terça-feira, 28 de agosto de 2018

Pôr-do-Sol em Montenegro

















as nuvens correm encantadas 
 
em fragrâncias de medo 
 
arcos de cinzas entrelaçam-se 
 
e sonham um horizonte sem luz 
 
mas a luz coloca-se frente a elas 
 
e cresce devagar na noite. 
 
as sombras flácidas circulam 
 
anelam-se nos meus dedos 
 
e crescem como se fossem um lápis de Deus. 
 
os pinheiros entreolham-se 
 
tímidos apagados silenciosos 
 
e unem os ramos indistintos. 
 
parecem uma massa informe 
 
e a cor a apagar-se transforma-se em sons 
 
de cucos e de grilos sonolentos. 
 
o azul desvanece-se ao longe 
 
e o meu olhar a crescer na noite impossível 
 
traça vários arco-íris de amor. 
 
tudo se fecha e cresce e vibra 
 
parece a morte e é a própria vida 
 
a penetrar o meu olhar incrédulo 
 
estarrecido de espanto 
 
o meu olhar a embater 
 
no perfume do ar estonteante 
 
de cores a ser o pôr-do-sol que ontem vi 
 
o pôr-do-sol que hoje vejo. 
 
como não se repete e como é diferente 
 
e… amanhã e... depois de amanhã?…
 
haverá um novo pôr-do-sol 
  
um pôr-do-sol sempre a ser uma recriação 
 
e tão diferente… qual deles o mais belo? 
 
que encanto e magia omnipotente 
 
porque todos os dias há ali  
 
outros desenhos no espaço entre nuvens e cores 
 
multiplicações incoerentes. 
 
o caos na ordem e a ordem no caos 
 
o pôr-do-sol em Montenegro.

Montenegro, 10 de Julho de 2003

                                    Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

APELO À VIRGEM MARIA



       «Dá, ó Virgem, a tua resposta. Responde sem demora ao Anjo, ou, para melhor dizer, ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra. Profere a tua palavra humana e concebe a divina. Diz uma palavra transitória e acolhe a Palavra eterna».

       S. Bernardo de Claraval, "Homilias sobre las excelencias de la Virgem Maria", 4ª, pp. 8-9 in Opera Omnia (Edição Cistenciense, 1966).

domingo, 26 de agosto de 2018



A beleza do Gilão a cruzar Tavira

à espera de um sol poente,

daqueles com que o Algarve

nos maravilha!

26/8/2018
T.F.P.


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Viagem ao futuro


«O que é presente para ti pode ser passado para mim, de acordo com a teoria da relatividade, desde que estejamos em referenciais diferentes... Porém, já não acontece se estamos no mesmo referencial. Pelos vistos devo ter feito uma viagem ao futuro e voltei ao passado...»

Paulo Crawford (Comentário in Facebook 22/8/2018)

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Capela de Santo Amaro em Vilar de Mouros



Sóbria e solene, uma Capela do Alto Minho

A conversão do pecador


21.VIII.2018 - O Evangelho declara que há mais alegria para o pecador que se converte do que para o justo que cumpriu as suas obrigações, salvando-se. Ou sou eu que estou a ver mal o problema ou eticamente nunca evoluiremos enquanto esta moral se mantiver.Eu pratico uma série de crimes a todos os níveis e sinceramente decido converter-me. Sou perdoado. O outro que sofreu na pele as injustiças , os crimes, tudo na vida fez para ser justo, está ao mesmo nível ?
Que sentido faz tudo isto ?

Carlos Carranca (postagem no Facebook em 21/8/2018)

* * *
- Bom dia Carlos! Carlos Carranca, esse sentido que parece absurdo, na verdade, tem um significado lógico: há mais alegria no Céu por um pecador se converter precisamente porque é muitíssimo difícil um pecador converter-se; o justo é bom sem dificuldade, naturalmente, tem a bondade dentro de si. O pecador, tendo vivido no e do pecado, é quase um impossível agir com bondade, ou seja, alterar a sua conduta. Daí haver mais alegria no Céu pela sua mudança (conversão). Ele mudou radicalmente. O mérito que é reconhecido pelo Céu, foi afastar-se daquilo que ele próprio era e abdicar do que era para seguir a palavra de Jesus Cristo.

