quarta-feira, 22 de junho de 2022

Um Poema do livro BASAR PERSA (Hora de Ler, 2022, p.33) de Fernando Henrique de Passos:

  

Falésias da praia de 
Olhos d'Água

OS OLHOS DA MIRAGEM II


De olhos assustados, a miragem
Procurou em vão no nevoeiro
Uma passagem,
Um letreiro.
Longe das dunas, do areal,
Das rochas rachadas pelo sol a pino,
Maldisse a época outonal
E o plúmbeo céu londrino.
Julgou ver um louco que a olhava
E o louco julgou também que a via.
Era então ele que a chamava
Desde o princípio desse dia…
As pessoas passavam a correr.
Se não fossem assim tão apressadas
Teriam talvez visto o nascer
Daquele amor entre dois nadas…

                             Fernando Henrique de Passos

sábado, 11 de junho de 2022

Um poema de Fernando Henrique de Passos do livro intitulado BAZAR PERSA acabado de publicar (Hora de Ler, Leiria, 2022, p.10)

 


A CETINOSA SENSIBILIDADE DOS INSETOS
As patas pequenas, enceradas,
Velam pela correcção da luz,
Pelo desagravo das leis enxovalhadas,
Pela rectidão do caminho que conduz
Às verdes águas deslumbradas.
O lento tecer da ordem fina
Prevalece sobre o caos de antigamente.
Brilham carapaças na neblina
Que esbate ao de leve o sol poente
E orvalha a folhagem da bonina.
Pontos cintilantes e antenas
Tacteiam o musgo nos umbrais
Das portas abertas aos poemas
Que escrevem os pequenos animais
De patas felpudas e pequenas.
Fernando Henrique de Passos


Da realidade, Fernando Henrique de Passos desce, neste conjunto de poemas, ao submerso que é a surrealidade do mundo, deste mundo por desvendar e que flutua quase impercetível na sua passagem por dentro de nós.
11/Junho/2022, Facebook
                                                                            Teresa Ferrer Passos

Teresa, dizes bem, a surrealidade não é uma invenção, é um "mundo por desvendar e que flutua quase impercetível na sua passagem por dentro de nós". O que em Portugal se traduz por surrealidade, devia na verdade traduzir-se por sobrerrealidade, porque era isso que queriam dizer os fundadores do surrealismo: a realidade que eles se propunham explorar era para eles superior à realidade da nossa experiência quotidiana.
11/Junho/2022, Facebook
Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 30 de maio de 2022

A condição precária (deriva de prece) é um dos rumos para alcançar Deus

 Conjugar a espiritualidade do precário implica «habitar o novo», o «orgânico», o «mutante», «ver que não se vive de respostas, mas de perguntas»: «Vivemos no enigma, vivemos na fronteira... mas na espiritualidade do precário percebemos que o enigma não é um limite, que o mistério não é um obstáculo, mas sim uma possibilidade».

J. Tolentino de Mendonça, 16.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, Fátima, 28/5/2022.

domingo, 15 de maio de 2022

POEMA, EM MAIO

As três crianças (Francisco, Jacinta e Lúcia)
perguntaram "Quem é?"


MANHÃ ILUMINADA, A 13 DE MAIO


Aos prisioneiros da terrível prisão do
Centro Correcional de Westville,
em Durban, África do Sul

Viram uma estrela no horizonte,
havia uma chuva densa.
Um buraco negro portentoso desenhou o nada,
o som de um trovão deu o sinal
enquanto pássaros trinavam como a harpa.
Uma voz soou no coração infantil
das três crianças: "Venho do Céu".
Num instante, o mistério encheu a serra inteira,
o arvoredo quis romper o espaço,
as ovelhas baliram com força os chocalhos.
Elas, ao sentirem o abraço de tanta beleza
a soltar-se das faces da Mulher
perguntaram quem era. 
"Venho do Céu", ouviram de novo.
Duvidando, contemplaram emudecidas
o manto branco que a encobria
e viram o próprio sol obscurecer.
A noite apagava o dia.
E uma grande dúvida sacudiu as três crianças.
Por isso, perguntaram ainda: "Quem é?"
As faces da Mulher, como se tivessem a luz
de milhões de estrelas, brilharam e resplandeceram.
E eis que o dia ressurgiu, enchendo o coração das crianças
de confiança. "Venho do Céu", dissera.
E a dúvida não mais as habitou.

