SILÊNCIO INÉDITO
sábado, 29 de outubro de 2022
UM POEMA
segunda-feira, 24 de outubro de 2022
MEMÓRIA
O Professor Adriano Moreira (1922-2022) cuja morte nos surpreendeu, apesar de já contar 100 anos de idade, marcou a política portuguesa com chave de ouro. Sem dúvida que o autor de «Ciência Política» (1979) e de «O Novíssimo Príncipe» (1977), ficará na história como um grande teórico português do pensamento político. Atravessando dois períodos antagónicos de governação em Portugal - o regime do Estado Novo e o regime instaurado em 25 de Abril de 1974 - soube manter uma coerência e uma integridade de ação político-social exemplar. O seu nome manter-se-á vivo para além dos séculos XX-XXI em que viveu! Por isso, estará sempre perto de nós.
domingo, 23 de outubro de 2022
A PROPÓSITO DO DIA MUNDIAL DAS MISSÕES
Uma breve passagem de «São Joaquim, uma alma à procura de Deus» de Teresa Ferrer Passos, obra ainda inédita:
«Pregava, sem rodeios, desassombradamente, com uma expressão de aramaico culto, as frases curtas, o pensar rápido, tudo era proferido com autoridade. Falava das virtudes, dos bons costumes, da pureza de alma, do desprezo dos bens materiais, da perseverança, mesmo no meio do sofrimento, pois este decorria da precariedade e do caráter efémero da vida e trazia, em primeiríssimo lugar, a recompensa de se descobrir mais do que nunca na presença de Deus; o caminho certo era a esperança que conduzia à serenidade; a grande alegria do ser humano era a fidelidade a si próprio e ao seu próximo.»
segunda-feira, 17 de outubro de 2022
POR OCASIÃO DO MEMORÁVEL 200.º ANIVERSÁRIO DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, EM 7 DE SETEMBRO DE 1822
Excerto de um artigo que publiquei no
«Diário de Notícias», em 26/6/1988, sob o ortónimo de Teresa Bernardino:
"Em 1822 rebentou uma revolta contra o domínio português, que D. Pedro conseguiu dominar, e, no mês de Abril, o jornal Revérbero propôs ao Regente que fosse “o fundador do novo Império”. Pouco depois, a Maçonaria com o apoio do Senado e do Conselho de Procuradores-Gerais das Províncias ofereceu a D. Pedro o título de Protector e Defensor Perpétuo do Brasil, que ele aceitou a 13 de Maio, dia do seu aniversário.
A
agitação nas províncias era incrementada pelo confronto entre os partidários da
autonomia (personificada por D. Pedro) e aqueles que desejavam obedecer às
determinações das Cortes Constituintes da metrópole. O Brasil estava dividido
entre as duas facções, sendo a mais popular contrária à Assembleia Legislativa de
Lisboa, que só humilhava a tão venerada emancipação. Eram recebidas como ordens
afrontosas a continuação de D. Pedro como “Regente até à publicação da Constituição,
mas sujeito ao rei e às Cortes” e a instauração de um processo ao governador de
S. Paulo por ter pedido a permanência do príncipe no Brasil.
As
instruções das Cortes de Lisboa foram interpretadas como uma interferência
abusiva no poder do regente por vários conselheiros, que o consideraram mesmo
“prisioneiro das Cortes”, instituição que mostrava tentar “escravizar o
Brasil”.
Era
o dia 7 de Setembro de 1822 e D. Pedro encontrava-se nas proximidades do
pequeno rio Ipiranga quando alguns emissários lhe deram conhecimento destas
últimas decisões oriundas de Lisboa. Resolvido a não continuar sob a tutela da
revolucionária Assembleia liberal portuguesa, D. Pedro proclamou a ansiada
“Independência ou morte”, que o iria ascender a primeiro Imperador do Brasil.
Aclamado e Coroado Imperador na Capela Imperial do Rio de Janeiro, no dia 12 de
Outubro de 1822 (o príncipe dera o mais lato sentido à decisão tomada a 9 de
Janeiro de 1821, pela qual desobedecia às Cortes, ao ficar em terras do
Brasil).
