sábado, 28 de julho de 2018

Duas cidades descaracterizadas ou o fim da tradição



O que se está a passar em Coimbra, como muito bem analisa Carlos Carranca, na rede social Facebook, não é mais do que a morte de Coimbra, antes pautada pelo estudo, pelas tertúlias e pela saudade estudantil.

Algo de semelhante acontece em Lisboa. Esta cidade deixou de ter vida intelectual, deixou de ter livrarias por onde passavam os escritores, deixou de ter cafés marcados pelos seus encontros frequentes e as suas polémicas.

A vida de Lisboa já só é traçada pelas compras nos grandes centros comerciais apinhados, o consumo abundante de bebidas nos bares que enxameam as ruas e pelas filas de carros a sair para as casas de campo dos fins de semana. A vida quotidiana dos habitantes de Lisboa mais parece umas mini-férias estabelecidas durante todo o ano...

27/7/2018

Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Fogos incontroláveis na Grécia que já conhecemos aqui, do outro lado da Europa, em Portugal


As férias (?!) de verão perto de Atenas, na belíssima pobreza da paisagem da antiga Hélade, a balouçarem-se nas árvores de ventos súbitos, a redemoinhar loucos fogos lançados pelo desconhecido, hoje. Férias em Atenas, num passado todo pensar o firmamento, as estrelas, a terra quente e a água morna do seu Mediterrâneo. Hoje, esse mar é refúgio de perseguidos e é também o mar dos gregos a fugir dos fogos e à espera da vida. À espera de diálogos possíveis entre uma morte pelo fogo ou a morte na frescura das ondas, cheias de vida. Vida nova, completamente nova, esperam ainda. Os gregos.

25/Julho/2018
Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 20 de julho de 2018

HÁ 25 ANOS (O NOSSO PRIMEIRO ENCONTRO)


Há vinte e cinco anos,
Quando saí de casa ao teu encontro,
Eu não sabia que ia ao teu encontro.

Eu não sabia que as ruas percorridas
As iríamos, juntos, percorrer de novo,
Refazendo de todas o traçado,
Demolindo casarões abandonados,
Erguendo novas moradias,
Plantando jardins no meio do asfalto.

Quando saí de casa ao teu encontro,
Nada sabia dos dias que viriam,
Dos novos sóis que à noite nasceriam,
Das portas que os anjos abririam,
Dos vulcões despertos que ousariam
Sacudir os mantos de lava que os tolhiam
E transformar em sangue e água e vida
O pó, as cinzas e a lava.

Julgava viver um dia como os outros,
No dia em que saí ao teu encontro;
Julgava que o tempo seria sempre igual,
Feito de horas, minutos e segundos.

No dia em que saí ao teu encontro,
Eu não sabia que ia ao teu encontro,
E não sabia que me ia encontrar.

Mas o teu tempo era composto por compassos,
Era uma valsa ao longo de alamedas
De um labirinto largo aberto ao céu,
Um céu sem nuvens e sem presságios negros
Onde me vi espelhado nas estrelas
Quando os nossos olhos se encontraram.

20/7/2018
Fernando Henrique de Passos

APENAS HÁ VINTE E CINCO ANOS...


na fundação Gulbenkian 
um bar uma biblioteca 
e o eco das palavras 
vibraram súbitas 
perdidas 
sem sentido algum 
desencontradas de si mesmas 
e de nós. 

Nessa tarde de Julho 
os corações invisíveis tocaram-se 
numa mesa quadrada que tu preencheste 
com dois cafés, 
um para mim, outro para ti. 
Tudo começava imperceptível 
cheio de brevidade 
e nós não o podíamos saber… 

20 de Julho de 2018 (no 25º aniversário do nosso conhecimento pessoal)

Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 18 de julho de 2018

E o encontro, acontece


Os excluídos, os abandonados da sociedade, à volta, por exemplo, da igreja dos Anjos, em Lisboa, só sobrevivem pela própria comunhão que a solidão cria entre eles. E o encontro, entre eles, esbarra com o desencontro em que sobrevivem, sem se dar conta, aqueles que os excluíram, que os abandonaram.

18/Julho/2018
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 17 de julho de 2018

Poema intitulado (teoria do tudo)



«Um fragmento de Deus
separou-se do resto do seu corpo.
Corpo e fragmento sofrem atrozmente.
Desejam reunir-se
Mas vogam no espaço que os separa.
Só podem voltar a encaixar
Se no instante em que de novo coincidam
For rigorosamente zero a sua velocidade relativa:
Não poderá haver nesse momento
Qualquer impulso mútuo...
Nem de atração...
Nem de repulsa...»

