quarta-feira, 17 de abril de 2019

DOSSIER PÁSCOA/2019


ÍNDICE

"Mistério pascal" Fernando Henrique de Passos
"Sem uma lápide" Teresa Ferrer Passos
"senhor" Carlos Lopes Pires
"Pascoal primaveril" Paulo Jorge Brito e Abreu
"Auto-retrato" Daniel Faria
"Páscoa em Lisboa" Fernando Henrique de Passos
"Onde estou, Jerusalém?" Teresa Ferrer Passos



Coroa de espinhos de CRISTO: "TU ÉS REI"



A 1ª camélia,
abriu no Domingo de Ramos

MISTÉRIO PASCAL


O Uno, O Todo, O Inefável, Deus,
O sonho de todas as filosofias,
Morreu pendurado pelos braços,
E morto esteve durante três dias.

O Mundo quebrou-se em mil pedaços,
As aves do céu e os lírios do campo tremeram de medo,
E os espaços siderais tremeram de frio.

Mas ao terceiro dia, manhã cedo,
Madalena encontrou o túmulo vazio.

O túmulo vazio, o Mundo pleno,
Regurgitando de luz e de sinais,
Para tanto Amor quase pequeno.

Que procuramos mais?

Fernando Henrique de Passos, Breve viagem nas margens do mistério, Textiverso, Leiria, 2018




O branco-puro da camélia no verde-musgo das folhas


SEM UMA LÁPIDE 


Quem rompeu os laços traçados na pedra, 
quem deu abrigo ao pobre de nada?
Quem o fez ao mais ignorado pelo mundo,
ao grande demais, que morre e não tem morada?

Sinais silenciosos gritam no ar.
São vozes desencontradas de soldados.

Uma mulher, junto ao sepulcro, chora. É a mãe.
Não, não está aqui. Não está o corpo.

Já não está ali o seu filho. Redivivo. Vivo!

«SEI que vive» sibilou.
E limpou as lágrimas dos lábios ressequidos. 

Tempo de Páscoa, 17/Abril/2019
Teresa Ferrer Passos



As flores começam a chegar nas horas da Páscoa

senhor

tu tens silêncio
sobre todas as coisas

e os insectos conhecem-no

e nada 
nem as rosas
lhe podem escapar

Carlos Lopes Pires, aquele que não ouvirás mais, Hora de Ler, Leiria, 2019

Lírio e sardinheira abrem-se à chegada do Domingo de Ramos





PASCOAL PRIMAVERIL
ORAÇÃO À VIRGEM MÃE

(avoco, para a Musa minha, o arcano e arcaico do Arquétipo Sol)

Almo Sol e verde gomo 
Nesta calma, no jardim, 
Deus Apolo que, no pomo, 
É flor d’Alma e carmesim. 

Santo é o Céu, santo é o cimo. 
Musa amena, vive e espera 
Por Museu, esse divino, 
Pela eterna Primavera. 

Que essas aves, tão canoras, 
Vão prà festa das olaias… 
Vão suaves pràs amoras, 
Lida lesta, Amor em Maias. 

Ah, que toda esta manhã 
Eu vi santa a tua Luz!!! 
Nesta poda vi deus Pã, 
Hierofanta, com Jesus. 

Mas quando o meu Sol se perde 
Na vindima em que me afoite, 
Vivo olhando o verde, verde, 
Morro em lima, e vem a Noite. 

           Ad Majorem Dei Gloriam

                            Paulo Jorge Brito e Abreu 




Flores a abrirem na Semana Maior da Páscoa, junto à janela

"AUTO-RETRATO" pelo poeta Daniel Faria (1971-1999)

"É um rosto com os olhos, os lábios, o pensamento, todo o retrato à procura do silêncio ressuscitado, como Sábado Santo esperando em seu coração, em sua garganta, em suas mãos, em cada sopro do barro, o canto novo.