Teresa Ferrer Passos (postagem no Facebook em 22/8/2018)

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

CARTA do Papa Francisco sobre os abusos sexuais cometidos por Eclesiásticos Católicos



«Abusos sexuais, de poder e de consciência cometidos por um número notável de clérigos e pessoas consagradas»

«A dor dessas vítimas (...), o seu grito foi mais forte do que todas as medidas que tentaram silenciá-lo ou, inclusive, que procuraram resolvê-lo com decisões que aumentaram a gravidade caindo na cumplicidade»

«Implementação da "tolerância zero" e de modos de prestar contas por parte de todos aqueles que realizem ou acobertem esses crimes»

«É impossível imaginar uma conversão do agir eclesial sem a partipação ativa de todos os membros do Povo de Deus»

«Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo»

«É imperativo que nós, como Igreja, possamos reconhecer e condenar, com dor e vergonha, as atrocidades cometidas por pessoas consagradas, clérigos, e inclusive por todos aqueles que tinham a missão de assistir e cuidar dos mais vulneráveis»

Excertos da Carta do Papa Francisco ao Povo de Deus datada de 20 de Agosto de 2018 (publicada em Osservatore Romano)

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A paixão não morre

Em Campina, 2007

Reapaixonar-se pela mesma pessoa, como diz Mário Cláudio, é impossível. E porquê? Porque o que pode acontecer mesmo, é não se ter nunca deixado de estar apaixonado pela mesma pessoa. A paixão, contrariamente ao que se diz na sociedade, é breve, e o amor longo. Ora essas pessoas não sabem o que é apaixonar-se verdadeiramente.

A paixão verdadeira não morre! Digo-o por experiência. Há vinte e quatro anos, a paixão pelo meu marido continua viva. A paixão é sentir-me um só com o outro. Ou, um sem o outro não tem sentido.
17 de Agosto de 2018
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

o "Nome da Rosa" de Eco

"Tentações de Santo Antão" de Hieronimus Bosch (1450-1516)
O "Nome da Rosa" de Umberto Eco é um romance espantosamente belo, em que o autor faz contrastar a realidade quotidiana de um mosteiro com a vida profana, com as suas cruezas e também com as suas seduções. A erudição de Eco e o seu gosto pela reflexão filosófica marcam esta sua ficção. E tantas outras, em que não se distingue claramente o ficcional do ensaísmo.

16/8/2018
Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Parabéns ao Professor Carlos Carranca



Um abraço de PARABÉNS ao Carlos e à Rosinha pelo 39º aniversário do vosso casamento, dos velhos amigos, Teresa e Fernando.

Aqui vai, para ambos, uma lembrancinha: a capa e uma foto do Carlos Carranca com Miguel Torga, em Coimbra. A foto ilustrava a página do artigo "Breves traços da presença de Torga na África portuguesa", que o Carlos assinou neste Número Especial / Torga da "Gazeta de Poesia" (nº 5, Primavera/Verão 1995).


segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A sonda Parker a caminho do SOL...


«Perturbações no vento solar agitam o campo magnético da Terra, que protege o planeta da radiação solar». Não é isto um factor de risco que obriga a um maior conhecimento do sistema solar? Devido às «interferências no clima espacial», como poderá ser afetado o clima do planeta Terra? Os ventos solares, ao agitarem o campo magnético da Terra, não poderão ser responsáveis por alterações climáticas, nesta? Não terão os ventos solares, efeitos negativos na vida da Terra? O seu impacto sobre as radiações solares na Terra será inócuo para o planeta azul? E qual a razão da coroa do Sol (camada externa da atmosfera desta estrela) ser mais quente do que a sua superfície? Não irá este fenómeno físico, entrar em colisão com as leis da gravitação (paradoxalmente) e, portanto, em colisão com as leis da relatividade geral, firmadas por A.Einstein? Perguntas a que a sonda Parker poderá, dentro de menos de uma década, dar resposta.

13 de Agosto de 2018

Teresa Ferrer Passos

domingo, 12 de agosto de 2018

O objetivo da Sonda Parker



O objetivo? Captar a variação da velocidade do vento solar e ver o 'berço' das partículas solares de maior energia. Os cientistas querem perceber como a energia e o calor circulam através da coroa solar (constituída por plasma, gás ionizado formado a altas temperaturas) e explorar o que acelera o vento solar e as partículas energéticas. A sonda vai 'navegar' pela atmosfera do Sol aproveitando a 'janela de oportunidade' dada pela gravidade de Vénus, o segundo planeta mais próximo do 'astro-rei'.
Pela primeira vez, a NASA deu a uma sonda o nome de uma pessoa que está viva, neste caso o astrofísico norte-americano Eugene Parker, de 91 anos, que espera assistir ao lançamento em Cabo Canaveral. Parker é o 'pai' do conceito de vento solar que a sonda se propõe observar mais a fundo, ao 'viajar' até bem perto da coroa do Sol, a camada mais externa da atmosfera da estrela, mais quente do que a sua superfície e de onde 'saem' partículas energéticas, sobretudo eletrões e protões. A NASA realça que perturbações no vento solar agitam o campo magnético da Terra, que protege o planeta da radiação solar, e interferem com o clima espacial, que pode mudar a órbita dos satélites, encurtar a sua 'vida' e alterar o funcionamento de equipamentos eletrónicos a bordo e comunicações terrestres, assim como pôr em perigo a sobrevivência de astronautas.
12/Agosto/2018 (Da emissão online da RR)

