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sábado, 3 de novembro de 2012

Crónica dos confins da cidade


Um muro no centro da manhã de névoa
Um graffiti grotesco espantado ante o espanto dos transeuntes
Nos subúrbios do subúrbio
Onde a cidade e o bosque se entrelaçam
Dando origem a criaturas verdes de olhos desbotados
Mastigando líquenes
Mastigando caliça das paredes

Desceu agora de elevador um fauno triste
De musgo na lapela
Desfolhando notícias amarelentas
Com a gravata a cair verticalmente
Por falta de uma brisa
O fumo acre do cachimbo
Fazendo verter gotas de orvalho dos seus olhos

Há um poço onde uma fada se olha ao espelho
Enquanto esmaga distraída a ponta do cigarro
Que distraidamente acaba de fumar
Suspirando como quem espera alguma coisa
De que entretanto se esqueceu

Um ser pequeno atarracado
Debruça-se sobre um maço de papéis
Empunhando uma minúscula caneta
Com a qual escreve versos desvairados
Sobre cidades nunca imaginadas
Onde não há árvores nem verdura

Um caminho de lajes conduz ao underground
Em cujos túneis húmidos sombrios
Circulam vagões cheios de esmeraldas
Das quais algumas resvalam às vezes para os trilhos
Produzindo mil estilhaços de esperança
Sobre os quais se precipitam melancólicas hordas de duendes

Lá fora à superfície
No centro de tudo ainda o muro
E os fantasmas vegetais
Deambulando entre os dois lados
E o monstro entre as letras absurdas
Entre as cores cansadas e os rostos
Translucidamente passageiros dos transeuntes
De espanto hipnótico estampado
No olhar perdido entre carreiros

Confins do haver-rumo
Placas e letreiros caídos pelo chão
Servindo de pasto aos cogumelos
E à alegria sonolenta
De não se saber se se é um sonho
Ou algum poema de um anão
Esquecido do projecto de escrever
Sobre um mundo diferente do seu mundo

3/11/2012

Fernando Henrique de Passos

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Do Lado de Fora da Noite



Desce à cidade.
Desce à baixa da cidade,
À parte velha:
Lá tudo são sinais.
Deves ir de noite.
Repara no brilho que há à porta do saloon,
Mas não entres.
(Não podes ainda permitir que a realidade
Se substitua às suas representações.)
Caminha ao acaso em todos os sentidos,
Por todas as ruas,
Mas procura ruas sempre mais estreitas,
E quando encontrares uma rua tão estreita que te esmague,
Nela haverá uma só porta:
Abre-a: estarás em tua casa.
Liga o televisor antiquado.
O preto-e-branco ofusca-te.
Mergulhas nas várias tonalidades de cinzento
E deixas-te ir ao fundo.
Voltas à superfície num jardim diurno
Na parte mais nova da cidade.
Mas não desistes,
Esperas a noite,
Voltas a descer até à baixa,
Até à parte velha da cidade.
E voltarás a encontrar a tua casa,
E inumeráveis vezes a perderás de novo,
Pois será essa a tua forma de existir.
Mas chegará a noite em que tinhas aberto a porta do saloon
E tinhas visto para lá das representações
E tinhas entrado
E tinhas decidido ficar
Quando o aparelho te acordou
E percebes que estiveste acordado todo o tempo.
Mergulhaste então nas várias tonalidades coloridas
E deixaste-te purificar por elas.
Deita-te agora e abre os olhos,
Descobre o que a realidade te guardou:
Estar à entrada seria a tua casa:
Podes entrar.

6/10/2012

Fernando Henrique de Passos