15 de Maio de 2022
                                            Teresa Ferrer Passos

domingo, 1 de maio de 2022

DIA DA MÃE

 MARIA, MÃE DA HUMANIDADE




«O Céu desce à terra, toca Maria: Deus re-nasce, nascendo do corpo de Maria, a virgem-mãe, a puríssima criatura que só quer servi-Lo. Tal como Jesus dirá aos seus discípulos que veio para servir (1), Maria o tinha afirmado perante o anjo da Anunciação (2) e ia repeti-lo no hino Magnificat (3), ainda antes de Jesus nascer. Porque Maria está disposta a defrontar o mundo, satanás, as armas do pecado, os seus sofismas e as suas armadilhas, tudo para fazer com que a vontade de Deus não soçobre, a sua infinita misericórdia saia triunfante. A misericórdia era, com efeito, o instrumento última da justiça divina. Ela era precisa para a redenção da humanidade perdida de Deus e perdida de si própria.»

Teresa Ferrer Passos, «Stabat Mater. Contribuição para o Estudo de Maria», Hora de Ler, Leiria, 2020, pág. 48.


(1) «O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida pelo resgate de muitos» Mt 20, 28.
(2) «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» Lc 1, 38.
(3) «Olhou para a humilde condição da Sua Serva» Lc 1, 48.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Dia de Santa Catarina de Sena*

Santa Catarina de Siena (1347-1380) :

«SE FORMOS O QUE DEVEMOS SER, INCENDIAREMOS O MUNDO»
* Co-padroeira da Europa, Doutora da Igreja, professa na Ordem Terceira de são Domingos.

domingo, 17 de abril de 2022

VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA ("site" do Vaticano)

 

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO 

(na íntegra)

Basílica de São Pedro
Sábado Santo, 16 de abril de 2022


Muitos escritores evocavam assim a beleza das noites iluminadas pelas estrelas. Ao contrário, as noites de guerra são atravessadas por rastos luminosos de morte. Nesta noite, irmãos e irmãs, deixemo-nos guiar pelas mulheres do Evangelho, para descobrir com elas a aurora da luz de Deus que brilha nas trevas do mundo. Quando já a noite ia clareando e irrompiam, silenciosas, as primeiras luzes da aurora, aquelas mulheres foram ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus. E lá vivem uma experiência que as turvou: primeiro, descobrem que o sepulcro está vazio; depois, veem duas figuras em trajes resplandecentes que lhes dizem que Jesus ressuscitou; imediatamente, correm a anunciá-lo aos outros discípulos (cf. Lc 24, 1-10). Veem, escutam, anunciam: com estas três ações, entremos também nós na Páscoa do Senhor.

As mulheres veem. O primeiro anúncio da Ressurreição é feito, não sob uma fórmula a decifrar, mas sob um sinal que se deve contemplar. Num cemitério, junto dum túmulo, onde tudo deveria estar em ordem e sossego, as mulheres «encontraram removida a pedra da porta do sepulcro e, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus» (24, 2-3). Por outras palavras, a Páscoa começa invertendo os nossos esquemas. Chega com o dom duma esperança surpreendente. Mas não é fácil acolhê-la. Às vezes (temos de o admitir!) esta esperança não encontra espaço no nosso coração. Em nós, como nas mulheres do Evangelho, prevalecem interrogações e dúvidas, e a primeira reação face ao sinal imprevisto é o medo, é voltar «o rosto para o chão» (cf. 24, 4-5).

Com muita frequência, contemplamos a vida e a realidade com os olhos voltados para baixo; fixamo-nos apenas no dia de hoje que passa, desiludidos quanto ao futuro, fechamo-nos nas nossas necessidades, acomodamo-nos na reclusão da apatia, enquanto continuamos a lamentar-nos e a pensar que as coisas nunca vão mudar. E assim permanecemos imóveis diante do túmulo da resignação e do fatalismo, e sepultamos a alegria de viver. Mas, nesta noite, o Senhor quer dar-nos olhos diferentes, iluminados pela esperança de que o medo, o sofrimento e a morte não terão a última palavra sobre nós. Graças à Páscoa de Jesus, podemos dar o salto do nada para a vida, «e a morte não poderá mais defraudar-nos da nossa existência» (K. Rahner, O que significa a Páscoa, Brescia 2021, 28): esta foi abraçada, inteiramente e para sempre, pelo amor sem limites de Deus. É verdade; pode-nos amedrontar e paralisar. Mas o Senhor ressuscitou! Levantemos o olhar, retiremos dos nossos olhos o véu da amargura e da tristeza, abramo-nos à esperança de Deus!

