quarta-feira, 19 de junho de 2024

 Acerca dos perigos da Inteligência Artificial

Não tenhamos medo porque a espontaneidade humana, as experiências diversificadíssimas que se vivem, a infinita diversidade de personalidades que cada pessoa representa, as geografias físicas e sociais dos milhões de homens e mulheres, estão muito para além de tudo o que se defina por uma Inteligência Artificial.
19/6/2024
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 18 de junho de 2024

ETÉREO POETA


                           A Luís Vaz de Camões,
                           no V Centenário do seu Nascimento


na incerta data celebramos Camões com arte branda. 
Com que arte, nós aprendizes de poesia,
nós que nos achamos vates e somos insignificantes,
nós apagados da certa palavra,
nós cheios de vãs eloquências,
nós com os louros a ofuscar-nos a visão?
nós, a olhar o mestre, nós, relendo o genial poeta,
aquele que já cruzava os mares tumultuosos
da poesia maior insubmissa sem rival,
bem dentro das entranhas de sua enternecida mãe.
Nós, aqueles que lhe queremos suceder neste século.
Nós, a crivar as artes do imaginoso humano
com o fantasma da novidade, tremenda e amesquinhante
inteligência só rica em artifícial moldura?
Luís Vaz de Camões, tríade auspiciosa
a vibrar melodiosos hinos e louvores
numa voz sonorosa e ardente como fogo.
A escrever a esplêndida oratória sobre a história 
fulgurante destes a quem chamou Os Lusíadas,
herdeiros dos ousados Lusitanos.
Camões, o século de Quinhentos atravessou
com estudo vastíssimo, 
sua força de alma seguindo sem cansaço,
tudo assente no apego à terra estreita mas luminosa,
a vislumbrar as águas transparentes
de um rio de tantas brumas,
o Tejo, esse rio maior, a penetrar o além,
marítima frente de impiedosas ventanias.
Toda a vasta distância se encurtava
nas correntes imprevistas ante a vontade de vencer 
a pequenez da terra, a pobreza da mesa,
o destino parco e ignoto de todo um povo.
Camões, com a beleza nos olhos perturbante,
espraiou-se pelo vasto mundo
de construções honrosas ainda incertas,
deixou como alto e único testamento  
uma memória de pátria,
pátria só por amor movida,
grande e inteira, poderosa e leve,
quase escondida da Europa
de olhar turvado pela discórdia.
Rompendo  as ondas maiores,
os Lusíadas venceram o Atlântico e o Índico,
mares longuíssimos.
Com hostilidade e sangue recebiam as caravelas
e as naus imprevidentes.  
Que terrível desconfiança dos Lusíadas,
dos icónicos marinheiros,
gente jovem e alegre que desconheciam
e por isso mais temiam.
Na espera de caminhos promissores,
acreditando mais nestes que nos nefastos, 
Camões deixou escrita a gesta
dos seus feitos valorosos:

Qual gente Lusa  capaz de abrir as portas
de um mundo fechado sem saber.
E os navegantes da pequena 
terra de silvados serpentes e montículos,
embarcavam em navetas com velas vestidas de obstinação. 
Partiam  do suave Tejo.
A lusa pátria antiga Portugal se chamava
e circum-navegando a África imensa
o Oriente Extremo, a China grandiosa, tocaram.


10 de Junho de 2024

                                     Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 12 de junho de 2024

NO V CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE LUÍS VAZ DE CAMÕES (1524 ou 1525?)


Camões na prisão em Goa, pintura
de autor desconhecido, de 1556
(in revista «Panorama», nº 43-44, 1972, Hemeroteca Municipal de Lisboa).


