quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Do declínio dos grandes Estados ou do Império do Sol Poente



«Cometa kk Down - Acabo de entrar, sem me terem dado qualquer explicação, na rede ZN4 do Império do Sol Poente, Império glorioso neste planeta a que chamam Terra, conforme o som que comecei, inesperadamente, a escutar. Ah, uma voz humana identificou-se como o biólogo N7 dos estados... insubmissos! N7 disse-me que as palavras que acabo de escutar da Estrela 4000 b são uma maravilha da tecnologia da união dos países pobres a que ele próprio pertence e que é adversária de uma outra união, a dos grandes Estados que formam o Império do Sol Poente, Império este muito mais avançado segundo me disse, mas num declínio que, dia a dia, se acentua, e que parece estar a submergir todo o seu poder, até agora invencível»

           Teresa Ferrer Passos, Planeta Joyce 8 (Drama-romance fantástico), Harmonia do Mundo, Lisboa, 2007, pág. 26.

sábado, 30 de novembro de 2019

Um poema de Fernando Pessoa, no 84º aniversário da sua morte (30 de Novembro de 1935):


«Magnificat»

«Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E, eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrêlas pestanejam frio,
impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará êste drama sem teatro,
Ou êste teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É êsse! É êsse!
Êsse mandará como Josué* parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!»

*Josué, sucessor de Moisés na conquista da terra de Canaã, no dia da vitória dos israelitas sobre os amorreus e os seus reis disse: "Sol, para sobre Gabaom! / E tu, ó lua, sobre o vale de Aiaom! /O sol parou, / e a lua deteve-se, / até o povo se vingar / dos seus inimigos, / como está escrito no Livro de Jasar (do Justo)."

«Obras Completas de Fernando Pessoa - Poesias de Álvaro de Campos», Edições Ática, Lisboa, 1944, pág. 296 (este poema foi escrito em 7 de Novembro de 1933).

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Excerto da peça de teatro de Camilo Castelo Branco, «O Morgado de Fafe em Lisboa»

«(...)
Leite - Pois em nome da civilização de Fafe, é que eu peço a vª sª, que modere a sua língua.
O Morgado - Pelo que vejo, quem vem a Lisboa há-de moderar a língua! Acho que o diz bem, e que o faz melhor, sr. Leite. É por isso que o senhor, desde que entrou nas cortes, não disse palavra. Há-de ser por isso. O meu amigo sr. Leite quando falava aos "convívios" populares, lá na nossa terra, falava pelos cotovelos. Mas isto cá, pelos modos, muda muito de figura. Pois dou-lhe a minha palavra de honra, que, se eu fosse deputado, havia de falar quando fosse preciso, e mais não estudei gramática nem matemática. Um bom deputado tem sempre que dizer. Eu tanto pedi ao senhor que arranjasse cá com o governo a passar-me a estrada à porta, mas o senhor não fez caso (...)».

Camilo Castelo Branco, «O Morgado de Fafe em Lisboa», s/d (representada em 1961 pelo Teatro Popular de Lisboa), T.P.L., Contraponto, Col. Teatro no Bolso - 14, pág. 26 (peça datada de 1861)

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Um poema de António Cândido Franco


Rawibi, cidade da Palestina

EXÍLIO

Longe dos seus palácios mais encantadores
e felizes

Longe das suas ameias e das suas janelas
cheias de luzes
o sol bate em lugares submersos e sombrios
à porta de cidades desconhecidas

Longe das suas rendas e dos seus altos e
reais diademas
o sol ouve cânticos ignorados e cristalinos
em países que estão eternamente escondidos

           António Cândido Franco, Matéria Prima, 1986, p. 19


terça-feira, 26 de novembro de 2019

"Cruz" de Robert Schad, 2007, Santuário de Fátima
 - Foto de Marco Daniel Duarte, Novembro de 2019


Vejo um Altíssimo Jesus, solitário e desprezado, como tantos seres humanos ignorados que o olham até a alma escorrer lágrimas a entoarem um cântico novíssimo, só ouvido no céu envolto pela grande nuvem.