Eu já sabia que o lugar era a pedra, mas só depois fiz da pedra o meu lugar. Encontrei como entrar nela pelo seu lado aberto, descansar em sua pulsação até não ser mais ninguém.

A completa presença na única presença, para ser, à sua semelhança, tudo em todos."


E olha-se o mar-esmeralda do florestal parque  


PÁSCOA EM LISBOA


O Cristo parou no centro de Lisboa.

Todos os condutores Lhe obedeceram
Quando o asfalto se tornou montanha
E as pedras começaram sussurrando,
Transfigurada em múltiplas palavras,
A inconsútil ordem do Senhor
Que Ele tornava audível ao deixar
Que as aves lhe poisassem nos cabelos.

O Cristo parou no centro de Lisboa.

E a Páscoa soprou no arvoredo
E acordou os corações do tédio
E os olhos abriram-se de espanto
Quando um Sol encheu inteiramente
O espaço além do vale onde pastavam
Os lobos ao lado dos cordeiros.

O Cristo parou no centro de Lisboa.

E o seu peito abriu-se e acolheu
Todas as dores e deu-lhes leite e mel
E embalou-as até adormecerem
E acordarem já como bonanças.

O Cristo parou no centro de Lisboa.

E o trânsito moderno impaciente
Passou a fluir tal como seiva
Alimentando a árvore que sem esforço
Se ergue da terra até ao Céu. 
  
Páscoa (18/4/2019)

Fernando Henrique de Passos





ONDE ESTOU, JERUSALÉM?

Escolhi um santuário e o silêncio
assomou em Jerusalém como uma preciosa pérola.
A palavra cresceu redonda e tamanha
em instantes eternos inscritos nas muralhas.
Aqui escrevi uma aliança que esbarrou
nas palavras dos homens. Nas suas ruínas
um novo Templo edificaram.

Oh Jerusalém, minha cidade e meu santuário,
onde orei e vi e ensinei até à morte.
Onde estão as lágrimas do arrependimento a deslizar?
Onde a Nova Aliança do perdão sem tempo?
Onde a via sacra, a cruz e o sepulcro nas tuas ruas?
Onde a Vida toda para grandes e pequenos?
Onde estou Eu, depois de Ressuscitado?
     
Tempo de Páscoa (11/3/2016)

   

Teresa Ferrer Passos




Lírio branco


VOTOS PARA TODOS OS AMIGOS DO FACEBOOK,

DE UMA PÁSCOA PASSADA COM ALEGRIA,

NA VERDADE DE JESUS QUE, RESSUSCITANDO,
VENCEU O MUNDO, COMO TINHA DITO. 







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terça-feira, 16 de abril de 2019

A catedral de Notre Dame de Paris, sob o fogo e o fumo mais uma vez

Ontem, ao fim da tarde, as chamas da incúria ou da vontade humana galgaram a pedra dos pináculos, as torres, as madeiras, as pinturas, da catedral de Notre Dame de Paris. Que os restauros do corpo de arquitectos hoje reunidos em Pari, imponham e reponham o que resta da igreja de Notre Dame (começada na humildade da arte românica a recuar ao tempo do Carlos Magno e recomeçada tantas vezes ao longo de mais de oito séculos.
  
  16/4/2019



A igreja de Notre Dame, em Paris, devastada pelo fogo. De quem? As pedras caem, mas Jesus, o Cristo, permanece.

17/4/2019

Teresa Ferrer Passos

domingo, 14 de abril de 2019

Jesus o Cristo

A vida, e uma vida sem fim, é o maior valor do Cristianismo. Só uma vida sem fim, explica a humanização do Criador na pessoa de Jesus o Cristo.
  

*    *    *

Bento XVI lembrou-nos um espinho na civilização (dita) Ocidental contemporânea: a ridicularização dos cristãos pelos ateus e agnósticos. Revelam-se pessoas que se deixam contaminar pela intolerância em relação aos que não têm a mesma ideologia e, só porque, não pensam como eles.
A ridicularização de Cristo no julgamento, no calvário e na cruz, continua nos cristãos de hoje que se atrevem a não esconder a sua Fé .
  