Fernando Henrique de Passos, «Breve viagem nas margens do mistério», Textiverso, Leiria, 2018, p. 51.

domingo, 15 de julho de 2018

Crescer na sua carne

«Que alegria, em cada dia, ver esse trigo crescer na sua carne para o oferecer ao mundo! E as faces de Maria pareciam cobertas de um sorriso infinito!
 

Através de Jesus, o Senhor poderia dar a conhecer aos homens o Seu pensamento, sem os escandalizar com uma intervenção que infringisse todas as leis naturais. Que palavras preciosas escutariam.»

Teresa Ferrer Passos, «Anunciação», Universitária Editora, Lisboa, 2003, p.96.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Despedida, minha mãe?!

Sempre a despedida adiada,
sem lhe ver um fim.
A tua presença em mim, no ar que respiro.
A tua voz transparente,
o teu olhar doce. 
A saudade intacta e a memória
também. Hoje. Amanhã.
Ontem. E foi há vinte e oito anos
que te olhei a última vez.

11 de Julho de 2018


                                                  Teresa Ferrer Passos




terça-feira, 10 de julho de 2018

Resistir numa estranha gruta do Norte da Tailândia

«Lao-Tseu converteu o povo
Ao não-agir
E pela pureza e pela calma,
conduziu-o à fonte»
Sseu-ma Ts'ien in H. van Praag, «Sagesse de la Chine», 1966, p.53.

Lembrando Lao-Tseu (contemporâneo de Buda e Confúcio), o grande filósofo taoísta, numa homenagem à calma daqueles 12 rapazes, entre os 11 e os 15 anos e ao seu jovem treinador, de apenas 25 anos de idade, que foi monge budista durante vários anos e que soube incutir aos seus discípulos a sua própria paz, nas duas longas e dramáticas mais de duas semanas, na prisão das rochas e da água lamacenta, na escuridão e no isolamento, vividos na estranha gruta de Tham Luang, no Norte da Tailândia.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Vida


O mistério está todo encerrado na natureza. E, eis a vida.

4/7/2018
Teresa Ferrer Passos

Sem poder agradecer


Quanto do mar somos nós, quanto lhe pertencemos,
sem saber, quanto lhe devemos, sem poder agradecer-lhe.

Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 27 de junho de 2018

O Diário de Notícias à beira do fim?!



     O jornal Diário de Notícias, onde escrevi artigos (assinava pelo meu ortónimo Teresa Bernardino) na rubrica "O Livro da Quinzena" e outros de caráter cultural, de 1976 até 1990.
     Nesses anos, o D.N. ainda tinha uma alta cotação entre os jornais nacionais. O declínio, com a chegada do século XXI, ou o estertor, com as suas duas primeiras décadas, culminam em 2018. Parece moribundo pelo que se ouve dizer.
     Ninguém foi capaz de fazer parar essa evolução?!

27/6/20018
Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Nuno Álvares Pereira e a fundação da dinastia de Avis



«Estas considerações de lhaneza mostravam-me o acerto da escolha de dom João, filho de el-rei Dom Pedro e Dona Teresa, para soberano do disputado reino de Portugal. Sentia agora, com satisfação, que o Mestre estava pronto a assegurar a fundação de uma nova dinastia, sustentáculo maravilhoso da ínclita geração de príncipes de que todos os Portugueses hoje se orgulham.»

          Teresa Bernardino [ortónimo de Teresa Ferrrer Passos], «Eu, Nuno Álvares» (romance autobiográfico de Nuno Álvares Pereira), Europa-América, 1987, p.91.

Nota: Com o Papa Bento XVI, ascendeu a santo com o nome de Nuno de Santa Maria, nome com que entrou, em 1423, no mosteiro do Carmo (Ordem dos Carmelitas), em Lisboa, por ele fundado.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Poema-Memória de Paulo Brito e Abreu


Epicédio à partida de D. Albertina Lima Gonçalves

( fala de Maria da Conceição Brito e Abreu perante o passamento de sua augusta Madre)

«Em verdade, em verdade vos digo:
 se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer,
 fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto.»
Evangelho de S. João, 12: 24

Alma pura, que foste uma avezinha,
Minha terna Mãezinha de amaranto,
Perante vós, ó Mãe, Amor se inclina,
O Sol Te oraculiza, e cala o canto.