Em segundo lugar, as mulheres escutam. Depois de terem visto o sepulcro vazio, dois homens em trajes resplandecentes disseram-lhes: «Porque buscais o Vivente entre os mortos? Não está aqui; ressuscitou!» (24, 5-6). Faz-nos bem ouvir e repetir estas palavras: não está aqui! Sempre que pretendemos ter entendido tudo acerca de Deus, podê-Lo arrumar nos nossos esquemas, repitamos a nós mesmos: não está aqui! Sempre que O procuramos apenas nas emoções, muitas vezes passageiras, ou nos momentos de necessidade, para depois O deixarmos de lado esquecendo-nos d’Ele nas situações quotidianas e nas opções concretas de cada dia, repitamos: não está aqui! E quando pensamos em confiná-Lo nas nossas palavras, nas nossas fórmulas e nas nossas tradições, mas esquecendo-nos de O procurar nos cantos mais escuros da vida onde há alguém que chora, que luta, sofre e espera, repitamos: não está aqui!

Ouçamos, também nós, a pergunta dirigida às mulheres: «Porque buscais o Vivente entre os mortos?» Não podemos fazer Páscoa, se continuamos a morar na morte; se permanecemos prisioneiros do passado; se na vida não temos a coragem de nos deixar perdoar por Deus - que perdoa tudo -, a coragem de mudar, de romper com as obras do mal, a coragem de nos decidirmos por Jesus e pelo seu amor; se continuamos a reduzir a fé a um amuleto, fazendo de Deus uma bela recordação de tempos passados, em vez de ir hoje ao seu encontro como o Deus vivo que deseja transformar-nos a nós e ao mundo. Um cristianismo que busca o Senhor entre as ruínas do passado e O encerra no túmulo da rotina é um cristianismo sem Páscoa. Mas o Senhor ressuscitou! Não nos demoremos ao redor dos túmulos, mas vamos redescobri-Lo a Ele, o Vivente! E não tenhamos medo de O procurar também no rosto dos irmãos, na história de quem espera e de quem sonha, na dor de quem chora e sofre: Deus está lá!

Por fim as mulheres anunciam. Que anunciam elas? A alegria da Ressurreição. A Páscoa não acontece para consolar intimamente quem chora a morte de Jesus, mas para abrir de par em par os corações ao anúncio extraordinário da vitória de Deus sobre o mal e a morte. Por isso, a luz da Ressurreição não quer delongar as mulheres no êxtase dum gozo pessoal, não tolera comportamentos sedentários, mas gera discípulos missionários que «voltam do sepulcro» (24, 9) e levam a todos o Evangelho do Ressuscitado. Por isso mesmo, depois de ter visto e escutado, as mulheres correm a anunciar aos discípulos a alegria da Ressurreição. Sabem que poderiam ser tomadas por loucas – aliás o Evangelho diz que «as suas palavras pareceram-lhes um desvario» (24, 9) –, mas não estão preocupadas com a sua reputação, a defesa da sua imagem; não reprimem os sentimentos, nem medem as palavras. Apenas tinham o coração ardente para transmitir a notícia, o anúncio: “O Senhor ressuscitou!”

E como é bela uma Igreja que corre, assim, pelas estradas do mundo! Sem medo, sem táticas nem oportunismos; só com o desejo de levar a todos a alegria do Evangelho. A isto, somos chamados: a fazer experiência do Ressuscitado e partilhá-la com os outros; a rolar aquela pedra do sepulcro, onde muitas vezes fechamos o Senhor, para espalhar a sua alegria pelo mundo. Façamos ressuscitar Jesus, o Vivente, dos túmulos onde O tínhamos encerrado; libertemo-Lo das formalidades onde frequentemente o enclausuramos; despertemos do sono da vida tranquila onde às vezes O reclinamos, para que não perturbe nem incomode mais. Levemo-Lo para a vida de todos os dias: com gestos de paz neste tempo marcado pelos horrores da guerra; com obras de reconciliação nas relações rompidas e de compaixão para com os necessitados; com ações de justiça no meio das desigualdades e de verdade no meio das mentiras. E, sobretudo, com obras de amor e fraternidade.

