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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Uma memória que não se corrompe


«Nos campos de concentração, num mesmo dia, primeiro escutava-se Schubert e depois torturavam-se e matavam-se pessoas»
                                                     George Steiner


Uma memória não se corrompe se assenta na injustiça e na crueldade. A memória dos mortos e dos torturados nos campos de concentração nazis, na Europa e outros lugares do mundo, é uma homenagem às vítimas e uma expressão de repúdio pelos vitimadores. No mundo contemporâneo, vemos emergir, um pouco por todo o mundo, novas formas de escravidão do ser humano. E são as ideologias assentes em ordens de Deus, inclusive para matar, que as podem sustentar com mais eficácia. Porque alguns homens acham-se com o direito de as executar!
27/Janeiro/2015
                                                    Teresa Ferrer Passos


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Vazio de mãe


«Na casa há vozes de silêncio. Não se escutam. Não alertam. Não dão as mãos. Nem a boca para o suave beijar. As mãos, a boca, os lábios estão vazios de palavras ditas, reditas sem cessar. E a doçura é amarga sensação de tortura ou náusea ou dor sofrida, magoada. Só. Aqui. Entre móveis paredes objectos emudecidos pela tua ausência» (1 de Julho de 1990)

                Teresa Bernardino (ortónimo de Teresa Ferrer Passos) in Carta-Memória à Mãe, 2000 (por ocasião do 10º aniversário da morte de Natércia Paz Ferrer, minha mãe)

domingo, 22 de julho de 2012

Memória de Alcantarilha


Ali, ao crepúsculo, vibrava o espaço numa sinfonia
Imensa. Os sons, irreconhecíveis, prolongavam-se
Na minha alma cansada e ansiando paz.

Ali, ao crepúsculo, o piar do cuco tímido e choroso
Fazia-me pensar em todas as solidões do mundo.
Mas, os sinos da igreja desviavam-me o pensamento.

Ali, ao crepúsculo, esquecia-me de mim,
Extasiada pelo colorido azul-róseo do céu
A convocar-me a um cântico novo ao criador.

Ali, ao crepúsculo, esvoaçavam os pássaros
Com trinos rápidos, na excitação pelo fim do dia.
E as árvores inclinavam-se às verdes folhas paradas.

Ali, ao crepúsculo, via passar, de súbito, a cegonha,
Pesada de esperança nas asas ávidas de vida.
E, sem olhar para trás, rumava ao alto ninho.

Ali, ao crepúsculo, descia à terra o silêncio.
Então, frente à beleza do cenário,
Parecia-me que, sem saber, rezava.


15 de Julho de 2012

Teresa Ferrer Passos