terça-feira, 18 de janeiro de 2022

«Lâmpada para os meus passos»


Escreveu Ermes Ronchi ("Aprender da sabedoria das árvores", "Avvenire", Novembro/2021 (in Pastoral da Cultura):

«Somos uma geração de lamentos, que deixou de saber agradecer, que dissipou os profetas e poetas, os enamorados e os bons. E todavia são eles a parábola, o rebento, ramo de figueira ou de amendoeira do mundo salvado. São-no aqui e agora, sobre a Terra inteira e dentro da minha própria casa, como rebentos bons, embebidos de Céu, impregnados de Deus. Quem me quer bem é lâmpada para os meus passos.»

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

POEMA DE ANIVERSÁRIO

Fernando, em 2004,
no recém estreado apartamento em S. Braz de Alportel


FOI MAIS INTENSO

                              No dia dos anos do Fernando


E o real sonho de um instante
brotou e teve vida e não sossego.
O ar foi mais intenso. Uma ventania
inquieta embrulhou o teu corpinho
desengonçado e cheio de um impulso
abafado pelos choros em turbilhão.
Foi quando o silêncio crivou
de medo os teus olhos suaves
a esfarelarem o tempo e a diferença,
o tempo desamparado, fugaz ainda,
o tempo a perpassar
um esquivo amanhecer.

14 de Janeiro de 2022

                                  Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

NATAL /2021


Nascimento de Jesus, em Belém


DAS PRIMEIRAS PROFECIAS MESSIÂNICAS (SÉCs. VIII a.C. - VI a.C.)
- ISAÍAS, ZACARIAS e MIQUEIAS

«O Senhor vos dará um sinal. Olhai: a jovem está grávida e vai dar à luz
 um filho e há de pôr-lhe o nome de Emanuel (Deus connosco)»
                                                                                    
«Porquanto, um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado;
tem a soberania sobre os seus ombros e o seu nome é:
Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai eterno, Príncipe da Paz»
                                                                                   
«Brotará um rebento do tronco de Jessé (pai do rei David)
e um renovo brotará das suas raízes»
                                                                                   
                                                                        Is 7, 14; 9, 5;11, 1.


«Exulta de alegria, filha de Sião! Eis que o teu rei vem a ti;
Ele é justo e vitorioso, vem, humilde, montado num jumento»
                                                                        Zc 9, 9


«E tu, Belém-Efrata, tão pequena entre as famílias de Judá,
é de ti que sairá o guia que há de apascentar o meu povo de Israel» 
                                                                        Mq 5, 1





O NATAL É NO INVERNO

Costumamos olhar para o Presépio
como um local aconchegado.
Como o local aconchegado por excelência.
Enternecedoramente aconchegado e acolhedor.

Mas era Inverno.
E a Sagrada Família estava refugiada num estábulo.
E o frio entrava por todas as frinchas.
E Maria e José vinham encharcados da chuva
que tinham tido de enfrentar.
E aquele Menino acabado de nascer
estava destinado a ser pendurado numa cruz
dali a 33 anos
e a morrer num sofrimento indescritível.

Demos graças ao Menino Jesus
por nos vir despertar do sonho de conforto
com que o Mundo nos embala
enquanto nos encaminha para a morte certa.

Demos graças ao Menino Jesus
por nos mostrar que só acordados
poderemos encontrar a Salvação.

Demos graças ao Menino Jesus
por ter nascido num Estábulo Invernoso
e não num Palácio Primaveril.

21/12/2021 (Solstício de Inverno)
                                   Fernando Henrique de Passos








INEFÁVEL MISTÉRIO

Um vento cresceu de súbito
levantando a terra fina num turbilhão;
besouros e cigarras zuniram ao desafio
e os cordeiros num desatino baliam e
chupavam o leite das suas mães. 
As folhas de uma figueira, próxima, soltavam-se.
E esvoaçando, dançavam como se ouvissem
hinos às estrelas fulgurantes e tão débeis.

Instante enorme fora o grito de uma criança.
Era a sacra vida a entrar no mundo,
infantil e a sentir a aspereza da
palha e da dura manjedoura.
Eram as primeiras horas de Deus
a nascer como um simples homem, ali,
naquele lugar insólito.
Uma virginal mãe o dava à luz
na escura e longa noite. 

