quinta-feira, 3 de junho de 2021

Em memória do dia 1 de Junho de 1890, dia da morte, em S. Miguel de Ceide, do escritor CAMILO CASTELO BRANCO (1825-1890)



Da obra O Segredo de Ana Plácido (romance) de Teresa Ferrer Passos:

«Só o perfume dos ramos de alecrim, do alfazema e do rosmaninho aromatizava o ar que respirava deitado de bruços e com a cabeça embrulhada nas minhas pequenas mãos... notei um aroma a rosa. Quase imperceptível. De súbito. Sem dar por isso senti as mãos de Camilo com uma rosa vermelha a tocar os meus cabelos anelados. Senti a flor como se a estivesse a ver. Não levantei os olhos da almofada. Mas vi o odor e o seu colorido aveludado ou leve como uma gotícula de orvalho.
Camilo permaneceu a meu lado alguns instantes. Ou dias(?). Não sei dizê-lo. Que os distingue? entrou após ele o Manuel. Pegava em estrelas do Egipto e goivos brancos. Também não os olhei. Conheci-os só pela sua proximidade ou porque as flores sempre me falaram sem que alguém as pudesse escutar? Toma! disse Manuel. A imobilidade estava em mim. Como um som que não sai do piano. Nada disse. Camilo chamou-me. Jorge! escuta meu filho... deixa-me beijar-te os olhos... deixa-me tocar as tuas faces imersas no nevoeiro que me rodeia sem cessar. Não respondi. Percebi que Manuel saíra, mas Camilo ficou ainda. Não dei pela sua saída. A rosa ficou porque continuei a respirar o seu odor intenso. As flores são mais belas do que todas as estátuas mesmo as de granito, mesmo as flores que não são perfumadas. O perfume de todas as flores faz-me chorar porque ouço a sua voz inconfundível. Tão diferente da voz humana é a mais humana das vozes. Choram em silêncio. Riem sem esboçar uma simples ruga nas suas pétalas.»

Obra citada, Edições Gazeta de Poesia, 1995, pp. 122-123.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

MEMÓRIA do Poeta Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

 


Nasceu em Lisboa a 19 de Maio de 1890.

Lembro alguns dos seus versos cobertos de uma grandeza e de uma angústia inapagáveis, versos a saberem ao sal da desdita e a romperem em oceanos do génio, versos que rindo de si próprios se abrasavam numa alma ímpar de humildade.


Recordo o poema «Nossa Senhora de Paris»:

"Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me e eu fujo também ao luar...
Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar...
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos...
Mas o Oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais...
Fico sepulto sob sírios,
Escureço-me em delírios
Mas ressurjo de Ideais...
Os meus sentidos a escoarem-se...
Altares e velas...
Orgulho... Estrelas...
Vitrais! Vitrais!
Flores de Lis...
Manchas de cor a ogivarem-se...
As grandes naves a sangrarem-se...
- Nossa Senhora de Paris!..."

Paris, 1913 - Junho 15

***

ONTEM FEZ ANOS QUE NASCEU MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

"Já não falo para ser ouvido. Não grito para que me oiças. Quem me ouviria, quem? Tu já me sabes de cor. E não há ninguém no mundo senão tu e eu. Ninguém na terra, ninguém no céu, ninguém no universo. Só eu e tu, que nem precisas ouvir-me. Para quê, se me tens na mão? Só tu e eu, que não posso suportar-te: demasiado grande para mim, demasiado belo! Tu que não me poupas, eu que não te poupo... Deus éramos tu e eu, por que fomos separados? Por que atiraram ao chão o Esfinge Gorda, como um trapo que se deita fora, e ao mesmo tempo me deixaram lá em Cima...?"
Excerto da peça de teatro de José Régio, "Mário ou Eu Próprio - o Outro".

Postagem no Facebook de Fernando Henrique de Passos (20/5/2021)

Comentário no Facebook:

Uma peça de teatro de José Régio a retratar de modo exemplar o Poeta Mário de Sá Carneiro, ele próprio dividido entre o corpo e o ser, dividido entre ele e a alma-irmã, entre ele e Deus. Mário de Sá-Carneiro, ele próprio também autor de peças de teatro hoje esquecidas e escritas na adolescência, a prometer um grande dramaturgo que não se deixou chegar ao fim, mas antes foi o autor do seu fim, tão jovem.

Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 12 de maio de 2021

MAIO, 13


Nossa Senhora de Fátima, 
uma escultura de António Teixeira Lopes,
datada de 1931.


 A primeira Aparição de MARIA em Fátima


Uma passagem da obra Stabat Mater. Contribuição para o Estudo de Maria de Teresa Ferrer Passos:

"A Virgem, diz Lúcia nas suas 'Memórias', foi vista por ela, não como uma imagem interior, puramente mental ou subjetiva, mas como uma pessoa real, objetiva, percecionada pelos seus olhos. Lúcia vê. Escreve Lúcia, numa nota íntima escrita em 13 de Janeiro de 1944: 'Não foi uma aparição, foi uma presença'.

A 'presença' é uma palavra mais forte, talvez a mais forte, para não nos inclinarmos para a tese da Visão, mas para a da Aparição de Maria. Por isso, Lúcia aceita ser a humilde serva incumbida de dar a conhecer a sua presença no mundo.

Como S. Luís Maria de Montfort já sustentava, Maria combaterá Satã, em especial, nos últimos tempos, com os 'seus humildes servos, os filhos que ela suscitará para fazerem guerra ao demónio'. Acrescentando: 'Jesus Cristo é o fim último da devoção à Santíssima Virgem'. O Filho é o princípio e é o fim da devoção à Mãe." («Obra citada», págs 168-169)


terça-feira, 11 de maio de 2021

MAIO: mês de MARIA


Escultura de "Nossa Senhora e o Menino"
de Euclides Vaz na capela do colégio
de S. João de Brito, em Lisboa.

Acerca da interpretação psicanalítica de E. Drewermann e das Aparições da Virgem Maria

«O autor de La Parole qui Guérit (1991) insiste no significado das camadas profundas da mente humana no caso de aparições. Sustenta assim, como critério de verdade e de análise de aparições, a existência de fenómenos de natureza psiquiátrica. Nessa linha psicanalítica, afirma ainda que, "não há literatura poética que não o manifeste: uma história inventada pode ser mais 'real' e mais autêntica que a história factual, porque só a história sonhada, poetisada, permite ao leitor de outra geração, reviver por si o acontecimento passado, sonhando-o, vibrando de compaixão e de esperança". Oferece, depois, como exemplo das narrativas religiosas, os mitos. Ora, o mito não passa pelas Aparições de Maria em Fátima. Ao longo desta abordagem das Aparições na Cova de Iria, este ponto de vista não nos parece, em consonância e, muito menos, aplicável, a estes acontecimentos sobrenaturais.
Igualmente contestável é o facto de o autor entender que uma história inventada num enquadramento literário, pode ser mais real e mais autêntica que a história factual. Esquece que, se a história é inventada, essa história nunca existiu antes (como arquétipo na mente do seu autor), nunca existiu tal como o autor a inventou ao modificar o real, tanto mais modificado quanto maior é a sua capacidade criativa ou o seu objetivo.»

Teresa Ferrer Passos, Stabat Mater. Contribuição para o Estudo de Maria, Hora de Ler, Leiria, 2020, pág. 151.

terça-feira, 27 de abril de 2021

EM MEMÓRIA... Fernão de Magalhães

1ª Viagem de circum-navegação do Globo
sob a capitania de Fernão de Magalhães.


EM MEMÓRIA do descobridor da passagem do Atlântico para o Pacífico pelo Ocidente (provou que a Terra era redonda), Fernão de Magalhães. Nasceu em 3 de Fevereiro de 1480, na aldeia de Sabrosa em Trás-os-Montes, Portugal. A viagem foi realizada ao serviço do rei de Espanha e imperador da Alemanha Carlos V.
No V centenário da sua morte numa ilha das Filipinas, atingido por uma flecha indígena em 27 de Abril de 1521:

Poema de Fernando Pessoa intitulado
FERNÃO DE Magalhães

No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.

De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto —
Cingi-lo, dos homens, o primeiro —,
Na praia ao longe por fim sepulto.

Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.

Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.

