segunda-feira, 9 de outubro de 2023

FRAGMENTO 5




O JARDIM


Abro uma porta na realidade,
Ali onde a ciência vê um muro;
Entro no Horto da Verdade
Para a colher qual fruto bem maduro.
Mastigo-lhe a polpa suculenta,
O sumo escorre-me das mãos;
Vou contar a novidade violenta
A todos os humanos, meus irmãos:
Não procureis uma chave arrevesada,
Nem uma porta que custe a ser aberta;
O Jardim tem a porta escancarada
A quem olhar da maneira certa.


Fernando Henrique de Passos
(«Ecos Abaixo do Audível», Leiria, Hora de Ler, 2020, p.9)


Nótula: Fernando Henrique de Passos constrói com uma metáfora - o jardim - essa estreita passagem dos caminhos ínvios da realidade, a porta aberta, escancarada e, ao mesmo tempo, só entreaberta para a ciência.
T.F.P. (in Facebook, 5/10/2023)


domingo, 1 de outubro de 2023

FRAGMENTO 4


EMMANUEL LEVINAS (1906-1995), Filósofo de ascendência judaica e da Lituânia recebeu a influência de Descartes, da fenomenologia de Husserl e da ética de Martin Büber.


"A unidade da pluralidade é a paz, e não a coerência de elementos que constitui a pluralidade. A paz não pode, pois, identificar-se com o fim dos combates por falta de combatentes, pela derrota de uns e a vitória dos outros, isto é, com os cemitérios ou os impérios universais futuros".

Emmanuel Levinas, «Totalidade e Infinito», Edições 70, 1988 , p.286 («Totalité et Infini»,1ª edição, 1980).

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

CAPELINHA DAS APARIÇÕES À NOITE NA COVA DE IRIA

A barca larga sem portas ou paredes

penetra o negro mar para salvar.
                                                         
                                                       T.F.P.

ECOLOGIA

De troncos ressequidos, de folhas velhas, decadentes, de frutos

apodrecidos na terra árida, se construiu e reconstruiu o mundo.

T.F.P.

domingo, 24 de setembro de 2023

DIA MUNDIAL DOS MIGRANTES E REFUGIADOS

 


«Há um grito de dor que ressoa mais do que qualquer outro e que está transformando o "mare nostrum" em "mare mortuum", o Mediterrâneo de berço da civilização em túmulo da dignidade. É o grito sufocado dos irmãos e irmãs migrantes»
Papa Francisco (Twitter oficial de)

Quando cessará a rejeição daqueles que sofrem, nos seus países de origem, o martírio da fome, da doença, do ódio étnico, do ódio religioso, da perseguição inclemente, do desprezo humano?
T.F.P.

sábado, 23 de setembro de 2023

RECORDANDO O DIA DA MORTE DO POETA


 ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924, 17/10-2013, 23/9) - Tendo recebido o PRÉMIO PESSOA, o PRÉMIO NACIONAL DE LITERATURA, entre outros, fundou e colaborou com ensaios literários nas revistas Cassiopeia, Árvore e Cadernos do Meio-Dia. Além de uma vasta  e polimórfica obra poética, cultivou o ensaio literário e ideológico sobretudo na obra Poesia Liberdade Livre. 

«Pedra e a perfeição, essa frescura
da pedra negra e alta
da matéria da linguagem e nos lábios
feridos da pureza numa festa.

Festa do mar e da palavra livre
que festa seria do corpo libertado?
Aqui cintila a coluna do não-ser
aqui se perde a pedra e o fogo livre.

Aqui se acende todavia a pedra
de um outro fogo do mar de uma outra festa
que viria da palavra de outro ser.»

António Ramos Rosa, O Incêndio dos Aspectos, A Regra do Jogo Edições, Lisboa, 1980, p.83.


terça-feira, 19 de setembro de 2023


A oração é uma invocação que pode surgir nos momentos mais imprevistos do dia, esses momentos em que um silêncio chora pela presença íntima de um Pai, o Pai do Céu.

