sábado, 29 de outubro de 2022

UM POEMA

 SILÊNCIO INÉDITO


no momento estranho do silêncio
crescem raízes amargas como fel,
surgem árvores e ervas no pinhal
no momento estranho do silêncio,
as farpas atravessam as inter-redes da quimera
e cravam-se no peito brando do inocente
de coração prenhe de ingenuidade e bem querença
no momento estranho do silêncio
quebram-se os grilhões, abate-se a espera
e a vida ainda com explosões de verdade
sussurra devagar crepita ainda
num fogo já apagado

29/10/2022 (poema acabado de escrever)

Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

MEMÓRIA


O Professor Adriano Moreira (1922-2022) cuja morte nos surpreendeu, apesar de já contar 100 anos de idade, marcou a política portuguesa com chave de ouro. Sem dúvida que o autor de «Ciência Política» (1979) e de «O Novíssimo Príncipe» (1977), ficará na história como um grande teórico português do pensamento político. Atravessando dois períodos antagónicos de governação em Portugal - o regime do Estado Novo e o regime instaurado em 25 de Abril de 1974 - soube manter uma coerência e uma integridade de ação político-social exemplar. O seu nome manter-se-á vivo para além dos séculos XX-XXI em que viveu! Por isso, estará sempre perto de nós.

24 de Outubro de 2022
Teresa Ferrer Passos

domingo, 23 de outubro de 2022

A PROPÓSITO DO DIA MUNDIAL DAS MISSÕES



Uma breve passagem de «São Joaquim, uma alma à procura de Deus» de Teresa Ferrer Passos, obra ainda inédita:

«Pregava, sem rodeios, desassombradamente, com uma expressão de aramaico culto, as frases curtas, o pensar rápido, tudo era proferido com autoridade. Falava das virtudes, dos bons costumes, da pureza de alma, do desprezo dos bens materiais, da perseverança, mesmo no meio do sofrimento, pois este decorria da precariedade e do caráter efémero da vida e trazia, em primeiríssimo lugar, a recompensa de se descobrir mais do que nunca na presença de Deus; o caminho certo era a esperança que conduzia à serenidade; a grande alegria do ser humano era a fidelidade a si próprio e ao seu próximo.»

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

POR OCASIÃO DO MEMORÁVEL 200.º ANIVERSÁRIO DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, EM 7 DE SETEMBRO DE 1822

Excerto de um artigo que publiquei no «Diário de Notícias», em 26/6/1988, sob o ortónimo de Teresa Bernardino:


"Em 1822 rebentou uma revolta contra o domínio português, que D. Pedro conseguiu dominar, e, no mês de Abril, o jornal Revérbero propôs ao Regente que fosse “o fundador do novo Império”. Pouco depois, a Maçonaria com o apoio do Senado e do Conselho de Procuradores-Gerais das Províncias ofereceu a D. Pedro o título de Protector e Defensor Perpétuo do Brasil, que ele aceitou a 13 de Maio, dia do seu aniversário.

A agitação nas províncias era incrementada pelo confronto entre os partidários da autonomia (personificada por D. Pedro) e aqueles que desejavam obedecer às determinações das Cortes Constituintes da metrópole. O Brasil estava dividido entre as duas facções, sendo a mais popular contrária à Assembleia Legislativa de Lisboa, que só humilhava a tão venerada emancipação. Eram recebidas como ordens afrontosas a continuação de D. Pedro como “Regente até à publicação da Constituição, mas sujeito ao rei e às Cortes” e a instauração de um processo ao governador de S. Paulo por ter pedido a permanência do príncipe no Brasil.

As instruções das Cortes de Lisboa foram interpretadas como uma interferência abusiva no poder do regente por vários conselheiros, que o consideraram mesmo “prisioneiro das Cortes”, instituição que mostrava tentar “escravizar o Brasil”.

Era o dia 7 de Setembro de 1822 e D. Pedro encontrava-se nas proximidades do pequeno rio Ipiranga quando alguns emissários lhe deram conhecimento destas últimas decisões oriundas de Lisboa. Resolvido a não continuar sob a tutela da revolucionária Assembleia liberal portuguesa, D. Pedro proclamou a ansiada “Independência ou morte”, que o iria ascender a primeiro Imperador do Brasil. Aclamado e Coroado Imperador na Capela Imperial do Rio de Janeiro, no dia 12 de Outubro de 1822 (o príncipe dera o mais lato sentido à decisão tomada a 9 de Janeiro de 1821, pela qual desobedecia às Cortes, ao ficar em terras do Brasil).