Fernando Pessoa, Mensagem, Edições Ática, Lisboa, 10ª ed. 1972, pág. 67 (Parceria António Maria Pereira, 1ª edição, 1934 [única obra publicada em vida do autor]).

segunda-feira, 26 de abril de 2021

UM POEMA de Manuel Neto dos Santos:

 


Um dos cactos da minha varanda, começou a florir
nas folhas/caule.  Um cacto (schlumbergera truncata)
que ostenta flores em vez de espinhos.


Vem! partilhemos o mundo, os retalhos de
países com a negação dos "muros" que tornam
insulares a China, Berlim, Israel, o México e a
Irlanda.
Vem, poesia universal, com as tuas lúcidas
bandeiras e derruba a porta estreita populista.
Vem! partilhemos o mundo que é nossa a
fraternidade das palavras
Aprendamos, dos erros, a conquista de ter (pela
alma) a demanda.

Manuel Neto dos Santos, «Azahar. Tributo a al-Mu'tamid», Wanceulen Editorial, Sevilha, 2020, pág. 157.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Acerca do Portugal da interioridade ou Vilarinho das Furnas (Gerês).

O Portugal inteiro, desprezado hoje, mas ainda aí, ainda pronto a ressurgir um dia, em que gente outra o resgate e lhe dê vida!
Vilarinho das Furnas, Gerês
(foto de Patrícia Cardoso)

Quando uma tecnologia avançada destrói a vida de aldeias ou de vilas do interior de Portugal, porque alguns querem esconder esse interior como inexpressivo da portugalidade, agride-se cada um dos seus habitantes, como se nada significassem e como se todos estivessem condenados a um autoritarismo que quer impor o progresso à custa do desprezo pelos habitantes, esses que, apesar da pobreza da terra se foram perpetuando ao longo das gerações e, heroicamente, perpetuaram as fronteiras históricas da sua pátria. As suas casas estão aí, visíveis, porque não os esqueceram; antes sobreviveram com o seu granito capaz de lhes conservar o chão e as paredes quase intemporais, como se tudo continuasse vivo e ainda à espera da justiça de tempos distantes, mas mais clementes, a augurar-lhes um destino em que tinham deixado de acreditar. Resta esperar.

20/4/2021
Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 12 de abril de 2021

 Uma passagem do inovador romance O VENTO de Claude Simon (1913-2005), Prémio Nobel da Literatura, em 1985:


Plátano, uma árvore que pode atingir
50 metros de altura e 2000 anos de idade


«(...) e Montès sempre na mesma posição (não bulira, não abrira a boca, não esboçara um gesto), vendo agora à sua frente, no lugar onde o intruso, vociferando e gesticulando, estivera momentos antes, a parede nua, incolor, vazia. Mas tão pouco se moveu, nem mesmo pensou em levantar-se para ir buscar a revista e retomar a leitura. Disse-me que nem se lembrava de ter estendido o braço para o interruptor. Porque não foi para dormir: foi apenas um reflexo, um gesto maquinal, e ficou tudo escuro, e ele ali estendido, o braço de novo sob a coberta, o corpo não na posição do sono, da descontracção, mas recto, duro como um cadáver, os pés juntos, os grandes olhos abertos para a obscuridade onde, pouco depois, começaram a distinguir o retângulo mais claro da janela, enquanto no tecto iam e vinham sem parar os ramos de plátano. (...)»

    Claude Simon, O Vento, tradução de Mário Cesariny de Vasconcelos, Colecção Contemporânea, 42, Portugália Editora, Lisboa, pág. 196 (1ª edição, Paris, 1959)

domingo, 21 de março de 2021

DOSSIER

 PÁSCOA / 2021


Jesus Cristo:
Vitral  da igreja de S. João Batista,
em Ashfield, Nova Gales do Sul, Austrália.
Autoria de Alfred Handel (1931-2009)




«Eu e o Pai somos um»

                                                  Jo 10, 30


«Eu sou o Caminho, a Verdade  e a Vida.»

                                                                            Jo 14, 6


«Olhai para os lírios do campo, como eles crescem. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.»


                                                                                    Mt 6, 28


Pequeno campo. na Semana Santa (Páscoa/2021) 
junto à Estrada do Calhariz de Benfica, em Lisboa


POEMAS NA PÁSCOA 

                     de Fernando Henrique de Passos



LITURGIA DO SILÊNCIO


Senhor, na Tua Páscoa

desceste ao fundo mais fundo do silêncio

e regressaste com a partícula de nada

que salvará o mundo.