19 de Setembro de 2023

Teresa Ferrer Passos

sábado, 2 de setembro de 2023

AS NOVAS CONSTRUÇÕES CIBER-MENTAIS CONTEMPORÂNEAS


O INFINITO NO HUMANO, O INFINITO NO UNIVERSO

A sociedade humana segue uma via audaz. Esta época em que a tecnologia é infatigável e absorvente das vontades, parece estreitar os caminhos largos e fantásticos do universo, caminhos que os cientistas do cosmo observam com telescópios cada vez mais potentes. Observações recentes - telescópio James Webb - concluem que o universo continua em expansão e a velocidade dessa expansão está a aumentar.
Ora, esta constatação - que leva muitos a esvaziar a essência de Deus - nada altera a continuidade da crença em Deus. Deus, o Ser Infinito, já intuído pela argumentação físico-matemática e metafísica do grande filósofo René Descartes. Perguntam-se os filósofos e os cientistas, o que está por trás desta expansão e o que está por trás da aceleração ou velocidade crescente.
Apenas se pressupõe que estes dois fenómenos podem ser infinitos. No ser humano, há uma ideia inata que pré-existe ao mundo sensível, ao mundo da visibilidade material, sugere Descartes. O inteligível, está nele, por isso o mundo observável pelos sentidos e pelo seu auxiliar tecnológico, sempre podem conduzir ao erro, ao engano, à deturpação da verdade. Contudo, o inteligível é mais fiável, pois assenta no espírito que nos faz ter dentro de si a ideia de infinito, sendo nós seres finitos.  Se um ser finito tem dentro de si a noção de infinito é porque esse infinito existe. A verdade é que nunca o poderia ir buscar a si próprio, sendo apenas finito. 
Assim, a infinitude do universo não pode logicamente levar à ideia de que Deus não existe, mas antes à ideia de que Deus - o Infinito - está a ser a energia que mantem o universo vivo, em movimento, numa mudança construtiva contínua. Não será o universo infinito por ter por trás um Deus que assim nos transmite a sua transcendência na fenomenologia existencial? Não será, hoje, a ciência a mostrar incomparáveis exemplos da infinitude d'Aquele a quem chamamos Deus?

20 de Setembro de 2023
                                                                           Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Sob a negrura dos céus, a nívea espuma das marés a caminho da terra.
T.F.P.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

PERCURSOS VAGOS



CAMINHANDO 


vivo numa precariedade de caminhos.
em cada caminho erguem-se trilhos estreitos
que confinam com outros mais pequenos e frágeis.
no caos da vida as escolhas são um impossível.
não nos deixam um traço de liberdade.
até a água que sugamos como se fosse um néctar
acalenta só por instantes. E estes escorrem
num tempo mínimo  pontos de interrogação
e reticências que esmagam o devir.
as ruas infestadas de vento
cortam cerce o meu olhar vago
a enevoar-se ante a olaia tombada
no chão num extenuamento de folhas.
perplexa olho a indiferença das folhas dos plátanos
com sinfonias vindas de uma força arrasadora.
sigo o caminho carregada com a incerteza
a transformar a abundância ainda visível
em perda anunciada.
a verter o destino numa realidade delirante
vejo nascerem rios de sombra e de canícula.
transmudam-se em grãos de areia 
e zarpam para um caos horribilis desmembrado.
o instável ganha forma e perco-me nos instantes 
sem encontrar a estrada a delir-se com lentidão.
caminho ainda. devagar entre ervas ruins
incapazes de abafar o vento. devagar respiro
aquele vento que passa ignorando-me. o vento.
sobre as minhas interrogações nada augura
senão um vazio largo ou uma aridez parca.
resta um pantanal inscrito além.
penetro a lama. aí o lugar indecifrável 
onde dormem há muito
os meus caminhos apenas enunciados.

30 de Agosto de 2023

                                      Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

FRAGMENTO 3



FRAGMENTO 3


«"O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, d'entre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando uma finas ironias,
O melro, d'entre a horta,
Dizia-lhe:'Bons-dias!'
E o velho padre-cura
Não gostava daquelas cortesias." [...]


Do Poema "O Melro" de Guerra Junqueiro (no 1º Centenário da sua morte) in Henrique Manuel Pereira, «Paisagens Junqueirianas com o Douro ao Fundo», Edições Húmus, Vila Nova de Famalicão, 2023, pág. 215.

sábado, 19 de agosto de 2023

FRAGMENTO 2

Luzula purpúreo, flor nativa dos Açores



«Tal como deixamos de sentir o rosto do outro, em carne e osso, ocultado no anonimato das redes digitais, também os elementos vitais deixaram de merecer a nossa procura sensível, a habitação pausada e a lentidão do pensar.»

João Paulo Costa, "À sombra do Invisível", Documenta, Lisboa, 2020, p. 36.

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Quem poderá escapar às cruezas da vida?  Resta a consolação do amor que está dentro de nós.
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

FRAGMENTO 1


Vidália (Vidalii azorina),
flor nativa dos Açores


«Espantar-se com tudo o que volve e nos envolve, é exercitar cuidadosamente a atenção, gozar do inesperado presente nas coisas mais insignificantes e até adversas».