23/12/2021 
                       Teresa Ferrer Passos 







NATAL DE JESUS

“Minha mãe, porque Jesus
Cheio de amor e grandeza,
Preferiu nascer no mundo
Nos caminhos da pobreza?
Porque não veio até nós,
Entre flores e alegrias,
Num berço todo enfeitado,
De sedas e pedrarias?"
“Acredito, meu filhinho,
Que o mestre da caridade,
Mostrou em tudo e por tudo,
A luminosa humildade!…
Às vezes penso também,
Nos trabalhos deste mundo,
Que a manjedoura revela,
Ensino bem mais profundo!”
E a pobre mãe de olhos fixos,
Na luz do céu que sorria,
Concluiu com sentimento,
Em terna melancolia:
-“Por certo, Jesus ficou,
Nas palhas sem protecção,
Por não lhe abrirmos na Terra,
As portas do coração.

                               João de Deus
(S. Bartolomeu de Messines1830-Lisboa1896)






segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Acerca de um comentário de Carlos Lopes Pires escrito no Facebook sobre o ensaio «A Lágrima de Ulisses - Regimes da Cultura Literária» (Editora Exclamação, 2021), de Manuel Frias Martins :

"Literatura que se abra para uma espiritualidade sem dogmas" diz-nos o Psicólogo Carlos Lopes Pires, citando o ensaísta. Mas como gizar uma espiritualidade sem nenhum dogma, ou seja, sem um princípio orientador que dê um sentido para o caminho? Como consegui-lo? Dizer só que o rumo é a espiritualidade é muito vago, é algo de indefinido, algo que pode vir marcado por ideologias de todas as feições, sem ética, com uma ética da violência ou com uma ética do amor... Muitos sentidos é possível encontrar ao escrevermos a palavra espiritualidade. Se a espiritualidade não tiver uma marca, um sinal de sentido, como perfilhá-la com sentido da responsabilidade? Por isso, afastar qualquer dogma que seja fundamento de uma nova espiritualidade, é entrar num caminho esvaziado de conteúdo, de fios condutores, num caminho em que todos se podem perder e ninguém se encontrar.

29/11/2021

                                                               Teresa Ferrer Passos

Comentário de António DAlmeida Nunes:

Na minha opinião pode falar-se e sentir a emoção espiritual de se ser parte do cosmos (particularmente o poético) sem termos de nos prender ao fio condutor seja de que dogma for. O sentido do caminho vamo-lo encontrando à medida que caminhamos. Mesmo sabendo que as rosas também têm espinhos.

Resposta a António DAlmeida Nunes:

«Só que "emoção espiritual" é uma coisa e "espiritualidade" é outra, caro António DAlmeida Nunes. Além disso, literatura tem a ver com ficção das palavras, com o modo de dizer a palavra, a frase, com o enredado das palavras, é uma forma de dizer diferente, o que nada tem a ver com «espiritualidade nova». A espiritualidade é muito mais abrangente do que qualquer literatura, seja ela de que linha for. A espiritualidade é um fundo pensante que tende ao universal, ao global, enquanto a literatura não, a literatura é uma forma que tem as suas fórmulas específicas que não têm em vista levar à globalização, ainda que muitos o tentem... A literatura não tem em vista "fazer", nem pode ter em vista "fazer" uma "espiritualidade nova".

Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

 MEMÓRIA na morte do poeta ANTÓNIO OSÓRIO (1/8/1933-18/11/2021). Aqui deixamos um poema do livro «A Ignorância da Morte», Edição de Autor, 1978:


Alcantarilha antiga

ALDEIA DE IRMÃOS

Ao pé dos eucaliptos,
do lavadouro, as casas.
Capela fechada, oficiantes ratos,
e cães, patos, galos
na rua e a dormir dentro,
individuais, sub-reptícios.

E doentes, cavadores, crianças
sonhando com ninhos destruídos.
Longe, na paróquia o cemitério.

Em torno vinhas, olivais,
irmãos uns dos outros
como tijolos dentro da parede.
E no inverno o canto
da lenha exorbitante na lareira,
a queimar, a queimar a cinza por debaixo.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Árvore da Vida


Os lares são uma equívoca solução que coloca os mais velhos numa solidão tremenda. A solidão das coisas que, na nossa casa, falam connosco todos os dias e as nossas memórias maiores desaparecem! Ter muitas pessoas à nossa volta com quem não há diálogo, só agrava mais a solidão daqueles que perderam os seus entes mais queridos da sua presença.