Em carta justificativa desse ato, afirmava que se saísse do Brasil, logo este se tornaria independente, enquanto se ele aí permanecesse, o território não se separaria de Portugal. A sua convicção maior era a de que a força das armas não podia impedir a independência, mas sim “o comércio e o brio da reciprocidade”, porque ambos “são as duas molas reais sobre que deve trabalhar a monarquia luso-brasílica”.

A ideia de conservar a ligação entre as duas Cortes é incontestável em numerosas cartas dirigidas pelo Imperador D. Pedro I a D. João VI, mas as fortes pressões internas por parte de instâncias políticas e sociais, a prepotência das Cortes constitucionais, que procuravam retirar ao território a autonomia alcançada ao longo da permanência de D. João VI na colônia, as honras e os títulos que os brasileiros lhe outorgaram, com o cognome de Defensor Perpétuo do Brasil, foram os principais fatores da mudança. Esta está patente nas cartas posteriores ao mês de Maio de 1821. Era, de fato, inegável o seu exultante entusiasmo ao escrever que tratava os brasileiros não só como fi lhos “como V. M. me recomendou, mas também como amigos”.

Noutra passagem nota a necessidade de não inverter a evolução que os tempos e as conjunturas provocaram: “Sem igualdade de direito em tudo e por tudo, não há união”. Nessa disposição de espírito, propunha-se defender os direitos dos brasileiros, se necessário com o seu sangue “que não corre senão pela honra, pela Nação e por V. M.”. Para fundamentar a insubmissão perante as Cortes, escreverá ainda sobre a sua adesão à causa da “colônia”: “Não sou rebelde, como hão de dizer a Vossa Majestade os inimigos V. M., são as circunstâncias”.

O grito do Ipiranga culminara um longo processo não iniciado em 1820, como muitos afirmam, mas remontando à chegada de D. João VI e toda a Corte portuguesa ao Atlântico Sul. A revolução de Agosto de 1820, se trouxe a vantagem de fazer regressar o rei à Metrópole, teve na sua essência e como objetivo maior, recuperar os mercados brasileiros, tão preciosos à burguesia portuguesa (importação-exportação). Este móbil tornou as Cortes constituintes gravosamente hostis à comunidade brasileira, que já não podia aceitar a perda da larga autonomia política ou a fuga dos valores econômicos que estavam a fazer prosperar aquele extenso e rico domínio português.

A exigência do regresso do príncipe-regente, escolhido pelo rei de Portugal, numa difícil conjuntura interna do Brasil, em parte aderente às revoluções autonomistas e republicanas da América do Sul, foi o detonador de uma situação insustentável, quer para Portugal, quer para o Brasil.

Sem poder lutar contra as circunstâncias, como escrevia o Imperador D. Pedro I a seu pai, conseguiu, no entanto, não provocar o ódio ou até levantamentos de armas contra a Pátria lusa, que no ano de 1500 começou a desbravar e a engrandecer a futura grande nação da América Latina. Longos anos de permanência naquela terra promissora, deram a D. Pedro I a noção exata do seu glorioso porvir que ele quis ajudar a edificar.»


A MORTE DA RAINHA ISABEL II (8 de Setembro de 2022):

A Rainha Isabel II, uma mulher com uma personalidade fortíssima manteve-se igual a si própria durante 70 anos de reinado e 96 de vida; ainda incansável, apesar de já muito enfraquecida, na véspera da sua morte cumpriu ainda as suas funções - como ela diria o seu dever - de soberana, ao dar posse à nova Primeira Ministra do Reino Unido. Um exemplo de vida a recordar!


9/9/2022
Teresa Ferrer Passos

UMA GUERRA NUCLEAR GLOBAL?

1.

Estaremos à mercê de uma política internacional desvairada?
Não haverá uma incipiente, abúlica e até suicida política diplomática a favor da paz por parte da União Europeia e dos EUA, depois da Rússia ter iniciado uma operação militar contra a Ucrânia (24/2/2022)?
Onde repousam as sempre possíveis diligências da Diplomacia do Ocidente para pôr fim à guerra?
Uma retaliação nuclear para responder a um ataque nuclear da Federação Russa é a solução para o Ocidente?!

2.
"Após sete meses de hostilidades na Ucrânia, sejam usados todos os meios diplomáticos, mesmo aqueles que até agora eventualmente não foram utilizados, para pôr um fim a esta terrível tragédia. A guerra em si é um erro e um horror!" (Papa Francisco in Twitter, 2/10/2022)

3/10/2022 (in Facebook)

Teresa Ferrer Passos

NO 1º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DA GRANDE ROMANCISTA PORTUGUESA AGUSTINA BESSA LUÍS (1922-2019):

 

Agustina Bessa Luís na sua casa do Porto

"É do rigor para com nós mesmos que nasce a crueldade para com os outros. Do abismo da culpa nascemos para o abismo da justiça. S. António era uma natureza subtil; fiel com as pequenas coisas, tornava-se por isso pacífico nas paixões; instruído de si próprio, não temia as surpresas, não combatia com inimigos obscuros. As nossas lutas são travadas com o que se ignora. Toda a vida de António resplandece de tranquilo saber e de inocência no saber."