«Olhai que ledos vão por várias vias,

Quais rompantes leões e bravos touros

Dando os corpos a fomes e vigias,

A ferro, a fogo, a setas e pelouros,

A quentes regiões, a plagas frias,

A golpes de Idólatras e de Mouros,

A perigos incógnitos do mundo,

A naufrágios, a peixes, ao profundo»

                                  Camões, Os Lusíadas, Canto X


 

"Ontem como hoje, a Pátria não pode ser um conceito vão, com uma significância simbólica, mas um conceito vivo, a que a comunidade vê, todos os dias, a expressão pela sua vontade forte, lúcida e prospectiva. Mas, também, sempre que os interesses sectaristas, de grupo ou de facção, se sobreponham aos do todo e da parte como elemento do todo, a nação será fraca e incapaz de defender a sua independência. A cooperação era a garantia do êxito, como o havia demonstrado D. Afonso III ou D. João I. Porque a realidade que o cercava já não correspondia senão à baixeza moral («glória de mandar», cobiça, fama) e à degradação cultural, Camões concluirá Os Lusíadas só movido, como escreve J. Borges de Macedo (in «Os Lusíadas e a História», 1979), pelo amor da Pátria, cuja história foi "marcada pelo sucesso, que conserva a nação, e venceu todas as tentativas de destruição por forças mais poderosas, mouras, castelhanas ou dissidentes". 

in Teresa Bernardino, «Diário de Notícias», 1/4/1980 e «Ensaios Literários e Críticos», Universitária Editora, 2001, p.109.


domingo, 9 de junho de 2024

 APARIÇÃO DE MARIA


Em cada imagem, há um sentido
próprio, inviolavelmente belo.
A imagem pronta para os olhos ávidos
de coisas, coisas sensíveis,
tão em si mesmas visíveis.
E a imagem é a Senhora
mais luminosa do que o Sol.
Viram os mais pequeninos.
Que força possuiu Maria, a descer do céu!
Que impetuosa ascensão para a Sua morada!
Que imagens a maravilhá-los…
Apareceu Maria, como uma estrela intensa,
distante ou cheia de proximidade?
Que sensação vê-la ali, quase ao lado deles,
a transcendê-los e igual à sua imanência!
Oh aparição de Maria, nesses dias 13
do ano de 1917!
Senhora, cercada de relâmpagos de luz e,
ao mesmo tempo, com palavras iluminadas de fé,
uma fé visível,
tão visível de significados,
como sentiram os olhos das crianças.
Oh imagem bela e perfumada! Oh Maria!
Apareceste como qualquer outra mulher,
apareceste como qualquer outra mãe.
Imagem de Maria a aparecer
aos mais simples do mundo, as crianças.
E, precisamente, conheceram-na,
de viva voz e com os seus próprios olhos!

Teresa Ferrer Passos, «Vimos mesmo a Senhora do Céu», Hora de Ler, 2018, pág.11.



sábado, 8 de junho de 2024

V CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE CAMÕES

 NO INÍCIO DA CELEBRAÇÃO DO V CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DO POETA LUÍS VAZ DE CAMÕES a realizar entre 10 de Junho de 2024 e 10 de Junho de 2026, aqui publico um excerto de um artigo datado de 25/8/1976 e assinado pelo meu ortónimo Teresa Bernardino no Jornal Novo.