João Paulo Costa, "À sombra do Invisível", Documenta, Lisboa, 2020, p.32.


sábado, 12 de agosto de 2023

UM POEMA

 

NAS SERRANIAS DE ODEMIRA


«Acendeu-se um fogo;
mas o Senhor não estava no fogo»
                                                1º RS, 19,12 

 

Há um crepitar ao longe, vago o horizonte.
A ardente terra nada procura nem deseja
nas extensas colinas.
Ali nada há além da paz do lugar.
O cheiro a madeira queimada torna o ar ácido.
Ali, um rosto de criança é um rosto de espanto,
não entende um real a esbracejar delirante.
Imóvel, abraça o tronco negro de um carvalho
já sem folhas e de ramos contorcidos pela dor muda.
E abraça-o como se fosse o colo doce de uma mãe.
Vê os ramos dos pinheiros acesos a parecerem
tochas gigantes em louca procissão vazia,
sem Deus, sem santos milagrosos,
sem alguém a passar com um andor, um hissope
ou uma simples custódia redentora.
E a fé feita de sombras fumegantes,
encobre as ovelhas no aprisco com o som
dos chocalhos confiantes na vida.
Elas balem com ternura.
Não veem a sarça ardente
em que caíram quando o fogo as abate
como vento a vir de um simples sopro.

 12/8/2023

                                 Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

 



A MENINA QUE GOSTAVA DE FLORES


                                à Teresa, no dia dos seus anos



A menina gostava de flores
Como quem gosta do que é belo e passageiro.
Gostava das cores,
Das formas e do cheiro.

A menina gostava de capelas
Como quem gosta do que é eterno e puro.
Gostava da paz que havia nelas
E daquela luz entre o claro e o escuro.

Tudo era paz na alma da menina
Mas à sua volta havia guerra,
Que neste mundo quem reina e quem domina
É Satanás, o Imperador da Terra.

Foi má a vida para a menina boa,
Pouco abonada pela sorte.
Tudo são espinhos onde ela se magoa
Mas com a dor se faz sempre mais forte.

Surgiste-me, menina, no caminho
E és desde então a minha amada.
Magoa-te há trinta anos mais um espinho,
O da minha mente atormentada.

Mas eu bebo da tua paz antiga,
Que pouco a pouco vence qualquer mal,
E pouco a pouco, contigo, minha amiga,
O meu tormento está perto do final.

O segredo de tudo está na paz
E a raiz da paz é o amor.
Juntos venceremos Satanás,
Amada minha, menina sempre em flor…

9/8/2023
                            Fernando Henrique de Passos

domingo, 6 de agosto de 2023

Na missa do Envio no Parque Tejo em Lisboa (6/8/2023) disse o Papa Francisco a um milhão e meio de jovens, vindos de todo o mundo:

 

Parque Tejo em Lisboa, última missa do Papa Francisco na JMJ em 6/8/2023

«Hoje nós precisamos de alguma luz, um raio de luz que seja, esperança para enfrentar tantas trevas que nos assaltam na vida, tantas derrotas cotidianas para enfrentá-las com a luz da ressurreição de Jesus, porque Ele é a luz que não se apaga, é a luz que brilha também à noite.»

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Na cerimónia de acolhimento à JMJ no Parque Eduardo VII, em Lisboa (3/8/2023), algumas passagens da notável Homilia proferida pelo Papa Francisco:

 «Nenhum de nós é cristão por acaso. Todos fomos chamados pelo nosso nome. Ao princípio da teia da vida, ainda antes dos talentos que possuímos, das sombras e feridas que carregamos dentro de nós, recebemos um chamamento. Chamados, porque amados. Fomos chamados porque somos amados. Aos olhos de Deus somos filhos preciosos, que Ele cada dia chama para abraçar e encorajar»

JMJ no Parque Eduardo VII em 3/8/2023


«Há espaço para todos. Assim como somos. Todos. Isto di-lo Jesus claramente quando manda os apóstolos a chamar para o banquete do senhor que o tinha preparado — vão e tragam todos.»

«Deus ama-nos como somos, não como a sociedade gostaria que fôssemos. Como somos. Ama-nos com os nossos defeitos, com as limitações que temos e com a vontade que temos de seguir em frente na vida. Deus chama-nos assim. Confiem, porque Deus é pai, que nos ama.»

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Na Oração de Vésperas celebrada na Igreja dos Jerónimos (2/8/2023), em Lisboa, disse o Papa Francisco:

 

Igreja dos Jerónimos em Lisboa J L

«(...) Somos chamados a lançar de novo as redes e a abraçar o mundo com a esperança do Evangelho. Não é momento de parar e desistir, de atracar o barco à margem nem de olhar para trás; não devemos escapar deste tempo, só porque nos mete medo, para nos refugiarmos em formas e estilos do passado. Não! Este é o tempo da graça que o Senhor nos concede para nos aventurarmos no mar da evangelização e da missão (...)»

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

BEM VINDO A LISBOA, PAPA FRANCISCO!



Papa Francisco no Palácio de Belém
após a sua chegada a Lisboa


A sua presença, nesta hora, lembra-nos as palavras escritas por P. Teilhard de Chardin no seu livro «HINO DO UNIVERSO»:

«O meu cálice e a minha paterna são as funduras de uma alma largamente aberta a todas as forças que, dentro de um instante, se elevarão de todos os pontos do Globo e convergirão a caminho do Espírito. - Venham a mim a recordação e a presença mística daqueles que a luz desperta para uma nova jornada!»