quinta-feira, 15 de junho de 2017

Cristo, o Corpo de Deus




Num jardim, vejo as flores
a saltar da terra virgem. E um perfume forte
inebria um Corpo. O do Deus vivo.
Um Corpo que renasceu, depois de morrer.

Viveu na sabedoria, envolto em voz.
Junto dos corpos pôs fim ao sofrimento.
Junto das almas iluminou os pensamentos.
Não acenou, soberbo, às multidões.
Não recebeu aplausos nem distinções.

Encheu de sentidos novos cada pessoa.
Cansado, sentiu a fadiga a curvá-lo.
Orando a cada instante, não adormeceu
ante os males de tanta gente.

O Corpus Christi oferecia a clemência
aos que se arrependiam, dava a alegria aos amargurados,
curava as dores dos mais flagelados.

O Corpo de Cristo respirava a contingência
e espargia o Amor do Pai. Sentia a beleza da
Virgem Maria, a Sua Mãe.
E transparecia toda a Palavra do Espírito,
a Sua essência.

Cristo, o Corpo de Deus aí está, a guardar-se ainda,
escondendo-se no Seu Coração sagrado e infinito.

Dia do Corpo de Deus, 15/6/2017
                                            Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 13 de junho de 2017

Oração de Santo António a Maria Santíssima


Santo António pregando aos peixes
Azulejo de faiança policromada do século XVII,
Museu da Cidade, Lisboa


Nós Te suplicamos, Senhora nossa,
insigne Mãe de Deus,
elevada sobre o coro dos anjos,
que enchas de graça celeste o nosso coração,
o faças resplandecer com o ouro da sabedoria,
o fortaleças com a tua força,
o adornes com as pedras preciosas das virtudes.
Ó bendita Oliveira,
derrama sobre nós o óleo da tua misericórdia,
para que cubra a multidão dos nossos pecados,
e assim sejamos elevados à altura da glória celeste
e possamos gozar a bem-aventurança dos santos,
com o auxilio de Jesus Cristo, teu Filho,
que Te exaltou sobre os coros dos anjos
e Te coroou com o diadema do Reino,
sentando-Te no trono da luz eterna:
a Ele, honra e glória pelos séculos eternos.

Santo António de Lisboa (1195-1231)



Santo António ressuscita a menina morta


***


Santo António


«Tudo quanto pedirdes com fé, na oração, recebê-lo-eis»
Mt 21,22

«Se vós estiverdes em Mim e as Minhas Palavras estiverem em vós, 
pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á concedido»

Jo, 15, 7


Batizado com o nome de Fernando de Bulhões, tomaria, já em Itália, o nome de António. Formado na escola dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, em Coimbra, ambicionava ser missionário. Viajando para a Mauritânia para evangelizar essas terras, regressava a Portugal por ter caído doente, quando o barco, devido a uma tempestade, o levou para Itália, onde acabou por se curar. Contudo, não regressaria a Portugal. Tendo morrido em Pádua, em 1231, com apenas 39 anos, foi canonizado pelo Papa Gregório IX, apenas um ano depois.

Entre os seus milagres em vida, estão a ressurreição de uma menina e a cura de uma amputação. As suas pregações eram ricas de dotes oratórios; o seu amor aos pobres e a todos aqueles que via serem vítimas de injustiça, tornaram-no um franciscano de carisma idêntico ao de S. Francisco de Assis que conheceu pessoalmente. 

Com o espírito de Francisco se identificava no sentido pleno da fraternidade e da grande devoção à Virgem Maria. Pela iconografia conhecida de Santo António, o Menino Jesus, símbolo magnífico da ternura, da simplicidade e da humildade da criança, está sempre entre as suas mãos e sob o seu olhar doce e delicado. A esta iconografia não deverá ter sido estranha a sua visão seráfica do Menino Jesus.

Lisboa, 13 de Junho de 2017 (786º aniversário da morte de Santo António em Pádua)


Teresa Ferrer Passos  

Santo António e a visão do Menino Jesus

***

sábado, 10 de junho de 2017

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades portuguesas no mundo


No dia 10 de Junho de 1580 morria Luís de Camões, o príncipe dos Poetas da Europa. Foi ele que cantou, em versos de altura insuperável, a verdadeira dimensão das aventurosas viagens de descobrimento de Portugal por um mundo ainda tão ignorado.
Um mundo novo começara a erguer-se com os sábios da arte da navegação e com a grande frota naval das caravelas. Tudo se tornou diferente no ano de 1419, ano da primeira descoberta: a ilha a que chamaram da Madeira. E quantas ilhas depois para o Ocidente da costa atlântica de Portugal e quantas para o sul da África e para o seu Ocidente, com o descobrimento do novo continente, a que se chamaria América do Sul.
O país mais ocidental da Europa, essa faixa atlântica da Península Ibérica, Portugal, projectava-se no Atlântico profundo, depois no Índico guerreiro e ainda no fabuloso Pacífico de tantas diferenças. Ao longo do século XV, os mares cruzava e oferecia à Europa novos povos, novas geografias, novas riquezas.
Os portugueses, tornavam nova a sua velha Europa, os seus povos, cheios de surpresa e já a vislumbrar auspicioso futuro. E toda a Europa se renova e se quer confrontar com o país descobridor, a começar por Espanha. E muitos, os maiores, seguem a estrada aberta pelos portugueses: nos mares dos progressos ainda distantes e nas terras da prosperidade logo sonhada, penetram sem olhar para trás.
Teresa Ferrer Passos