Irmãos e irmãs, a nossa esperança chama-se Jesus. Ele entrou no túmulo do nosso pecado, chegou ao ponto mais distante onde andávamos perdidos, percorreu os passos emaranhados dos nossos medos, carregou o peso das nossas opressões e, dos abismos mais escuros da nossa morte, despertou-nos para a vida transformando o nosso luto em dança. Façamos Páscoa com Cristo! Ele está vivo e ainda hoje passa, transforma e liberta. Com Ele, o mal já não tem poder, o fracasso não pode impedir-nos de recomeçar, a morte torna-se passagem para o início duma nova vida. Porque com Jesus, o Ressuscitado, nenhuma noite é infinita; e mesmo na escuridão mais densa, nesta escuridão brilha a estrela da manhã.

Nesta escuridão que estais a viver, Senhor Prefeito, Senhoras e Senhores Parlamentares, a escuridão tenebrosa da guerra, da crueldade, todos nós rezamos. Rezamos convosco e por vós, nesta noite. Rezamos por tantos sofrimentos. Nós podemos oferecer-vos somente a nossa companhia, a nossa oração e dizer-vos: “Coragem! Vos acompanhamos!” E também anunciar-vos a grande realidade que é celebrada hoje: Christós Voskrés! (Cristo ressuscitou!)


terça-feira, 12 de abril de 2022

PÁSCOA / 2022

Jesus ressuscitado

1. BREVE MEMÓRIA

O LIVRO de ENOQUE [séculos IV a III a. C. (?)] foi citado por cristãos dos primeiros séculos depois de Cristo, designadamente em algumas cartas do Novo Testamento (Judas, Hebreus e 2ª carta de Pedro). Antes da «Vulgata» (versão de S. Jerónimo, no ano 400), os cristãos citavam-no abertamente nos seus textos. Rejeitado nesta versão da Bíblia, caiu no esquecimento. Embora tenha sido descoberta uma versão nos «Manuscritos do Mar Morto», descobertos, em 1948, perto do Mar Morto, do Livro de Enoque só restou no Ocidente, durante muitos séculos, uma versão etíope (versão copta).   

Algumas passagens pré-anunciando o Messias, em tempos apocalíticos:

 Naquele dia, farei com que o meu Eleito habite no meio deles; mudarei a face do céu. Eu também mudarei a face da terra. Os justos satisfarei com a paz, colocando-os diante de Mim”.

Ele expulsará reis dos seus tronos e os desapossará dos seus domínios porque eles não O exaltarão, O louvarão, nem se humilharão diante d’Ele, tendo recebido d’Ele os seus reinos”.

Naqueles dias, o Eleito será exaltado. A terra se regozijará; os justos habitarão nela e a possuirão".

Então, os reis, os príncipes e todos os que possuem a terra glorificarão Aquele que tem domínio sobre todas as coisas (...) pois desde o Princípio dos tempos o Filho do homem existiu em segredo, o qual o Altíssimo preservou na presença do seu Poder e foi revelado aos eleitos". 

"Toda a iniquidade desaparecerá e se afastará da Sua face".

"E assim, o prolongamento dos dias estará com o Filho do homem"; "A paz será para os justos e os retos possuirão o caminho da integridade, em nome do Senhor dos espíritos, para sempre".

in O Livro de Enoque (tradução brasileira, 2014), Capítulos 45, 4; 46, 4; 50, 5; 61, 10 e 11; 68, 41; 70, 23.


* * *

2. JESUS É O REINO DE DEUS 

(Joseph Ratzinger, Bento XVI, Jesus de Nazaré,

Esfera dos Livros, 1º vol., 2007, pp. 95, 97,98)


Sepulcro vazio, ressuscitou!

«O reino de Deus n'Ele e por Ele, aqui e agora, torna-se presença, "está próximo"».

«A nova proximidade do reino é Ele mesmo».