26/11/2019
Teresa Ferrer Passos

domingo, 24 de novembro de 2019

Contínua procura

A capa de «Um Cientista e uma Folha de Papel
em Branco» (excerto de pintura de Van Gogh)
«Na imaginação de Taoj giram sinais incógnitos de um código de probabilidade que poderia ser o da evolução milenar do seu cérebro encerrado (e tão bem protegido!) na sua cabeça, afinal perdida algures. 
Essa parte de si, quem sabe se desavinda com as suas outras partes corpóreas, sobreviverá em algum lugar da terra? Porque não há-de pensar na sua sobrevivência escondida e guardada por um deus hermético? Taoj sente-se revoltado. Recusa o conformismo. Apesar de não a conseguir capturar no seu espaço de corpo nem fora dele, espera o instante da resposta à dúvida implacável, que não quer aceitar como uma fatal condenação. Interroga-se ainda. Só lhe resta interrogar-se, na procura, na contínua procura...»

Teresa Ferrer Passos, Um Cientista e uma Folha de Papel em Branco (romance), Chiado, 2015, p. 102.


***

Comentários no Facebook de Fernando e de Teresa, em 27/11/2019:

Fernando Henrique de Passos:
«A LISTA NEGRA»
  
Devolvam-me a minha cabeça!
Gritou São João Baptista,
E eu com ele,
E comigo todos os outros da lista.

Os condenados não podem gritar!
Gritou Salomé,
E com ela Herodes, que estava sentado,
E com ele o povo, que estava de pé.

Do fundo de um escritório escuro e poeirento,
Bogart empunhou o revolver e disparou.
A Lua suspendeu o seu movimento
E Kennedy tombou.

A enfermeira assinou o papel,
E sussurrou, suave como mel:
Antes que me esqueça -
Por favor, devolva-me a minha cabeça.

Teresa Ferrer Passos:
Eis o teu poema «A lista negra», na íntegra! A obra "Um Cientista e uma folha de papel em branco" teve como princípio inspirador os quatro primeiros versos (citados na 1ª página), após o teu pedido para eu escrever um romance a partir dele.

Fernando Henrique de Passos:
O meu poema nas entrelinhas do teu romance, ou o teu romance nas entrelinhas do meu poema?

Teresa Ferrer Passos:
As duas hipóteses são válidas.

Fernando Henrique de Passos:
Dois textos entrelaçados.

***

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

É possível deixar de haver pobres sobre a Terra?


Jesus disse que haverá sempre pobres, quando a mulher lhe ofereceu perfumes caros e o discípulo Pedro a censurou por ter gasto o dinheiro a comprar perfumes em vez de ter dado o dinheiro aos pobres. Se Jesus é o Filho de Deus e o disse, como podemos pensar que pobres não existirão sempre? O que não significa que não a devamos combater.

Teresa Ferrer Passos (comentário ao artigo do Pe Manuel Monteiro Mendes ao filme "Parasitas" do realizador coreano Bong Joon-ho, Mensageiro de Santo António, 22/11/2019)

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

De lagarta a borboleta

Temos muito pouco tempo para viver, mas quanto tempo, em contrapartida, para mostrar que valeu a pena.
21/11/2019
Teresa Ferrer Passos

"Planeta Joyce 8" - uma breve passagem


«Cometa kk Down - Acabo de entrar, sem me terem dado qualquer explicação, na rede ZN4 do Império do Sol Poente, Império glorioso neste planeta, a que chamam Terra, conforme o som que comecei, inesperadamente, a escutar. Ah, uma voz humana! identificou-se como o biólogo N7 dos Estados… Insubmissos! De súbito, ouvi outros sons que entendi, de um entendimento que nunca me foi dado até este instante! sinto espanto (disse sinto… mas que é sentir?)… N7 disse-me que as palavras que acabo de escutar da Estrela 4000 b são uma maravilha da tecnologia da união dos países pobres a que ele próprio pertence e que é adversário de uma outra união, a dos Grandes Estados que formam o Império do Sol Poente, Império este muito mais avançado».

Teresa Ferrer Passos, Planeta Joyce 8 (romance), Harmonia do Mundo, Lisboa, 2007, pág. 26.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

A vida, um enigma maravilhoso e pleno de imprevisíveis sentidos.
18/11/2019
T.F.P.

domingo, 17 de novembro de 2019

Um Dia da Pobreza?