 

30/3/2021



A PÁSCOA ENTRE AS FLORES

 

Morri na Páscoa,

Morri em plena Primavera.

 

As flores cercaram-me,

Pegaram-me na mão,

Despiram-me do Eu.

 

Quando ressuscitei

Era de novo Deus.

 

21/3/2021

                      

Comentário:

Partindo da ideia de que o Eu de Jesus é Deus, Fernando Henrique de Passos constrói uma belíssima metáfora, chegando a fazer contracenar a real crueldade dos soldados romanos, com a fantasia da bondade das flores. Assim, diz o Poeta: "As flores cercaram-me, / Pegaram-me na mão, / Despiram-me do Eu."
Teresa Ferrer Passos in Facebook



Altar alusivo à Páscoa
na nossa casa

 

POEMAS NA PÁSCOA

                               de Teresa Ferrer Passos


A Palavra de Jesus é a Palavra do Pai,

é a palavra de Deus

na sua santíssima incarnação.


                  

AS MÃOS DE JESUS

  

Não estavas cá… se tivesses estado,

Lázaro não morreria, exclama Maria.

“O meu amigo morreu?!”, diz Jesus.

Jaz no sepulcro há já três dias.

“Vou ter com ele e com as minhas mãos,

viverá”.

Que poder tens nas tuas mãos?

Não respondeu e saiu da casa.

Seguiu-o Maria, à distância.

Jesus entrava no sepulcro.

Maria ficou à porta. Incrédula,

viu as suas mãos apertarem

os braços de Lázaro, como se o abraçasse.

Em silêncio, Jesus erguia-o vivo, vivo de novo.

Maria chora e ri de alegria:

Lázaro, pelo seu pé, redivivo,

abraça-a ao sair do sepulcro.


Nem Lázaro nem Maria, viam Jesus.

Um grande silêncio pairou à volta deles.

Experimentavam, agora, a sua  ausência dolorosa.

 

30/3/2021

                                    

DIVINAS


As flores irrompem nos montes,
irreprimíveis,
impetuosas,
determinadas.
Querem rumar ao azul? Ou à luz? Ou ao mundo?...
Não sabem bem. Só sabem que nasceram
para mostrar o que é amar
sem razões, sem objetivos.

19/3/2021

RENASCEM OS LÍRIOS DA TERRA



Os lírios na intensidade do seu branco
ostentam a pureza. Vem-lhes da terra.
E se oscilam com o vento dos lugares, 
sabem suportar o abalo com as pétalas
arqueadas, como a recebê-lo com um abraço.
Os lírios são como pequenas casas
caiadas com contornos amarelos
em torno das portas e das janelas,
na procura da alegria escondida nas trevas,
nos mares e nas grutas dos rochedos.  
Os lírios restauram o pó e transformam a água  
em veludos levíssimos sem sombra de rudeza.
Sobem para o azul sem perderem
a verdade da sua realidade,
nem a beleza breve e infinita. 
Os lírios mirram devagar   
como se recebessem uma bênção inesperada, 
uma estrela caída e a brilhar, 
quase a ser toda a luz do universo.
Num dia, entreabrem as pétalas
para toda a vida;
num outro, tão próximo deste,
toda a vida se esvai.
Mesmo assim, os lírios diriam:
valeria a pena a vida,
mesmo que fosse um só dia.

18/Março/2021
                                            

VAZIO

 

O mistério da terra:
nua, em torrões, seca, imóvel, nas trevas.
E dela surge e ressurge a vida!


O sepulcro ficou vazio.

"Onde estás, Jesus?"

Não aqui, não aqui, disse a mulher.

"Ressuscitou, como disse?!"

Ele o anunciou dias antes de morrer,

na cruz, num monte triste.

"Para onde foi?"

Eu não sou daqui, dissera.

Para o Seu reino terá ido

numa nuvem branca

a desvanecer-se no vago azul.

"Mas o Seu reino ninguém o conhece!"

Não, ninguém o conhece. Por enquanto.