Se lá, no divo assento, és Tu menina,
Se o Padre Joaquim é qual encanto,
Tu volve, sobre nós, diva divina,
Às Almas Tu of’renda Amor e manto.

Das Madres musicais és Tu Rainha,
Tu és, numa quimera, o Santo Graal.
Oriunda, nos orbes, duma linha

De Santas, e varões de Portugal,
Tu foste, no aljôfar, Albertina,
Que Te cante uma Lira matinal.

Queluz, 29 e 30/ 04/ 2018

                AVE MARIA, GRATIA PLENA

                           Paulo Jorge Brito e Abreu

O Presidente dos EUA

Trump é um ser desumano, violento em excesso e de uma vaidade que o leva a só procurar as excentricidades políticas, caso do acordo anti-nuclear com Kim Yong Un ou mudar a embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém, sem nenhuma vantagem imediata para ele... Exibir-se até ao excesso é fundamental!!!
21/6/2018
Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Um ano depois...


Um ano depois dos grandes incêndios que dizimaram uma grande parte do Centro de Portugal, continuam por recuperar 40% das casas. As famílias que as perderam, continuam sem casa!
Mas o chefe do Governo diz que já se fez muito!
Até já se fez uma estátua para inaugurar pelo presidente da República, no dia do 1º aniversário das mortes...
E os bombeiros continuam a dizer que o material para combater os incêndios é mais ou menos o que tinham, há um ano atrás, e a dizer perante as câmaras das televisões que, no ano passado, receberam ordens para deixar arder!
Não há, não houve, responsáveis pela calamidade do grande flagelo do fogo que matou mais de cem pessoas e deixou gravemente queimadas mais de duzentas pessoas?!

17/6/2018
Teresa Ferrer Passos

Poema de Carlos Lopes Pires


«o amor é uma grande dor 
que há no mundo
e vem das árvores e do outono
cresce entre os espinhos e as rosas
com pássaros fome gestos
e é uma dor muito grande
uma cadeira um banco
um dia
tanta coisa cabe nesta dor
até mesmo a alegria»

Carlos Lopes Pires, «A noite que nenhuma mão alcança», 2018, p. 20

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Limites da Internet

«A Internet é um poderoso e utilíssimo meio de comunicação, porém jamais poderá oferecer-nos o calor do encontro, o verdadeiro som, a verdadeira imagem, o verdadeiro coração da outra pessoa.»

           Frei Alexandre in Domenico Agasso Jr., «Santo António de Pádua», S. Paulo, Paulus, 2016, p.8.

domingo, 10 de junho de 2018

Lembrar Cesário Verde no Dia de Portugal



A casa onde o poeta Cesário Verde viveu e morreu, em 1886. No Largo de S. Sebastião, ao Paço do Lumiar. Casa que está, hoje, quase em ruínas, conforme as fotos tiradas há poucos dias. Eis, o estado das paredes exteriores que já mal sustentam a lápide lá pregada, em 1986 (1º Centenário da sua morte), pela Câmara Municipal de Lisboa.

Esse mesmo Cesário Verde que escreveria, em carta datada de 1880, ao futuro conde de Monsaraz: «Uma poesia minha, recente, publicada numa folha bem impressa, limpa, comemorativa de Camões, não obteve um olhar, um sorriso, um desdém, uma observação. Ninguém escreveu, ninguém falou, nem num noticiário, nem numa conversa comigo; ninguém disse bem, ninguém disse mal!»

Lembramos hoje, Dia de Portugal, a memória desse poeta que, hoje ainda, não é compreendido na dimensão que, muitos anos mais tarde, Fernando Pessoa lhe atribuiria
nas suas páginas.

10 de Junho de 2018
                                                        Teresa Ferrer Passos

sábado, 9 de junho de 2018

Não façam aos outros o que não querem que vos façam



«Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-à dado».

«A medida que usardes com os outros será usada convosco» (Lc 6, 36-38)»

Papa Francisco, Exortação Apostólica «Gaudate et Exsultate», Abril de 2018, Ponto 81.


