domingo, 29 de outubro de 2023

DOIS POEMAS

APORIA
 
O paradoxo é fértil e floresce
E assusta o mundo
E é de noite que amanhece
E quanto mais tarde mais fecundo.
No dia em que a luz amou o nevoeiro
Abriu-se uma janela no destino
Por onde entrou de supetão
Uma rajada de ar frio e cristalino.
Um frio de fazer forte o mais cobarde,
Um ar cristalino onde vibrava Cristo,
Um novo destino dizendo: “Não é tarde
Para tudo correr como previsto.”
O nevoeiro, amado, fez-se luz,
Igual à luz da sua amada,
E o amor de ambos não sabe o que é o fim
Pois quem tem tudo não tem medo do nada.
 
29/10/2023
                           Fernando Henrique de Passos

*

INFINITO OLHAR

 «Tornei-me semelhante ao pelicano do deserto;
sou como a coruja nas ruínas abandonadas
não consigo dormir e suspiro;
sou como um pássaro solitário sobre um telhado»
Salmo 102, 7-8
 
nas arribas do mar olho a voz da espuma.
Que voz desconhecida,
que voz de silêncio, imperturbável.
Que voz inesperada agita súbito
o meu coração desvairado e num torpor
só semelhante a um animal perdido e sem alento.
Sinto a espuma em flocos cair sobre os meus olhos
e vejo nela a eternidade toda a transfigurar-se
no teu infinito olhar.

29 de Outubro de 2023
                         Teresa Ferrer Passos



sábado, 28 de outubro de 2023

FRAGMENTO 6

 Se houvesse televisão desde há quase dois mil anos até ao holocausto na 2ª Guerra Mundial, perpetrado por um Estado nazi, racista e xenófobo, imagens idênticas e muito mais graves podiam surgir sobre o que fizeram aos judeus e a Israel, em muitos momentos da sua longa História. Talvez este Povo esteja farto de tantas agressões e, quem sabe, se a dizer apenas aos seus vizinhos: BASTA!

28/10/2023

Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

 Uma passagem de «Anunciação», romance que publiquei em 2003, Universitária Editora, pág.17:

«- Vou contar-lhes uma história que estou a recordar, sem lhes saber dizer como a conheci - disse Maria, a sorrir. - O afecto habitava o coração do pequeno Herodes, mas um dia os servos de sua mãe, uma princesa árabe, receberam ordem para o açoitarem. Herodes, ainda criança, não sabia a razão do castigo. Foi só depois de muito ter chorado pelo sofrimento do castigo, que um dos servos, vendo-o muito triste, lhe disse que não denunciasse o que lhe ia dizer. Nunca beije sua mãe porque, sempre que a tal se atreva, receberá este castigo, mas multiplicado pelas vezes que beijar a princesa. Herodes começou a rir, a rir desaustinadamente e, seguindo para os jardins do palácio, matou todos os pequenos animais que lá encontrou, esquartejando-os em pequenos pedaços, que depois espalhou pelas áleas dos canteiros misturando-os com os gladíolos, os lírios e as dálias»

Teresa Ferrer Passos

sábado, 21 de outubro de 2023

A GUERRA TELEVISIONADA

As imagens tecem palavras que não escutamos porque as imagens fazem sangrar o coração como se fossem farpas, porque as imagens fazem cair a paz e elevam o ódio que a destrói num ápice.

21/10/2023
T.F.P.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

 CAMPO DO MUNDO

                       

                 às vítimas inocentes dos violentos ataques
                       terroristas do Hamas em terras de Israel



as sombras enchem o campo largo
de caprichos inauditos se enfeitam
com artimanhas sofismas e interditos se movem.
é a hora da noite escura
é a hora do dia a penetrar devagar.
encobrindo-se as sombras crivam de raiva o campo
e as náuseas os lamentos os gritos de dor
as lágrimas nas faces lívidas de terror.
as sombras avançam intrépidas
e as areias do deserto desenhado pela paz
tingem-se de sangue a carne escurece
o pó torna-se nada.
as mãos e as armas sufocam os olhares perdidos
estupefactos abismados de espanto
com o destino de crianças e de jovens
e de mães estremecidas.
todos são apagados pelas sombras
e a noite esvai-se enquanto os corpos enregelam
no campo aberto demais ao desvelar
que a verdade da vida
está nas sombras guiadas pela morte
essa imprevisibilidade que ninguém pode vencer
no campo do mundo.

17/10/2023
                                                                 Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

HOMENAGEM e MEMÓRIA



Aos jovens presentes no Festival Música para a Paz, a realizar-se próximo da fronteira de Israel com a Faixa de Gaza, vítimas do terrível ataque do Grupo islâmico palestiniano Hamas, que pretende destruir o Estado de Israel. Algumas centenas foram feitos reféns, tratados barbaramente, outros foram mortos na própria tentativa de fuga.
T.F.P. (in Facebook, 9/10/2023)


Um poema de Else Lasker-Schüler, «BALADAS HEBRAICAS», Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p.87:

DEUS

Não me defendes das boas e das más estrelas;
Todos os seus caprichos se abatem sobre mim,
Há uma ruga que dói na minha testa,
A funda coroa com a luz sombria.