Escrevia Camões em «Os Lusíadas» (Canto V, 3-4 e 86):
«Já a vista, pouco a pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes, que ficaram;
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam,
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam,
E já despois que toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.
Assi fomos abrindo aqueles mares,
Que geração alguma não abriu,
As novas Ilhas vendo e os novos ares.
Que o generoso Henrique descobriu;
De Mauritânia os montes e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu,
Deixando à mão esquerda, que à dereita
Não há certeza doutra, mas suspeita.
(...)
Julgas agora, Rei, se houve no mundo
Gentes que tais caminhos cometessem?
Crês tu que tanto Eneias e o facundo
Ulisses pelo mundo se estendessem?
Ousou algum a ver do mar profundo,
Por mais versos que dele se escrevessem,
Do que eu vi, a poder de esforço e de arte,
E do que inda hei-de ver, a oitava parte?»

sábado, 3 de junho de 2017

Recriar o mundo em Cristo, aceitação radical de Maria

Dom Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa,
no Colóquio Comemorativo do 1º Centenário das Aparições de Fátima 


  «Quando a tradição católica diz “imaculada conceição” e “imaculado coração”, exprime a convicção de que Deus criou e encontrou sempre alguém em que pôde incarnar o seu Verbo e aparecer neste mundo, como que uma nova terra onde nascesse o homem novo, Jesus Cristo.

  Por isso “cheia de graça” e constante “sim” à vontade recriadora de Deus. Estar do lado de Deus, para recriar o mundo em Cristo, é por isso estar com Maria e o seu coração imaculado. É aceitar e cumprir o Evangelho vivo. 

   Tendo tudo isto presente, poderemos entrever como o que se passou há um século com os Pastorinhos se insere na visão bíblica das coisas e na maneira católica do respetivo acontecer.

   A vontade de um Deus que não desiste de recriar o mundo em Cristo e a aceitação radical de Maria em incarnar tal vontade.» 

Fátima, 27 de maio de 2017

     Manuel Clemente, «Fátima no contexto do catolicismo contemporâneo» in Colóquio Comemorativo dos 100 anos das Aparições de Fátima (Internet, Patriarcado de Lisboa)

terça-feira, 16 de maio de 2017

O perdão

"Não existe família perfeita. Não temos pais perfeitos, não somos perfeitos, não nos casamos com uma pessoa perfeita nem temos filhos perfeitos. Temos queixas uns dos outros. Decepcionamos uns aos outros. Por isso, não há casamento saudável nem família saudável sem o exercício do perdão. O perdão é vital para nossa saúde emocional e sobrevivência espiritual. Sem perdão a família se torna uma arena de conflitos e um reduto de mágoas. Sem perdão a família adoece. O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente e a alforria do coração. Quem não perdoa não tem paz na alma nem comunhão com Deus. A mágoa é um veneno que intoxica e mata. Guardar mágoa no coração é um gesto autodestrutivo. É autofagia. Quem não perdoa adoece física , emocional e espiritualmente. É por isso que a família precisa ser lugar de vida e não de morte; território de cura e não de adoecimento; palco de perdão e não de culpa. O perdão traz alegria onde a mágoa produziu tristeza; cura, onde a mágoa causou doença".
Papa Francisco


O perdão faz renascer a alma,
de quem o oferece e de quem o recebe.
16/5/2017
                                                                  Teresa Ferrer Passos

sábado, 13 de maio de 2017

«Temos Mãe!»



«Temos Mãe! ... Ficaram dentro de uma luz de Deus ... Fátima é este manto de luz que nos cobre quando nos refugiamos sob o manto de Maria ...
Temos Mãe!... Nossa Senhora introduziu-nos no manto de Deus... Quando passamos por uma cruz, Ele já tinha passado por ela...
Sob a proteção de Maria sejamos sentinela da madrugada ... A igreja brilha quando é missionária ... pobre de meios e rica de amor»

     Algumas palavras do Papa Francisco, hoje, na missa da canonização dos pastorinhos, Jacinta e Francisco Marto, as duas primeiras crianças do mundo, proclamadas santas e que não foram mártires.