CAMÕES FALSEADO

Foram publicados pelo Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis alguns cadernos denominados «Juventude e Cultura», que se destinavam, conforme se afirmava na Introdução, a levar às mais vastas camadas estudantis e populares alguns autores menos conhecidos do nosso meio ou cujo acesso era difícil. Escolheram-se, no entanto, autores que embora fossem realmente pouco conhecidos, tinham um valor muito discutível como é o caso de Samora Machel ou Amílcar Cabral, e omitiram-se outras talentosas e significativas figuras das Letras ou da Ciência europeias.
Mais particularmente no que respeita ao nosso país, não se apresentaram os mais relevantes poetas e escritores com a isenção exigida a quem se propôs efectuar tal tarefa, como o prova a publicação de uma peça teatral subordinada ao título Camões.
Formularam-se conceitos imaginosos que deturparam a mensagem do maior poeta português, expressa na sua obra maior: Os Lusíadas. Para se publicar uma peça onde Camões era o centro da acção, era necessária uma fiel interpretação do seu pensamento, livre de qualquer pressuposto, e não desenvolver todo um ambiente que nada tinha de comum com o grande épico, chegando-se mesmo a deturpar a sua verdadeira personalidade. Para além da superficialidade no modo como foi concebida, a peça confere a Camões atributos (bêbedo, hedonista, etc), cujo único fim foi desprestigiá-lo.
O seu autor não analizou previamente as obras de Camões, para depois poder escrevê-la, mas partiu unicamente da imagem que o regime deposto nos oferecia e que era unilateral e, por isso, errónea. Na verdade, se Camões enaltecera os feitos dos portugueses, fizera-o porque eles eram o resultado do saber científico, da coragem e do sacrifício dos navegadores quinhentistas, não deixando de apontar os males que lhes ía trazer a bela aventura ultramarina. Prova clara disso são as sintomáticas palavras pronunciadas pelo Velho do Restelo, que o poeta define como «venerando», «esperto», «honrado» e «sábio só de experiência feito»: « Ó glória de mandar, ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama! / Que mortes, que perigos, que tormentos, / Que crueldades nelas experimentas».
Tal como no passado, Camões foi vítima dos falsos epítetos daqueles que julgando-se «progressistas», continuam imersos em ideias «obscurantistas» que sobre ele tanto pesaram. Com efeito, só quem ignorava o único, o verdadeiro Camões, poderia supô-lo, como se verifica na peça, um modelo perfeito para representar adequadamente a personagem de um nobre latifundiário, explorador do trabalho do povo, que considerava sem quaisquer direitos, imagem actual do grande capitalista. Camões é, nesta peça teatral, identificado com um indivíduo de espírito classista, que ostenta a sua superioridade, que despreza os pobres, vítimas da sua opressão e que vive, claramente, à sua custa.
Difamou-se o poeta ao fazê-lo personificar um grande e intransigente senhor, pois ele sempre foi pobre e também um explorado porque as suas obras não eram condignamente recompensadas pelo rei (foi-lhe conferida uma pequena tença, que muitas vezes recebia tardiamente).
Por outro lado, um dos episódios de Os Lusíadas que é focado, a Ilha dos Amores, é concebido como representando algo que é uma antítese do seu verdadeiro significado. Para Camões, essa Ilha não é mais do que uma aparência, uma ilusão dos sentidos e que, assim, pouco valor tem. Ela é a imagem da fragilidade da felicidade terrena para onde, enganosamente, apontavam a Fama e a Glória, em que os homens acreditavam cegamente.
Era à Glória que aspiravam os portugueses depois de se terem tornado famosos com as navegações. Mas o poeta indica, corajosamente, onde ela conduzia o homem: à cobiça, à ambição, à tirania («E ponde na cobiça um freio duro / e na ambição também, que indignamente / tomais mil vezes, e no torpe escuro / vício de tirania infame e urgente / Porque essas honras vãs, esse ouro puro, verdadeiro valor não dão à gente»). (...)
in Teresa Bernardino, «Ensaios Literários e Críticos», Universitária Editora, 2001, pp. 33-35.



domingo, 2 de junho de 2024

APRESENTAÇÃO do livro IMAGENS PARA ALCANTARILHA de Teresa Ferrer Passos



Na aventura de trazer até ao mundo tudo o que guardámos ciosamente, aqui deixamos mais umas páginas inscritas em instantes de memória e emoção... 

No dia 25 de Maio de 2024, realizou-se, integrado na festa de aniversário da Associação para a Defesa do Património Cultural e Natural de Alcantarilha, este evento de natureza literária, de cariz acentuadamente poético. Memória de alcantarilhenses,  louvores aos campos e à sua flora ancestral, surgiram nestas páginas com o título de IMAGENS PARA ALCANTARILHA. Aqui deixamos algumas fotos gentilmente cedidas pelo Doutor Nuno Campos Inácio:

Abordagem pela autora do conteúdo temático de
"Imagens para Alcantarilha"



O Dr. Sérgio Brito lendo o Intróito de 
Manuel Neto dos Santos inserido na obra.


 

A autora da obra com seu marido,
o poeta Fernando Henrique de Passos



A assistência atenta às palavras sobre o livro 



TFP autografando um exemplar ao leitor


INTRÓITO

 Por Manuel Neto dos Santos[1]

 