S. Francisco de Assis

Um Dia Mundial da Pobreza

um dia dizem.
só um dia
é pouco.
um dia para pensar nos pobres
sem os olhar de frente, sem procurar saber
o que é ser pobre?
o que é o pobre sem uma mão amiga?
o que é o pobre com casa num vão de escada?
o que é o pobre sem dinheiro para a tigela de sopa?
a pobreza é vasta como um deserto interminável
a espraiar-se em grandes cidades.
imensa e tão silenciosa
não alardeia o que lhe falta
e sucumbida morre a abarrotar de palavras.
impera no mundo sem acusar
os seus gritos não se escutam
não abalam o mundo
antes o deixam caído no pântano da sua mesquinhez

17/11/2019

Teresa Ferrer Passos

domingo, 10 de novembro de 2019

Novo Santo Português


Frei Bartolomeu do Mártires (1514-1590)

Arcebispo primaz de Braga, ativo representante da igreja portuguesa no Concílio de Trento, destacou-se pela sua generosidade com os pobres, pelo afecto que oferecia aos doentes e pelo combate à ignorância do clero. A sabedoria na pregação era para ele fundamental. Por isso, o Papa Francisco acaba de o elevar à santidade, tendo-o dispensado do milagre exigido, até agora, para alcançar a canonização. Frei Bartolomeu dos Mártires, novo santo português, foi, assim, louvado pelas suas virtudes excelsas, sendo elas consideradas mais importantes do que actos milagrosos que contemplam sem ser necessário o mérito.
   
8/Novembro/2019
   
Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Dois poetas fizeram anos do seu nascimento em 8 de Novembro:Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e Fernando de Paços (1923-2003)

Sophia de Mello Breyner Andresen - Breve apontamento

«Quem está realmente empenhado num país melhor e numa sociedade melhor, luta pela verdade da cultura. Aquele que é conivente da mediocridade é inimigo de uma sociedade melhor, mesmo que apregoe grandes princípios revolucionários. A revolução da qualidade é radicalmente necessária a uma revolução real.»
   
          Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas,
Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa, 1977, pág.79.


****

Fernando de Paços na casa de seus pais em Viana do Castelo
 com 25 anos

Poeta e dramaturgo infantil, Fernando de Paços - aniversário do seu nascimento, em 8 de Novembro de 1923

Nascido em Viana do Castelo em 1923, faleceu em 2003, em Queluz numa casa que respirava modéstia. Deixou-nos um "Diário Espiritual" inédito, manuscrito, começado a escrever aos 17 anos, com poesia alternada. Debrucei-me sobre a sua originalidade diarística, há alguns anos e escrevi um ensaio que ainda gostaria de ver publicado. Uma memória da sua personalidade generosa e humilde.
   
8/11/2019
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 7 de novembro de 2019


As raízes das árvores são uma parábola da nossa força escondida.
5/11/2019
T.F.P.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Esperança


A esperança, se acaba num buraco negro é vã e, por isso, nos esvazia no mais fundo de nós, enquanto o desespero pode provocar a nossa inversão de sentido e experimentarmos novos caminhos... Desespero é o que se desencadeia quando esperamos, com boa fé, a honradez da palavra de outra pessoa que sustentou as suas promessas, e se lhe perguntamos quando as cumpre, essa pessoa entra em contradição com elas, e rejeita cumpri-las!
4/11/2019

Quando ainda esperamos alguma coisa, essa coisa pode sempre vir a acontecer. Assim, há combate à ansiedade que provoca sofrimento, quando ainda há esperança. Se nada esperamos, caímos no desespero e este conduz ao esvaziamento do ser.
6/11/2019

Temos, dentro do mais fundo de nós, a espera (que é um sustentáculo) de uma outra perfeição, aquela que ainda não atingimos.
6/11/2019
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 5 de novembro de 2019

"Poema Branco" e "Novíssimo sol" (no 26º aniversário do nosso noivado)


POEMA BRANCO 

Dou-te um poema branco 
Como um vasto deserto antártico de neve 
Intacto como uma noiva virgem 
Angustiado como a folha de um escritor em dia-não 
Como o deserto de um Rei que não tem súbditos nem terras 
Como o nada que vai das ameias do castelo até ao horizonte 
   
