terça-feira, 7 de maio de 2024
domingo, 5 de maio de 2024
SÚBITO NEVOEIRO
com a intensidade dos dias antes.
a neblina não estava aí. apenas a ondulação
a mirar-se na sua quietude parecia que
não perdera o sentido. ao longe o mar espraiava
o Tejo incauto ousado e pleno de um desejo a
prolongar-se na sua decrepitude. sem antes.
agora a cidade vadia pavoneava-se de nevoeiro
como se fosse a única joia que gostava de ostentar
neste dia a submergir quase numa chuva rala
esquiva como o meu pensamento sem infinito.
as árvores esconsas no Monsanto elevavam-se
como torres que buscavam ver o Tejo num dia de sol.
vi-as abatidas pela tarde de sombras.
vi-as sob a dispersão de um nevoeiro a deixar em
invisíveis fragmentos os ramos largos.
senti o seu marasmo eloquente demais
como se fosse meu.
a minha tenda de sonho tornava-se visível
ao mesmo tempo que uma realidade invisível subia
até ao meu olhar frente àquele assombro.
tão inesperado e tão belo.
4 de Maio de 2024
Teresa Ferrer Passos
quarta-feira, 17 de abril de 2024
anéis de fumo a perturbarem-me a visão do tempo.
Perco-me a pouco e pouco das horas.
Não descubro o que se eleva ou se transmite.
A minha alma alheia-se na hora derradeira.
No espaço vejo um místico abismo.
À distância vislumbro trilhos impossíveis de atravessar.
Rumos pedregosos parecem esconder-me um rio
de flamejantes águas. Afinal desavindas com o mundo.
Martelam o fundo de cada grito que escuto.
Inóspito lugar. Ruídos temerosos. Luzes apagadas.
O desconcerto da vida é uma sombra.
Aqui está a verdade que descortino.
Num instante.
Só um relevo na planície ainda me mostra o mar.
Teresa Ferrer Passos
quarta-feira, 10 de abril de 2024
NAS MÃOS ESCREVO
envolvidos em sonho e chuva e sol
e a derreter um secreto mel de rosmaninho.
nas mãos escrevo as iras largas a arrasar os mansos
sexta-feira, 22 de março de 2024
DOSSIER PÁSCOA/2024
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| CORDEIRO PASCAL, pintura de Josefa de Óbidos (datação incerta entre1660 e1670) |
CHRISTO
Pregado n´aquella cruz?
- Aquelle, filho, é Jesus...
É a santa imagem d'elle!
«E quem é Deus? -Quem nos cria,
Quem nos manda a luz do dia
E fez a terra e os céos;
Que todos somos irmãos,
E devemos dar as mãos
Uns aos outros irmãmente:
«E morreu? - para mostrar
Que a gente pela Verdade
Se deve deixar matar.
João de Deus, Campo de Flores, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893 (com Observações Prévias de Theophilo Braga), pág. 373.
***
SENHOR
Nascem os monstros que em minha roda eu vejo
É porque alguém te venceu ou desviou
Em não sei que penumbra os teus caminhos
Foram talvez os anjos revoltados.
Muito tempo antes de eu ter vindo
Já se tinha a tua obra dividido
És sempre um deus que nunca tem um rosto
É o teu rosto ainda que eu procuro
Através do terror e da distância
Para a reconstrução de um mundo puro.
«Uma grande multidão, cortava ramos das árvores e espalhavam-nos pelo chão. E todos diziam em altos brados: ‘Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!’»Mt 21, 8-9
NA MEMÓRIA DE JESUS RESSUSCITADO
sábado, 2 de março de 2024
«A poesia sublima cada coisa, vinculando-a, particularmente com todo o restante (…). A poesia é a gestação da harmoniosa sociedade, a família universal, o belo lar do universo. (…) Cada indivíduo vive em tudo e tudo vive em si. Devido à poesia, surge a máxima empatia e mútua reciprocidade, a mais íntima comunidade.» [versão de tradução livre M.N.S.]