Agustina Bessa Luís, "Santo António", Guimarães Editores, 1973, pp.118-119.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

CAMINHAR SOBRE AS ÁGUAS (um poema)

Deixa a superfície do lago serenar.
Detém o vento.
Sustém o pensamento.
E depois caminha devagar.

Nas margens do tempo congelado
Tens a teus pés o tempo todo inteiro.
Guarda-o com cuidado num tinteiro
E reescreve no futuro o teu passado.

13/9/2022

Fernando Henrique de Passos

sábado, 13 de agosto de 2022

  AS MINHAS HORAS

 

Há horas, como as árvores,

não vergam com o vento.

Vejo-o nos dias em que o temporal

atinge as minhas horas.

Imprevistas.

A crua realidade parece consumir

a minha alma. Os instantes são breves.

Sufocada por momentos, sobrevive mesmo assim.

Permanece em busca do afago divino,

afinal, ali à beira.


13/8/2022
                                               T.F.P.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Poema inédito de aniversário



Apresentação de «O Retábulo», obra com duas partes,
uma de Teresa, outra de Fernando, em 2002, na Livraria
Caleidoscópio, em Lisboa.



CONFIRMAÇÃO

                            à Teresa pelo seu Aniversário

Gosto deste mês
Não por ser Agosto
Mas por tu vires dele.
Isto é ter bom gosto!
Gosto do que escreves,
Gosto do que dizes.
Horas a teu lado
São horas felizes.
Gosto dos teus beijos,
Da tua meiguice.
Gosto de te olhar,
Não sei se já disse.
Não sei se já disse
Que gosto de ti.
Gosto mesmo muito,
Desde que te vi.
Mas brinco pois sei
Que já to disse antes
E que o repeti
Em muitos instantes.
E também repito,
Hoje, no teu dia:
És o meu amor
E a minha alegria!

9/8/2022
                      Fernando Henrique de Passos

sábado, 6 de agosto de 2022

LEMBRANDO O MAIOR ATENTADO MORTÍFERO DA HISTÓRIA

NO DIA 6 DE AGOSTO DE 1945, OS E.U.A. LANÇAM A 1ª BOMBA ATÓMICA NUCLEAR SOBRE A CIDADE JAPONESA DE HIROSHIMA.


HIROSHIMA

O grito dos inocentes ainda ecoa nos corações.
O terror, em imagens nunca vistas, prolifera.
Mas imagens para quê? Elas são apenas um simulacro
da realidade criada no instante
em que o sol morreu em Hiroshima
e a humanidade, aí presente, ficou esfacelada.

Foi a hora em que uma grande nação, no auge da sua soberba,
usou, sem contrição, a força demoníaca da energia nuclear.

6/8/2022

Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

«Cada ser humano bom extrai o bem do bom tesouro do seu coração. Todos nós temos um tesouro, é o coração: a cultivar como um Éden; a gastar como um pão; a proteger com desvelo porque é a fonte da vida (cf. "Provérbios" 4, 23). Por isso, não sejas avaro com o teu coração: dá-o».

Ermes Ronchi, "Está escrito nas árvores: a lei da vida é dar" in Avvenire (25/2/2022)

«Somos uma geração de lamentos, que deixou de saber agradecer, que dissipou os profetas e poetas, os enamorados e os bons. E todavia são eles a parábola, o rebento, ramo de figueira ou de amendoeira do mundo salvado. São-no aqui e agora, sobre a Terra inteira e dentro da minha própria casa, como rebentos bons, embebidos de Céu, impregnados de Deus. Quem me quer bem é lâmpada para os meus passos.»

Ermes Ronchi, "Aprender da sabedoria das árvores" in Avvenire, 12/11/2021 [Fonte: Pastoral da Cultura]

sábado, 30 de julho de 2022

 

Pormenor do retábulo do altar-mor da igreja
da Misericórdia, Alcantarilha

«Um Deus tão distante da transparência da chuva, tão longínquo do azul do céu, do calor do sol, da brandura das árvores, da proximidade dos montes, dos caminhos múltiplos dos vales, era difícil de entender. Com estes pensamentos a fustigarem as raízes da sua alma, uma nostalgia imensa crescia nele. Com um manto de trevas a caírem no seu espírito com mais peso, a cada instante que passava, Joaquim desejava retirar-se o mais depressa possível daquela escadaria de mármore cor-de-rosa e laivos cinzentos, fugir às nuvens de cinza densa que passavam tão rápidas quanto o vento uivante das colinas mais elevadas.»

