OS FIOS CONDUTORES DE MARIA
"Outro aspeto relevante da Anunciação a Maria foi ter-lhe sido dado o poder de
aceitar ou recusar a proposta divina, apresentada pelo anjo. Assinalou, por outro
lado, uma clivagem abruta entre o juízo de Deus sobre a mulher e o baixo estatuto
social em que ela vivia na Palestina. Lembremos o que se escrevia no Eclesiástico:
«Foi pela mulher que começou o pecado, e é por causa dela que todos morremos.
Não dês saída à água, nem à mulher perversa a liberdade. Se ela não andar sob a
direção da tua mão, aparta-a da tua pessoa». A mulher não se sentava à mesa
com os homens, mas devia servir-lhes as refeições; fiava, tecia, fazia o pão, mas uma
mulher não podia falar a um homem na rua; devia dar filhos ao esposo e a esterilidade
podia levar o marido a repudiá-la. Como escreveu Daniel Rops, «era tão verdade
que estava na dependência do marido que, segundo a Lei, a mulher de um escravo
era vendida com ele». E chegava-se ao ponto de, «os compromissos que tomava
podiam ser desfeitos pelo marido (…). Enfim, regra geral, nada herdava, nem do
pai, nem do marido». A mulher devia obediência ao pai e depois ao marido. De
facto, a mulher era um ser quase ignorado no que respeitava a direitos fundamentais.
Ora, contrariando os costumes judaicos, o Espírito Santo ofereceu a Maria um
estatuto altíssimo em relação às leis sociais em vigor. É Deus que a enche de graça,
e oferece-lhe, em seguida, a possibilidade de aceitar ou recusar a Sua vontade: ser a
mãe do Salvador do mundo, o prometido Messias. Quando Maria apresenta um
obstáculo incontornável: «Como será isso se eu não conheço homem», e, por
isso, não poder ser mãe do Salvador, usando o argumento da impossibilidade de tal
acontecimento, o anjo contrapõe que «nada é impossível a Deus".
In Teresa Ferrer Passos, Stabat Mater, Hora de ler, Leiria, 2020, pp.45-46.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Deixe aqui o seu comentário