domingo, 8 de março de 2026

 NESTE DIA INTERNACIONAL DA MULHER LEMBRO, DOIS POETAS, JOÃO DE DEUS E ANTERO DE QUENTAL, QUE DERAM À MULHER, UM LUGAR DE GRANDE CARINHO E EXCELÊNCIA. ESTE ARTIGO É IGUALMENTE A MEMÓRIA BREVE DO DIA EM QUE NASCEU JOÃO DE DEUS, 8 DE MARÇO de 1830, em S. Bartolomeu de Messines. (Data da publicação deste artigo: jornal «VOZ DE SILVES», em 3 de Agosto de 1992).

JOÃO DE DEUS E OS SONETOS DE ANTERO
Ao abordar a influência de João de Deus, o poeta de S. Bartolomeu de Messines, em Antero de Quental, parece-nos importante referir duas temáticas presentes em ambos: a religiosidade e o amor. Apesar destas raízes inspiradoras comuns, o seu tratamento divergia à medida que Antero se embrenhava nas inquietações existenciais e metafísicas, assim como devido aos estados depressivos que abalavam as suas forças físicas e psíquicas.
No fundo do drama anteriano estão, na essência, o mundo do sagrado e a via dolorosa do amor, tão aparentemente díspares, mas na verdade, não raras vezes a tocarem-se nos seus extremos. Diferença maior consistiu em que, enquanto João de Deus emergia neles libertando-os das suas teias aniquiladoras, Antero, ao tentar libertar-se enleava-se nos seus mistérios, desenterrava vazios que, povoando a sua alma inconformada o faziam cair na esterilidade de sonhos, demasiado sonhados, para não o levarem a precipícios sem regresso. João de Deus ultrapassava a dúvida, não a deixando condicioná-lo; Antero decaia numa busca angustiante até ao infinito.
A sua poesia transformava-se num cadinho, em que as interrogações apenas faziam crescer a sua descrença nos outros e reflexamente em si mesmo.
Num dos sonetos que dedicou a João de Deus como o indica o próprio título «A João de Deus», e escrito ainda na sua primeira juventude em Coimbra, nota-se que o seu conteúdo está fortemente carregado de insatisfação, senão mesmo de deceção perante uma incessante procura da verdade, a qual lhe surge como uma “lei” e não como um conceito decifrável. A João de Deus, autor da elegia «Vida», Antero confessa o cruel tormento que o haverá de percorrer até ao fim da vida: «Buscar, sempre buscar a claridade». Afinal sentia-se a desembocar na dúvida e num implacável destino a que não podia fugir. Eis o beco sem saída do pensamento de Antero. Sufoca no dilema. Então, talvez tendo na memória o poema «Vida» de João de Deus, «encontra a divindade»: «Só Deus pode acudir em tanto dano: / Esperemos a luz de uma outra vida, / Seja a Terra degredo, o Céu destino.» Este último verso, contem o pensamento subjacente do poema «Vida», em que João de Deus a define nestes termos: «A vida é sombra que foge, / A vida é nuvem que voa;… / A vida dura um momento, / … A vida leva-a o vento, / A vida é folha que cai!».
Mas, do mesmo modo que as preocupações de índole religiosa- existencial acodem de modo diverso e, ao mesmo tempo, próximo, nos dois poetas, também o sentimento do amor aparece com idênticas imagens inspiradoras. É o caso de Beatriz, a amante imortalizada por Dante no seu notável poema «A Divina Comédia». Tal como João de Deus, Antero escreve um soneto intitulado «Beatrice». Mas, inspirando-se ambos na figura retirada do imaginário do poeta italiano, como a sua expressão amorosa se distingue! Em Antero, «Beatrice» é a «nuvem d’ouro ideal. Ao vê-la descer do céu abraça-a, mas descobre que abraça «o vácuo». «Estrela ideal, que a luz do amor contém», o poeta chama-a. E procura seduzi-la: diz-lhe que «A Terra é silenciosa», que «o mar é doce». Contudo, isto não chega e resolve oferecer-lhe a alma, não o seu corpo: «A alma! Não a vês tu? mulher! mulher! Oh, vem!».
Lembre-se agora o poema «Beatriz» de João de Deus. Aqui, a amada é definida com transparência física, ainda que usando a metáfora para lhe atribuir dimensão superior: «Tu és um beijo materno! Tu é um riso infantil, / Sol entre as nuvens de inverno, / Rosa entre as flores de Abril! / … Tu és a água das fontes! / Tu és a espuma do mar! / Tu és o lírio dos montes! / Tu és a hóstia do altar! ….». Aqui, a amada, se é ideal, é também real. Ela está perto e possui a distância a que João de Deus a coloca das coisas banais.
O 150º Aniversário do nascimento de Antero passou despercebido no mundo das letras. Numa singela homenagem, recordámo-lo aqui, conjuntamente com João de Deus, o poeta que ele próprio reconheceu como o seu mestre na arte subtil e bela do soneto.
Teresa Bernardino*

* Teresa Bernardino é ortónimo de Teresa Ferrer Passos.

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