Teresa Ferrer Passos, S. Joaquim - Uma alma à Procura de Deus (romance inédito escrito a partir de um facto insólito na vida de S. Joaquim e Santa Ana, pais de Maria e avós de Jesus).

quarta-feira, 20 de julho de 2022

No 29º aniversário do nosso conhecimento pessoal:

Jardim da F. Gulbenkian com dois gansos dos Egito

SILÊNCIOS QUE FALAM


Deixa-me descer até ao centro
do teu coração de silêncio
e aí te farei oferenda das palavras
que venho guardando há quase 30 anos
à espera do momento de as dizer
esse momento que chegou
pois agora já sei dizê-las sem falar.
 
Deixa que o meu coração de silêncio
se abeire do teu coração de silêncio
e deixemo-los trocarem
as palavras que só eles podem ver
e então eu chorarei quando tu chorares
e tu chorarás quando eu chorar
e ambos riremos quando virmos
o mesmo sol nascer.
 
Deixa-me descer até ao centro
do teu coração maravilhoso
e conta-me de novo a história antiga
dos dois estranhos que um dia se encontraram
no centro de um jardim abençoado
e foram de mãos dadas pelo mundo
entrelaçando as vozes nos silêncios
ouvindo os sorrisos das estrelas
cantando os sonhos das palavras.
 
20/7/2022
                               Fernando Henrique de Passos


PEQUENO SONHO
 

Nos passos ao de leve soletrados

desci à biblioteca. Aí,  descobri as tuas entrelinhas

a inscreverem-se na viagem de um pequeno sonho.

Li com espanto todas as linhas apagadas.

Vogais brotavam assombradas.

Pareciam flores a desenhar uma dor antiga.

E as páginas amarelecidas de poeira pronunciavam

trinados obscuros. Despertavam largas sombras crivadas de medo.

Um silêncio de morte bramia, aterrador.

Uma luz delirante iluminou-nos.

A vibração do amor tocava de mansinho, o sonho delia-se.

O silêncio serenou-nos. A eternidade soava docemente.  

 

20 de Julho de 2022

Teresa Ferrer Passos    

terça-feira, 19 de julho de 2022

NOTA PARA UMA PUBLICAÇÃO CATÓLICA A DENEGRIR OS SANTOS QUE FIGURAM NAS IGREJAS CATÓLICAS:

Comentário enviado para a revista internética "Mensageiro de Santo António" e também para o Facebook e Linkedin:

Primeiro romance histórico de Nicola Vegro sobre o Santo, escreve-se em "Mensageiro de Santo António". Esta revista internética não conhece o "Santo António" de Agustina Bessa Luís, publicado, em 1973, pela Guimarães Editores? A frase do argumentista de filmes e documentários Nicola Vegro, extraída do livro "António Secreto" (tradução publicada recentemente, em Portugal, pelas Paulinas), não podia revelar melhor a intenção subreptícia do seu autor. Passo a transcrevê-la: "A imagem dos santos (...) com as suas atitudes patéticas, aquele ar melancólico, aquele toque anémico e evanescente que emana de todo o seu ser, como se fossem eunucos". Esta expressão de carácter negativo para denegrir os santos (imagens das igrejas) não podia ser mais insultuosa para as figuras a que se refere (patéticas, melancólicas, anémicas e até parecendo eunucos)! A editora Paulinas gosta de se revelar muito avançada em termos religiosos, de nivelar a pureza pelo impuro, e, ser, na verdade, uma editora que prima pelo populismo ou por aquilo que dá mais lucro. É assim que o cristianismo soçobra, definha, porque o que é preciso nesta sociedade vazia é agradar às massas populares que procuram que o espírito seja tragado pela matéria e esta passe a ter o exclusivo da existência humana.
19/7/2022

Teresa Ferrer Passos

RESPOSTA DA REVISTA “Mensageiro de Santo António” na rede social Linkedin:

O problema não são os santos, que, cada um na sua época e de acordo com o próprio carisma, procuraram viver com radicalidade a Boa Nova do Evangelho... O problema somos nós que os pintamos e deformamos tornando-os fofinhos e angélicos... assim não temos que nos comprometer no caminho duro da justiça e da paz. Como precisamos todos de olhos puros para ver um pouco mais além, olhando a realidade como ela é, sem a deformar pela lente das nossas verdades construidas no conforto do sofá e no abrigo do genuflexório.