14/4/2019
Teresa Ferrer Passos

A Poesia de Daniel Faria (1971-1999)

Clarão dez biliões de vezes maior que o sol
(observado por astrónomos)

«Amo-te nesta ideia nocturna da luz das mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.»

DANIEL FARIA
  
(Este poema foi citado por Maria Teresa Dias Furtado, Onde o Poeta Mora, Obra de Homenagem a Daniel Faria no 20º aniversário da sua passagem, Poética Edições, 2019, p. 17)

sábado, 13 de abril de 2019

A propósito do buraco negro no centro da galáxia M87


  
Alguns versos finais do meu poema (ode), intitulado

  
"BURACO NEGRO":

«É escura a gruta. Canibal. Prodígio de embriaguez.
Oh abutre destruidor!
A devorar...
A consumir...
Implacável decisão na matéria a expirar.
É escura a gruta. O escuro do fim. Do sem regresso.
Sem vislumbrar sinais de emissão...
Colapso total! Mas eis uma radiação
de raios X. De raios gama...
Maravilha. Espanto. Oh cósmico mistério!
Será que o fim é sem fim?
A imanência do fim
um transcendente começo?
Projecto? Outro dia? Amanhã?!
Sem fim a viagem triunfante?»

Teresa Bernardino (ortónimo de Teresa Ferrer Passos), Universo, Lisboa, 1991, pp. 54-55.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Pequena reflexão sobre as observações telescópicas de um buraco negro

Buraco negro do centro da galáxia M87,
a partir das observações telescópicas de 10/4/2019

As dimensões super-astronómicas, a variedade de espaços e de espaços sem espaço e invisíveis, etc, do Universo, cada vez mostra mais a grandeza de quem o inventou e não dos cientistas que o vão descobrindo. Porém, parece que a resposta geral é antes o seu contrário: são os cientistas que são cada vez mais endeusados e o Criador (termo sempre ambíguo), é cada vez mais esquecido, se não mesmo, cada vez mais negado. Parece-me ser isto um dos paradoxos mais flagrantes da sociedade contemporânea.
12/4/2019
Teresa Ferrer Passos




quarta-feira, 10 de abril de 2019

Os novos Calvários

O abuso da violência dentro de portas. O intolerável da sociedade da abundância e a cratera da morte improvável. O cerco intra-muros implode sobre os mais fracos. 
     
Teresa Ferrer Passos
(in Facebook e Twitter, 10/4/2019)

A Paixão dos fracos às mãos dos fortes. Mas, como dizia S. Paulo, Deus serve-se do mais fraco para confundir os fortes.
  
Fernando Henrique de Passos
(in Facebook, 10/4/2019)
   
*
*     *

«São de paixão as repetidas notícias de violência em contexto familiar, a que se dá o nome de “violência doméstica”. Explosões de muitas violências caladas e amordaçadas por medo e opressão, injustificáveis e desumanas, onde a lei do mais forte fere e mata os mais fracos, na maioria dos casos, crianças e mulheres.
É a continuada Paixão de Cristo que tanto se identificou com os mais pequeninos, onde a indiferença de muitos e os preconceitos de outros continuam a permitir calvários!»
              P. Vitor Gonçalves, "Para onde vamos" (in Voz da Verdade, 7/4/2019)

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Jornada Diocesana da Juventude do Patriarcado de Lisboa (7/4/2019):
Sobre qual a posição da Igreja Católica sobre homosexualidade, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, respondeu aos jovens que "o ser humano se manifesta no feminino e no masculino" e que "o ideal é que haja uma unidade psiquico-física" (public. por RR). A resposta foi excessivamente obscura! Não pôde ser esclarecedora? O que o impede?
8/4/2019
T.F.P.

sábado, 6 de abril de 2019

Poesia

O que pode ser explicado não é poesia.
                                                             Yeats

Como pensava Yeats, a poesia é uma forma, uma expressão daquilo que é inexplicável; como está longe da ciência, que procura sempre explicar de algum modo.