Há muitos anos começou a nevar nos jardins do Paço 
A neve cobriu a terra estéril 
O gelo entrou pelas fendas que faziam de janelas 
A água correu pelas paredes interiores 
E o primeiro Inverno desse Rei foi duro 
E o Rei foi velho aos vinte anos 
E subiu ao cimo da torre mais cimeira 
E pediu a Deus que o levasse 
Mas Deus mandou-lhe o sono 
E o Rei sonhou com neve 
Sonhou um vasto deserto antártico de neve 
Que se estendia pelo espaço todo 
Até não haver estrelas 
E o branco era frio e duro e era nada 
Mas as lágrimas do Rei caíram sobre a neve 
E o seu calor fez derreter o gelo 
Aonde caíam por acaso 
E o deserto foi vendo despontar 
Pequenos tufos verdes 
Que se reproduziam sem parar 
Dando lugar a novos tufos verdes 
Até formar uma larguíssima passadeira verde 
Até ao Infinito 
Até ao Céu 
Por onde chegaste tu, Princesa, 
A decompor o branco 
Do vasto deserto antártico de neve 
Fazendo nascer dele as tantas cores 
Que agora enchem a vida tua e minha.

5 de Novembro de 2019

                            Fernando Henrique de Passos

***



NOVÍSSIMO SOL

nas cores do outono construí um mundo
cercada de flores
e a primeira foi a tua rosa.
ergui-a em altares de perfumes ímpares
e nas tuas mãos acesas de fogo
crepitou o amor a romper o céu
a romper os dias a quebrar os espinhos
a arder sem parar.
e os dias enormes pareciam-se anos
e os anos pequenos abriam-se eternos.
aqui já na terra
aqui já no céu
novíssimo sol abraçou-nos enfim
e uma tenda impossível ergueu-se para nós.
  
5/11/2019 

                                     Teresa Ferrer Passos

domingo, 3 de novembro de 2019

À espera dos redimidos...


E continuamos a ser vítimas de perturbadoras mentiras, continuamos com os caminhos infestados de fariseus (como há dois mil anos), continuamos com os caminhos pejados de hipócritas, a abarrotar de falsários, continuamos a ser perseguidos e espezinhados por aqueles que se conseguem disfarçar de pessoas dignas, defensoras da justiça.
3/11/2019
Teresa Ferrer Passos


*****
   
«Farei do meu corpo a dor do sacrifício a que ninguém escapa. A dor dos torturados à ordem de poderes prepotentes. A dor dos humilhados que não pecaram. A dor dos desprezados porque não ofendem. A dor que habita os perseguidos, porque discordam das ideias dominantes. A dor das vítimas da difamação, que não têm um caminho para escapar dos difamadores. A dor dos fracassados porque foram ultrapassados por uma feroz e injusta competição. A dor dos que são julgados sem piedade, sem ser levada em conta a crueza dos caminhos a que não puderam fugir.»

in Teresa Ferrer Passos, Jesus até ao Fundo do Coração» (ficção autobiográfica de Jesus por ele próprio), Chiado, 2016, pág. 287.

sábado, 2 de novembro de 2019

Dia de Finados

Foto das escassas campas
no cemitério do Alto de S. João
O lugar de uma grande saudade vai-se esvaziando a pouco e pouco, as pessoas rareiam no lugar, resta um silêncio aterrador que nos faz companhia, é uma presença distante e morta, mais morta que os nossos amados mortos.
2 de Novembro de 2019
Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Dia de Todos os Santos

Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897)
Porque se não se põem os talentos a render para os oferecer a Deus, então não os merecem ter e ser-lhes-ão tirados.(Parábola dos talentos). «Sede perfeitos como Meu Pai é perfeito», disse Jesus e elevaram-se na santidade. Os santos.

Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

«Se nós estamos diante de Deus rendidos à sua misericórdia e à sua infinita capacidade de nos refazer, de nos fazer e perfazer, então Deus pode trabalhar-nos!»
   
Cardeal Manuel Clemente (Twitter, 28/10/2019)

«Na verdade, se Deus pode trabalhar-nos, é porque nós temos já algum mérito para Ele. Se não tivermos já algum mérito, como nos poderá trabalhar? É perigoso dizer para se recorrer apenas à misericórdia de Deus...»
   
Teresa Ferrer Passos  (Twitter, 31/10/2019)

***

«Ter bondade no coração é o caminho para pertencer a Deus.»
    