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A chuva encobre as nossas lágrimas de modo tão subtil, que até parece um sorriso.
31/5/2018
Teresa Ferrer Passos

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Portugal foi o 1º país a abolir a pena de morte para crimes civis no ano de 1867. Atualmente, a pena de morte é um ato proibido e ilegal segundo o Artigo 24.º alínea 2 da Constituição Portuguesa.

Como explicar que seja agora esse mesmo estado a fazer uma Lei que declara a legalidade jurídica da solicitação da "pena" de morte para si próprio por um doente, mesmo com doença incurável?
29/5/2018
Teresa Ferrer Passos
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«Logo a seguir, o computador oferece-lhe imagens novas. Olha, olha e procura na expansão do olhar os seus olhos. Estão vidrados de lágrimas. E, no silêncio tranquilo daquele sonho, todo feito de real, descobre formas nunca vistas. A dilatação das pupilas projecta-se. Abarca com os olhos até aos limites da forma amendoada do seu corpo flácido transformado numa gelatina fina. Das órbitas incendiadas de febre soltam-se búzios, espreguiçando-se dentro de um peixe-agulha; e da sombra das suas mãos rompe toda uma revolta de mar a quem roubaram as conchas, os corais, as algas com centenas de metros e os cavalos-marinhos gigantes.»

Teresa Ferrer Passos, «Um cientista e uma folha de papel em branco», Chiado, 2015, pág. 100.

25/5/2018



sexta-feira, 1 de junho de 2018

A paciência



«Eu estava todo deitado nos meus ouvidos. O som da palavra, esse sentido a refletir o espírito. A vibração, procurava-a no meu espírito. Crescia no meu corpo.
Tudo isto me parecia uma inquietação. Uma impaciência. Depois, a paciência erguia-se. E eu encontrava todos os dias o dom da paciência».

Teresa Ferrer Passos, Jesus até ao fundo do coração, Chiado, 2016, p.158.


A vida é o último valor da existência humana. Às vezes uma pessoa que sofre muito ainda é útil àquele que se aproxima dela para lhe segurar a mão, porque, nesse momento, o sofrimento espiritual daquele que se aproxima ainda é maior.

30/5/2018
Teresa Ferrer Passos

sábado, 26 de maio de 2018

A lei da eutanásia em discussão


Breves palavras acerca da lei da eutanásia (a discutir em 29/5/2018 na Assembleia da República de Portugal):

1. A decisão de ser posta em prática pelo doente não diz apenas respeito ao interessado.
2. A decisão precisa, pelo menos de um conivente que é o médico. Este passa a ser o executante do crime contra integridade de uma vida humana, o que é universalmente condenado pelo direito civil das sociedades que lhe obedecem.

3. Mesmo que dissesse respeito só ao interessado, não tinha por isso mais legitimidade, porque iria este contra a integridade física do seu próprio corpo, da sua própria identidade pessoal.
4. Assim, deveria ser demovido do seu acto, pois iria violar uma vida humana que era a sua própria vida.
5. O argumento da dignidade humana estar em causa devido ao sofrimento de uma doença, não pode ser considerado como legítimo, porque uma pessoa que sofre, seja física ou moralmente, não é menos digna do que uma pessoa que não sofre.

26/Maio/2018
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O Gnosticismo Atual (5)




«Mesmo quando a vida de alguém tiver sido um desastre, mesmo que o vejamos destruído pelos vícios ou dependências, Deus está presente na sua vida. Se nos deixarmos guiar mais pelo Espírito do que pelos nossos raciocínios, podemos e devemos procurar o Senhor em cada vida humana. Isto faz parte do mistério que as mentalidades gnósticas acabam por rejeitar, porque não o podem controlar».

«Quero lembrar que, na Igreja, convivem legitimamente diferentes maneiras de interpretar muitos aspetos da doutrina e da vida cristã, que, na sua variedade, «ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Palavra. [Certamente,] a quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita».

Papa Francisco, Exortação Apostólica Gaudate et Exsultate, 9 de Abril de 2018 Capít. II, Pontos 42 e 43 (excertos).

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Olhar no silêncio


A grande companhia das árvores!
Parece que não param de nos olhar no seu silêncio.

23/Maio/2018
Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Dom António Marto, Cardeal


O Papa anunciou, ontem, no Vaticano, a nomeação para o cargo de Cardeal de D. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima. Tendo completado 71 anos de idade, no dia 5 de Maio de 2018, tem sido um dos maiores dinamizadores do Santuário de Fátima, o maior Santuário da Europa. Notabilizou-se pelo grande entusiasmo que pôs na participação das crianças na liturgia de Fátima.

