humano. Nada o excede, nem os limites da selvajaria nem os da virtude. Nada se lhe assemelha, na crueldade nem na paixão. Tudo se lhe submete pela audácia e pela esperança ou pela cobardia e pela vergonha. Toda a matéria ganhou no humano a força da própria divindade, uma divindade que fala só por ações e por sons da natureza. O humano revelou-se o criador de linguagens novas a que a matéria se submete, na aceitação do diferente mesmo que a deforme. É aqui, nestas ideias que continua a viver Protágoras.»

Breves passagens do artigo publicado em Pastoral da Cultura (21/3/2023) de Domenico Marrone in «Settimana News » intitulado "Sínodo: A Igreja nasceu e renascerá dos debates. É preciso libertar a palavra e encorajar o pensamento":

«Os “estaleiros” sinodais contribuem para gerar uma cada vez mais espalhada prática da escuta.
Porém, pergunto-me: ao enfatizar a escuta (escutar, e escutar e escutar), não será possível que estejamos a ocultar também a nós próprios o défice de debate, de opinião pública na Igreja? Com efeito, regista-se a ausência de um verdadeiro debate intraeclesial. Uma ausência que, por sua vez, deriva da falta de uma autêntica opinião pública dos crentes católicos».
...
«É verdade que, para que isto aconteça, é preciso que o outro se exponha. Tome posição. Afirme-se a si próprio. Exprima opiniões, ideias, análises. Não se limite a anuir, confirmar, calar. Antes explique, argumente, discuta.»
...
«O problema é que, demasiadas vezes, o outro não existe. Se goza de poder formal, comanda. Mostra a posição, a divisa, o papel. Transmite, não comunica. Faz retórica. Passa “slogans”. Impõe-se: não fala, antes faz falar o título, o estatuto.»
...
«Todos os estímulos que poderiam vir, em particular, dos fiéis leigos são sufocados na origem e, quando alguém se comporta como cristão adulto e ousa pensar com a sua cabeça, eis que se desencadeia a reprimenda da parte de outros leigos que se erguem como juízes e defensores oficiais da tradição e da autoridade, quando em muitos casos são apenas defensores do hábito e do poder.»

sábado, 18 de março de 2023

Duas Memórias de CAMILO

A propósito do nascimento de Camilo Castelo Branco em Lisboa, a 16/Março/1825) 

1.

«(...) – Longe, longe de Lisboa, a cidade da minha infância, a cidade da casa onde nasci, mas de que mal me lembro. Recordo apenas o local onde ficava: a Rua da Rosa. De resto nunca me considerei verdadeiramente de Lisboa, ao contrário do meu amigo Eça de Queirós que, tendo nascido na Póvoa, só queria ser lisboeta, ou de preferência, creio (se lhe fosse dado escolher) parisiense. Eu nunca teria (nem tive) tal apetite, devo dizê-lo. Sou muito mais do Porto, apesar de nunca me terem aceite muito bem (...)»

Maria do Carmo Sequeira (excerto de post no Facebook, 16/3/2019)

2.
«Apesar das adversidades dos tempos e dos lugares, não é difícil Camilo ter-se visto como um homem mais do Porto (ou de Seide) do que de Lisboa. Esta é uma cidade que sempre sofreu de descaracterizações (tão almejada pelos que nela não tinham nascido, como Queirós...) e desprezou com frequência aqueles que nela nasceram, como se fossem estranhos. A sua falta de fronteiras humanas torna-a, ainda hoje (ou mais do que nunca, hoje) uma cidade para conquistar por estranhos ou para ser motivo de fuga dos seus naturais. O Porto é bem diferente: é mais coeso, mais íntimo, mais íntegro, para quem aí nasceu ou não. E como o escritor Camilo a isso foi sensível.»

Teresa Ferrer Passos (Facebook, 17/ 3/ 2019)

terça-feira, 7 de março de 2023

ABUSOS SEXUAIS SOBRE MENORES

D. Nuno Almeida
Bispo Auxiliar da Diocese de Braga

Afirmações do bispo auxiliar da diocese de Braga, D. Nuno Almeida, em texto de 6/3/2023:

«Não é possível manter a impunidade nem o silêncio», escreve.
«Entre as providências a tomar, perante as denúncias, estão “medidas de tipo administrativo contra a pessoa denunciada, que poderão levar a limitações no ministério”.
O texto sublinha que as “medidas cautelares” propostas pela Santa Sé admitem que a Igreja “poderá ou deverá ter de retirar o agressor identificado da atividade pastoral”, dado que as “medidas cautelares” preveem a possibilidade de afastamento ou proibição de exercício do ministério, enquanto decorre a “investigação prévia”, ou após a sua conclusão.»