Na génese das coisas, o silêncio é a casa do poema. Assim substanciados o verbo, a origem, o caminho, o destino. O poema é sempre rocha sedimentar estratificada pelo tempo, nesse lugar das memórias, nesse espírito do lugar, nesse genius loci, locus amoenus de quem somos. A leitura da poesia de Teresa Ferrer Passos remete-nos para esse recanto exacto e diluído, esse lugar da casa, do espaço, do caminho. Encontramos na poesia desta autora o apaziguamento e o passo demorado, sofrido, mas ainda assim feliz, pela ”revelação”. Estamos perante uma compilação de poemas feitos de “regressos” a que a matriz cristã empresta o tom de litúrgica serenidade. Para cada dia que se ergue como fronteira, a poesia tem essa força discreta de derrubar o mutismo da existência, tornando-se, ritmo, voz, cadência, invocações expressadas em verso. Perpassa, por toda esta obra, o visualismo narrativo; repouso breve e movediço, uma janela a bater na ventania…

Há, em todo este livro de poemas, uma paz insuspeita, um bucolismo de perfumes esparsos, a audição do canto dos grilos, numa ruralidade tão distante do bulício da “grande cidade”. O legado da memória transmuta-se numa imortalidade como quem habita o brilho intenso da frágil flor, a singeleza como único caminho na recorrente amarga sensação da ausência. Alcantarilha; aldeia ao Sul. A cal, a chuva de calor estival, o ar pesado, numa expressão antitética de máximo impacto de recurso estilístico quando a sensibilidade da poetisa almeja “um gole de água fresca”, o verso inicial saciando a, por vezes, árida travessia de existir. Todo este livro tem, no seu âmago, uma saudosa étima memorabilia simbolicamente retratada numa fotografia forrada de amanhã.

Mais do que passado, estamos perante versos de porvir. Há, em toda esta obra, uma (in)temporalidade evocativa, um humanismo puro, um olhar de assombro magoado perante o “desconcerto” do mundo. O eterno versus a vulnerabilidade da terra. O espaço físico da aldeia remete a autora para essa outra “revelação” das portas sem fechadura, das janelas como nesgas estreitas quando o tempo dolente se arrasta na melancolia dos minutos. Ao Sul. O azul das aves, o sol a rodos na sua pujança mediterrânica a lembrar labareda insuspeita. Regressa o olhar de quem escreve numa nova liturgia, no espaço vértice da luz, no sacro cálice da flor da romãzeira. Casto é o tempo, a lembrar a folha em branco aguardando o poema numa visitação apaziguadora, vencendo imagens de revoltos temporais. A aldeia tem esse dócil palpitar e a poetisa ostenta um rosto (ainda) de criança, perfil de quando o rosto era todo ele iluminado pelo espanto. Nas íngremes variáveis dos dias, a poesia assegura -nos que são possíveis os paraísos. Basta tão somente que nos deixemos guiar pela audácia a cada hora, a cada encruzilhada de uma nova estrada. Perante os trilhos estreitos, perante os caminhos apenas enunciados, na aldeia desfralda-se a noite no vagar das sombras; aldeia sem trincos nas portas.

A poesia de Teresa Ferrer Passos, na sua imagística pessoal, fala-nos do fluir do tempo narrado, e vivido, que as mãos nos enruga e o olhar nos entristece e nos irmana de todas as solidões do mundo. Escrever é movimento furtivo e altaneiro quando de nós nos despedimos para fazer todo o sentido na sensibilidade de quem nos lê. O colorido azul-rósea visto pela poetisa sugere-nos um ocaso em Alcantarilha, aldeia – presépio, das ruas estreitas com as estrelas por luzeiros. A terra, a lida da terra e a sua odorífica e adocicada generosidade; perfume dos figos, e das alfarrobas.

Na génese das coisas, Teresa Ferrer Passos acende a candeia da memória feita distância mas, agora e sempre, retorno esvaziando de sentido a solidão. Em suma: Alcantarilha. A luz intensa sobre a cal, a casa a lembrar o fragor de um regato quando lá fora o canto das cigarras nos assevera a secura, a tocha ardente da canícula de um Verão intenso. Alcantarilha, num vergel, a cor fascinante das laranjas. “Lugar da ponte pequena”, das extensas e largas noites narradas por lendas e fantasias. Assim nos é descrita a aldeia, de forma sublime, por Teresa Ferrer Passos numa singela visão do zumbir de abelhas laboriosas, contrariando a canseira impertinente de existir para que o poema seja, em si mesmo, a plena, visual e melódica fertilidade.