«Em Jesus, Deus vem ao nosso encontro. N'Ele, agora é Deus que opera e reina de maneira divina, reina através do amor que vai "até ao fim"».

«Deus ocupa sempre o lugar central no discurso».

«Toda a sua pregação é anúncio do seu próprio mistério».

«A presença de Deus no seu próprio agir e ser [é] o ponto que conduz à cruz e à ressurreição».


***

3. DOIS POEMAS INÉDITOS:


SONHO DE UMA TARDE DE SÁBADO



Manchas de cor crescem no ar.
Uma explosão de vida no sepulcro,
Tendo uma jarra como fulcro,
Dá-me vontade de cantar.

O branco, o verde, o rosa, o amarelo
Bebem na água mais do que frescura,
Devolvem no perfume felicidade pura,
Cercam a dor no seu castelo.

E a dor da morte converte-se em esperança,
E das aranhas nascem borboletas,
E temíveis anjos de asas pretas
Dissolvem-se no espaço numa suave dança.

O Cristo, adormecido, sorri enquanto sonha,
Pois sabe que amanhã irá acordar.
E a tarde espreguiça-se, feliz e risonha,
Pois sabe que os mortos se irão levantar.

16/4/2022, Sábado Santo

                                                       Fernando Henrique de Passos


***

RESSUSCITEMOS A PAZ


Caminhemos sem tropeçar nas cascatas 

da metralha nem nas pedras que

assobiam em ares crivados de guerra.  

Procuremos a paz impressa em cada flor

que nasce da terra opaca, submersa, escondida,

brotando para o esplendor da luz dos dias serenos.

Abramos as portas do sepulcro!

Aí nada sobra, nada se perpetua no tempo,

nenhum vestígio visível sobrevive,

sequer uma voz a aplacar o ódio das palavras amargas,

─ toscas imagens da raiva a soprar ─

o sofrimento impiedoso e desviado da verdade.

Olhemos a luz a proclamar a vida verdadeira,

sem falsidade ou atropelos à justiça e vejamos

a tranquilidade que a paz implica, soberana.

Desvendemos a visibilidade do Cristo redivivo,

─ imagem única em que acreditamos

porque o olhámos nos olhos.

Rumemos à paz pela estrada da ressurreição, 

não seguindo os caminhos estreitos

e enganadores da guerra, com mais guerra.

Aplaquemos o espírito desavindo oferecendo-lhe paz

a rodos, demos-lhe a guarida do perdão,

esse sol imenso e silencioso e torrencial.

Depressa! Desprezemos as armas!

As armas não passam pelos vastos caminhos da paz.

As armas passam apenas pelas veredas estreitas da morte! 


Páscoa (15/4/2022)

Teresa Ferrer Passos


***


4. PALAVRAS do PAPA FRANCISCO

 Vigília Pascal (16/4/2022):


«(...) Façamos ressuscitar Jesus, o Vivente, dos túmulos onde O tínhamos encerrado; libertemo-Lo das formalidades onde frequentemente o enclausuramos; despertemos do sono da vida tranquila onde às vezes O reclinamos, para que não perturbe nem incomode mais. Levemo-Lo para a vida de todos os dias: com gestos de paz neste tempo marcado pelos horrores da guerra; com obras de reconciliação nas relações rompidas e de compaixão para com os necessitados; com ações de justiça no meio das desigualdades e de verdade no meio das mentiras. E, sobretudo, com obras de amor e fraternidade (...)».







domingo, 3 de abril de 2022

Episódio da mulher adúltera (Jo 8, 2-11), abordado com grande agudeza pelo Papa Francisco, na homilia da missa em Malta

Papa Francisco em Malta em 3/4/2022


«(...) Como saber se somos discípulos na escola do Mestre? Pelo nosso olhar, pelo modo como olhamos para o próximo e como olhamos para nós mesmos. Aqui está o ponto para definir a nossa pertença.

Pelo modo como olhamos para o próximo: se o fazemos como Jesus nos faz ver hoje, isto é, com um olhar de misericórdia, ou de forma inquisitória, por vezes até desdenhosa, como os acusadores do Evangelho, que se erguem como defensores da Deus, mas não se apercebem de espezinhar os irmãos.