Teresa Ferrer Passos (Facebook, 31/10/2019)

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Poema-memória/29-10-1993 (Teresa e Fernando)

Nau dos Corvos- esplanada
NAU DOS CORVOS/1993
    
na longínqua Nau dos Corvos
tão distante ela se encontra
um lugar junto ao mar
mais belo que todo o mundo.
a maresia habitava-a o sargaço também
e a espuma benfazeja elevava uma quimera
impossível de dizer impossível de conter.
no teu cansaço sem voz
no meu silêncio arrastado
silenciada pelas ondas
ouvi teu brado intenso
escutei tua inquietude
descobri teu olhar doce

quando ouvi a voz do mar
dentro dela a tua voz irrompia
com firmeza maior que o profundo.
com o ímpeto de uma só palavra
eu respondi-te. "sim".
  
29/Outubro/2019
                                    Teresa Ferrer Passos




NA TERRA ONDE O SOL SE PUNHA

Na terra onde o sol se punha
Certo dia o sol nasceu.
Abri a boca de espanto
E até o céu estremeceu.
Abri a boca de espanto
E comecei a falar
Cansado do meu silêncio
Cansado de me calar.
Cansado do meu silêncio
Falei-te do meu amor.
Subiu mais no céu o sol
E o dia ganhou mais cor.
Subiu mais no céu o sol
Com o teu sim benfazejo
E a terra onde o sol se punha
Despertou no nosso beijo.
 29/Outubro/2019
                    Fernando Henrique de Passos

sábado, 26 de outubro de 2019

Um Poema


sol nascente


Num olhar negro, sem olhar, um café,
uma mesa entre livros com folhas de jardim,
uma hora a tremer de vento, uns dedos magros de sono,
um caminho estreito, uns troncos molhados de verde,
uma sombra, um banco de pedra...
A vir de longe, ouvi a tua voz a entoar um olhar novo,
e, em frente, parecia-me ver, obscuro, um Sol Nascente.

Teresa Ferrer Passos


in Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, A Montanha ou a Peregrinação do Amor, Hora de Ler, Leiria, 2019, 1ª parte - "No teu espaço de voz ouço-te em oração", pág. 16.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Um poema


a aldeia

o sol-pôr entoa a luz
dando-lhe outra luz:
e a aldeia gira à sua volta.
as hortas esverdeadas olham à volta
e as casas amarelecidas
apinham-se em forma
de alcateia de lobos serenos.
não há pessoas no caminho dos rebanhos
e cada ovelha se une à outra
sem se perguntar porquê.
o pastor que é uma criança
também não interroga.
sabe apenas que está pronto
a segui-las toda a vida.

25/10/2019

                          Teresa Ferrer Passos

Ciência sem Epistemologia

Albert Einstein (1879-1955)

«"A relação mútua entre epistemologia e ciência tem características dignas de nota. Dependem uma da outra. A epistemologia privada do contacto com a ciência torna-se um sistema vazio. A ciência sem epistemologia - se é que, nestas circunstâncias, se pode sequer falar de ciência - é primitiva e desordenada"»
                                             Albert Einstein

in Gerald Holton, A Cultura Científica e os seus Inimigos - O Legado de Einstein, (Tradução de Fernando Henrique de Passos), Gradiva, Lisboa, 1998, pág. 222.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Um poema


DA FOTOSSÍNTESE À RESPIRAÇÃO 
   
Penso melhor ao pé das árvores: 
as raízes trazem-me os sonhos 
da terra e das sementes; 
as folhas bêbedas de luz 
contam-me os segredos das estrelas; 
os troncos verticais são mais direitos, 
na sua perfeita imperfeição, 
que as retas dos geómetras; 
as flores têm toda a sabedoria 
do tempo e da mulher; 
e os frutos são de uma certeza tão límpida e desperta 
que envergonha o sonolento teorema dos sólidos perfeitos. 

Penso melhor ao pé das árvores, 
onde quase não separo o pensamento 
do suave tumulto dos átomos gasosos 
transportando até aos meus pulmões 
o verde aroma fresco 
do bosque que amanhece. 
   
15/10/2015

                       Fernando Henrique de Passos
É bom responder à violência com a paz, mas não podemos deixar de dizer a verdade, como disse Jesus. Sem medo.
   