 

Monte Boi, 4 de Abril de 2024

 



[1] Poeta (40 obras publicadas), tradutor (24 obras) e declamador. Nasceu em Alcantarilha (Silves), em 1959. Figura incontornável na moderna poesia portuguesa, recebeu recentemente o Prémio Mérito Municipal – Literatura (2023), atribuído pela Câmara Municipal de Silves (Nota da autora).


segunda-feira, 20 de maio de 2024

A paciência iluminista é amarga e só encontra a doçura nos eventuais frutos que produza. A paciência cristã é doce em si mesma, independentemente dos frutos que consiga ou não produzir.
Facebook, 20/5/2024
                                                                                                     F.H.P.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

ACERCA DA REALIDADE


«A adequação do entendimento ou intelecto é sempre um exercício de adequação à ordem e conexão das coisas, isto é, à realidade; é um reaprender a ver fora dos signos e símbolos que usamos como lentes hermenêuticas do real, que mais afirmam acerca de nós mesmos do que das coisas.»

13/5/2024

Marcos Mazmandegan (Professor de Ética)

sábado, 11 de maio de 2024

 À ESPERA DE ACORDAR


Senhor,
solta a tempestade.
Estou no cais de embarque
da ode marítima,
o céu está pesado,
o barco não chega,
e eu estou cansado
da grande cidade.
Solta a tempestade,
não quero dormir.
Vou colher relâmpagos
com que irei escrever
no negro da noite
em letras de fogo
o Teu nome Santo.
Solta a tempestade,
que a cavalgarei
e galoparei
até haver terra.
E no fim do mundo
onde hei de parar
cravarei no solo
a espada de chuva
trazida do céu
por um anjo bom,
e a espada de chuva
será a nascente
da água mais pura
que jamais nasceu
do ventre da terra.
Solta a tempestade,
tenho muita pressa.
Solta a tempestade
e anda comigo:
vamos acordar
a velha cidade!
8/5/2024
Fernando Henrique de Passos

Comentários no Facebook:

Da poética como nascente para uma cruzada plena de sentido e novidade, mesmo que a única arma seja o obstáculo mais difícil de defrontar prefigurado na palavra tempestade.
                                                                                                               TFP

Jesus fala na necessidade de conquistar o Reino de Deus pela violência.
                                                                                                      FHP

A auto-disciplina moral implica violência connosco próprios, na verdade.
                                                                                               TFP


sexta-feira, 10 de maio de 2024

terça-feira, 7 de maio de 2024

O tempo de um livro é o instante que passou por dentro de nós como se não tivesse fim. A terrível palavra fim, que pode ser também a palavra mais sublime.

7/5/2024
Teresa Ferrer Passos

domingo, 5 de maio de 2024

SÚBITO NEVOEIRO


a limpidez do mar inscrevia-se na memória
com a intensidade dos dias antes.
a neblina não estava aí. apenas a ondulação
a mirar-se na sua quietude parecia que
não perdera o sentido. ao longe o mar espraiava
o Tejo incauto ousado e pleno de um desejo a
prolongar-se na sua decrepitude. sem antes.
agora a cidade vadia pavoneava-se de nevoeiro
como se fosse a única joia que gostava de ostentar
neste dia a submergir quase numa chuva rala
esquiva como o meu pensamento sem infinito.
as árvores esconsas no Monsanto elevavam-se
como torres que buscavam ver o Tejo num dia de sol.
vi-as abatidas pela tarde de sombras.
vi-as sob a dispersão de um nevoeiro a deixar em
invisíveis fragmentos os ramos largos.
senti o seu marasmo eloquente demais
como se fosse meu.
a minha tenda de sonho tornava-se visível
ao mesmo tempo que uma realidade invisível subia
até ao meu olhar frente àquele assombro.
tão inesperado e tão belo.

4 de Maio de 2024

                                         Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 17 de abril de 2024

VISÃO PARCA 

na transparência dos silêncios abrem-se
anéis de fumo a perturbarem-me a visão do tempo.
Perco-me a pouco e pouco das horas.
Não descubro o que se eleva ou se transmite.
A minha alma alheia-se na hora derradeira.
No espaço vejo um místico abismo.
Não sei sequer quem é.
À distância vislumbro trilhos impossíveis de atravessar.
Rumos pedregosos parecem esconder-me um rio
de flamejantes águas. Afinal desavindas com o mundo. 
Martelam o fundo de cada grito que escuto.
Inóspito lugar. Ruídos temerosos. Luzes apagadas.
O desconcerto da vida é uma sombra.
Aqui está a verdade que descortino.
Num instante. 
Só um relevo na planície ainda me mostra o mar.
Porquê?