Fonte: Ecclesia

***

A PROPÓSITO DO CRIME DE ABUSO DE MENORES

À ATENÇÃO DE PADRES DA IGREJA CATÓLICA

DISSE JESUS:

«Se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar.

Ai do mundo, por causa dos escândalos! São inevitáveis, decerto, os escândalos; mas ai do homem por quem vem o escândalo!»
São Mateus, 18, 6-7

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

BREVE PASSAGEM de «UM CIENTISTA E UMA FOLHA DE PAPEL EM BRANCO», 2ª EDIÇÃO



Acaba de ser publicada a 2ª edição de «Um Cientista e uma Folha de papel em Branco», Hora de Ler, Leiria, 2023. Eis um pequeno excerto (pp. 74-75):

« - Também não quero morrer quando a morte chamar por mim. Não quero morrer precisamente nesse instante; vou inventar castelos de palavras com paredes de róseo mármore e altas torres de granito feitas de raras sintaxes e montanhas de sentidos e de ideias em direções infinitas. Vou tornar a minha vida um pouco semelhante ao mar. Construir mesmo os sonhos nunca pensados antes; torná-los tão visíveis como a minha visibilidade de corpo. Tudo poderá ser apenas uma gruta ou um tugúrio, mas as palavras os tornarão grandes. Serão florestas intermináveis ao longo de planaltos abandonados pelos deuses»

Teresa Ferrer Passos

sábado, 25 de fevereiro de 2023

LANÇAMENTO EM HUELVA, ESPANHA, A 9 DE MARÇO

Alcantarilha antiga
do pintor Inácio de Mendonça 

 
Foi apresentado em Huelva, Espanha, a 9 de Março, «EL LIBRO DE POSEÍDON O MI ALMA DE AUSENCIAS» do Poeta Manuel Neto dos Santos:

Aqui, uma passagem do livro publicado pela Editorial Autografia (edição bilíngue), Barcelona, 2022, pág. 43:
«Neste instante, inclinado sobre o caderno, o poeta rodeia- se de sons como se fossem frutos maduros para que a voz se vá escapulindo entre as grades das cordas vocais e do meio da cinza do silêncio se inscreva e emerja a sonoridade do poema. Faça-se, pois, silêncio em minha alma com esse desapego de um cristal embaciado pelo último suspiro e aconteçam tréguas dentro em mim, como fragmentos de horizontes sanguíneos sobre a tela de uma folha em branco»

domingo, 19 de fevereiro de 2023

No 29º aniversário do nosso casamento

PRODÍGIO




um lírio cresceu apagado, obscuro, 
desajeitado e a morte destino triste,
esperava-o desabrigada.
mas uma gota de água tocou-o, 
deu-lhe amparo lentamente,
com paciência infinita.
todo o mundo duvidou do efeito benfazejo
só o lírio sequioso absorvia-a em delírio.
os anos passavam cheios de pasmo cada dia
e a gota de água e o lírio dentro do seu casulo
escreviam com doçura a fervura da vida.
o tempo ao ver tal prodígio
apagou-se da terra
e deixou que para sempre existissem.    

19/2/2023

Teresa Ferrer Passos



OS NOIVOS TRANSPARENTES

Há dois noivos em frente a um altar
Mas podeis ver à transparência
Um futuro à beira de chegar
Feito de amor e paciência.

Há já andaimes que se elevam
Preparando a nova construção.
Da terra ao céu, urgência é o que levam,
Mas a pressa não convém à perfeição.