Resposta de Teresa Ferrer Passos:

Esta resposta da revista "Mensageiro de Santo António" está eivada de uma má intenção intrínseca ao acusar as pessoas de "os pintarem e deformarem tornando-os fofinhos e angélicos". Mas o que é isto? Ser angélico também é mau?! Não foi uma figura angélica que Anunciou a Maria que iria ser a Mãe do Salvador? E conclui a revista que essas pessoas - o que é, à partida, abusivo dizer - assim não têm de se "comprometer no caminho duro da justiça e da paz", Em 2º lugar, a revista usa outro argumento demasiado mesquinho. É uma outra acusação da revista, não menos mal intencionada, afinal, como a primeira, refere-se à "deformação da realidade" que é o santo ser visto "pela lente das nossas verdades construídas no conforto do sofá e no abrigo do genuflexório". Mas quem lhes disse que essas pessoas não têm "olhos puros para verem um pouco mais além"? O que aqui foi escrito não passa de uma forma de ridicularizar quem não se conhece, pois é dito que "essas verdades foram construídas no conforto do sofá e no abrigo do genuflexório". Têm a certeza disso?! Como acusar, usando uma argumentação que ridiculariza quem não pensa como nós? E como estes procedimentos têm muito pouco de cristão!

20/7/2022

T. F. P.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

SAUDOSA MEMÓRIA DE MINHA MÃE

Natércia e Teresa na casa de seus avós 
em Alcantarilha

MÃOS DE MÃE

                                 Na memória do dia 11 de Julho de 1990

 

Na amarga sensação da ausência

os olhos embaciam-se de uma chuva rara:

uma chuva de calor elevou-se no ar pesado

e à procura de um gole de água fresca.

Partiste. Era Julho. E a secura do vento secou-me a garganta.

Que contraste com aquele dia de Agosto em que

as tuas mãos me abraçaram

no parapeito da janela da casa dos avós

para uma fotografia forrada de amanhã:

estares junto de mim nesse dia dos meus anos.

 

11 de Julho de 2022

                                             Teresa Ferrer Passos












quarta-feira, 6 de julho de 2022

O dia do meu batismo

 Faz hoje 73 anos que fui batizada na igreja de Nossa Senhora dos Anjos, em Lisboa. E a missão maravilhosa começava com o sal e a água a ser o bálsamo da fé que haveria de crescer em mim.

T.F.P.

Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, Lisboa


quinta-feira, 30 de junho de 2022

O batismo, a água e a conversão

Capela com a antiga pia batismal ou batistério, na igreja matriz, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição, em Alcantarilha.


Antecipando-se a Jesus, João Batista já contemplava com o batismo da conversão pelo arrependimento, não só os judeus mas igualmente os gentios. O seu batismo ainda não era no Espírito Santo, como seria o Batismo depois de Jesus. Era apenas na água. João já nele quer incluir os gentios. Não os hostilizava, antes os chamava à conversão. A sua voz clamou no deserto até ser preso e encerrado num cárcere. Poucos meses depois, seria condenado à morte.

T.F.P.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

 NA NOITE DE S. JOÃO


UM POEMA DE FERNANDO HENRIQUE DE PASSOS que nos lembra a grande missão de S. João Batista: o BATISMO, essa "água fresca que vem do fundo do abismo" e que ecoa nos corações que se deixam bafejar pelo "sabor do sal" que purifica, que traz a memória de um "óleo sobre a pele" e oferece ao ser "os ecos do abismo":

OS ECOS DO ABISMO

O cheiro a água fresca que vem do fundo do abismo
Envolto em reflexos de cores desconhecidas
E sons silenciosos como agulhas
(Prata caindo no veludo negro)
E o sabor do sal, da terra e das sementes
E sentir o óleo sobre a pele
Como memória nova de um batismo
… nova de um batismo …
… nova de um batismo …
… nova de um batismo …

(o eco no fundo do abismo)

Fernando Henrique de Passos, «Bazar Persa», Leiria, Hora de Ler, 2022, pág. 51.