Na realidade, quem julga defender a fé apontando o dedo contra os outros, até pode possuir uma visão religiosa, mas não adota o espírito do Evangelho, porque esquece a misericórdia, que é o coração de Deus. (...)»

quarta-feira, 30 de março de 2022

POEMA INÉDITO

Rochedos na praia de Armação de Pêra

 


À TRANSPARÊNCIA


A madrugada despe-se dos medos.
Vejo-a pela praia entreaberta,
Quase ao alcance dos meus dedos,
Já só coberta
Por translúcidos sussurros e segredos.
A brisa está alerta
E a água que corre entre os rochedos
Aguarda a hora - imprevisível e contudo certa -
Em que os meus sonhos serão como brinquedos
Nas mãos da luz então por fim desperta.

Fernando Henrique de Passos, Revista «DiVersos - Poesia e Tradução», nº33, outono-inverno de 2021-22, pág. 69.


Comentário no Facebook:
Trata-se de um poema metafórico nascido do encontro/desencontro da transparência da luz, das águas e dos rochedos; «À Transparência» é uma desconstrução dos sonhos que, como escreve o autor, "serão como brinquedos / Nas mãos da luz então por fim desperta».
                                                                                              Teresa Ferrer Passos

Julgar alguém...

Escreveu Fedor Dostoiévski, o grande escritor russo:
"Lembra-te que tu não podes julgar ninguém. Porque não pode haver ninguém na Terra que julgue um criminoso, a menos que reconheça primeiro que, ele, é ele próprio".


sábado, 26 de março de 2022

Consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria

 


A partir de Roma e de Fátima, a RÚSSIA e a UCRÂNIA foram consagradas ao IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA pelo PAPA FRANCISCO - 25 de Março de 2022


«Ó Mãe de Deus e nossa, solenemente confiamos e consagramos ao vosso Imaculado Coração nós mesmos, a Igreja e a humanidade inteira, de modo especial a Rússia e a Ucrânia. Acolhei este nosso ato que realizamos com confiança e amor, fazei que cesse a guerra, providenciai ao mundo a paz. O sim que brotou do vosso Coração abriu as portas da história ao Príncipe da Paz; confiamos que mais uma vez, por meio do vosso Coração, virá a paz. Assim a Vós consagramos o futuro da família humana inteira, as necessidades e os anseios dos povos, as angústias e as esperanças do mundo.»

(Excerto da Oração do Papa lida pelo cardeal polaco Konrad Krajewski na Capelinha das Aparições em Fátima e, em simultâneo, no Vaticano, durante o Ato de Consagração)

quinta-feira, 24 de março de 2022

A guerra

 Toda a tragédia derrete como a neve no alto das montanhas, e depois esconde-se num largo mar.

23/3/2022

T.F.P.

No 30º dia da guerra levada pela Rússia à Ucrânia:

Mar Negro: o Mar onde a guerra tropeçou

A guerra é uma torrente de palavras por dizer.
24/3/2022
T.F.P.



segunda-feira, 21 de março de 2022

IMPRESSÕES 2

DA GUERRA OU A INQUEBRANTÁVEL AGONIA


no segredo dos deuses esconde-se
o segredo dos homens perdidos.
nos laços corruptos da guerra, da palavra
e da vida enterrada no deserto onde
vicejam apenas as lágrimas da mirra
que incandesce os corações perdidos
das florestas imprevisíveis a arrastar a espera.
De uma espera a vir das flores aquecidas nos vulcões
do amor que desceu aos infernos da amarga
fogueira e que morre nos braseiros acesos pela boca seca.
Tudo isto cresce nos jovens perdidos da sua alma
a irromper célere como um sol esquecido do fulgor
e distraído das razões fortes do inverno esparso
nas praias longas a prolongarem a aridez e a sede
do sonho sem meta do sonho liquefeito num nada
que ninguém encontra nem mesmo morto ou moribundo.
21/Março/2022
Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 18 de março de 2022

IMPRESSÕES 1

 "ESTÁ DENTRO DE TI" (Pormenor da guerra na Ucrânia)


