sábado, 1 de junho de 2013

No Dia Mundial da Criança - Pequena Homenagem

Nuvem Pequenina de Céu

      No átrio de uma escola, onde não se lembrava de alguma vez ter entrado, Beatriz viu um letreiro que dizia: «Nuvem pequenina de céu». Ficou pasmada. Nem queria acreditar. Como podia estar a ver ali um recreio de uma escola?! Correra tão depressa e chegara, sem dar por nada, àquele lugar?! Só tinha a certeza de não querer encontrar qualquer outra escola.

      Afinal, ali havia também uma escola?! Como, estando tão distante da sua escola, entrara numa escola que lhe parecia a mesma? Ela, que fugira de uma escola por não gostar de lá estar, que penetrara num mundo livre de maldade e logo entrava, de novo, numa escola? «Só pode ser igual à outra!», gritou desesperada. As escolas não eram todas iguais? Se todas eram escolas, todas deviam ser iguais, pensava com uma grande desilusão a percorrer todo o seu corpo encharcado pela água gelada do rio, mas cheio de uma nova esperança.

      A sua cabecinha, estonteada por uma fuga tão vertiginosamente rápida, sentia-se demasiado confusa e estranha. Ali, naquela escola via tantos meninos e meninas correndo, jogando, rindo. Mas como fora ali parar?! Quem a empurrara para aquele lugar que só lhe trazia terríveis lembranças de um tempo horrível e tão próximo? Precisamente, o lugar que ela tanto desejara esquecer para sempre, aparecia-lhe, inesperadamente, no fim do mundo?!

      De súbito, Beatriz pensou que talvez se tivesse enganado na direcção que tomara. Tal a sua precipitação na fuga, tal o desejo de não voltar à escola… Devia ter seguido por um caminho errado… Mas, como se enganara?! Haveria mais do que um caminho? E ela que julgava só haver um destino por aquele rumo…

      Restava-lhe fugir de novo, sair dali. Mas como fazê-lo? Não via uma porta, nem um portão, não via uma rua, nem uma estrada. Estava dentro de um recinto aberto e, na verdade, completamente fechado. Naquele lugar, onde todos pareciam brincar divertidamente, também não descobria uma janela, sequer uma estreita fresta. Onde chegara, afinal?! O ambiente tão natural numa escola parecia-lhe idêntico ao da escola tenebrosa donde fugira. Encontrava-se numa escola, era iniludível. Ora, isto só poderia ser o começo de um novo suplício…

      Agora que escolhera a liberdade de ser outra criança, a liberdade de ter o seu próprio destino, acabava de entrar ainda, outra vez, numa escola?! Quanto tempo desejara ver-se livre daquele recreio onde os meninos da sua turma lhe batiam todos os dias, como se ela estivesse ali a mais, estivesse ali sem dever, como se ela fosse um empecilho, um estorvo ou um bocadinho de lixo abominável. E, depois da fuga salvadora, caíra numa armadilha… Tinha a certeza. Entrara de novo numa escola!

     Sem ela ter tido tempo de procurar uma eventual saída, duas meninas e um menino saíram do grupo em que brincavam e, olhando-a, disseram em uníssono: «Anda Beatriz, vem brincar connosco». Estupefacta ante o simpático convite, respondeu toda a tremer: «Brincar com vocês? Vocês não são como os outros?!». «Vem, não tenhas medo. Somos teus amigos». «Meus amigos, como?», interrogou Beatriz, sem acreditar na sinceridade das suas palavras.

     «Aqui, numa pequenina nuvem de céu, todos são amigos e, por isso, ninguém fica de fora da amizade», disseram a sorrir. «Mas eu devo ficar como sempre fiquei! Sempre fui vista na escola como um verme, um verme repelente…», insistiu Beatriz, sem acreditar no que lhe diziam. Seria um embuste para a apanharem? Iria cair numa nova armadilha? Ou, pelo contrário, estavam a dizer-lhe a verdade?! Mas como podia Beatriz acreditar?!

     Ao verem-na sem responder e com as faces incendiadas de medo, já nem conseguiam sorrir. Como a tinham magoado, afinal! Depois, viram-na a esconder-se por traz de um fiozinho de água de uma das fontes daquela escola, cheia de fios de água, plantas com frutos e relvados largos com pequenos esquilos, coalas e lémures a saltitar. Todos os animais que saiam das suas tocas tinham um pelo aveludado, olhos dóceis e patinhas felpudas.

     Entretanto, Beatriz começou a divertir-se com aqueles bichinhos inesperados. E, os três meninos saídos do grupo, não resistiram a chamá-la de novo: «Tu abandonaste o tempo da inimizade, rejeitaste o tempo da cólera, tu tiveste a coragem de escolher o tempo da harmonia e o tempo da paz. Aqui, encontras esse tempo em que nunca chegaste a viver. Nesta escola serás tratado por irmã». «Escolhi o único tempo em que eu podia viver, o tempo da amizade», respondeu Beatriz, já confiante e com um sorriso nos lábios.

     Naqueles momentos, a pequena Beatriz começou a sentir que podia haver escolas com meninos bem diferentes daqueles que estavam na escola donde fugira. Afinal, havia escolas com meninos amigos uns dos outros, sem marginalizados, sem os «fora do grupo», sem martirizados, só porque eram cheios de mansidão. Naquela escola, que estava numa pequenina nuvem do céu, não havia que ter medo de ficar lá, sempre a aprender novas coisas.

     Agora, Beatriz não pensava mais em fugir. Naquela escola, a amizade apagava a mais pequena sombra de violência. Ali, não havia meninos a provocarem sofrimento aos que tinham só afecto no coração. Neste lugar, em que tudo era movido pelo sentimento da fraternidade, Beatriz queria ficar, sem relutância, sem qualquer susto. Aqui, até poderia ter encontrado um lugar para sempre, mesmo sendo, e ainda sendo, um lugar chamado escola.*

Teresa Ferrer Passos

*Conto inédito

Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixe aqui o seu comentário