Pia batismal da Igreja Matriz
de Alcantarilha

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Um Poema do livro BASAR PERSA (Hora de Ler, 2022, p.33) de Fernando Henrique de Passos:

  

Falésias da praia de 
Olhos d'Água

OS OLHOS DA MIRAGEM II


De olhos assustados, a miragem
Procurou em vão no nevoeiro
Uma passagem,
Um letreiro.
Longe das dunas, do areal,
Das rochas rachadas pelo sol a pino,
Maldisse a época outonal
E o plúmbeo céu londrino.
Julgou ver um louco que a olhava
E o louco julgou também que a via.
Era então ele que a chamava
Desde o princípio desse dia…
As pessoas passavam a correr.
Se não fossem assim tão apressadas
Teriam talvez visto o nascer
Daquele amor entre dois nadas…

                             Fernando Henrique de Passos

sábado, 11 de junho de 2022

Um poema de Fernando Henrique de Passos do livro intitulado BAZAR PERSA acabado de publicar (Hora de Ler, Leiria, 2022, p.10)

 


A CETINOSA SENSIBILIDADE DOS INSETOS
As patas pequenas, enceradas,
Velam pela correcção da luz,
Pelo desagravo das leis enxovalhadas,
Pela rectidão do caminho que conduz
Às verdes águas deslumbradas.
O lento tecer da ordem fina
Prevalece sobre o caos de antigamente.
Brilham carapaças na neblina
Que esbate ao de leve o sol poente
E orvalha a folhagem da bonina.
Pontos cintilantes e antenas
Tacteiam o musgo nos umbrais
Das portas abertas aos poemas
Que escrevem os pequenos animais
De patas felpudas e pequenas.
Fernando Henrique de Passos


Da realidade, Fernando Henrique de Passos desce, neste conjunto de poemas, ao submerso que é a surrealidade do mundo, deste mundo por desvendar e que flutua quase impercetível na sua passagem por dentro de nós.
11/Junho/2022, Facebook
                                                                            Teresa Ferrer Passos

Teresa, dizes bem, a surrealidade não é uma invenção, é um "mundo por desvendar e que flutua quase impercetível na sua passagem por dentro de nós". O que em Portugal se traduz por surrealidade, devia na verdade traduzir-se por sobrerrealidade, porque era isso que queriam dizer os fundadores do surrealismo: a realidade que eles se propunham explorar era para eles superior à realidade da nossa experiência quotidiana.
11/Junho/2022, Facebook
Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 30 de maio de 2022

A condição precária (deriva de prece) é um dos rumos para alcançar Deus

 Conjugar a espiritualidade do precário implica «habitar o novo», o «orgânico», o «mutante», «ver que não se vive de respostas, mas de perguntas»: «Vivemos no enigma, vivemos na fronteira... mas na espiritualidade do precário percebemos que o enigma não é um limite, que o mistério não é um obstáculo, mas sim uma possibilidade».

J. Tolentino de Mendonça, 16.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, Fátima, 28/5/2022.

domingo, 15 de maio de 2022

POEMA, EM MAIO

As três crianças (Francisco, Jacinta e Lúcia)
perguntaram "Quem é?"


MANHÃ ILUMINADA, A 13 DE MAIO


Aos prisioneiros da terrível prisão do
Centro Correcional de Westville,
em Durban, África do Sul

Viram uma estrela no horizonte,
havia uma chuva densa.
Um buraco negro portentoso desenhou o nada,
o som de um trovão deu o sinal
enquanto pássaros trinavam como a harpa.
Uma voz soou no coração infantil
das três crianças: "Venho do Céu".
Num instante, o mistério encheu a serra inteira,
o arvoredo quis romper o espaço,
as ovelhas baliram com força os chocalhos.
Elas, ao sentirem o abraço de tanta beleza
a soltar-se das faces da Mulher
perguntaram quem era. 
"Venho do Céu", ouviram de novo.
Duvidando, contemplaram emudecidas
o manto branco que a encobria
e viram o próprio sol obscurecer.
A noite apagava o dia.
E uma grande dúvida sacudiu as três crianças.
Por isso, perguntaram ainda: "Quem é?"
As faces da Mulher, como se tivessem a luz
de milhões de estrelas, brilharam e resplandeceram.
E eis que o dia ressurgiu, enchendo o coração das crianças
de confiança. "Venho do Céu", dissera.
E a dúvida não mais as habitou.

15 de Maio de 2022
                                            Teresa Ferrer Passos

domingo, 1 de maio de 2022

DIA DA MÃE

 MARIA, MÃE DA HUMANIDADE




«O Céu desce à terra, toca Maria: Deus re-nasce, nascendo do corpo de Maria, a virgem-mãe, a puríssima criatura que só quer servi-Lo. Tal como Jesus dirá aos seus discípulos que veio para servir (1), Maria o tinha afirmado perante o anjo da Anunciação (2) e ia repeti-lo no hino Magnificat (3), ainda antes de Jesus nascer. Porque Maria está disposta a defrontar o mundo, satanás, as armas do pecado, os seus sofismas e as suas armadilhas, tudo para fazer com que a vontade de Deus não soçobre, a sua infinita misericórdia saia triunfante. A misericórdia era, com efeito, o instrumento última da justiça divina. Ela era precisa para a redenção da humanidade perdida de Deus e perdida de si própria.»