6/4/2019
                                                                   T.F.P.

terça-feira, 2 de abril de 2019

JESUS


O mundo condenou-o à morte. Inocente.

Hoje, a condenação de inocentes continua, com os mesmos poderosos, com os mesmos julgadores soberbos, com os mesmos critérios!

  Quaresma, 2/Abril/2019
                                                              Teresa Ferrer Passos

domingo, 31 de março de 2019

Na contracapa, Cristo


Cristo coroado de espinhos,
pormenor da pintura de Dieric Bouts (1470)

Ouço um silêncio perturbador
que vibra como um choro, o Teu choro.
Vejo-Te, ó Cristo, remetido para os alçapões.
O esquecimento procura não te encontrar.
Tu és o afrontamento, o risco rejeitado.
Escondem-te numa arte à porta do nada.
Essa arte feita de um só risco. Sem um sinal.
   
Apagam a Tua luz, ó Cristo da Paixão,
Tu que és a única via a sobreviver nos dedos da matéria.
Não querem encontrar-te nos templos abandonados
nem nas ruas das grandes cidades, a olharem-se
como se só elas fossem imortais.
  
Na contracapa, escondem o espírito. O Teu espírito.
A imagem és Tu, a de um Cristo triste de morte.
A imagem és Tu, proibida na capa das revistas.
Vejo-Te na contracapa, coroado de espinhos.
Eis a última homenagem dos teus discípulos.
Os teus discípulos de hoje, a Tua Igreja, aí está.
  
Quaresma, 31/3/2019
Teresa Ferrer Passos


sábado, 30 de março de 2019

No Dia Mundial do Teatro

O teatro dá vida real, sensível, à dramaturgia. A visibilidade da palavra entra num palco. O diálogo expõe. A ideia cresce na alma do espectador e vive, enfim.
T.F.P. (post no Facebook em 27/3/2019)

sexta-feira, 29 de março de 2019

Acerca da poesia e de como a interpreta Carlos Lopes Pires

I - A POESIA EM DESCONSTRUÇÃO de Carlos Lopes Pires


vi-te passar no céu
do meu quintal.

tu tens o dom
das coisas leves

das que seguem a luz
e nos trazem
a direcção da noite

tu moves
-o que não alcanço

Carlos Lopes Pires,
aquele que não ouvirás mais, p.69

Um panteísmo interior habita a poesia-síntese de Carlos Lopes Pires: o anátema interiorizado e a matéria arduamente construída, é uma representação-Deus, ou, somente um concretismo-natural a esmagar cada palavra, ou a exaltá-la a cada instante vivido ("naquele tempo / os homens tocavam / as estrelas que há na água", p. 36). 

Entre o gesto e o silêncio há uma oração, entreabrindo-se na busca da sacral realidade dos dias. Entre o nihilismo e a emoção das origens, o poeta extasia-se perante o vento, a chuva, os peixes, as árvores ou o pequeno gato da carícia ("não há números para ti // não há palavras / que possam encher / o livro da tua ausência"(p. 104)).

Sente-se a submergir na terra húmida demais. A deceção é um fim. E o poeta escreve-o. Como no barco de Caronte, ardente de uma novidade feita de "folhas secas" e à espera de um emudecido "calendário", Carlos Lopes Pires oferece-nos Aquele que não ouvirás mais (Hora de Ler,  Leiria, 2019). Estamos ante uma grande metáfora da inquietação transfigurada em poema, a abranger sentidos imprevisíveis e opacos, num mundo que perece por dentro, e se desconstrói no desasossego, "tão longe dos lugares", tão próximo do poeta.