Em
carta justificativa desse ato, afirmava que se saísse do Brasil, logo este se
tornaria independente, enquanto se ele aí permanecesse, o território não se
separaria de Portugal. A sua convicção maior era a de que a força das armas não
podia impedir a independência, mas sim “o comércio e o brio da reciprocidade”, porque
ambos “são as duas molas reais sobre que deve trabalhar a monarquia
luso-brasílica”.
A
ideia de conservar a ligação entre as duas Cortes é incontestável em numerosas
cartas dirigidas pelo Imperador D. Pedro I a D. João VI, mas as fortes pressões
internas por parte de instâncias políticas e sociais, a prepotência das Cortes
constitucionais, que procuravam retirar ao território a autonomia alcançada ao
longo da permanência de D. João VI na colônia, as honras e os títulos que os
brasileiros lhe outorgaram, com o cognome de Defensor Perpétuo do Brasil, foram
os principais fatores da mudança. Esta está patente nas cartas posteriores ao
mês de Maio de 1821. Era, de fato, inegável o seu exultante entusiasmo ao
escrever que tratava os brasileiros não só como fi lhos “como V. M. me
recomendou, mas também como amigos”.
Noutra
passagem nota a necessidade de não inverter a evolução que os tempos e as
conjunturas provocaram: “Sem igualdade de direito em tudo e por tudo, não há
união”. Nessa disposição de espírito, propunha-se defender os direitos dos
brasileiros, se necessário com o seu sangue “que não corre senão pela honra,
pela Nação e por V. M.”. Para fundamentar a insubmissão perante as Cortes,
escreverá ainda sobre a sua adesão à causa da “colônia”: “Não sou rebelde, como
hão de dizer a Vossa Majestade os inimigos V. M., são as circunstâncias”.
O
grito do Ipiranga culminara um longo processo não iniciado em 1820, como muitos
afirmam, mas remontando à chegada de D. João VI e toda a Corte portuguesa ao
Atlântico Sul. A revolução de Agosto de 1820, se trouxe a vantagem de fazer regressar
o rei à Metrópole, teve na sua essência e como objetivo maior, recuperar os
mercados brasileiros, tão preciosos à burguesia portuguesa
(importação-exportação). Este móbil tornou as Cortes constituintes gravosamente
hostis à comunidade brasileira, que já não podia aceitar a perda da larga
autonomia política ou a fuga dos valores econômicos que estavam a fazer
prosperar aquele extenso e rico domínio português.
A
exigência do regresso do príncipe-regente, escolhido pelo rei de Portugal, numa
difícil conjuntura interna do Brasil, em parte aderente às revoluções
autonomistas e republicanas da América do Sul, foi o detonador de uma situação
insustentável, quer para Portugal, quer para o Brasil.
Sem
poder lutar contra as circunstâncias, como escrevia o Imperador D. Pedro I a
seu pai, conseguiu, no entanto, não provocar o ódio ou até levantamentos de
armas contra a Pátria lusa, que no ano de 1500 começou a desbravar e a
engrandecer a futura grande nação da América Latina. Longos anos de permanência
naquela terra promissora, deram a D. Pedro I a noção exata do seu glorioso
porvir que ele quis ajudar a edificar.»
A MORTE DA RAINHA ISABEL II (8 de Setembro de 2022):
A Rainha Isabel II, uma mulher com uma personalidade fortíssima manteve-se igual a si própria durante 70 anos de reinado e 96 de vida; ainda incansável, apesar de já muito enfraquecida, na véspera da sua morte cumpriu ainda as suas funções - como ela diria o seu dever - de soberana, ao dar posse à nova Primeira Ministra do Reino Unido. Um exemplo de vida a recordar!
UMA GUERRA NUCLEAR GLOBAL?
1.
NO 1º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DA GRANDE ROMANCISTA PORTUGUESA AGUSTINA BESSA LUÍS (1922-2019):
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| Agustina Bessa Luís na sua casa do Porto |
quarta-feira, 14 de setembro de 2022
CAMINHAR SOBRE AS ÁGUAS (um poema)
sábado, 13 de agosto de 2022
AS MINHAS HORAS
Há horas, como as árvores,
não vergam com o vento.
Vejo-o nos dias em que o temporal
atinge as minhas horas.