Lisboa, 21 de Maio de 2018 
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 15 de maio de 2018

O Gnosticismo Atual (4)


«O Gnosticismo é uma das piores ideologias, pois, ao mesmo tempo que exalta indevidamente o conhecimento ou uma determinada experiência, considera que a sua própria visão da realidade seja a perfeição. Assim, talvez sem se aperceber, esta ideologia autoalimenta-se e torna-se ainda mais cega. Por vezes, torna-se particularmente enganadora, quando se disfarça de espiritualidade desencarnada. Com efeito, o gnosticismo, "por sua natureza, quer domesticar o mistério", tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros».

«Quando alguém tem resposta para todas as perguntas, demonstra que não está no bom caminho e é possível que seja um falso profeta, que usa a religião para seu benefício, ao serviço das próprias lucubrações psicológicas e mentais. Deus supera-nos infinitamente, é sempre uma surpresa e não somos nós que determinamos a circunstância histórica em que O encontramos, já que não dependem de nós o tempo, nem o lugar, nem a modalidade do encontro. Quem quer tudo claro e seguro, pretende dominar a transcendência de Deus».

Papa Francisco, Exortação Apostólica Gaudate et Exsultate, 9 de Abril de 2018, Capítulo II, pontos 40 e 41.

sábado, 12 de maio de 2018

Na morte da escultora Clara Menéres

«Presépio»
de Clara Meneres, datado de 2010
(Igreja da Santíssima Trindade em Fátima)

In Memoriam da escultora Clara Menéres (1943-2018):

«O Santuário de Fátima é um espaço escolhido por Deus»
Clara Menéres

A escultora Clara Menéres atravessou o espírito que imbuiu as Aparições de Fátima. Eis um exemplo: o seu puríssimo presépio guardado na igreja da Santíssima Trindade no Santuário.

Pelas obras que a escultora Clara Menéres consagrou ao tema das Aparições de Fátima, também pela expressão dramática com que tratou a sua expressão plástica, Menéres captou todo o clima de espiritualidade que, aí, as Aparições de Maria Santíssima, ofereceram ao mundo.

12/5/2018
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 8 de maio de 2018

O Agnosticismo Atual (3)

Nigela dos trigais

«Trata-se duma vaidosa superficialidade: muito movimento à superfície da mente, mas não se move nem se comove a profundidade do pensamento. No entanto, consegue subjugar alguns com o seu fascínio enganador, porque o equilíbrio gnóstico é formal e supostamente asséptico, podendo assumir o aspeto duma certa harmonia ou duma ordem que tudo abrange.»

«Mas atenção! Não estou a referir-me aos racionalistas inimigos da fé cristã. Isto pode acontecer dentro da Igreja, tanto nos leigos das paróquias como naqueles que ensinam filosofia ou teologia em centros de formação. Com efeito, também é típico dos gnósticos crer que eles, com as suas explicações, podem tornar perfeitamente compreensível toda a fé e todo o Evangelho. Absolutizam as suas teorias e obrigam os outros a submeter-se aos raciocínios que eles usam. Uma coisa é o uso saudável e humilde da razão para refletir sobre o ensinamento teológico e moral do Evangelho, outra é pretender reduzir o ensinamento de Jesus a uma lógica fria e dura que procura dominar tudo.»

Papa Francisco, Exortação Apostólica Gaudate et Exsultate, 9 de Abril de 2018, pontos 38 e 39.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Eis a confiança...


Sem confiança em nós próprios, como acreditaremos naquilo que fazemos? A confiança é a luz que guia o nosso pensamento. Com ela, o pensamento vê com nitidez, tal como os nossos olhos vêm, porque têm luz dentro de si.

7/5/2018
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 3 de maio de 2018

O gnosticismo atual (2)



«O gnosticismo supõe «uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos».

Uma mente sem Deus e sem carne

«Graças a Deus, ao longo da história da Igreja, ficou bem claro que aquilo que mede a perfeição das pessoas é o seu grau de caridade, e não a quantidade de dados e conhecimentos que possam acumular. Os «gnósticos», baralhados neste ponto, julgam os outros segundo conseguem, ou não, compreender a profundidade de certas doutrinas. Concebem uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada numa enciclopédia de abstrações. Ao desencarnar o mistério, em última análise preferem «um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo».