Teresa Ferrer Passos, «Stabat Mater. Contribuição para o Estudo de Maria», Hora de Ler, Leiria, 2020, pág. 48.


(1) «O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida pelo resgate de muitos» Mt 20, 28.
(2) «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» Lc 1, 38.
(3) «Olhou para a humilde condição da Sua Serva» Lc 1, 48.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Dia de Santa Catarina de Sena*

Santa Catarina de Siena (1347-1380) :

«SE FORMOS O QUE DEVEMOS SER, INCENDIAREMOS O MUNDO»
* Co-padroeira da Europa, Doutora da Igreja, professa na Ordem Terceira de são Domingos.

domingo, 17 de abril de 2022

VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA ("site" do Vaticano)

 

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO 

(na íntegra)

Basílica de São Pedro
Sábado Santo, 16 de abril de 2022


Muitos escritores evocavam assim a beleza das noites iluminadas pelas estrelas. Ao contrário, as noites de guerra são atravessadas por rastos luminosos de morte. Nesta noite, irmãos e irmãs, deixemo-nos guiar pelas mulheres do Evangelho, para descobrir com elas a aurora da luz de Deus que brilha nas trevas do mundo. Quando já a noite ia clareando e irrompiam, silenciosas, as primeiras luzes da aurora, aquelas mulheres foram ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus. E lá vivem uma experiência que as turvou: primeiro, descobrem que o sepulcro está vazio; depois, veem duas figuras em trajes resplandecentes que lhes dizem que Jesus ressuscitou; imediatamente, correm a anunciá-lo aos outros discípulos (cf. Lc 24, 1-10). Veem, escutam, anunciam: com estas três ações, entremos também nós na Páscoa do Senhor.

As mulheres veem. O primeiro anúncio da Ressurreição é feito, não sob uma fórmula a decifrar, mas sob um sinal que se deve contemplar. Num cemitério, junto dum túmulo, onde tudo deveria estar em ordem e sossego, as mulheres «encontraram removida a pedra da porta do sepulcro e, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus» (24, 2-3). Por outras palavras, a Páscoa começa invertendo os nossos esquemas. Chega com o dom duma esperança surpreendente. Mas não é fácil acolhê-la. Às vezes (temos de o admitir!) esta esperança não encontra espaço no nosso coração. Em nós, como nas mulheres do Evangelho, prevalecem interrogações e dúvidas, e a primeira reação face ao sinal imprevisto é o medo, é voltar «o rosto para o chão» (cf. 24, 4-5).

Com muita frequência, contemplamos a vida e a realidade com os olhos voltados para baixo; fixamo-nos apenas no dia de hoje que passa, desiludidos quanto ao futuro, fechamo-nos nas nossas necessidades, acomodamo-nos na reclusão da apatia, enquanto continuamos a lamentar-nos e a pensar que as coisas nunca vão mudar. E assim permanecemos imóveis diante do túmulo da resignação e do fatalismo, e sepultamos a alegria de viver. Mas, nesta noite, o Senhor quer dar-nos olhos diferentes, iluminados pela esperança de que o medo, o sofrimento e a morte não terão a última palavra sobre nós. Graças à Páscoa de Jesus, podemos dar o salto do nada para a vida, «e a morte não poderá mais defraudar-nos da nossa existência» (K. Rahner, O que significa a Páscoa, Brescia 2021, 28): esta foi abraçada, inteiramente e para sempre, pelo amor sem limites de Deus. É verdade; pode-nos amedrontar e paralisar. Mas o Senhor ressuscitou! Levantemos o olhar, retiremos dos nossos olhos o véu da amargura e da tristeza, abramo-nos à esperança de Deus!

Em segundo lugar, as mulheres escutam. Depois de terem visto o sepulcro vazio, dois homens em trajes resplandecentes disseram-lhes: «Porque buscais o Vivente entre os mortos? Não está aqui; ressuscitou!» (24, 5-6). Faz-nos bem ouvir e repetir estas palavras: não está aqui! Sempre que pretendemos ter entendido tudo acerca de Deus, podê-Lo arrumar nos nossos esquemas, repitamos a nós mesmos: não está aqui! Sempre que O procuramos apenas nas emoções, muitas vezes passageiras, ou nos momentos de necessidade, para depois O deixarmos de lado esquecendo-nos d’Ele nas situações quotidianas e nas opções concretas de cada dia, repitamos: não está aqui! E quando pensamos em confiná-Lo nas nossas palavras, nas nossas fórmulas e nas nossas tradições, mas esquecendo-nos de O procurar nos cantos mais escuros da vida onde há alguém que chora, que luta, sofre e espera, repitamos: não está aqui!