Imprevistas.
A crua realidade parece consumir
a minha alma. Os instantes são breves.
Sufocada por momentos, sobrevive mesmo assim.
Permanece em busca do afago divino,
afinal, ali à beira.
sexta-feira, 12 de agosto de 2022
Poema inédito de aniversário
à Teresa pelo seu Aniversário
Não por ser Agosto
Mas por tu vires dele.
Isto é ter bom gosto!
Gosto do que escreves,
Gosto do que dizes.
Horas a teu lado
São horas felizes.
Gosto dos teus beijos,
Da tua meiguice.
Gosto de te olhar,
Não sei se já disse.
Não sei se já disse
Que gosto de ti.
Gosto mesmo muito,
Desde que te vi.
Mas brinco pois sei
Que já to disse antes
E que o repeti
Em muitos instantes.
E também repito,
Hoje, no teu dia:
És o meu amor
E a minha alegria!
9/8/2022
sábado, 6 de agosto de 2022
LEMBRANDO O MAIOR ATENTADO MORTÍFERO DA HISTÓRIA
sexta-feira, 5 de agosto de 2022
«Somos uma geração de lamentos, que deixou de saber agradecer, que dissipou os profetas e poetas, os enamorados e os bons. E todavia são eles a parábola, o rebento, ramo de figueira ou de amendoeira do mundo salvado. São-no aqui e agora, sobre a Terra inteira e dentro da minha própria casa, como rebentos bons, embebidos de Céu, impregnados de Deus. Quem me quer bem é lâmpada para os meus passos.»
Ermes Ronchi, "Aprender da sabedoria das árvores" in Avvenire, 12/11/2021 [Fonte: Pastoral da Cultura]
sábado, 30 de julho de 2022
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| Pormenor do retábulo do altar-mor da igreja da Misericórdia, Alcantarilha |
quarta-feira, 20 de julho de 2022
No 29º aniversário do nosso conhecimento pessoal:
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| Jardim da F. Gulbenkian com dois gansos dos Egito |
SILÊNCIOS QUE FALAM
Deixa-me descer até ao centro
do teu coração de silêncio
e aí te farei oferenda das palavras
que venho guardando há quase 30 anos
à espera do momento de as dizer
esse momento que chegou
pois agora já sei dizê-las sem falar.
se abeire do teu coração de silêncio
e deixemo-los trocarem
as palavras que só eles podem ver
e então eu chorarei quando tu chorares
e tu chorarás quando eu chorar
e ambos riremos quando virmos
o mesmo sol nascer.
do teu coração maravilhoso
e conta-me de novo a história antiga
dos dois estranhos que um dia se encontraram
no centro de um jardim abençoado
e foram de mãos dadas pelo mundo
entrelaçando as vozes nos silêncios
ouvindo os sorrisos das estrelas
cantando os sonhos das palavras.
Fernando Henrique de Passos
Nos passos ao de leve soletrados
desci à biblioteca. Aí, descobri as tuas entrelinhas
a inscreverem-se na viagem de um pequeno sonho.
Li com espanto todas as linhas apagadas.
Vogais brotavam assombradas.
Pareciam flores a desenhar uma dor antiga.
E as páginas amarelecidas de poeira pronunciavam
trinados obscuros. Despertavam largas sombras crivadas de
medo.
Um silêncio de morte bramia, aterrador.
Uma luz delirante iluminou-nos.
A vibração do amor tocava de mansinho, o sonho delia-se.
O silêncio serenou-nos. A eternidade soava
docemente.
20 de Julho de 2022
terça-feira, 19 de julho de 2022
NOTA PARA UMA PUBLICAÇÃO CATÓLICA A DENEGRIR OS SANTOS QUE FIGURAM NAS IGREJAS CATÓLICAS:
Comentário enviado para a revista internética "Mensageiro de Santo António" e também para o Facebook e Linkedin:
segunda-feira, 11 de julho de 2022
SAUDOSA MEMÓRIA DE MINHA MÃE
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| Natércia e Teresa na casa de seus avós em Alcantarilha |
MÃOS DE MÃE
Na memória do dia 11 de Julho de 1990
Na amarga sensação da ausência
os olhos embaciam-se de uma chuva rara:
uma chuva de calor elevou-se no ar pesado
e à procura de um gole de água fresca.