17/Abril/2024

                                       Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 10 de abril de 2024

NAS MÃOS ESCREVO

nas mãos escrevo a poesia dos meus dias
envolvidos em sonho e chuva e sol  
e a derreter um secreto mel de rosmaninho.

nas mãos escrevo as iras largas a arrasar os mansos
e incapazes de abrir as suas para escrever
com as portas bem abertas escancaradas

nas mãos escrevo sem alicerces nem muros fortes
como se o abandono fosse a minha casa
o ninho por onde passam os viajantes perdidos e sem bússola.

nas mãos escrevo sob o peso dos gritos desavindos
que me perturbam e agitam e desfazem o futuro
a naufragar em socalcos de marés sem rumo

nas mãos escrevo as linhas incertas de cada dia
como se fossem capazes de demover o tempo
e de um outro tempo fazer nascer

nas mãos escrevo a incoerência de quem quer a liberdade
                                                                            [só para si
e acende palavras inclementes ululantes
que condenam aquele que se levanta com uma voz diferente

porque a liberdade de discordar ainda não morreu
nas mãos escrevo 

10/4/2024
                                               Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 22 de março de 2024

DOSSIER PÁSCOA/2024

 

CORDEIRO PASCAL, pintura de Josefa de Óbidos
 (datação incerta entre1660 e1670)

 CHRISTO

 

 « Minha mãe, quem é aquelle
Pregado n´aquella cruz?
- Aquelle, filho, é Jesus...
É a santa imagem d'elle!

«E quem é Jesus? - É Deus!
«E quem é Deus? -Quem nos cria,
Quem nos manda a luz do dia
E fez a terra e os céos;

E veio ensinar à gente
Que todos somos irmãos,
E devemos dar as mãos
Uns aos outros irmãmente:

Todo amor, todo bondade!
«E morreu? - para mostrar
Que a gente pela Verdade
Se deve deixar matar.


João de Deus, Campo de Flores, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893 (com Observações Prévias de Theophilo Braga), pág. 373.
 

  ***

SENHOR


Senhor se da tua pura justiça
Nascem os monstros que em minha roda eu vejo
É porque alguém te venceu ou desviou
Em não sei que penumbra os teus caminhos

Foram talvez os anjos revoltados.
Muito tempo antes de eu ter vindo
Já se tinha a tua obra dividido

E em vão eu busco a tua face antiga
És sempre um deus que nunca tem um rosto

Por muito que eu te chame e te persiga.
                                   
                                                    *

O TEU ROSTO

É o teu rosto ainda que eu procuro
Através do terror e da distância
Para a reconstrução de um mundo puro.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Mar Novo" in Obra Poética, II, págs.46 e 47.


***

DOMINGO DE RAMOS

«Uma grande multidão, cortava ramos das árvores e espalhavam-nos pelo chão. E todos diziam em altos brados: ‘Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!’»
Mt 21, 8-9

 

Um jumento aproximou-se. Tocou as suas mãos.
O lombo pôs a jeito. Jesus subiu.
Em alvoroço, o animal seguia à frente
da correria dos jovens descalços,
das crianças em algazarra e dos velhos ávidos
da atenção daquele profeta emergente que olhavam
como o Messias, o prometido, havia tantos séculos.
O profeta Zacarias o tinha propagado.
Com que pormenores o previra!
O povo sábio não o esquecera ainda.
E a esperança estava viva nele
como no curso de um rio vasto a penetrar no mar.
As palavras sábias que o tinham anunciado
tiniam na sua memória a dourar-se
de futuro, um futuro aberto à vida,
toda a renascer,
sem sombra de guerras,
sem derrotas amargas.
E a paz vaticinada no tempo Antigo,
seria a lei maior que já não se romperia,
não se ia perder nunca,
como antes acontecia.

24/3/2024
Teresa Ferrer Passos

***

TEOLOGIA PASCAL EXPERIMENTAL

Rezo com o corpo.

