terça-feira, 19 de maio de 2026

 A JOIA DE DEUS

"Maria guardou durante nove meses a joia de Deus, o Seu Filho único, a sua incarnação permaneceu por aquele tempo no seio de uma virgem, toda recolhida no silêncio da humildade, toda concentrada na obra de Deus que a estava a habitar. Ela, que viabilizara a visão de Deus pelos homens – «Quem Me vê, vê o Pai» dirá Jesus –, tornar-se-ia, na hora da crucificação, a mãe
de toda a humanidade, tal como o Pai o era já. E só o seu filho, Jesus, tornaria possível a maternidade de Maria a par com a paternidade de Deus em relação à humanidade. Reparemos, assim, nas palavras do Evangelho de S. João: «Aos que crêem n’Ele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus». Desde a primeira hora, desde que foi chamada, Maria envolveu-se plenamente neste altíssimo processo. E «o Verbo fez-Se homem e habitou entre nós». Mesmo até à última hora, a da ressurreição de Jesus, Maria esteve presente. Ela foi a «stabat mater» que nenhum sofrimento, por mais cruel que fosse, conseguiu abater. O Deus escondido transparece no mundo, Ele é o próprio filho de Maria, Ele é o Messias proclamado pelos profetas, o Salvador. Esse a quem o discípulo João alude deste modo proléptico: «Quando vier o Espírito da Verdade, Ele guiar-vos-á para a verdade total, porque não falará de Si mesmo (…) Ele glorificar-Me-á (…) Tudo quanto o Pai tem é Meu». É um Deus que não se expõe. É antes um Deus que sugere, insinua, aconselha, na intimidade de Si e de cada um. É o transcendente na pessoa de Jesus, que transmite quem é: «Eu conheço-O porque venho de junto d’Ele e foi Ele Quem Me enviou». Enviou, diz João. E para quê? Para que com a sua carne e na carne, sofresse como o ser humano. O sofrimento foi a sua voz, a sua palavra, o seu gesto dialogante. Escondido, Deus quer sofrer por nós e sofrer connosco, para alcançar a nossa única forma de redenção. Como escreveu, oportunamente, o cardeal Walter Kasper, «se Deus não tivesse sofrido em pessoa na cruz, se o próprio Deus não tivesse morrido por nós na cruz, a morte de Jesus não seria mais do que a morte de um ser humano»".

In Teresa Ferrer Passos, «Stabat Mater», Hora de ler, Leiria, 2020, pp. 49-50.

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