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Semana de Canto Gregoriano

Igreja do Seminário Maior de Viseu onde se
 inaugura o 1º Concerto de Música Gregoriana

De novo uma Semana do Canto Gregoriano (26 de Agosto a 2 de Setembro), em Viseu, significa a importância que mantém este género musical, em que se destacou Hildegarda de Bingen. É, cada vez mais, indispensável cultivar iniciativas deste tipo, em todas as cidades de Portugal, pois oferece-nos um espetáculo único. Cada audição transmite uma paz inexplicável. Como é importante não faltar a iniciativas deste tipo para ganhar uma maior capacidade de defrontar todo o cansaço de um dia a dia, em que o tempo parece fugir, parece não chegar nunca, para tudo o que se quer fazer...

7/8/2018
Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Temperaturas anómalas durante quase quatro dias em Lisboa


Devido aos 43º a 44º de Lisboa, só podia sair de casa depois das 21,30 e nem assim apanhava a mais leve brisa, antes um ar ainda bem quente! Foram dias muito difíceis, até porque foi uma situação nunca vivida, segundo a meteorologia. Quase quatro dias, Lisboa irrespirável, uma alteração climática assustadora! Qual o futuro que espera à Península Ibérica, à Europa, ao mundo?! Que medidas são pedidas pelos governos aos especialistas? Quanto tempo vão elas levar a serem postas em prática? De que se está à espera?!

6/8/2018
Teresa Ferrer Passos

Os medronheiros ardem na serra...


É urgente tomar medidas que façam suster as cegas alterações climáticas provocadas pela ambição desmedida do lucro e do prestígio socio-político de muitos, que não têm consciência de que eles próprios serão um dia também vítimas.
 
6/8/2018
T.F.P.

sábado, 4 de agosto de 2018

Os prémios literários


«Até mesmo os prémios literários se tornaram uma forma de “equilibrar” a escassez de meios financeiros resultantes da venda de livros ou de direitos e não apenas, como deveria ser, um reconhecimento público das melhores obras ou dos melhores autores: a obtenção de um prémio literário tornou-se um acto de sobrevivência para qualquer escritor.»

José Manuel Cortêz (excerto de «O Sistema» in Facebook,
3/8/2018)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Poema «Nova Fala de...»

William Shakespeare (1564-1616)
  
Nova Fala de Shakespeare enquanto Criança


com todas as veras, à Prof. Doutora Maria Leonor Machado de Sousa
de todo o coração, à Doutora Maria Teresa Maia Carrilho  

(invoco, para a Musa minha, o 6 de Copas Arcano)

   
«Ser génio quer dizer reproduzir-se igual a si próprio.»
   
                                                                       José de Almada Negreiros


A Beleza eu idolatro,
Dela eu sou aficionado,
Na Beleza nos adamos,
Mas no auto, e no teatro,
Baralha as cartas o Fado
E somos nós que as jogamos.

Por enquanto sou donzel,
Numa noite de Verão
E idealista no idílio,
Será grande o meu papel,
É meu aparte, e oração,
Ovídio, Plauto e Virgílio.

O meu verso é Tasso e terso,
Minha endecha, o albatroz,
O meu trigo, o entremez,
Pois no palco do Universo,
Será grada a minha voz,
Será grande a minha vez.

Nossa trama é tal e qual
Como os loucos ao luar,
Como a lis e como o lai,
Que eu sou livre e liberal,
Eu não quero laborar
No açougue de meu Pai.

E se em salmo, apologeta,
Eu só quero ser Poeta,
Serei meigo e o mistério,
Serei sal e o saltério,
Contra o mal e o medonho,
Numa representação,
Será tudo como o sonho
Duma Noite-São João………..

                                          Que Luz, 23/ 07/ 2018

Sociedade de Estudos de Filosofia e Literatura Comparadas

Ad Augusta per Angusta*

                                Paulo Jorge Brito e Abreu

* Nota da Redacção: Não se chega ao triunfo sem obstáculos a vencer.

A fantasia...




A fantasia é o reino dos pequeninos insetos. Procuremos nele entrar!
 