Ouçamos, também nós, a pergunta dirigida às mulheres: «Porque buscais o Vivente entre os mortos?» Não podemos fazer Páscoa, se continuamos a morar na morte; se permanecemos prisioneiros do passado; se na vida não temos a coragem de nos deixar perdoar por Deus - que perdoa tudo -, a coragem de mudar, de romper com as obras do mal, a coragem de nos decidirmos por Jesus e pelo seu amor; se continuamos a reduzir a fé a um amuleto, fazendo de Deus uma bela recordação de tempos passados, em vez de ir hoje ao seu encontro como o Deus vivo que deseja transformar-nos a nós e ao mundo. Um cristianismo que busca o Senhor entre as ruínas do passado e O encerra no túmulo da rotina é um cristianismo sem Páscoa. Mas o Senhor ressuscitou! Não nos demoremos ao redor dos túmulos, mas vamos redescobri-Lo a Ele, o Vivente! E não tenhamos medo de O procurar também no rosto dos irmãos, na história de quem espera e de quem sonha, na dor de quem chora e sofre: Deus está lá!

Por fim as mulheres anunciam. Que anunciam elas? A alegria da Ressurreição. A Páscoa não acontece para consolar intimamente quem chora a morte de Jesus, mas para abrir de par em par os corações ao anúncio extraordinário da vitória de Deus sobre o mal e a morte. Por isso, a luz da Ressurreição não quer delongar as mulheres no êxtase dum gozo pessoal, não tolera comportamentos sedentários, mas gera discípulos missionários que «voltam do sepulcro» (24, 9) e levam a todos o Evangelho do Ressuscitado. Por isso mesmo, depois de ter visto e escutado, as mulheres correm a anunciar aos discípulos a alegria da Ressurreição. Sabem que poderiam ser tomadas por loucas – aliás o Evangelho diz que «as suas palavras pareceram-lhes um desvario» (24, 9) –, mas não estão preocupadas com a sua reputação, a defesa da sua imagem; não reprimem os sentimentos, nem medem as palavras. Apenas tinham o coração ardente para transmitir a notícia, o anúncio: “O Senhor ressuscitou!”

E como é bela uma Igreja que corre, assim, pelas estradas do mundo! Sem medo, sem táticas nem oportunismos; só com o desejo de levar a todos a alegria do Evangelho. A isto, somos chamados: a fazer experiência do Ressuscitado e partilhá-la com os outros; a rolar aquela pedra do sepulcro, onde muitas vezes fechamos o Senhor, para espalhar a sua alegria pelo mundo. Façamos ressuscitar Jesus, o Vivente, dos túmulos onde O tínhamos encerrado; libertemo-Lo das formalidades onde frequentemente o enclausuramos; despertemos do sono da vida tranquila onde às vezes O reclinamos, para que não perturbe nem incomode mais. Levemo-Lo para a vida de todos os dias: com gestos de paz neste tempo marcado pelos horrores da guerra; com obras de reconciliação nas relações rompidas e de compaixão para com os necessitados; com ações de justiça no meio das desigualdades e de verdade no meio das mentiras. E, sobretudo, com obras de amor e fraternidade.

Irmãos e irmãs, a nossa esperança chama-se Jesus. Ele entrou no túmulo do nosso pecado, chegou ao ponto mais distante onde andávamos perdidos, percorreu os passos emaranhados dos nossos medos, carregou o peso das nossas opressões e, dos abismos mais escuros da nossa morte, despertou-nos para a vida transformando o nosso luto em dança. Façamos Páscoa com Cristo! Ele está vivo e ainda hoje passa, transforma e liberta. Com Ele, o mal já não tem poder, o fracasso não pode impedir-nos de recomeçar, a morte torna-se passagem para o início duma nova vida. Porque com Jesus, o Ressuscitado, nenhuma noite é infinita; e mesmo na escuridão mais densa, nesta escuridão brilha a estrela da manhã.

Nesta escuridão que estais a viver, Senhor Prefeito, Senhoras e Senhores Parlamentares, a escuridão tenebrosa da guerra, da crueldade, todos nós rezamos. Rezamos convosco e por vós, nesta noite. Rezamos por tantos sofrimentos. Nós podemos oferecer-vos somente a nossa companhia, a nossa oração e dizer-vos: “Coragem! Vos acompanhamos!” E também anunciar-vos a grande realidade que é celebrada hoje: Christós Voskrés! (Cristo ressuscitou!)