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quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Bosão de Higgs

Físico Peter Higgs (1929-)

Antes de mais, um aviso: sou crente; ninguém mais do que eu gostaria que a ciência provasse a existência de Deus. (Se isso fosse possível, o que, de resto, não é.) 
Ora, se a descoberta do bosão de Higgs provasse alguma coisa (o que não prova, nem, de resto, poderia provar) seria a não existência de Deus. O equívoco gerado em torno desta partícula deriva em grande parte, quanto a mim, de um erro de tradução: traduziu-se em português “God particle” (o que, já de si, é apenas uma brincadeira) por “partícula de Deus”, quando o correcto seria “partícula Deus”, porque é uma partícula que, em certo sentido, se substitui a Deus no seu papel de criador da matéria. Mas também aqui convém ser mais preciso: não se trata de uma partícula que existe antes das outras e depois lhes dá origem; também não se trata de uma partícula que surge após a existência prévia de partículas sem massa (e, portanto, “imateriais”) e que lhes vem conferir essa massa. Nada disso: o bosão de Higgs e as restantes partículas existem “ao mesmo tempo”. O que se passa é que, de acordo com a teoria, se não existisse o bosão de Higgs as restantes partículas não teriam massa, permitindo no entanto a mesma teoria deduzir que as restantes partículas têm massa se, juntamente com elas, existir também o bosão de Higgs. 
Mas, mais importante, se o bosão de Higgs explica a “materialidade” das restantes partículas, fica ainda por explicar por que razão existem de todo partículas, sejam elas quais forem. O crente poderá sempre argumentar que alguém teve de as criar. (Também é verdade que o não crente perguntará sempre: “se Deus pode existir sem ter sido criado, porque não se pode dar o mesmo com as partículas, e com tudo o resto, dispensando assim a ideia de Deus?”) 
Já agora, um aparte sobre as relações entre ciência e religião. Foi posta a circular pela Igreja (a mesma Igreja de que eu faço parte, saliente-se de novo) a ideia de que a ciência e a religião não se contradizem porque dizem respeito a esferas diferentes. Não é verdade. Só existe uma realidade, e a religião e a ciência falam ambas acerca dessa mesma e única realidade, logo alguma relação tem de haver entre as afirmações de uma e outra. O que acontece é que as afirmações da religião não podem ser postas à prova pela experiência, ao contrário das afirmações da ciência, e é apenas devido a este facto que nunca poderá haver contradição entre umas e outras. Mas acrescente-se que uma afirmação que pode ser posta à prova pela experiência pode também ser relativamente desinteressante (ou mesmo completamente desinteressante) do ponto de vista do ser humano e das suas aspirações, enquanto, pelo contrário, uma afirmação não submetível à prova da experiência pode mesmo assim ser verdadeira e, além disso, altamente significativa para o ser humano e para as suas aspirações. 

4/7/2012

Fernando Henrique de Passos