Partiste. Era Julho. E a secura do vento secou-me a
garganta.
Que contraste com aquele dia de Agosto em que
as tuas mãos me abraçaram
no parapeito da janela da casa dos avós
para uma fotografia forrada de amanhã:
estares junto de mim nesse dia dos meus anos.
11 de Julho de 2022
Teresa Ferrer Passos
quarta-feira, 6 de julho de 2022
O dia do meu batismo
Faz hoje 73 anos que fui batizada na igreja de Nossa Senhora dos Anjos, em Lisboa. E a missão maravilhosa começava com o sal e a água a ser o bálsamo da fé que haveria de crescer em mim.
T.F.P.
quinta-feira, 30 de junho de 2022
O batismo, a água e a conversão
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| Capela com a antiga pia batismal ou batistério, na igreja matriz, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição, em Alcantarilha. |
quinta-feira, 23 de junho de 2022
NA NOITE DE S. JOÃO
quarta-feira, 22 de junho de 2022
Um Poema do livro BASAR PERSA (Hora de Ler, 2022, p.33) de Fernando Henrique de Passos:
OS OLHOS DA MIRAGEM II
De olhos assustados, a miragem
Procurou em vão no nevoeiro
Uma passagem,
Um letreiro.
Longe das dunas, do areal,
Das rochas rachadas pelo sol a pino,
Maldisse a época outonal
E o plúmbeo céu londrino.
Julgou ver um louco que a olhava
E o louco julgou também que a via.
Era então ele que a chamava
Desde o princípio desse dia…
As pessoas passavam a correr.
Se não fossem assim tão apressadas
Teriam talvez visto o nascer
Daquele amor entre dois nadas…
Fernando Henrique de Passos
sábado, 11 de junho de 2022
Um poema de Fernando Henrique de Passos do livro intitulado BAZAR PERSA acabado de publicar (Hora de Ler, Leiria, 2022, p.10)
segunda-feira, 30 de maio de 2022
A condição precária (deriva de prece) é um dos rumos para alcançar Deus
Conjugar a espiritualidade do precário implica «habitar o novo», o «orgânico», o «mutante», «ver que não se vive de respostas, mas de perguntas»: «Vivemos no enigma, vivemos na fronteira... mas na espiritualidade do precário percebemos que o enigma não é um limite, que o mistério não é um obstáculo, mas sim uma possibilidade».
J. Tolentino de Mendonça, 16.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, Fátima, 28/5/2022.
domingo, 15 de maio de 2022
POEMA, EM MAIO
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| As três crianças (Francisco, Jacinta e Lúcia) perguntaram "Quem é?" |
MANHÃ ILUMINADA, A 13 DE MAIO
havia uma chuva densa.
Um buraco negro portentoso desenhou o nada,
o som de um trovão deu o sinal
enquanto pássaros trinavam como a harpa.
Uma voz soou no coração infantil
das três crianças: "Venho do Céu".
Num instante, o mistério encheu a serra inteira,
o arvoredo quis romper o espaço,
as ovelhas baliram com força os chocalhos.
Elas, ao sentirem o abraço de tanta beleza
a soltar-se das faces da Mulher
perguntaram quem era.
Duvidando, contemplaram emudecidas
A noite apagava o dia.
E uma grande dúvida sacudiu as três crianças.
Por isso, perguntaram ainda: "Quem é?"
de milhões de estrelas, brilharam e resplandeceram.
E eis que o dia ressurgiu, enchendo o coração das crianças
de confiança. "Venho do Céu", dissera.
E a dúvida não mais as habitou.
domingo, 1 de maio de 2022
DIA DA MÃE
MARIA, MÃE DA HUMANIDADE
(1) «O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida pelo resgate de muitos» Mt 20, 28.
(2) «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» Lc 1, 38.