NOVALIS, Schriften, pág. 533.
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024
RIMAS PARA UMA VOZ
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| Um Altar da Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Alcantarilha, Silves |
No 30º aniversário do nosso casamento
Como se não tivesse tempo para esperar
pelo dia mais alto do calendário,
olhava o relógio e via as badaladas perdidas,
vagas, a desfazerem-se sem fim.
O dia esperado revestia-me de uma espera
ardente e luminosa.
Mas as horas avançavam lentas,
enquanto o dia tombava incerto.
Só o crepúsculo começou a serenar-me
como se a luz ofuscada desesperasse da espera.
As trevas caíam enfim. Era noite e eu não
sabia se haveria manhã. A dúvida sucumbia-me.
Sentia-me sem espaço perante um tempo estranho.
Tudo era confuso. As ideias um turbilhão.
Uma maré obscura vi dentro de mim, a escuridão
escorregava sobre a hora única.
Adormeci com um indefinido cansaço.
A manhã renasceu-me. Inesperada. O sol crescia dourado
como nunca antes. Uma voz soava além.
Suave, demasiado suave. Redentora.
Plena de luz atravessou-me. A minha escuridão
esvaziava-se de sentido.
Então, caminhei. Iluminada
pela tua imagem. Ao altar subi.
Teresa Ferrer Passos
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024
4ª FEIRA DE CINZAS
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024
COMEMORANDO OS 35 ANOS DA LIVRARIA UNI VERSO
domingo, 14 de janeiro de 2024
UM POEMA: «Seiva doce»
SEIVA DOCE
Ao Fernando, no dia dos seus anos
ergo-me no dia nascente,
amortecido pela noite.
A custo, despertam cinzas que se espalham
no ar desta manhã de inverno.
A tiritar de um frio estranho,
sem paredes protetoras, procuro o calor,
mesmo nas tuas mãos geladas de incerteza.
Nelas, instalo o sopro de uma brisa cálida
vinda até o meu coração. Vinda talvez de uma onda larga,
talvez de um mar sem fim.
Desço até ao dentro da tua vontade. E perco-me
de mim. Só tu estás aqui, reparo.
Escrevo nas tuas folhas de cor esmeralda.
E penetro, enfim, na sua seiva doce.
14 de Janeiro de 2024
sexta-feira, 12 de janeiro de 2024
BÊNÇÃO PAPAL AOS CASAIS HOMOSSEXUAIS
segunda-feira, 8 de janeiro de 2024
quinta-feira, 28 de dezembro de 2023
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
DOSSIER NATAL/2023
O PRIMEIRO PRESÉPIO:
«Este ano celebramos os 800 anos do Presépio criado pela primeira vez por São Francisco de Assis. Como é bom construir o presépio em família e recriar a atmosfera que São Francisco quis experimentar: a pobreza em que nasceu o Menino Jesus, a humildade e confiança de Maria e de José, o amor e a paz que emanavam da gruta de Belém».