Como é que se reza com o corpo?

Reza-se com o corpo desligando as tensões do corpo.
Abrindo uma clareira de paz
nesse perpétuo campo de batalha que é o tempo
devido às múltiplas incertezas do futuro.

(E a irmã da irmã paz é a irmã mansidão,
capaz de suportar a tensão de um coração contrito
até a transformar em mel.)

Rezar com o corpo é anular a base fisiológica do medo
abrindo espaço para o amor.

Rezar com o corpo é seguir a estratégia
de aniquilar as causas suprimindo os seus efeitos:

Aniquilas o medo suprimindo a tensão nervosa
e suprimes a vontade própria aniquilando o medo,
pois o teu medo é o efeito da tua vontade
e a tua tensão é o efeito do teu medo.

Então já estás a caminho da Páscoa!

Deixa Jesus Cristo entrar por essa clareira de paz
que tu mesmo abriste no teu coração.

Deixa a vontade de Jesus Cristo substituir
a vontade própria que tu próprio suprimiste.

Deixa o mel correr pelas tuas veias como novo sangue.

Deixa-te governar pela doçura do amor.

Nessa altura o teu eu egoísta terá morrido
e tu terás ressuscitado como irmão do Cristo.

E tudo terá acontecido
por teres aprendido a rezar com o teu corpo.

30 de Março de 2024 (Sábado de Aleluia)


Fernando Henrique de Passos


***


BOA PÁSCOA!

FLORES NA NOSSA MESA

NA MEMÓRIA DE JESUS RESSUSCITADO


sábado, 2 de março de 2024








APRESENTAÇÃO pelo poeta Manuel Neto dos Santos do livro MEMÓRIA DE PAZ de autoria de Teresa Ferrer Passos no Salâo Paroquial, em Alcantarilha, Silves (24/2/2024)


«A poesia sublima cada coisa, vinculando-a, particularmente com todo o restante (…). A poesia é a gestação da harmoniosa sociedade, a família universal, o belo lar do universo. (…) Cada indivíduo vive em tudo e tudo vive em si. Devido à poesia, surge a máxima empatia e mútua reciprocidade, a mais íntima comunidade.» [versão de tradução livre M.N.S.]

                                                               NOVALIS, Schriften, pág. 533.



Creio na urgência das palavras que nos salvam, nesse lugar de antanho, a que mais fortes regressamos: à aldeia singela, sendo ela todo o universo. Assim a poesia de Teresa Ferrer Passos.

Um livro de poemas é sempre o refulgir de um farol, no seu “prismático” reflexo, como se cada um de nós fosse frágil embarcação no mar alteroso da vida.

Frágeis, doridos, reflexos de ausência mas, agora e sempre, renitentes como essa fortaleza do sonho.

Sonho renascido do desespero pela travessia existencial. Desafio perene que se impõe às almas genuínas. Deixar falar o coração dado que à sua “linguagem” outra não existe que não seja tudo o que não podemos silenciar ("Novíssimo Sol", Memória de Paz, pag.48).

Na escrita de Teresa Ferrer Passos existe esse lugar de plácido apaziguamento, sagrado e infinito como “a mística equação que se ergue devagar”. Estamos perante um gesto invocatório, buscando dar sentido à “infinitude” da “Matéria Escura ” (Memória de Paz, pág. 50).

Mas também, e essencialmente, de evocação se compõe esta obra; regresso natural de lembranças e imagens, dando corpo a um livro de poemas. Ilustremos, pois, de forma muito clara esta incursão por dentro dos “universos” vividos, agora resgatados e recorrentes sobre o papel. “Santa Mãe” (Memória de Paz, p.58).

Sem sombra de dúvida, estamos perante um corolário de emoções onde a ressurreição da Esperança é recorrente como se pode constatar em “A vida não passará” (Memória de Paz, pág. 26).

Profundamente tocante o domínio da síntese para partilhar convosco toda a imensidão do amor maternal. “Caminho” (Memória de Paz, pág. 57).

                      MANUEL NETO DOS SANTOS

 


FOTOS: No Salão Paroquial de Alcantarilha, Teresa Ferrer Passos com o seu Apresentador, o poeta Manuel Neto dos Santos, natural de Alcantarilha (24 de Fevereiro de 2024).

