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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Apartamento em Lisboa


Uma praia veio aqui desaguar:

As areias, as águas, os rochedos,
O cheiro espumarento que sopra sobre o mar,
Naufrágios, piratas, monstros e sereias:

Todos os medos:

Rochedos e águas e areias,
A incerta e esponjosa substância
Que é o nevoeiro correndo pelas veias;
Aos nossos pés
Um torvelinho entrelaçado com a ânsia,
A lista das ondas e marés,
O sal colado à boca e às narinas,
O fundo escuro e acre das cavernas,
As medusas demasiado femininas,
Rasgões nos braços e nas pernas,
Sol aos golfões,
Arrastando cofres e jóias e dobrões
E os destroços antigos de velhas caravelas:

Tudo me entrou pelas janelas
Quando pegava na caneta
E procurava o frasco da tinta violeta
E o papel se entornou sobre o soalho
E das gavetas da mesa de trabalho
Saíram caranguejos
Enrolados em medusas e desejos
E as cores absurdas do sol unido ao mar
Misturavam o gelo do azul com a febre do vermelho a delirar…

Parei e respirei o cheiro a iodo:

E nessa altura possuí o mundo todo.

13/5/2012

Fernando Henrique de Passos

sábado, 26 de maio de 2012

Insónia das Galáxias

Quebram-se mastros
Contra os rochedos.
Esboroam-se astros
Entre os meus dedos.

Raios, trovões,
No mar, no espaço,
Nas vastidões
Por onde passo.

Praia encharcada,
Temporal escuro,
Água apressada
Que não seguro.

Os pés na areia
Pisando estrelas
E a maré cheia
Que vem varrê-las.

Cordas que estalam.
Estoira uma quilha.
Luzes que falam.
Noite que brilha.

Chovem planetas,
Chuva normal
E mil cometas
No areal.

Luas, poeira,
Estrelas-do-mar,
A praia inteira
A naufragar.

… Quebram-se mastros
Contra os rochedos...
... Esboroam-se astros
Entre os meus dedos…

26/5/2012

Fernando Henrique de Passos