Facebook, 21/3/2019 (alguns dias depois de ter recebi do autor o citado livro)


Teresa Ferrer Passos


*
*     *

II - ACERCA DA POESIA

Ou de como a interpreta Carlos Lopes Pires

(na Apresentação do seu livro 
  
aquele que não ouvirás mais)

A distinção que CLP faz entre aquela que denomina "poesia da literatura" e a "poesia que não é arte", 0u seja, a poesia "anti-literária" ou "anti-arte", diremos nós - a própria poesia de CLP - possui um equívoco de raiz. Diz CLP: "Os poetas da literatura recorrem a técnicas que lhes permitem, ilusoriamente, representar a realidade, e por isso realizam um fingimento". E, mais adiante, CLP acrescenta: "A poesia de que falo não é arte"(arte é a sua própria poesia). A sua própria poesia "não representa, não finge, nem mimetiza a realidade. Ela é realidade".

Estas considerações de CLP esquecem que há uma única realidade, mas, com outros reais dentro dela. De facto,  quer a primeira, a "poesia da literatura", como a segunda, a "poesia anti-literária" - a poesia que CLP diz fazer -, só podem ter uma finalidade, a finalidade criativa (imaginativa).  O objetivo é comum. E essa finalidade mútua, é a transgressão, o desvio, uma realidade que toca um real de raspão e sem o mimetizar, sem o imitar. Uma e outra realidades ("a poesia da literatura" e a poesia que se lhe opõe, "a poesia que não é arte", ou seja a poesia de CLP), têm o ponto comum de entrar em choque com a realidade concreta - visível, sensorial, matéria viva. Por isso não são antagónicas, mas uma só arte ou, no caso da poesia, literatura.

A poesia, precisamente se mimetizar, se só se revestir de representação da realidade, de uma realidade única, não é literária. Ora, a poesia é literária se acrescentar uma nova realidade à que lhe serve de cenário. Mesmo dentro da realidade material há um mundo vasto de objectividade e de subjectividade ("louvo o teu silêncio/tão longe dos lugares/e ruídos deste mundo.// o que nele se move/estranho a tudo o que é deserto//e o que nele se ausenta/de casas ruas sombras insetos//pois tudo/de ti se alimenta/de uma longa imensa ausência" (Carlos Lopes Pires, aquele que não ouvirás mais, p. 71). Só assim esse mundo pode subdividir-se ou globalizar-se, reduzir-se ou alargar-se. 

Esse mundo poético será um dos mundos reais possíveis, mais ou menos bem urdido ("acredita nas árvores//que mesmo sem frutos/são sinceras/contempla as árvores//pois um dia/seremos todos/como elas" (Carlos Lopes Pires, Ob.cit., p. 25). A representação (ou artificialismo, como parece crer CLP) não é "uma técnica de fingimento". Veja-se que, mesmo o fingimento não é absoluto, como nos sugere Fernando Pessoa no poema «Autopsicografia»: "O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente." (Obras Completas de Fernando Pessoa I Poesias, 2ª edição, Ática, 1943, p. 237).

Se recorrermos a Herder (Ensaio sobre a origem da linguagem), poderíamos dizer que a linguagem é o espírito da matéria porque não a imita, não finge, antes é uma constante transgressão, um contínuo não à realidade imediata das coisas. Lembro-me também de Foucault e a sua obra As palavras e as coisas. Umas e outras não se confundem, são autónomas, com identidades próprias, com princípios de origem e de finalidade que poderíamos opor. 

"A poesia que não é literária é a realidade", sublinha CLP. Nós diríamos que a poesia é uma realidade, quando considerada literária. Porque, a literatura é toda ela uma transgressão (e não o contrário, como diz CLP); ou, se não o é, então, é uma ausência de nova realidade, ou seja, de uma nova verdade própria, nas suas vertentes poética, do conto ou do romance. Ou se cria uma nova verdade ou caímos numa terrível falácia existencial que se traduz num poema, num conto ou numa peça de teatro.