Papa Francisco, EXORTAÇÃO APOSTÓLICA GAUDETE ET EXSULTATE (9/Abril 2018), Capít. II, Pontos 36 e 37.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

O niilismo e o mistério

Pássaro Ruisenhor

Para o niilismo, tudo, afinal, não representa senão o visionado. Tudo é vazio, mesmo que seja imenso o mistério da recriação da natureza. As coisas nada têm dentro, que faça sentido. Assim, o belo não se vê porque é estreita a visão interior de quem vê, na sua perspetiva materialista radical. Para o niilista os valores espirituais não têm sentido, são uma ilusão, são irreais. Esquece que os valores espirituais, como, por exemplo, o sonho, criam, de uma maneira outra, a realidade "nua e crua", completam-na dando-lhe um sentido muito mais vasto e são, no fim de contas, a grande força da intervenção do ser humano.
É aqui que começa a força interveniente do mistério que vai muito para além do problema que, esse sim, respeita ao conhecimento científico e que não é já, só por si, nada fácil de resolver!

21/Abril/2018 (postagem no Facebook)
Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 30 de abril de 2018

O Gnosticismo e o Pelagianismo (1)



«São duas heresias que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas continuam a ser de alarmante atualidade. Ainda hoje os corações de muitos cristãos, talvez inconscientemente, deixam-se seduzir por estas propostas enganadoras. Nelas aparece expresso um imanentismo antropocêntrico, disfarçado de verdade católica.

Vejamos estas duas formas de segurança doutrinária ou disciplinar, que dão origem «a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. Em ambos os casos, nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente».


Papa Francisco, «Exortação Apostólica Gaudate et Exsultate» («Alegrai-vos e Exultai») 9 de Abril/2018, Capít. II, Ponto 35


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Vários membros do clero regular e secular da Igreja Católica seguem estas tendências racionalistas que desfiguram, e desviam da essência, Cristo e o seu Evangelho. São uma elite de intelectuais que considera secundários conceitos como graça, mistério e fé.

30/4/2018
Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 27 de abril de 2018

A defesa da sobrevivência ou a vida (mesmo em micro-organismos)



Pintura de Salvador Dali

«Até os micro-organismos mais básicos se organizam para sobreviverem.»

«As bactérias não têm sistema nervoso nem mente mas “sabem que uma outra bactéria é prima, irmã ou que não faz parte da família”»

«Estas reacções são ao nível de algo que possui “uma só célula, não tem mente e não tem uma intenção”, ou seja, “nada disto tem a ver com consciência”». 

«Há uma colecção de comportamentos – de conflito ou de cooperação – que é a base fundamental e estrutural de vida”».

António Damásio, Conferência na Escola António Damásio em Lisboa, 31/10/2017 (Lançamento do livro A Estranha Ordem das Coisas)


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Mesmo nos micro-organismos primários, sem mente, sem consciência, se estabelece a solidariedade para a sobrevivência e não para o aniquilamento. A união é para viver, não para morrer. Como podem alguns humanos, com mente e com consciência, em vez de se unirem para a defesa da vida, se unem para a aniquilar? Lembramos a proposta de lei da eutanásia.

1/5/2018
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A eutanásia em Portugal?



«A eutanásia representa “um retrocesso civilizacional”»


«Mesmo quando a sociedade não trata as pessoas com a dignidade que elas merecem, mesmo quando a sociedade não cuida e não responde como deve responder diante do drama e do sofrimento, a resposta não pode ser eliminar essas pessoas, a resposta deve ser vamos melhorar a sociedade»


«A partir do momento em que a lei passa a definir que vidas são dignas e não são dignas, a vida deixa de ser um princípio inviolável para ser um princípio que está nas mãos do legislador»


José Maria Seabra Duque, Federação Portuguesa pela Vida 
(Excertos da entrevista à Agência Ecclesia, 26/4/2018)
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A vida humana é inviolável. Ninguém pode matar o outro porque, num certo momento, esse outro lhe pediu. Há antes que dissuadir a pessoa que, no limite de uma depressão, o solicita. Essa pessoa deve ser conduzida a confrontar-se com uma maior auto-estima, auto-estima que a leve a considerar o valor da sua vida, mais, a importância da sua vida, seja em que circunstância for. 


26/Abril/2018                                                                                                                                       Teresa Ferrer Passos