(3) «Olhou para a humilde condição da Sua Serva» Lc 1, 48.
sexta-feira, 29 de abril de 2022
Dia de Santa Catarina de Sena*
Santa Catarina de Siena (1347-1380) :
domingo, 17 de abril de 2022
VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA ("site" do Vaticano)
HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
(na íntegra)
Basílica de São Pedro
Sábado Santo, 16 de abril de 2022
Muitos escritores evocavam assim a beleza das noites iluminadas pelas estrelas. Ao contrário, as noites de guerra são atravessadas por rastos luminosos de morte. Nesta noite, irmãos e irmãs, deixemo-nos guiar pelas mulheres do Evangelho, para descobrir com elas a aurora da luz de Deus que brilha nas trevas do mundo. Quando já a noite ia clareando e irrompiam, silenciosas, as primeiras luzes da aurora, aquelas mulheres foram ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus. E lá vivem uma experiência que as turvou: primeiro, descobrem que o sepulcro está vazio; depois, veem duas figuras em trajes resplandecentes que lhes dizem que Jesus ressuscitou; imediatamente, correm a anunciá-lo aos outros discípulos (cf. Lc 24, 1-10). Veem, escutam, anunciam: com estas três ações, entremos também nós na Páscoa do Senhor.
As mulheres veem. O primeiro anúncio da Ressurreição é feito, não sob uma fórmula a decifrar, mas sob um sinal que se deve contemplar. Num cemitério, junto dum túmulo, onde tudo deveria estar em ordem e sossego, as mulheres «encontraram removida a pedra da porta do sepulcro e, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus» (24, 2-3). Por outras palavras, a Páscoa começa invertendo os nossos esquemas. Chega com o dom duma esperança surpreendente. Mas não é fácil acolhê-la. Às vezes (temos de o admitir!) esta esperança não encontra espaço no nosso coração. Em nós, como nas mulheres do Evangelho, prevalecem interrogações e dúvidas, e a primeira reação face ao sinal imprevisto é o medo, é voltar «o rosto para o chão» (cf. 24, 4-5).
Com muita frequência, contemplamos a vida e a realidade com os olhos voltados para baixo; fixamo-nos apenas no dia de hoje que passa, desiludidos quanto ao futuro, fechamo-nos nas nossas necessidades, acomodamo-nos na reclusão da apatia, enquanto continuamos a lamentar-nos e a pensar que as coisas nunca vão mudar. E assim permanecemos imóveis diante do túmulo da resignação e do fatalismo, e sepultamos a alegria de viver. Mas, nesta noite, o Senhor quer dar-nos olhos diferentes, iluminados pela esperança de que o medo, o sofrimento e a morte não terão a última palavra sobre nós. Graças à Páscoa de Jesus, podemos dar o salto do nada para a vida, «e a morte não poderá mais defraudar-nos da nossa existência» (K. Rahner, O que significa a Páscoa, Brescia 2021, 28): esta foi abraçada, inteiramente e para sempre, pelo amor sem limites de Deus. É verdade; pode-nos amedrontar e paralisar. Mas o Senhor ressuscitou! Levantemos o olhar, retiremos dos nossos olhos o véu da amargura e da tristeza, abramo-nos à esperança de Deus!
Em segundo lugar, as mulheres escutam. Depois de terem visto o sepulcro vazio, dois homens em trajes resplandecentes disseram-lhes: «Porque buscais o Vivente entre os mortos? Não está aqui; ressuscitou!» (24, 5-6). Faz-nos bem ouvir e repetir estas palavras: não está aqui! Sempre que pretendemos ter entendido tudo acerca de Deus, podê-Lo arrumar nos nossos esquemas, repitamos a nós mesmos: não está aqui! Sempre que O procuramos apenas nas emoções, muitas vezes passageiras, ou nos momentos de necessidade, para depois O deixarmos de lado esquecendo-nos d’Ele nas situações quotidianas e nas opções concretas de cada dia, repitamos: não está aqui! E quando pensamos em confiná-Lo nas nossas palavras, nas nossas fórmulas e nas nossas tradições, mas esquecendo-nos de O procurar nos cantos mais escuros da vida onde há alguém que chora, que luta, sofre e espera, repitamos: não está aqui!