De realçar, será a fenomenologia de Husserl, na qual podemos aperceber-nos de que sem a dimensão da consciência, a realidade objectiva esvaziava-se de sentido(s). Ora, a poesia literária ou arte é uma realidade subjectiva, precisamente porque cria uma realidade que não existia, uma realidade em si mesma, uma realidade fictícia (ou "artificial", na expressão de CLP).

Porém, mesmo essa poesia literária, ainda que CLP não o admita, é-nos oferecida pela poesia literária e pela poesia do CLP à qual ele prefere chamar "não literária", porque não inclui "a arte", mas "o desvio", "um mundo de transgressões", "uma marginalidade". Mas não será tudo isso mesmo que define a poesia literária ou arte? 

28/3/2019 (o texto de Apresentação do livro citado, que nos foi enviado pelo autor, foi lido em Moinho de Papel, Leiria, em 23/3/2019).

Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 27 de março de 2019

Violência interior e santidade

É pela violência da santidade que se entra no céu, lembrou Jesus Cristo. (confrontar com Mt 11, 12)
26/3/2019 (Facebook)
T.F.P.

A radicalidade dos Evangelhos... o Reino de Deus alcança-se pela violência contra nós mesmos, negando-nos a nós mesmos (Lc 9, 23). Mas o negar-nos a nós mesmos é aparente: é na realidade encontrarmos o nosso Eu verdadeiro, a partícula divina que há em cada um de nós.
28/3/2019 (Facebook)
Fernando Henrique de Passos

***

«Não é possível trilhar o caminho da santidade sem tomar de assalto a vida espiritual. Hoje, porém, as pessoas não sabem mais como crescer espiritualmente. Tornam-se, então, como que "anões espirituais", na expressão do Padre Reginald Garrigou-Lagrange [1].

"O Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam" (Mt 11, 12). Essa "violência" de que fala o Evangelho é um ato de esperança. A Regra de São Bento, ao falar sobre os monges obedientes, ensina: "Apodera-se deles o desejo de caminhar para a vida eterna; por isso, lançam-se como que de assalto ao caminho estreito do qual diz o Senhor: 'Estreito é o caminho que conduz à vida'" [2].

O amor que o homem devolve a Deus, por sua vez, não é um amor qualquer, mas a caridade, que é, na definição de S. Tomás de Aquino, "uma amizade do homem para com Deus" [3]. Não se trata simplesmente de amá-Lo – ainda que seja com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças (cf. Dt 6, 5) – mas de retribuir o Seu amor, que "dá a vida pelos seus amigos" (Jo 15, 13). 

[1] Las Tres Edades de la Vida Interior, I, 1, 15
[2] Regra de S. Bento, V, 10-12
[3] Suma Teológica, II-II, q. 23, a. 1

                        Padre Paulo Ricardo (Internet, excerto de artigo datado de 2015)



segunda-feira, 25 de março de 2019

Dois pesos, uma medida


O capitalismo destruiu os sentimentos humanos. Em nome da igualdade, ou seja, de uma economia global, está a acabar com a fraternidade humana.
24/3/2019
T.F.P.

sábado, 23 de março de 2019

Cristo, um outro olhar

«Cristo olha sempre para o último, para pôr a periferia no centro. Este é o sentido cristão que deve estar presente nas nossas instituições.»
Dom Manuel Clemente (Twitter 22/3/2019)

«"Cristo olha sempre para o último". Eis a Nova Aliança. A anterior - Antigo Testamento - , é substituída. Dela, nada deveria restar, para o cristão. Para Cristo, os primeiros, nela, passam a ser os últimos.»
Teresa Ferrer Passos (Twitter 23/3/2019)

sexta-feira, 22 de março de 2019

A chegada da Primavera

Centáureas em frenesim explodem nos campos
PRIMAVERA

A realidade espreguiça-se na erva
E não quer mais ser imperatriz
E nem se importa de ser serva,
Se preciso, e também diz

Que nunca se sentiu tão verdadeira,
Que nunca se sentiu tão cortejada,
Que nunca se sentiu assim à beira
De permitir ser desvendada.