11/11/2021
Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

POEMA INÉDITO

Acácia do deserto

ÁRVORE PERDIDA


era já tarde na casa da árvore pedida
desfolhada sem terra. só silêncio.

era já tarde no tempo vasto a derreter a neve
das minhas horas passadas entre sombras.

era já tarde e o tempo não estava aqui.
não tinhas chegado à minha ventania.
o tempo tinha parado em mim
como espuma inquieta.
de súbito o tempo girou forte.
e foi a emoção com as asas do pássaro
a mostrar a força do amor.
o tempo num relâmpago vi. e eras tu.
com que luz intensa e inesperada!

5 de Novembro de 2021
(no 28º aniversário do nosso noivado)

                                               Teresa Ferrer Passos

POEMA INÉDITO

 



O CAMINHO

Abri as portas do Jardim do Éden,
Julgando que era o ponto de chegada.
Mas não encontrei as luzes de um poente
E sim o raiar da madrugada.

Abri as portas do Jardim do Éden,
Julgando que era o ponto de chegada.
Mas fora Deus quem me pusera ali,
Eu na verdade não andara nada.

Abri as portas do Jardim do Éden,
Julgando que era o ponto de chegada.
Tu estavas no centro à minha espera
E começou então a caminhada.

5/11/2021 (no 28º aniversário do nosso noivado)

                     Fernando Henrique de Passos

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Dia de Finados


E os que saíram da nossa presença, do nosso amor e da nossa amizade, continuam presentes na nossa memória enquanto durar!

2 de Novembro de 2021
T.F.P.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

POEMAS-MEMÓRIA




VENTO DE OUTONO


                   No 28º aniversário do início do nosso namoro


Vi as ondas de um caminho outro em frente de mim.
Vi. Mas não sei já o que pensei naquela manhã-tarde.
Só sei que subi até um sol distante e aqui.
Tudo, no nada em que me inscrevia
se tornava real. Era lua quarto-crescente
algures na linha do horizonte.
Rompia um arco-íris perto do mar ignoto,
algures no areal longo.
Descobria num instante único que aqui estavas
como folha débil de outono e já a elevar-se
num vento a vir do mais fundo de ti.

29 de Outubro de 2021

                                   Teresa Ferrer Passos



POESIA VIVA


Tu és o poema que eu queria escrever.
Quando procurava figuras de estilo
Para construí-lo,
Foste acontecer!

Foste acontecer como por magia,
Concretização dos meus devaneios.
Mas não nasceria dos meus pobres meios
Tão bela poesia!

Poesia sonhada, sonho sem ter fim,
Sonho que é real, que é feito de luz,
E que tem um fito, e que me conduz:
Se eu não te escrevi, tu escreves em mim!

29/10/2021


                          Fernando Henrique de Passos

domingo, 17 de outubro de 2021

Amanhã, a literatura?



A propósito de Astronomia de Mário Cláudio. Uma literatura a seguir um caminho cada vez mais esotérico. Não sei para onde vai a palavra humana... E será esta literatura que vai ter futuro?

                                                                                                         T.F.P.


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Lembrando o 13 de Outubro de 1917

Representação da Santíssima Virgem Maria,
 sua mãe e seu pai, Santa Ana e S. Joaquim.
Pintura de Francisco Zurbarán (1598-1664)

O milagre do Sol a renovar-se, em cada 13 de outubro. Desde 1917. O milagre pedido por Lúcia, a pequenina pastora da Cova de Iria, para que acreditassem nela. Hoje, a Mãe de Jesus, a Virgem Santíssima, permanece no mundo. A sua presença a transmitir a Verdade. E a Verdade, muitos a rejeitam.
T.F.P.

domingo, 10 de outubro de 2021

MEMÓRIA do advogado José Jacinto Bernardino (1888-1962) no aniversário da sua morte


Da direita para a esquerda: avô, pai, eu e avó


INFORTÚNIO

                                 Ao meu avô paterno

Naquele dia outonal, na pequena Alcantarilha,
a mãe mostra o filhinho e logo um voto formula:
hás de servir a Deus, abençoado menino,
hás de ser padre, se tal honra me for dada.