2/8/2018
                                                                                                                                                    Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 31 de julho de 2018

O coração de Deus


Perante os problemas, contamos só connosco e com os nossos meios ou partimos do coração grande de Deus que nos dá “tudo o que é mais preciso”?

Dom Manuel Clemente (Twitter, 30/7/2018)

"Partir do coração grande de Deus", como escreve D. Manuel Clemente, que mais é preciso?
Teresa Ferrer Passos (Twitter 31/7/2018)

Tudo era simples e sem pompa


«Cristo Nosso Redentor com cinco pães de cevada e dois peixes banqueteou quase 5000 homens, afora mulheres e meninos: e toda esta gente ficou contente e abastada, que foi cousa miraculosa [...] sem haver aí mais iguarias, sem haver casas, nem cadeiras, nem mesas, nem aparatos. O toldo rico e dourado era o céu, os dosséis de brocado eram os temperados raios do sol, as mesas lavradas e marchetadas de prata e marfim e bisagras de ouro, eram as ervas do verde campo, as alcatifas, turquesas custosas e as toalhas finas damascadas eram as boninas e flores, que a terra produzia. Tudo era simples e sem pompa, tudo sem sinal de delícias e vaidades. Que é dos manjares brancos, que ali havia? Que é das invenções curiosas, que ali se achavam? Que é das iguarias custosas? Que é das cousas doces e das conservas esquisitas? Tudo ali era singelo, tudo era alegre e bem assombrado».

Fr. Heitor PINTO, Imagem da Vida Cristã, 1563-65.

Por intermédio de Marco Daniel Duarte (Facebook)

COMENTÁRIO:

As sábias palavras de Fr. Heitor Pinto, a faltarem, cada vez mais, numa sociedade em que prepondera a ideia de que o luxo e a fama são os únicos valores pelos quais se deve lutar.
30/7/2018
Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 30 de julho de 2018

O livro, a literatura em declínio

A televisão, a Internet, os vídeos, os festivais pop, as discotecas, os bares, com grande divulgação nos media, são atração crescente.
E, em Portugal, só um pequeno escol se interessa ainda pelo livro. O seu declínio é bem visível. E já não se pode parar esta evolução mental da sociedade contemporânea.

30/7/2018
Teresa Ferrer Passos

sábado, 28 de julho de 2018

Duas cidades descaracterizadas ou o fim da tradição



O que se está a passar em Coimbra, como muito bem analisa Carlos Carranca, na rede social Facebook, não é mais do que a morte de Coimbra, antes pautada pelo estudo, pelas tertúlias e pela saudade estudantil.

Algo de semelhante acontece em Lisboa. Esta cidade deixou de ter vida intelectual, deixou de ter livrarias por onde passavam os escritores, deixou de ter cafés marcados pelos seus encontros frequentes e as suas polémicas.

A vida de Lisboa já só é traçada pelas compras nos grandes centros comerciais apinhados, o consumo abundante de bebidas nos bares que enxameam as ruas e pelas filas de carros a sair para as casas de campo dos fins de semana. A vida quotidiana dos habitantes de Lisboa mais parece umas mini-férias estabelecidas durante todo o ano...

27/7/2018

Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Fogos incontroláveis na Grécia que já conhecemos aqui, do outro lado da Europa, em Portugal


As férias (?!) de verão perto de Atenas, na belíssima pobreza da paisagem da antiga Hélade, a balouçarem-se nas árvores de ventos súbitos, a redemoinhar loucos fogos lançados pelo desconhecido, hoje. Férias em Atenas, num passado todo pensar o firmamento, as estrelas, a terra quente e a água morna do seu Mediterrâneo. Hoje, esse mar é refúgio de perseguidos e é também o mar dos gregos a fugir dos fogos e à espera da vida. À espera de diálogos possíveis entre uma morte pelo fogo ou a morte na frescura das ondas, cheias de vida. Vida nova, completamente nova, esperam ainda. Os gregos.

25/Julho/2018
Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 20 de julho de 2018

HÁ 25 ANOS (O NOSSO PRIMEIRO ENCONTRO)


Há vinte e cinco anos,
Quando saí de casa ao teu encontro,
Eu não sabia que ia ao teu encontro.

Eu não sabia que as ruas percorridas
As iríamos, juntos, percorrer de novo,
Refazendo de todas o traçado,
Demolindo casarões abandonados,
Erguendo novas moradias,
Plantando jardins no meio do asfalto.