16/3/2021

E as flores ressuscitaram
nesta Páscoa, de novo,
 a imitar Jesus...





segunda-feira, 15 de março de 2021

Passagens de... «STABAT MATER» (7)

Imagem de Nossa Senhora do Rosário na igreja matriz de Fátima "velha", de autor desconhecido (século XVI). Aí foram batizados os três pastorinhos e Lúcia contemplou-a, como nos diz nas suas "Memórias".


Fátima, 1917

O Acontecimento

O Sentido das Aparições:

" «Fazei bem aos que vos odeiam», diz Jesus. Esta frase ressurge com Maria nas Aparições de Fátima: obedecei à vontade do meu Filho, ofendido pela descrença na Sua pessoa divina e, mesmo assim, pronto a perdoar aqueles que se converterem.
«Continuem a rezar o terço para obter a paz no mundo e o fim da guerra», alerta Maria. O espectro da guerra, com todas as suas irremediáveis consequências, é a expressão viva do inferno a que se refere Nossa Senhora. Por isso, Maria está aqui para repetir, incansavelmente, como há dois mil anos: «Fazei o que Ele vos disser».
Na 3.ª Aparição, a visão do inferno, as imagens de um fogo castigador, poderão ter como objetivo maior, mostrar quanto o Céu está longe da Terra, e, parece mesmo, nos nossos dias, cada vez mais longe".

Teresa Ferrer Passos, Stabat Mater. Contribuição para o Estudo de Maria, Hora de Ler, Leiria, 2020, pág.144.

sábado, 6 de março de 2021

POEMA INÉDITO:



FRAGILIDADE DE TEMPO

                  "Em memória de todos os que morreram,
                    vítimas da pandemia de Covid 19"

Nas ravinas, ao abandono,
papoilas vivem sorrindo,
à espera de um olhar, mesmo
só de uma criança...
Mas onde estão as crianças, para as acariciar?
A tristeza, mesmo assim, parece não entrar nelas.
Balançam com o vento firme, como se fossem cair.
Porém, o caule de seiva fina é suporte que não
as deixa quebrar. Sustenta antes
as pétalas para as poder preservar.
No seu corpo tão precário, tão sem tempo,
prosperam com humildade. Até que, um dia,
uma pomba sôfrega as sorve e esfarela.
Corta-lhes o caule da vida.
As pétalas tombam por terra...
Eis a morte que chega.
E as papoilas pereceram
sem vontade de durar.
   
5/Março/2021
                                    Teresa Ferrer Passos

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Passagens de... STABAT MATER (5)

Nossa Senhora de Fátima
do escultor A. Teixeira Lopes
(1931)



UM ACONTECIMENTO

FÁTIMA, 1917
O Sentido das Aparições

«Na primeira Aparição, em Maio, Maria identifica-se, diz quem é. Não pode haver dúvidas, nem incertezas. O Céu está ali nas palavras da Senhora. Maria diz donde vem e diz para que está ali. Há uma missão de que o Céu a incumbiu: a de dar a conhecer aos homens, especialmente através de Lúcia – muitos anos depois, escreveria o que tinha visto e ouvido –, que Deus está atento aos desvios da doutrina proclamada por Jesus até à Sua condenação à morte, à crucificação.

Uma nova Aliança nascia entre Deus e o homem. Mas muitos não a reconheceram, não a aceitaram. O que Jesus assinara com a humanidade, não fora subscrito por esta. A ignorância ou a indiferença perante a Sua Via Sacra para redimir e salvar o Homem, ofendem o Salvador. «Jesus está muito ofendido», revelara Nossa Senhora. Falando assim, Maria mostra como o amor aos homens revelado por Jesus não obtivera correspondência. A terra onde Ele lançara a semente dera poucos frutos.

A Aparição de Maria repetiu-se ao longo de seis meses. A Sua figura humana tornava o Céu acessível. Nos diálogos das Aparições, as três crianças não distinguem o Céu da Terra. Nada pode ser tão próximo, nada pode ser tão sedutor. E, Lúcia fica obcecada cada vez que fala à Senhora mais brilhante que o Sol. Quer obedecer-lhe, porque a vê dolorosa. Vê-a uma Mãe mortificada pelo sofrimento de Seu filho, pelo suplício da cruz para santificar a vida do ser humano. Como escreve Armindo dos Santos Vaz "a vida corpórea, incarnada, desde a incarnação de Jesus é sagrada".