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

RIMAS PARA UMA VOZ

Um Altar da Igreja de Nossa Senhora da Conceição
em Alcantarilha, Silves

  

                          No 30º aniversário do nosso casamento


O tempo é célere como a luz,
pensava naquele tempo ázimo.
Como se não tivesse tempo para esperar
pelo dia mais alto do calendário,
olhava o relógio e via as badaladas perdidas,
vagas, a desfazerem-se sem fim.
O dia esperado revestia-me de uma espera
ardente e luminosa.
Mas as horas avançavam lentas,
enquanto o dia tombava incerto.
Só o crepúsculo começou a serenar-me
como se a luz ofuscada desesperasse da espera.
As trevas caíam enfim. Era noite e eu não
sabia se haveria manhã. A dúvida sucumbia-me.
Sentia-me sem espaço perante um tempo estranho.
Tudo era confuso. As ideias um turbilhão.
Uma maré obscura vi dentro de mim, a escuridão
escorregava sobre a hora única.
Adormeci com um indefinido cansaço.
A manhã renasceu-me. Inesperada. O sol crescia dourado
como nunca antes. Uma voz soava além.
Suave, demasiado suave. Redentora.
Plena de luz atravessou-me. A minha escuridão
esvaziava-se de sentido.
Então, caminhei. Iluminada
pela tua imagem. Ao altar subi.

19 de Fevereiro de 2024

                                 Teresa Ferrer Passos

***

CARTA POÉTICA (um pequeno excerto)
que o Fernando me ofereceu esta manhã:

«(...) Uma poesia só para ti. Uma poesia tão vasta como um oceano sem fim que navegador algum pudesse cruzar de uma lado ao outro, de Leste para Oeste, ou de Norte para Sul, um oceano novo, um oceano de um género desconhecido, um oceano sem margens nem pontos cardeais, um oceano polvilhado por inúmeras ilhas, e todas elas seriam a Ilha do Amor, do Nosso Amor. (...)»

19/2/2024

Fernando 


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

4ª FEIRA DE CINZAS



DIZ-nos o cardeal Tolentino de Mendonça na sua PÁGINA DO FACEBOOK (14/2/2024): "O que eu tenho de fazer é uma coisa Pequena, não é uma coisa grande; o que eu tenho de fazer é uma coisa Pessoal, não é uma coisa para os outros; e o que eu tenho de fazer é uma coisa Possível. Deus não me pede o impossível, Deus pede-me coisas possíveis".

**

Muitas coisas pequenas, muito pequenas mesmo, juntas, podem construir um campo imenso para o critério de Deus.
14/Fevereiro/2024
T.F.P.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

COMEMORANDO OS 35 ANOS DA LIVRARIA UNI VERSO

Que o João Carlos continue com toda a firmeza a senda que empreendeu nos anos 80! Que estes 35 anos de perseverança numa meta plena de sageza possam alongar-se por muitos e bem aventurados anos! Que na Livraria UNI VERSO ressurgam as iniciativas que o João Carlos tão bem e em tão boas horas levou a cabo nos anos 90! Que o combatente incansável, apesar das tão cansativas procelas, renasça a cada hora deste mundo agreste!
Um abraço sempre amigo,
Teresa Ferrer Passos/Teresa Bernardino

domingo, 14 de janeiro de 2024

UM POEMA: «Seiva doce»

 



SEIVA DOCE

                         

                                    Ao Fernando, no dia dos seus anos


na névoa inebriante de uma só dúvida,
ergo-me no dia nascente,
amortecido pela noite.
A custo, despertam cinzas que se espalham
no ar desta manhã de inverno.
A tiritar de um frio estranho,
sem paredes protetoras, procuro o calor,
mesmo nas tuas mãos geladas de incerteza.
Nelas, instalo o sopro de uma brisa cálida
vinda até o meu coração. Vinda talvez de uma onda larga,
talvez de um mar sem fim.
Desço até ao dentro da tua vontade. E perco-me
de mim. Só tu estás aqui, reparo.
Escrevo nas tuas folhas de cor esmeralda.
E penetro, enfim, na sua seiva doce.

 

14 de Janeiro de 2024

                                    Teresa Ferrer Passos