Quando saí de casa ao teu encontro,
Nada sabia dos dias que viriam,
Dos novos sóis que à noite nasceriam,
Das portas que os anjos abririam,
Dos vulcões despertos que ousariam
Sacudir os mantos de lava que os tolhiam
E transformar em sangue e água e vida
O pó, as cinzas e a lava.

Julgava viver um dia como os outros,
No dia em que saí ao teu encontro;
Julgava que o tempo seria sempre igual,
Feito de horas, minutos e segundos.

No dia em que saí ao teu encontro,
Eu não sabia que ia ao teu encontro,
E não sabia que me ia encontrar.

Mas o teu tempo era composto por compassos,
Era uma valsa ao longo de alamedas
De um labirinto largo aberto ao céu,
Um céu sem nuvens e sem presságios negros
Onde me vi espelhado nas estrelas
Quando os nossos olhos se encontraram.

20/7/2018
Fernando Henrique de Passos

APENAS HÁ VINTE E CINCO ANOS...


na fundação Gulbenkian 
um bar uma biblioteca 
e o eco das palavras 
vibraram súbitas 
perdidas 
sem sentido algum 
desencontradas de si mesmas 
e de nós. 

Nessa tarde de Julho 
os corações invisíveis tocaram-se 
numa mesa quadrada que tu preencheste 
com dois cafés, 
um para mim, outro para ti. 
Tudo começava imperceptível 
cheio de brevidade 
e nós não o podíamos saber… 

20 de Julho de 2018 (no 25º aniversário do nosso conhecimento pessoal)

Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 18 de julho de 2018

E o encontro, acontece


Os excluídos, os abandonados da sociedade, à volta, por exemplo, da igreja dos Anjos, em Lisboa, só sobrevivem pela própria comunhão que a solidão cria entre eles. E o encontro, entre eles, esbarra com o desencontro em que sobrevivem, sem se dar conta, aqueles que os excluíram, que os abandonaram.

18/Julho/2018
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 17 de julho de 2018

Poema intitulado (teoria do tudo)



«Um fragmento de Deus
separou-se do resto do seu corpo.
Corpo e fragmento sofrem atrozmente.
Desejam reunir-se
Mas vogam no espaço que os separa.
Só podem voltar a encaixar
Se no instante em que de novo coincidam
For rigorosamente zero a sua velocidade relativa:
Não poderá haver nesse momento
Qualquer impulso mútuo...
Nem de atração...
Nem de repulsa...»

Fernando Henrique de Passos, «Breve viagem nas margens do mistério», Textiverso, Leiria, 2018, p. 51.

domingo, 15 de julho de 2018

Crescer na sua carne

«Que alegria, em cada dia, ver esse trigo crescer na sua carne para o oferecer ao mundo! E as faces de Maria pareciam cobertas de um sorriso infinito!
 

Através de Jesus, o Senhor poderia dar a conhecer aos homens o Seu pensamento, sem os escandalizar com uma intervenção que infringisse todas as leis naturais. Que palavras preciosas escutariam.»

Teresa Ferrer Passos, «Anunciação», Universitária Editora, Lisboa, 2003, p.96.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Despedida, minha mãe?!

Sempre a despedida adiada,
sem lhe ver um fim.
A tua presença em mim, no ar que respiro.
A tua voz transparente,
o teu olhar doce. 
A saudade intacta e a memória
também. Hoje. Amanhã.
Ontem. E foi há vinte e oito anos
que te olhei a última vez.

11 de Julho de 2018


                                                  Teresa Ferrer Passos




terça-feira, 10 de julho de 2018

Resistir numa estranha gruta do Norte da Tailândia

«Lao-Tseu converteu o povo
Ao não-agir
E pela pureza e pela calma,
conduziu-o à fonte»
Sseu-ma Ts'ien in H. van Praag, «Sagesse de la Chine», 1966, p.53.

Lembrando Lao-Tseu (contemporâneo de Buda e Confúcio), o grande filósofo taoísta, numa homenagem à calma daqueles 12 rapazes, entre os 11 e os 15 anos e ao seu jovem treinador, de apenas 25 anos de idade, que foi monge budista durante vários anos e que soube incutir aos seus discípulos a sua própria paz, nas duas longas e dramáticas mais de duas semanas, na prisão das rochas e da água lamacenta, na escuridão e no isolamento, vividos na estranha gruta de Tham Luang, no Norte da Tailândia.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Vida


O mistério está todo encerrado na natureza. E, eis a vida.

4/7/2018
Teresa Ferrer Passos

Sem poder agradecer


Quanto do mar somos nós, quanto lhe pertencemos,
sem saber, quanto lhe devemos, sem poder agradecer-lhe.

Teresa Ferrer Passos