A sacralização do humano surge no corpo místico de Jesus. Com a ressurreição e a subida ao Céu de Jesus, o corpo humano deixa de ser insignificante, mesquinho, um nada existencial. A vida humana passa a estar consagrada, ou seja, comparticipa do sagrado e da sua qualidade.»

Teresa Ferrer Passos, Stabat Mater - Contribuição para o Estudo de Maria, Hora de Ler, Leiria, 2020, pp. 139-140.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Poema Inédito 1

Teresa e Fernando na igreja de S. Nicolau, Rua da Vitória, Lisboa
A ESPERANÇA
     
                     No 27º aniversário do nosso casamento
       
Se me perguntavam por mim eu respondia
"Estou à espera...
à espera que aconteça alguma coisa..."
Não sei de onde me vinha a crença cega
que alguma coisa viria a acontecer.
Não sei que escaninho do meu ser
guardava essa memória do futuro,
memória tão doce entre a amargura
das feias cicatrizes do passado,
memória insólita face a leis razoáveis
que só registam aquilo que já foi.
E tu chegaste,
nascida da Esperança tu chegaste.
E, desde então,
a cada dia tu chegas a sorrir,
e dás-me a mão,
e levas-me de volta ao que há de vir.
      
19 de Fevereiro de 2021
     
                          Fernando Henrique de Passos

Poema inédito 2

Teresa e Fernando na livraria Ler Devagar,
em Lisboa no ano 2000


CASA DE UMA SÓ PALAVRA
              No 27º aniversário do nosso casamento
   
nas folhas verdes de um lírio branco
escrevo a palavra amar.
Amar. E vivo na casa
de uma só palavra, como se
aí estivessem todas as palavras.
De súbito, pego no cálamo com a ousadia
que a sustenta. Num instante vejo o cálice
do amor a verter uma água azul. Transborda.
Desliza no meu rosto. Transparente e mansa,
penetra-te e atravessa-me como cascata branca.
Confunde-se com o vento, solta-se de uma larga asa 
e apaga o imenso nevoeiro.  

19 de Fevereiro de 2021

Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

A palavra Deus

A expressão "Deus" é uma metáfora da "Origem" ou "aquilo que está por trás", a teoria (do grego teo [=deus]-ria) do que vemos; trata-se da teoria subjetiva que deu origem ou fundamenta a realidade objetiva.
  
18/2/2021
T.F.P.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Passagens de... STABAT MATER (5)

Primeira imagem de Nossa Senhora (1920)
da autoria de José Ferreira Thedim,
santeiro da Trofa, colocada
na Capelinha das Aparições


UM ACONTECIMENTO

1. FÁTIMA, 1917

1.1- Três crianças da serra d'Aire

«O papel de Lúcia era o de intermediária, pois bastava transmitir o essencial do que lhe era comunicado. Não era preciso que Lúcia conjeturasse nada. Não era preciso que pensasse alguma coisa ou que soubesse pensar sobre as coisas de Deus. Devia apenas testemunhar, como uma criança testemunha. Dizer o que escutara tal e qual. As palavras ditas simplesmente, sem frases desnecessárias, excessivas, como os adultos gostavam. O que vira e ouvira devia ser dito a todos aqueles que conhecesse. Sem interpretações de sentido. Tudo dito de modo espontâneo, transparente, sem subterfúgios, como as crianças fazem. Dizer a verdade.

  

Para Jesus e para Maria, Sua Mãe, não era preciso pensar, era preciso ver. Ver e ouvir a mensagem para ensinar a amar aqueles que eram maus, que não amavam, antes odiavam. Tudo se resumia em amarem aqueles que desobedeciam à vontade de Deus. E, para amá-los de verdade não era preciso pensar. Aqueles que amam, não pensam que é preciso amar. Porque se pensassem, não amavam na perfeição. Apenas pensavam que amavam. Porém, não amavam como Jesus queria que fosse o amor.»

 

Teresa Ferrer Passos, Stabat Mater – Contribuição para o Estudo de Maria, Hora de Ler, Leiria, 2020, pp.117-118.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Fim do holocausto, em 27 de Janeiro de 1945

MEMÓRIA da libertação do Campo de Concentração e Extermínio Nazi de Auschwitz pelas tropas soviéticas em 27 de janeiro de 1945.

