segunda-feira, 18 de maio de 2026


OS FIOS CONDUTORES DE MARIA

"Outro aspeto relevante da Anunciação a Maria foi ter-lhe sido dado o poder de

aceitar ou recusar a proposta divina, apresentada pelo anjo. Assinalou, por outro

lado, uma clivagem abruta entre o juízo de Deus sobre a mulher e o baixo estatuto

social em que ela vivia na Palestina. Lembremos o que se escrevia no Eclesiástico:

«Foi pela mulher que começou o pecado, e é por causa dela que todos morremos.

Não dês saída à água, nem à mulher perversa a liberdade. Se ela não andar sob a

direção da tua mão, aparta-a da tua pessoa». A mulher não se sentava à mesa

com os homens, mas devia servir-lhes as refeições; fiava, tecia, fazia o pão, mas uma

mulher não podia falar a um homem na rua; devia dar filhos ao esposo e a esterilidade

podia levar o marido a repudiá-la. Como escreveu Daniel Rops, «era tão verdade

que estava na dependência do marido que, segundo a Lei, a mulher de um escravo

era vendida com ele». E chegava-se ao ponto de, «os compromissos que tomava

podiam ser desfeitos pelo marido (…). Enfim, regra geral, nada herdava, nem do

pai, nem do marido». A mulher devia obediência ao pai e depois ao marido. De

facto, a mulher era um ser quase ignorado no que respeitava a direitos fundamentais.

Ora, contrariando os costumes judaicos, o Espírito Santo ofereceu a Maria um

estatuto altíssimo em relação às leis sociais em vigor. É Deus que a enche de graça,

e oferece-lhe, em seguida, a possibilidade de aceitar ou recusar a Sua vontade: ser a

mãe do Salvador do mundo, o prometido Messias. Quando Maria apresenta um

obstáculo incontornável: «Como será isso se eu não conheço homem», e, por

isso, não poder ser mãe do Salvador, usando o argumento da impossibilidade de tal

acontecimento, o anjo contrapõe que «nada é impossível a Deus".

In Teresa Ferrer Passos, Stabat Mater, Hora de ler, Leiria, 2020, pp.45-46.

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