E o meu mundo é só silêncio -
Não impediste o meu capricho.
Deus, onde estás?

Queria ouvir de perto o teu coração,
Trocar contigo, ter o longe à mão,
No dia em que no teu reino de luz
Sagrada, em ouro transfiguradas,
Todas as boas e más fontes correrão.

*

Acerca da Guerra do Hamas, grupo armado terrorista que governa a Faixa de Gaza, declarada a Israel no passado dia 8 de Outubro, sábado:

Que a paz se torne a grande conquista neste mundo humano em que vivemos na precariedade, no inesperado, no impossível, no sofrimento, no horror insuspeito, na crueldade.

12/10/2023
Teresa Ferrer Passos

*

A agressão do Hamas levou a que todos os partidos israelitas se juntassem num governo de unidade nacional.
F.H.P. (in Facebook,12/10/2023)

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

FRAGMENTO 5




O JARDIM


Abro uma porta na realidade,
Ali onde a ciência vê um muro;
Entro no Horto da Verdade
Para a colher qual fruto bem maduro.
Mastigo-lhe a polpa suculenta,
O sumo escorre-me das mãos;
Vou contar a novidade violenta
A todos os humanos, meus irmãos:
Não procureis uma chave arrevesada,
Nem uma porta que custe a ser aberta;
O Jardim tem a porta escancarada
A quem olhar da maneira certa.


Fernando Henrique de Passos
(«Ecos Abaixo do Audível», Leiria, Hora de Ler, 2020, p.9)


Nótula: Fernando Henrique de Passos constrói com uma metáfora - o jardim - essa estreita passagem dos caminhos ínvios da realidade, a porta aberta, escancarada e, ao mesmo tempo, só entreaberta para a ciência.
T.F.P. (in Facebook, 5/10/2023)


domingo, 1 de outubro de 2023

FRAGMENTO 4


EMMANUEL LEVINAS (1906-1995), Filósofo de ascendência judaica e da Lituânia recebeu a influência de Descartes, da fenomenologia de Husserl e da ética de Martin Büber.


"A unidade da pluralidade é a paz, e não a coerência de elementos que constitui a pluralidade. A paz não pode, pois, identificar-se com o fim dos combates por falta de combatentes, pela derrota de uns e a vitória dos outros, isto é, com os cemitérios ou os impérios universais futuros".

Emmanuel Levinas, «Totalidade e Infinito», Edições 70, 1988 , p.286 («Totalité et Infini»,1ª edição, 1980).

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

CAPELINHA DAS APARIÇÕES À NOITE NA COVA DE IRIA

A barca larga sem portas ou paredes

penetra o negro mar para salvar.
                                                         
                                                       T.F.P.

ECOLOGIA

De troncos ressequidos, de folhas velhas, decadentes, de frutos

apodrecidos na terra árida, se construiu e reconstruiu o mundo.

T.F.P.

domingo, 24 de setembro de 2023

DIA MUNDIAL DOS MIGRANTES E REFUGIADOS

 


«Há um grito de dor que ressoa mais do que qualquer outro e que está transformando o "mare nostrum" em "mare mortuum", o Mediterrâneo de berço da civilização em túmulo da dignidade. É o grito sufocado dos irmãos e irmãs migrantes»
Papa Francisco (Twitter oficial de)

Quando cessará a rejeição daqueles que sofrem, nos seus países de origem, o martírio da fome, da doença, do ódio étnico, do ódio religioso, da perseguição inclemente, do desprezo humano?
T.F.P.

sábado, 23 de setembro de 2023

RECORDANDO O DIA DA MORTE DO POETA


 ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924, 17/10-2013, 23/9) - Tendo recebido o PRÉMIO PESSOA, o PRÉMIO NACIONAL DE LITERATURA, entre outros, fundou e colaborou com ensaios literários nas revistas Cassiopeia, Árvore e Cadernos do Meio-Dia. Além de uma vasta  e polimórfica obra poética, cultivou o ensaio literário e ideológico sobretudo na obra Poesia Liberdade Livre. 

«Pedra e a perfeição, essa frescura
da pedra negra e alta
da matéria da linguagem e nos lábios
feridos da pureza numa festa.

Festa do mar e da palavra livre
que festa seria do corpo libertado?
Aqui cintila a coluna do não-ser
aqui se perde a pedra e o fogo livre.

Aqui se acende todavia a pedra
de um outro fogo do mar de uma outra festa
que viria da palavra de outro ser.»

António Ramos Rosa, O Incêndio dos Aspectos, A Regra do Jogo Edições, Lisboa, 1980, p.83.


terça-feira, 19 de setembro de 2023


A oração é uma invocação que pode surgir nos momentos mais imprevistos do dia, esses momentos em que um silêncio chora pela presença íntima de um Pai, o Pai do Céu.