A palavra holocausto ressurge com Hitler, na 2ªGrande Guerra Mundial: significara o sacrifício ao "deuses", praticado em Israel no 2º milénio a.C.. A vítima era humana ou animal e morria queimada numa pira.

Lembremos a referência da Antiga Escritura ao sacrifício de uma criança, Isaac, filho de Jacob. O pai julga agradar ao Deus único ao sacrificar pelo fogo o próprio filho. Depois, compreende que se enganava. Deus repreende-o.

 Terão os nazis imitado, em grande escala, essa crueldade abominável, para agradar aos seus "deuses" e, assim, obter a sua proteção?!

27/Janeiro/2021
                                                                       Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Passagens de...



STABAT MATER (3)


«Perante o insólito, Maria esperava os instantes, sem encontrar justificação para a Palavra além-do-natural que lhe acontecera. Contudo, como podia estar tudo igual ao antes? Estava mesmo ou parecia-lhe apenas? Ela estava igual à jovem de instantes antes, sentia-o. Antes da paragem do tempo. Antes da visita tão improvável (como espectável?) na terra de Canaã, uma terra sempre à espera de escutar a voz do seu único Deus, de ouvir os oráculos dos seus profetas, dos seus sábios, da Sabedoria. 

Com os pensamentos confrontados com incumbência tão desconcertante do Senhor, Maria sentia medo, não do destino que Deus lhe oferecia, mas de uma paz exorbitante, talvez vinda do fundo dos tempos, e a construir a última idade da insensatez e da injustiça humanas. O mistério do antes, do agora e do depois, perturbava-a. O anjo fora breve. Tão poucas palavras e tão cheias de significação. Era preciso meditar longamente nelas. Descobrir todos os seus sentidos, ler bem os sinais até ao sem limite, até Deus.» 

Teresa Ferrer Passos, Stabat Mater - Contribuição para o Estudo de Maria. Da "Anunciação" ao "Magnificat", da Devoção e das Aparições em Fátima, Hora de Ler, Leiria, 2020, pp. 32-33.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

UM POEMA PARA...




RÉSTIA DE ESPAÇO

                            Ao Fernando no dia dos seus anos

Luz filtrada numa réstia de espaço,
vejo-te num espelho imprevisto.
O teu chegar é presença doce
de abelha calma num dia frio.
A tua voz, suave como um feltro,
ilumina a minha alma. De súbito,
és lanterna mágica, és farol no mar.
E a nossa gruta, que abriga
dos desertos largos e sem sonhos,
foi claridade sem medida.

    14 de Janeiro de 2021
                                        Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Passagens de...


STABAT MATER (2)

A Anunciação a Maria: o instante único

«Olhando em seu redor, Maria começava a vislumbrar um sentido nas palavras que escutava: ela seria a mãe do Salvador, aquele em que "o seu reinado não terá fim" (1), como pronunciara o anjo sobre o menino que ia nascer. Ele será rei, o rei de todos os reis e reinará sem fim. O "Espírito Santo virá sobre mim e eu serei a sua mãe".

Uma mulher seria a porta para o plano redentor que se abria no mundo. Deus mostrava-se ao mundo humano por meio daquela simples mulher. Que bênção que lhe caía aos pés, como se fosse a coisa mais banal do mundo. No silêncio do seu recatado quarto. Sem ninguém para testemunhar o que escutara.

O Filho do Espírito Santo beberia do seu sangue e viveria no seu corpo e na sua ternura maternal; depois, nasceria e estaria com ela até à hora que o Pai O chamasse para a Missão. Era o Santo do Altíssimo, o Salvador; o humilde era exaltado e reinaria para sempre. "Não temas porque não serás confundida" (2) escrevera Isaías. Os escritos antigos revelavam-lhe palavras que pareciam antecipar-se à sua missão anunciada pelo anjo.» 

(1) Lc 1, 33. 
(2) Is. 54, 4. 

Teresa Ferrer Passos, Stabat Mater - Contribuição para o Estudo de Maria. Da "Anunciação" ao "Magnificat", da Devoção e das Aparições em Fátima, Hora de Ler, Leiria, 2020, pág. 26.