«Ofereço-lhe o silêncio da minha morte»,
disse o homem imóvel. Parecia uma estátua.
Toda feita de carne e osso humano.
Estava só naquela rua de Kiev. Todos tinham partido.
Só ele ficara. O soldado apontou a arma.
Uma detonação eclode. Uma segunda.
Escutou o soldado. Não a escutou o homem. 
"Não está morto?!", gritou o soldado.
Parecia apenas adormecido num lago
de sangue rutilante demais.
Era como uma das estrelas mortas do universo.
Aquele homem havia muito tempo
que se esquecera de viver.
O soldado sorriu. O homem não lhe respondeu.
"A morte está aqui, disse o soldado, como não a vejo?!"
Só o silêncio lhe respondeu.
"Não a vês porque está dentro de ti".
"Dentro de ti", repetiu o soldado.
E apontou a arma para dentro de si.
Uma detonação soa. O soldado não a escutou.  

18/3/2022
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 15 de março de 2022

Acerca do mal e do bem ou do sofrimento, na existência humana

BÍBLIA

«"Os meus dias extinguem-se; / Só me resta a sepultura... / Se algo posso esperar, a sepultura será a minha casa / e nas trevas estenderei a minha cama. / Onde está, pois, a minha esperança?" (in "Livro de Job").
A crise de Job leva-o a renunciar a uma religião mercantil, em forma de idolatria refinada, e a uma visão utilitária de Deus. Suscitou, no tempo antes de Jesus, a mais conseguida revelação e imagem do rosto de Deus. Através da crise de fé de Job, um novo Deus nasce para o pensamento religioso. Será o Deus de Jesus. Ele ensinará que não se ama Deus senão olhando para a cruz da dor, pelo facto de nela se revelar plenamente o amor pela humanidade».

Armindo dos Santos Vaz, "O Ser Humano em Crise no Drama de Job" in Revista de Espiritualidade, Edições Carmelo, nº 117, Janeiro-Março 2022, pág.s 17-18.

****

A dor está nas condições universais da existência humana, dela ninguém se isenta, nem mesmo aqueles que esperam ser salvos da morte física.
16/3/2022
T.F.P.

*

A humanidade nem sequer sabe o que é a felicidade, pensa nela como uma meta a alcançar apenas, uma meta vaga e de contornos indefinidos. Como a poderá encontrar na realidade deste mundo, se é para nós um conceito meta-físico?
16/3/2022
T.F.P.
*

A felicidade não é terrena, não é do mundo por muito que a procuremos; a felicidade pertence ao Transcendente, ao divino e só aí, quando nos libertarmos do gosto do prazer efémero a poderemos encontrar. Santo Agostinho corrobora o pensamento que escrevi. Veja-se a seguinte obra: «Confissões», Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1966, Livro X, capítulos 20-28, págs. 259-269.
17/3/2022
T.F.P.

*


terça-feira, 1 de março de 2022

  A ambição é a espuma vã de nada.

28/2/2022

Escrever é como uma catarse que nos ajuda a suportar as nossas interrogações sobre os mistérios da vida.

1/3/2022





A Europa à beira de uma Terceira Guerra Mundial:

Um ditador de ambição desenfreada tece os caminhos do ódio. Por isso, destrói o amor com uma única arma, a arma da crueldade. Só conhece a lei da destruição. Esta, a única lei que deseja implantar. Esta lei chama-se guerra. Uma lei que nada defende, nada preserva, nada edifica. Só assassina cegamente.

1 de Março de 2022


Há gente que nasceu para a paz, mas, afinal, verificamos com os nossos próprios olhos que, só nasceu para fazer correr o sangue e a dor e as lágrimas de inocentes.

7 /3 /2022


A "Pax romana" só foi alcançada quando Roma conquistou toda a Europa, Norte de África e parte do Próximo Oriente... Nada do que se está a passar no Leste da Europa devia ser estranho à Europa.
  
8/3/2022

O céu tinge-se de cinza, as nuvens escuras passam sem cessar. E nós, humanos, parecemos desconhecer que somos pó e nada. Não, na verdade, bem o sabemos, mas a soberba domina-nos de tal modo que não nos deixa reconhecer o que é apenas a verdade.
  
8/3/2022

Um LOUVOR ao patriotismo das mulheres ucranianas que não debandaram, numa fuga quase irracional, para os países do Ocidente, antes se mantiveram no seu país para ajudar na luta contra o invasor, através do apoio logístico aos seus familiares, umas, e na resistência guerreira, outras.
   