19 de Setembro de 2023

Teresa Ferrer Passos

sábado, 2 de setembro de 2023

AS NOVAS CONSTRUÇÕES CIBER-MENTAIS CONTEMPORÂNEAS


O INFINITO NO HUMANO, O INFINITO NO UNIVERSO

A sociedade humana segue uma via audaz. Esta época em que a tecnologia é infatigável e absorvente das vontades, parece estreitar os caminhos largos e fantásticos do universo, caminhos que os cientistas do cosmo observam com telescópios cada vez mais potentes. Observações recentes - telescópio James Webb - concluem que o universo continua em expansão e a velocidade dessa expansão está a aumentar.
Ora, esta constatação - que leva muitos a esvaziar a essência de Deus - nada altera a continuidade da crença em Deus. Deus, o Ser Infinito, já intuído pela argumentação físico-matemática e metafísica do grande filósofo René Descartes. Perguntam-se os filósofos e os cientistas, o que está por trás desta expansão e o que está por trás da aceleração ou velocidade crescente.
Apenas se pressupõe que estes dois fenómenos podem ser infinitos. No ser humano, há uma ideia inata que pré-existe ao mundo sensível, ao mundo da visibilidade material, sugere Descartes. O inteligível, está nele, por isso o mundo observável pelos sentidos e pelo seu auxiliar tecnológico, sempre podem conduzir ao erro, ao engano, à deturpação da verdade. Contudo, o inteligível é mais fiável, pois assenta no espírito que nos faz ter dentro de si a ideia de infinito, sendo nós seres finitos.  Se um ser finito tem dentro de si a noção de infinito é porque esse infinito existe. A verdade é que nunca o poderia ir buscar a si próprio, sendo apenas finito. 
Assim, a infinitude do universo não pode logicamente levar à ideia de que Deus não existe, mas antes à ideia de que Deus - o Infinito - está a ser a energia que mantem o universo vivo, em movimento, numa mudança construtiva contínua. Não será o universo infinito por ter por trás um Deus que assim nos transmite a sua transcendência na fenomenologia existencial? Não será, hoje, a ciência a mostrar incomparáveis exemplos da infinitude d'Aquele a quem chamamos Deus?

20 de Setembro de 2023
                                                                           Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Sob a negrura dos céus, a nívea espuma das marés a caminho da terra.
T.F.P.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

PERCURSOS VAGOS



CAMINHANDO 


vivo numa precariedade de caminhos.
em cada caminho erguem-se trilhos estreitos
que confinam com outros mais pequenos e frágeis.
no caos da vida as escolhas são um impossível.
não nos deixam um traço de liberdade.
até a água que sugamos como se fosse um néctar
acalenta só por instantes. E estes escorrem
num tempo mínimo  pontos de interrogação
e reticências que esmagam o devir.
as ruas infestadas de vento
cortam cerce o meu olhar vago
a enevoar-se ante a olaia tombada
no chão num extenuamento de folhas.
perplexa olho a indiferença das folhas dos plátanos
com sinfonias vindas de uma força arrasadora.
sigo o caminho carregada com a incerteza
a transformar a abundância ainda visível
em perda anunciada.
a verter o destino numa realidade delirante
vejo nascerem rios de sombra e de canícula.
transmudam-se em grãos de areia 
e zarpam para um caos horribilis desmembrado.
o instável ganha forma e perco-me nos instantes 
sem encontrar a estrada a delir-se com lentidão.
caminho ainda. devagar entre ervas ruins
incapazes de abafar o vento. devagar respiro
aquele vento que passa ignorando-me. o vento.
sobre as minhas interrogações nada augura
senão um vazio largo ou uma aridez parca.
resta um pantanal inscrito além.
penetro a lama. aí o lugar indecifrável 
onde dormem há muito
os meus caminhos apenas enunciados.

30 de Agosto de 2023

                                      Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

FRAGMENTO 3



FRAGMENTO 3


«"O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, d'entre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando uma finas ironias,
O melro, d'entre a horta,
Dizia-lhe:'Bons-dias!'
E o velho padre-cura
Não gostava daquelas cortesias." [...]


Do Poema "O Melro" de Guerra Junqueiro (no 1º Centenário da sua morte) in Henrique Manuel Pereira, «Paisagens Junqueirianas com o Douro ao Fundo», Edições Húmus, Vila Nova de Famalicão, 2023, pág. 215.

sábado, 19 de agosto de 2023

FRAGMENTO 2

Luzula purpúreo, flor nativa dos Açores



«Tal como deixamos de sentir o rosto do outro, em carne e osso, ocultado no anonimato das redes digitais, também os elementos vitais deixaram de merecer a nossa procura sensível, a habitação pausada e a lentidão do pensar.»

João Paulo Costa, "À sombra do Invisível", Documenta, Lisboa, 2020, p. 36.

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Quem poderá escapar às cruezas da vida?  Resta a consolação do amor que está dentro de nós.
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

FRAGMENTO 1


Vidália (Vidalii azorina),
flor nativa dos Açores


«Espantar-se com tudo o que volve e nos envolve, é exercitar cuidadosamente a atenção, gozar do inesperado presente nas coisas mais insignificantes e até adversas».

João Paulo Costa, "À sombra do Invisível", Documenta, Lisboa, 2020, p.32.