As abelhas passeiam-lhe no peito
Testemunhando o seu transporte
E o sussurrar do nome do eleito.
Já chegou Maio ao hemisfério norte!
(escrito em 2/5/2014)

Fernando Henrique de Passos (Post Facebook 20/3/2019)

*

Este 1º verso - "A realidade espreguiça-se na erva" - como me lembra o Alberto Caeiro, de um tal Fernando Pessoa... E todo o poema se movimenta nesse ritmo irónico e eufórico. As próprias "abelhas passeiam-lhe no peito". E perpassam essa primavera a riscar as sombras que a desdizem.
  
Teresa Ferrer Passos (Coment Facebook 22/3/2019)

quarta-feira, 20 de março de 2019

O Clima: entre inundações, ciclone e secas extremas...


Grau de destruição. Moçambique, sob um manto de vento ciclónico, perde o controle das vias de comunicação. Sem electricidade, sem água potável. Cortadas as comunicações. Quase cem mortos. Previstos, ronda os mil mortos. Milhares de habitações destruídas. Falta alimentação e medicamentos. Os lamaçais submergem os campos e as estradas. Espreita o perigo de cólera para milhares de crianças. É urgente a Europa e, Portugal, designadamente, oferecer o apoio urgente àquele país africano.
(Facebook 19/3/2019)

As mudanças climáticas fazem-se sentir um pouco por todo o mundo. O caso de Moçambique, a defrontar a maior catástrofe do país de que há memória, é um alerta para os governos. Não é propaganda, não é notícia artificiosa. É a realidade de milhares de pessoas que perderam as casas, os haveres e, muitas, a própria vida. Os descontroles climáticos - entre as inundações catastróficas e as secas extremas - mostram o planeta Terra à beira de muitas outras catástrofes. E precisamente idênticas àquela que o povo de Moçambique está a defrontar. Ao longo destes dias de insegurança, fome e morte, ganhámos a imagem que a todos nós poderá tocar, mais tarde ou mais cedo.

(Facebook,20/3/2019)

Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 19 de março de 2019

Cristo - o Acontecimento da Transcendência



"O enigma da existência e o acontecimento cristão", do Cardeal Giacomo Biffi:

Este livro foi-me oferecido pela Teresa há um mês, no 25º aniversário do nosso casamento, como resposta às minhas "lancinantes" dúvidas: como é que Deus se fez homem para vir falar diretamente connosco, e não aproveitou para nos explicar, em primeiríssimo lugar, o porquê da nossa existência neste mundo, quando existe outro, perfeito, o Reino de Deus?
Fernando Henrique de Passos (Facebook 17/3/2019)


O acontecimento-Cristo, Deus incarnado ou Deus feito Homem, um escândalo para a humanidade. Este grande escândalo foi a revelação do "Pensamento" do Criador por um ser humano nascido por obra do Espírito Santo, de uma mulher - Maria.
Teresa Ferrer Passos (Facebook 17/3/2019)

Perante as perguntas, surge um Homem como resposta. Temos de aprender a lê-lo, e é o que os teólogos andam a tentar fazer há 2000 anos.
Fernando Henrique de Passos (Facebook 19/3/2019)

E como é difícil! O que parece até fácil, às vezes é um labirinto de dúvidas!
Teresa Ferrer Passos (Facebook 19/3/2019)

Jesus, a Pessoa, diz Deus.
Teresa Ferrer Passos (Facebook 19/3/2019)


É muito fácil obedecer a ordens das quais percebemos a razão. Mas ter Fé é ser capaz de agir no meio das dúvidas. Ter Fé é seguir Cristo sem o perceber. Ter Fé é acreditar que Ele é o Caminho, mesmo ignorando onde desemboca.
Fernando Henrique de Passos (Facebook 20/3/2019)