BILHETINHO DE NATAL
Querido
Menino Jesus
Tenho de te pedir desculpa pois este ano, ao contrário do meu hábito, não vou ter uma poesia pronta para te oferecer no dia do teu Aniversário. O meu trabalho solitário tirou-me toda a disponibilidade para a poesia, e neste caso isso significa que me tirou toda a disponibilidade para ti, o que é muito mais grave. Avalias como é grande a minha ingratidão? Não, não avalias, eu sei. Porque tu és bom, porque tu és a própria Bondade, e já me tinhas perdoado antes mesmo de eu saber que este ano não escreveria a habitual poesia para te oferecer. Neste momento já nem te lembrarias disso se não se desse o caso de ser eu recordar-to. Mas eu, sim, eu avalio a minha própria ingratidão, por saber que te devo tudo, e que tudo o que te oferecesse seria pouco para saldar tão grande dívida. Devo-te esta vida e a promessa da vida que há de vir e a esperança de a poder vir a alcançar, para o que me basta seguir a tua lição tão simples: pensar menos em mim e mais nos outros. Mas que digo eu? A tua lição é simples, na verdade, mas nem assim eu consigo segui-la, e neste Natal deixei-me outra vez fechar sobre mim próprio. Mas agora reparo: que importância pode ter para ti o meu fechamento quando vês o mundo inteiro em convulsões de morte?! Por falar nisso, falta muito para o teu regresso à Terra, que nos prometeste há quase dois mil anos? Cada vez nos fazes mais falta, meu Menino! Este planeta está preso por um fio! Mas não te quero cansar mais. Bem hajas pela tua primeira vinda, cujo alento ainda hoje se faz sentir, ajudando-nos a conseguir ir sempre em frente. Quanto à segunda vinda, a definitiva, só tu e o teu Pai sabem qual a altura propícia para ela.
Aceita um grande abraço deste teu amigo,
«Então Herodes ficou muito irado e mandou matartodos os meninos de Belém e de todo o seu território,da idade de dois anos para baixo»Mateus 2,17
de Gaza. Hoje. Porque o tempo parou em Herodes
da Judeia. Ontem. Parou nos seus sofismas de morte.
Hoje ou ontem, Herodes dá ordem para matar
como se fosse uma ordem para viver. O tempo passa
assim igual à crueldade, à indiferença.
E os Herodes ressurgem com outros nomes
num tempo a recusar estar para além dos Herodes
e de todos os seus seguidores.
Os novos Herodes ignoram a vida das crianças.
Imperturbáveis no delírio em que vivem,
nem sonham como se enganam.
Não veem os braços alquebrados
das mães sufocadas de lágrimas, nem
o choro dos pequeninos os alerta.
E o tempo novo vai ressuscitando
os Herodes que duvidam da própria morte
ao alcançarem os seus intuitos miseráveis.
São os dias carregados de impureza.
Os dias ensombrados e sem luz.
Os dias erguidos no altíssimo altar
de um outro Herodes ainda
mais ávido de sangue.
Mesmo que seja sangue
de inocentes a traçar
a escuridão na luz.
Natal de 2023
Teresa Ferrer Passos
*
"Ouviu-se uma voz em Ramá,uma lamentação e um grande pranto:É Raquel que chora os seus filhosporque já não existem"»Mateus 2, 18
segunda-feira, 11 de dezembro de 2023
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| Manuel Neto dos Santos na Apresentação de «Livro dos Regressos», em Memória de sua mãe. |
UM POEMA DO «LIVRO DOS REGRESSOS» de MANUEL NETO DOS SANTOS (Arandis Editora, 2023, p.199) apresentado pelo autor, em Alcantarilha (Dia de Nossa Senhora da Conceição):
quinta-feira, 30 de novembro de 2023
terça-feira, 28 de novembro de 2023
OS INOCENTES
Vejo pela janela indiscreta do escritório,
a tremer ainda na árvore. Estão demasiado
assustadas com o vento que as faz esvoaçar para a distância.
Vejo a sua amargura, vejo a sua incredulidade.
E lembro-me das crianças inquietas,
das crianças a perderem-se do pão e do abrigo certo da casa,
das crianças nascidas para a vida na Faixa de Gaza.
Como as folhas secas não entendem o vento
as crianças não sabem que deixaram
A morte espreitou-as e ali ficou no seu corpo pequenino,
As folhas secas são velhas. Mas as crianças não.
que deixaram de crescer com o dourado do sol,
Enregelando nos escombros empilhados,
caldeiras fumegantes acesas pelo ódio.
Dormem agora, as crianças, como folhas secas.
Como as folhas secas as crianças tombaram
de uma vontade, apenas e só, desumana?
domingo, 19 de novembro de 2023
DIA MUNDIAL DA POBREZA
O POBRE