Facebook, 21/10/2019
T.F.P. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Oração

Porque orar é conversar continuamente com Deus, é escutá-Lo, é esperar a sua chegada a todo o instante, é Ele nos encontrar sempre presentes n'Ele.
23/10/2019
Teresa Ferrer Passos

Jesus, «o mar desmedido»


«Deixei-me agitar como se recebesse as largas vagas de uma poderosa força de mar. O absoluto do mar vagueou no meu olhar. O mar desmedido encheu o meu corpo. Apercebi-me de que o seu poder misterioso crescia em todo o meu ser. Parecia-me com uma onda em busca de espaço para amar cada pequeno grão de areia. Muito além da maresia. Ao longe, erguia-se a diferença.»

Teresa Ferrer Passos, Jesus até ao fundo do coração, Chiado, Lisboa, 2016, pág.138 (passagem postada no Facebook pelo Fernando Henrique de Passos).


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

UM POEMA:


a lagoa secreta

Pétalas transparentes no fundo de um lago profundíssimo.
É tudo tão límpido que a custo posso ver.
A luz provém do interior de cada gota de água
E cada pétala tem palavras numa língua muito antiga.
Nadamos de mãos dadas
Enquanto esperamos que se acostume o nosso olhar
à nova claridade.

Fernando Henrique de Passos

in Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, A Montanha ou a Peregrinação do Amor, Hora de Ler, Leiria, 2019, 2ª parte - "Para onde o meu regato se encaminha", pág. 55.

domingo, 20 de outubro de 2019

À VACA (Ode)


Na tua carne mansa inscreves o teu nome
Como um terno bafo da respiração quente.
E escultura amena e delirante descobres
Deitada no palheiro a tua sina.

Pareces na pequenina gruta uma fábula de Esopo.
Toda secreta e evanescente és dourada
Pela divina vida a saltar na noite serena.
O teu pêlo ralo é seda aveludada
A parecer-se com um áureo poente!
E sem ruído embalas a fantasia do grito
Como música de lira a vibrar a alquimia...

                                                Teresa Ferrer Passos

in Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos,  Retábulo, Universitária Editora, 1ª edição, Lisboa, 2002, Parte I - Odes para um Novo Presépio, pág. 21.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Um poema



CRÓNICA DOS CONFINS DA CIDADE

Um muro no centro da manhã de névoa
Um graffiti grotesco espantado ante o espanto dos transeuntes
Nos subúrbios do subúrbio
Onde a cidade e o bosque se entrelaçam
Dando origem a criaturas verdes de olhos desbotados
Mastigando líquenes
Mastigando caliça das paredes

Desceu agora de elevador um fauno triste
De musgo na lapela
Desfolhando notícias amarelentas
Com a gravata a cair verticalmente
Por falta de uma brisa
O fumo acre do cachimbo
Fazendo verter gotas de orvalho dos seus olhos

Há um poço onde uma fada se olha ao espelho
Enquanto esmaga distraída a ponta do cigarro
Que distraidamente acaba de fumar
Suspirando como quem espera alguma coisa
De que entretanto se esqueceu

Um ser pequeno atarracado
Debruça-se sobre um maço de papéis
Empunhando uma minúscula caneta
Com a qual escreve versos desvairados
Sobre cidades nunca imaginadas
Onde não há árvores nem verdura

Um caminho de lajes conduz ao underground
Em cujos túneis húmidos sombrios
Circulam vagões cheios de esmeraldas
Das quais algumas resvalam às vezes para os trilhos
Produzindo mil estilhaços de esperança
Sobre os quais se precipitam melancólicas hordas de duendes

Lá fora à superfície
No centro de tudo ainda o muro
E os fantasmas vegetais
Deambulando entre os dois lados
E o monstro entre as letras absurdas
Entre as cores cansadas e os rostos
Translucidamente passageiros dos transeuntes
De espanto hipnótico estampado
No olhar perdido entre carreiros

Confins do haver-rumo
Placas e letreiros caídos pelo chão
Servindo de pasto aos cogumelos
E à alegria sonolenta
De não se saber se se é um sonho
Ou algum poema de um anão
Esquecido do projecto de escrever
Sobre um mundo diferente do seu mundo
  
3/11/2012
  
                        Fernando Henrique de Passos