Seu desejo maternal não se realizou, como esperava.
o direito, a lei, a justiça, iam um dia desviá-lo.
O seu sonho era defender a gente
que num banco de réu se sentasse,
fosse rica ou pobre fosse.
"Vou defender quem precisa", pensava, todo a vibrar.
era preciso estudar e a Coimbra rumou.
Um curso de Direito concluiu.
E lá conheceu a mulher que desposaria.
Já em Lisboa, um filho nasceu. Que alegria!
E a todos defendia com a voz da emoção.
as lágrimas a atravessá-lo, quantas vezes as sustinha.
O casamento falhado. Mal amado, vivia.
A desventura sofreu com sabedoria.
Só o tempo das férias lhe dava um certo consolo:
podia voltar à aldeia, aos pais, aos irmãos...
Buscava o amor e a paz que não tinha em sua casa.

Velho e doente, regressa a Alcantarilha.
poucos meses lhe restam. É a hora. A morte espreita.
Definitivo regresso.
A paz de espírito nasce
e na aldeia amada repousa, enfim.


10 de Outubro de 2021

                      Teresa Ferrer Passos/Teresa Bernardino




segunda-feira, 4 de outubro de 2021

DIA DE S. FRANCISCO DE ASSIS

 


"Francisco, a minha igreja está em ruínas... reconstrói-a"! E as obras começaram, mas não eram essas as obras necessárias, as obras tinham de ser feitas nos corações.
4/10/2021

S. Francisco de Assis foi chamado por Deus para reconstruir a Sua Igreja que estava em ruínas. Hoje, como no seu tempo, as arbitrariedades, os abusos desfiguram a Igreja de Jesus, o Cristo. O "resto", como diziam os profetas de Israel, não pode ficar paralisado!
9/10/2021
Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

"Eutanásia disfarçada"



Hoje, palavras do Papa Francisco

Num discurso durante a sessão plenária da Pontifícia Academia para a Vida, o Papa Francisco manifestou a sua discordância da cultura que descarta. Exemplificou com o caso dos idosos tratados “como lixo, porque não são necessários”, quando representam sabedoria. O Papa considera que existe uma “eutanásia disfarçada” ao serem dados aos idosos apenas uma parte dos medicamentos que necessitam, encurtando-lhe assim o tempo de vida. Apelou para que “os académicos, as universidades católicas e mesmo os hospitais católicos “não entrem nesse caminho”.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021



Cada gesto do dia a dia não pode nunca esquecer as palavras evangélicas que veiculam a doutrina revelada por Jesus. Seja de dia, seja de noite. Para Deus, há sempre luz. Nada se pode esconder.
   
13/9/2021                                                       Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O belo

 A verdadeira beleza está em não se reconhecer nela.

1/9/2021                                                                     T.F.P.

sábado, 28 de agosto de 2021

No dia dos meus anos

Logo pela manhã, recebi um lindíssimo poema ("Nos teus anos") de parabéns do Fernando, como é tradicional, desde o nosso casamento.

Aqui reproduzo os primeiros versos:
«Gosto do dia dos teus anos / porque significa que nasceste / e se não tivesses nascido / não estarias hoje a meu lado. (...)».


Escrever com a emoção nas linhas e entrelinhas da poesia, traz-nos a vida que se vai consumindo nos anos e que o tempo não sabe ou não consegue apagar.
9/8/2021
                                                                      T.F.P.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

No pequeno cacto, a grande flor

Grande flor branca (a primeira) nascida esta noite num pequeno cacto da minha varanda.

 

A vida é tão fácil e, às vezes, há quem a torne tão difícil.
 
 27/8/2021
                                                                                T.F.P.


terça-feira, 24 de agosto de 2021

MEMÓRIA DE MEU AVÔ JOSÉ BERNARDINO

 


“SANTA MÃE”

 

                        Ao meu avô José Bernardino (1888-1962)

                      

Recordo-te na memória imensa da tua “santa mãe”,

assim dizias, como se uma brisa leve

passasse de súbito no teu coração

inquieto e triste. A sua memória era uma

chuva branda a humedecer-te os olhos.

Guardavas dela a lembrança de uma ternura ímpar

que te bafejara desde o nascimento

na casa do perfume dos figos

e das alfarrobas, que se alargava à rua

da pequena Alcantarilha. E a tua voz saudosa

vibrava na cidade distante, o amor da “santa mãe”.

Para ti, ela não cabia na ausência da morte

e davas-lhe a presença nas festas dos dias

de Natal, da Páscoa, dos aniversários…

Ela, a tua “santa mãe”, estava sempre

nessas duas palavras comoventes

vindas da tua alma perdida de carinho.

Ao dizeres "santa mãe”, acendias a candeia

da sua memória e eu, criança ainda,

escutava, julgando ouvir uma oração.

 24/8/2021

                                          Teresa Ferrer Passos