Ouçamos, também nós, a pergunta dirigida às mulheres: «Porque buscais o Vivente entre os mortos?» Não podemos fazer Páscoa, se continuamos a morar na morte; se permanecemos prisioneiros do passado; se na vida não temos a coragem de nos deixar perdoar por Deus - que perdoa tudo -, a coragem de mudar, de romper com as obras do mal, a coragem de nos decidirmos por Jesus e pelo seu amor; se continuamos a reduzir a fé a um amuleto, fazendo de Deus uma bela recordação de tempos passados, em vez de ir hoje ao seu encontro como o Deus vivo que deseja transformar-nos a nós e ao mundo. Um cristianismo que busca o Senhor entre as ruínas do passado e O encerra no túmulo da rotina é um cristianismo sem Páscoa. Mas o Senhor ressuscitou! Não nos demoremos ao redor dos túmulos, mas vamos redescobri-Lo a Ele, o Vivente! E não tenhamos medo de O procurar também no rosto dos irmãos, na história de quem espera e de quem sonha, na dor de quem chora e sofre: Deus está lá!
Por fim as mulheres anunciam. Que anunciam elas? A alegria da Ressurreição. A Páscoa não acontece para consolar intimamente quem chora a morte de Jesus, mas para abrir de par em par os corações ao anúncio extraordinário da vitória de Deus sobre o mal e a morte. Por isso, a luz da Ressurreição não quer delongar as mulheres no êxtase dum gozo pessoal, não tolera comportamentos sedentários, mas gera discípulos missionários que «voltam do sepulcro» (24, 9) e levam a todos o Evangelho do Ressuscitado. Por isso mesmo, depois de ter visto e escutado, as mulheres correm a anunciar aos discípulos a alegria da Ressurreição. Sabem que poderiam ser tomadas por loucas – aliás o Evangelho diz que «as suas palavras pareceram-lhes um desvario» (24, 9) –, mas não estão preocupadas com a sua reputação, a defesa da sua imagem; não reprimem os sentimentos, nem medem as palavras. Apenas tinham o coração ardente para transmitir a notícia, o anúncio: “O Senhor ressuscitou!”
E como é bela uma Igreja que corre, assim, pelas estradas do mundo! Sem medo, sem táticas nem oportunismos; só com o desejo de levar a todos a alegria do Evangelho. A isto, somos chamados: a fazer experiência do Ressuscitado e partilhá-la com os outros; a rolar aquela pedra do sepulcro, onde muitas vezes fechamos o Senhor, para espalhar a sua alegria pelo mundo. Façamos ressuscitar Jesus, o Vivente, dos túmulos onde O tínhamos encerrado; libertemo-Lo das formalidades onde frequentemente o enclausuramos; despertemos do sono da vida tranquila onde às vezes O reclinamos, para que não perturbe nem incomode mais. Levemo-Lo para a vida de todos os dias: com gestos de paz neste tempo marcado pelos horrores da guerra; com obras de reconciliação nas relações rompidas e de compaixão para com os necessitados; com ações de justiça no meio das desigualdades e de verdade no meio das mentiras. E, sobretudo, com obras de amor e fraternidade.
Irmãos e irmãs, a nossa esperança chama-se Jesus. Ele entrou no túmulo do nosso pecado, chegou ao ponto mais distante onde andávamos perdidos, percorreu os passos emaranhados dos nossos medos, carregou o peso das nossas opressões e, dos abismos mais escuros da nossa morte, despertou-nos para a vida transformando o nosso luto em dança. Façamos Páscoa com Cristo! Ele está vivo e ainda hoje passa, transforma e liberta. Com Ele, o mal já não tem poder, o fracasso não pode impedir-nos de recomeçar, a morte torna-se passagem para o início duma nova vida. Porque com Jesus, o Ressuscitado, nenhuma noite é infinita; e mesmo na escuridão mais densa, nesta escuridão brilha a estrela da manhã.
Nesta escuridão que estais a viver, Senhor Prefeito, Senhoras e Senhores Parlamentares, a escuridão tenebrosa da guerra, da crueldade, todos nós rezamos. Rezamos convosco e por vós, nesta noite. Rezamos por tantos sofrimentos. Nós podemos oferecer-vos somente a nossa companhia, a nossa oração e dizer-vos: “Coragem! Vos acompanhamos!” E também anunciar-vos a grande realidade que é celebrada hoje: Christós Voskrés! (Cristo ressuscitou!)