Esperai e vede, à luz da transparência,
O edifício que se ergue devagar.
Não vos falei em paciência?
Vereis no fim como foi bom esperar…

19/2/2023

Fernando Henrique de Passos

MEMÓRIA de JACOB e RAQUEL


Do romance inédito, em elaboração, São Joaquim, uma alma à procura de Deus:

 «Com a criatividade à sua beira, esculpia-se a energia da paixão, tão semelhante e tão diferente de um para o outro. Abismados de espanto, olhavam o céu coberto de aves esvoaçantes e clamavam, a cada instante, pelo amparo do Altíssimo, que os habitava, sem disso se aperceberem de verdade. Mais próximos um do outro do que de todas as outras criaturas, pela sua natureza, pelos seus atributos, pela espontaneidade das suas vontades, pelas suas pessoas diversas e a imaginar os caminhos da comunhão, como se nada lhes fosse estranho e, na verdade, tudo lhes fosse irremediavelmente estranho; o amor vagabundo que os nutria e que se refletia tantas vezes no vago olhar, criava à sua volta um mágico jardim, jardim feito de perfumes de mil flores que desconheciam o que era mais do que um sonho em vigília.»

Teresa Ferrer Passos


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

DEVASTAÇÃO DAS ALMAS

 MEMÓRIA BREVE DE UM TERRAMOTO

Da Síria para a Turquia, numa noite interminável, entre o sono longuíssimo e o sonho impossível, a realidade e o irreal, entre o sorriso de uma criança e a lágrima fugitiva de uma mãe, de um pai, à espera ainda. Com a sombra fria do terror, o mundo torna-se mais estranho. Perplexos, sem palavras, acabrunhados, a pensar neles estamos. Eis a única presença que nos é permitida oferecer-lhes na hora do colapso da vida, qual desdita, qual dor tamanha, qual solidão imensa!

T.F.P.

sábado, 14 de janeiro de 2023

NO DIA DOS TEUS ANOS


 
PRENDA  IMPROVÁVEL

 
a treva dos minutos brada entre instantes.
foi ao levantar.
a dúvida dos lugares perpassa
e os movimentos descontrolados paralisam-me,
descem e sobem as paredes deslocadas,
descrevem círculos que me afastam da vontade,
como se não me quisessem obedecer
e as cadeias da consciência me rejeitassem.
os passos inseguros desalentam-me
mas a luz surge enfim da madrugada
arrasada de súplica
e a cura improvável nasce com o andar
sem estontear.
Ontem não pude comprar a prenda dos teus anos.
ah, mas que entrevejo?
Esta é a prenda que tenho, hoje,
no dia dos teus anos.
 
14 de Janeiro de 2023
                                              Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Santo Agostinho, o teólogo pregador

 «Na verdade, viestes poucos, mas se escutastes bem, já sois um grande número.»

Santo Agostinho (de um sermão)



domingo, 1 de janeiro de 2023

A MORTE do PAPA BENTO XVI (1927-2022)


JOSEPH RATZINGER, o Papa Emérito, faleceu aos 95 anos no mosteiro Carmelita do Vaticano. Um Papa de grande saber teológico e filosófico que teve a coragem de abdicar das honras de Chefe da Igreja Católica, quando sentiu que o que se passava na sua Igreja - o escândalo dos padres pedófilos e o escândalo de ordem financeira - rompia com a doutrina ensinada por Jesus Cristo.

Em sua memória, aqui transcrevo uma passagem de uma das suas excelentes obras de teologia:

«Se se diz do homem que ele é imagem de Deus, isto significa que ele é o ser construído como relação; que ele através e dentro de todas as suas relações, procura a relação que é a base do seu existir. Então a aliança é a resposta ao homem como imagem e semelhança de Deus; nela esclarece-se quem e o que somos e quem é Deus; para Ele, que é totalmente relação, a aliança não é algo que se coloca fora da história, longe da sua essência, mas é dar a conhecer o que Ele é, ou seja, "o esplendor do seu rosto"»
Bento XVI - Joseph Ratzinger, Paulo O Apóstolo dos Gentios, Paulus Editora, 1ª edição, 2008, pág. 77.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Aniversário Natalício de minha querida mãe, ontem, Dia de Natal

 

Num DIA de NATAL nasceu minha muito querida mãe, no ano de 1909. Foi ONTEM que recordei a minha «Carta-Memória à Mãe», ao relê-la, como sempre com um sentimento de consternação ou de contrição e, ao mesmo tempo, com a alegria de a ver ali, ainda cheia de uma memória encantatória, aquela que eu deixei escrita nos últimos dias da sua vida e naqueles que se seguiram à sua morte (carta começada em 1 de Julho e terminada a 3 de Novembro de 1990):
«Só. Como coração gemendo a angústia do impossível desta ponte tombada em ruínas, sem fé, sem espera, sem uma estrela na escuridão maior. E tudo se perdeu e se fez nada... Amanhã. Até amanhã...» (Teresa Bernardino, Carta-Memória à Mãe, Lisboa, 2000, p. 50).

Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

NATAL / 2022


Presépio da nossa casa

"Então o lobo habitará com o cordeiro e o leopardo deitar-se-á com o cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá".
                                                                     Is. 11, 6





"O Senhor diz:

«Olhai: coloco em Sião uma pedra-testemunho,
 uma pedra angular, preciosa, de base:
Aquele que confiar nela não tropeçará»"
                                                            Is. 28, 16



"Para seguirmos o exemplo de Maria, para deixar Deus entrar
 e agir na nossa vida, temos de Lhe abrir a porta. Maria pôs-se 
ao dispor de Deus. Isto é que é acreditar! A fé implica-nos."

        Twitter, 2021
                                   Cardeal Manuel Clemente



                                                   

A VIDA SILÊNCIO AZUL


a água escorre do céu aos tropeções,
desliza célere sobre o deserto das almas
e as casas perdem-se de si na procura das mesas
onde havia o pão e o leite e a fruta.
exaustas, já gastas e enlameadas,
sentem-se perto do dilúvio.
a água intrépida, incontinente,
alaga os corações suspensos
como se fosse um trovão a descer com raios fulminantes,
os raios do mal. E tudo à volta é abatido.
a água vem do alto sem um suspiro de dor,
tudo retira dos lugares que pareciam inamovíveis.
resta apenas uma pequena faúlha: o sóbrio bem.
sustenta-o a audácia grácil e uma língua de azul
emerge das negras nuvens apagando-as.
a vida resiste. Resiste mais uma vez,
como um silêncio imaculado e sem fim.

13/12/2022

                                          Teresa Ferrer Passos





AS ORIGENS DO NATAL

“Que cansaço estar sempre aqui em cima –
Os seres humanos parecem-me formigas,
As formigas parecem-me micróbios,
E não tenho amigos nem amigas.
 
Gostava de poder brincar –
Às escondidas, por exemplo.
Ninguém me ia encontrar
Se me escondesse no meu Templo!
 
Gostava de não ser omnipotente –
Ter de pedir que me levassem pela mão
A ver o sol poente
No final de uma tarde de Verão.
 
Gostava sobretudo de ter mãe –
Que me passasse a mão pelos cabelos com meiguice,
Mas que me ralhasse também
Se eu fizesse uma tolice.
 
Gostava de não ser omnisciente –
Não conhecer o meu destino
E só saber que tinha de ir em frente.”
 
… E assim Deus se fez menino.


In Fernando Henrique de Passos, Breve Viagem nas Margens do Mistério, Hora de Ler, Leiria, 2018, pág. 12. 





Um dos presépios da Exposição da ALDEPA, em Alcantarilha

O MAGO DA ETIÓPIA

«Este é o Filho do homem, ao qual a justiça pertence, o qual revelou todos os tesouros do que é escondido»(1)


o olhar do mago das terras da Etiópia
fixava-se no céu, havia muito tempo. Procurava
onde morava a justiça, a verdade tão ausente
e onde se escondiam os mistérios da vida.
o mago de rosto queimado queria tudo desvendar.
olhava as estrelas que brilhavam e não lhe respondiam.
pedia-lhes que revelassem um só segredo que fosse,
a elas, sábias, que tudo conheciam.
Numa noite mais escura do que era costume
viu uma estrela de pouco brilho.
que estranha, tão apagada! e movia-se
─ coisa mais estranha ainda ─
para um deserto vasto, o deserto do Sinai.
Com as pálpebras avermelhadas de cansaço,
o mago daquelas terras áridas e secas
aventurou-se a segui-la. Que largo caminho à sua frente…
E de novo um deserto, o de Neguev e outro ainda, o de Judá!
Aqui chegado, a estrela quase a apagar-se,
mostrou-lhe um pequeno lugar: Belém.
Aí, viu um estábulo que deixava transparecer
um Menino, todo feito de luz.
e essa luz que emanava tudo lhe revelou.