12/3/2022

O risco é próprio da condição humana. Reportagens arriscadas realizadas no cenário da guerra levada pela Rússia à Ucrânia.
  
13/3/2022

                                              Teresa Ferrer Passos

sábado, 19 de fevereiro de 2022

28º aniversário do nosso casamento

 Logo pela manhã, recebi do Fernando esta prendinha alusiva ao nosso dia de casamento, em 19 de Fevereiro de 1994; um poema a transmitir o encantamento do nosso amor, a que não escapa a sua sempre maravilhosa expressão rítmica:




A NOSSA CASA É A CASA DO AMOR


Vivemos na casa do amor.
Aqui
não se conhece a abundância,
a dádiva é sem retorno,
a palavra é capaz de erguer a simples ternura.
Aqui o gesto constrói o longo abraço.
Um prato da sopa é dividido por dois,
o pão ázimo multiplica-se pelos dias sem sol.
Vivemos na casa do amor.
Aqui, não há fome.
O amor alenta mais do que a melhor iguaria.
Aqui, a abundância de bens é dispensada.
A sua vilania arrasaria depressa a casa do amor.
E nós queremos viver precisamente aqui.
Na casa do amor.
19/2/2022

Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

POEMA INÉDITO:


camélia da nossa varanda




CAMÉLIA BRANCA


Olhei a camélia sem mácula, toda branca, aveludada.
Semelhante a uma pérola, é imagem fulgurante, folheada.
Inverno, e o sol brilha na sua pureza de jaspe.
Sem da angústia dos seres se dar conta,
a camélia é vida plena. Ela é a visão da serena realidade.
Abre devagar as pétalas frágeis. Tem a vitória certa.
Tudo nela é claridade. Transparência. Luz que irradia, audaz.
A camélia, toda pura, sem saber o que são espinhos,
é força de alma a ensinar
que a singeleza é o único caminho.
E, nós, com corações humanos espantosos, como nos atolamos
em estéreis fontes secas e em fomes?

14/2/2022

Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Uma página de António Cândido Franco, em mais uma das suas excelentes biografias. A última que lemos, sobre o Poeta Mário Cesariny.

 

António Cândido Franco (1992)

«Sendo um movimento com características singulares, que se situava no domínio da aventura humana do autoconhecimento, e nunca se entenderá o ponto de partida do seu fundador sem tal compreensão, o surrealismo acabou por dar lugar a um imenso choque estético em variados domínios.

Ao procurar o funcionamento real do espírito, seu único propósito, o surrealismo recorreu à escrita e à imagem através do desenho, da pintura, da fotografia e do cinema que lhe serviram como instrumentos de fixação e de revelação do espírito, objectivo último da sua procura.»

António Cândido Franco, «O Triângulo Mágico - Uma Biografia de Mário Cesariny», Quetzal Editores, 2019, p. 63.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

«Lâmpada para os meus passos»


Escreveu Ermes Ronchi ("Aprender da sabedoria das árvores", "Avvenire", Novembro/2021 (in Pastoral da Cultura):

«Somos uma geração de lamentos, que deixou de saber agradecer, que dissipou os profetas e poetas, os enamorados e os bons. E todavia são eles a parábola, o rebento, ramo de figueira ou de amendoeira do mundo salvado. São-no aqui e agora, sobre a Terra inteira e dentro da minha própria casa, como rebentos bons, embebidos de Céu, impregnados de Deus. Quem me quer bem é lâmpada para os meus passos.»

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

POEMA DE ANIVERSÁRIO

Fernando, em 2004,
no recém estreado apartamento em S. Braz de Alportel


FOI MAIS INTENSO

                              No dia dos anos do Fernando


E o real sonho de um instante
brotou e teve vida e não sossego.
O ar foi mais intenso. Uma ventania
inquieta embrulhou o teu corpinho
desengonçado e cheio de um impulso
abafado pelos choros em turbilhão.
Foi quando o silêncio crivou
de medo os teus olhos suaves
a esfarelarem o tempo e a diferença,
o tempo desamparado, fugaz ainda,
o tempo a perpassar
um esquivo amanhecer.

14 de Janeiro de 2022

                                  Teresa Ferrer Passos