Natal/2022
Teresa Ferrer Passos


(1) Livro de Hanokh (versão etíope, copta), 300-200 a.C.(?), Capítulo 46, 2.




Menino Jesus de um dos presépios da Exposição
da ALDEPA, em Alcantarilha


UMA JANELA SOBRE O VENTO Num impulso violento, Mas simultaneamente terno, Abriu-se uma janela sobre o vento, Talvez no Solstício de Inverno, E os ouvidos de Deus escutaram o lamento Do frágil ser que queria ser eterno. Deus, tendo pena do tal ser, Fez-se menino num estábulo em Belém; Vieram bichos para o aquecer, Que o estábulo era frio, e húmido também; O vento uivava como que a dizer Que aquele menino ia ser alguém. O menino cresceu até ser vendaval, E soprou, e soprou, e virou do avesso O ser miserável, débil e mortal. Deu-lhe um novo alento, deu-lhe um recomeço, Deu-lhe a vida eterna, livrou-o do Mal. Mas o ser humano – é mesmo verdade! – Preferiu o Mundo à Eternidade. 24 de Dezembro de 2022 Fernando Henrique de Passos




UM NATAL NA ALEGRIA DE CRISTO!
                                                                 

sábado, 10 de dezembro de 2022

Papa Francisco e D. José Tolentino de Mendonça
na Biblioteca do Vaticano

JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA, perfeito do Dicastério para a Cultura e Educação do Vaticano, em entrevista à RR, após apresentação do seu livro «Metamorfose Necessária» em 9 de Dezembro de 2022, na Fundação C. Gulbenkian:

A EUTANÁSIA... “uma visão errada daquilo que pode ser o contributo das sociedades em relação ao percurso do ser humano que deve ser amparado desde o início até ao fim”.
"Uma grande derrota de civilização que entristece".
"Uma derrota daqueles valores que colocam no centro a pessoa humana”.
“Escolher a eutanásia ou propor a eutanásia como possibilidade de resolução da vida, sem dúvida que é uma redução da esperança”.


Comentário no Facebook (10/12/2022):

Na Europa só 4 pequenos países praticam a eutanásia: Holanda, Bélgica, Luxemburgo e Suiça; na América do Norte só 5 estados dos Estados Unidos e o Canadá; e na América do Sul só a Colômbia. É UMA PERCENTAGEM MÍNIMA em relação aos 200 países do mundo que não a aprovaram. SE A LEI DA EUTANÁSIA FOR APROVADA EM PORTUGAL SERÁ A PROVA DE QUE PORTUGAL SE ACHAVA NUMA SITUAÇÃO DE GRANDE ATRASO EM RELAÇÃO AO RESTO DO MUNDO E ERA URGENTE A SUA APROVAÇÃO?!
                                                                                                              Teresa Ferrer Passos

domingo, 4 de dezembro de 2022

UM POEMA de FERNANDO HENRIQUE DE PASSOS:



RETRATAÇÃO DO SOL PERANTE OS PLANETAS


Perdoai-me as sombras que provoco
Nas vossas faces ocultas e secretas
E que vos fazem orbitar em meu redor
Como fantasmas notívagos de insetos
Presos em redes invisíveis,
Como farrapos flébeis do crepúsculo
Sorvidos por vórtice de pez.
Perdoai-me, deixai-me libertar-vos
E parti pelo espaço à aventura!

In «Ecos Abaixo do Audível«, Hora de Ler, Leiria, 2020, pág. 26.

Comentário:

Entre ciência, filosofia e religião, inscreve-se uma magnífica construção poética em que perpassa a vida de toda a existência dos seres menores, só menores nas dimensões...

                                                                        Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

A RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA


 

A RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL em 1640, no dia primeiro de Dezembro, após 60 anos de dominação espanhola, a data inesquecível do Povo Português. Este Povo que nunca aceitou o colapso da Pátria no fatídico ano de 1580 - o ano da morte de Camões, o Poeta que com excelência cantou nos seus versos a História dos insubmissos Lusíadas, dos arrojados Lusitanos.

1/Dezembro/2022

T.F.P.