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«Maria é a suprema obra-prima do Altíssimo, cuja beleza só Ele conhece e reservou para Si.
Maria é a Mãe admirável do Filho que Se compraz em a fazer pequenina e escondida durante a vida, para acrescer a sua humildade, tratando-a pelo nome de mulher, como se fora uma desconhecida, embora no coração a tivesse em maior conta e a amasse mais do que a todos os anjos juntos.
Maria é aquela fonte selada, esposa fiel do Espírito Santo, único que nela pode entrar.
Maria é o santuário e lugar de repouso da Santíssima Trindade»
   Luís Maria de Monfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, Paulus editora, pp.20-21.


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AMOR E RAZÃO

                            Ao Papa Francisco

O mundo espera-me. O mundo chama-me. Eu penso o mundo.
Tento cartografar o mundo
numa folha de papel milimétrico muito lisa
que me deixou Descartes uns séculos atrás.
Procuro-lhe a ordem. Mas o mundo grita-me:
“A minha ordem é a desordem!”
Procuro-lhe a lei. Mas o mundo grita-me:
“A minha lei é a não-lei!”
Procuro-lhe a lógica. Mas o mundo diz-me:
“Eu sou redondo e a minha lógica
curva-se sobre si mesma como um círculo;
não tentes encontrar princípio ou fim.”
Procuro-lhe a vontade. Sussurra-me ele então:
“Não me desejes nem receies; ama-me
e então a minha vontade será tua
e caminharemos juntos até Deus;
mergulha em mim sem bússola e sem régua,
sem transferidor e sem relógio,
e deixa o teu coração acertar-se pelo bater do meu;
mistura os teus nervos com os meus,
sente o que eu sinto,
vê o que eu vejo,
e nunca mais terás necessidade de pensar,
pois nessa altura conhecerás tudo aquilo
que sempre desejaste conhecer.”

11/5/2017

Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Colóquio sobre os 100 anos das Aparições em Fátima

   

   Em presença de posições convergentes ou divergentes, o fenómeno sobrenatural das Aparições de Fátima será abordado neste Colóquio Comemorativo dos 100 anos das Aparições, promovido pela Reitoria do Santuário de Fátima e pela Academia Portuguesa de História.

   Poderemos considerá-lo como um ponto de partida para a formulação, em termos inovadores, de um pensamento teológico aberto pelo confronto do Evangelho de Jesus Cristo com as mensagens de Sua Mãe, a Santíssima Virgem Maria.

10 de Maio de 2017
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 9 de maio de 2017

Um romance a refletir sobre o materialismo contemporâneo [1]


  
Uma “fantástica viagem pelo mundo do irreal” é a viagem do cientista Taoj no romance que intitulei Um Cientista e uma Folha de Papel em Branco” (Chiado Editora, 2015). A personagem Taoj é, nesta narrativa, o protótipo do homem contemporâneo, enlaçado nos liames das ideologias materialistas propagadas por uma plêiade de intelectuais. Desde o século XVIII, o racionalismo impõe-se e avança cada vez com mais poder de infiltração nas camadas populares.

Os caminhos da ciência prolongam-se pelos caminhos do romancista como pelos dos homens de ciência e da política. O descrédito da Igreja Católica torna a religião como um feudo de crendices e superstições. O marxismo infiltra-se assim com mais facilidade e derruba os seus bastiões populares. No século XIX as ideologias materialistas conquistam terreno a olhos vistos. O cristianismo soçobra ao perder o seu verdadeiro sentido, ofuscado por alguns dogmas da Igreja Católica.

Quer o socialismo ateu, quer o liberalismo são materialistas. Neste ponto, recusam a dimensão espiritual do Homem que tem a ver com sofrimento, com o mistério de Deus, com a felicidade eterna e não efémera, com o amor no coração de cada homem e não com o amor defendido pelo socialismo, o amor em abstrato e global. A passos largos, acabam ambos por caminhar no mesmo sentido. A prova está na sociedade contemporânea dos nossos dias. 

Nesta mundialização, que se vem alargando a grande parte do mundo, o dinheiro é a solução. O dinheiro é o fulcro de todos os sentidos das revoluções, as proletárias e as das elites das classes média e alta. O dinheiro é o cerne da luta dos materialistas ateus e defensores do estado socialista e é, igualmente, o cerne da luta da ideologia do liberalismo económico, na feição dos liberais e ultra-liberais.

Entre a 2ª metade do século XX e este princípio do século XXI estão erguidos os alicerces da felicidade terrena levantada pelo socialismo proletário. Os mesmos suportes erguem-se com o liberalismo político e económico. Da Europa Ocidental à Europa de Leste, da América à China, em parte a África, estas duas fações, na aparência contrárias, avançam no mesmo sentido: o materialismo ateu da vida contemporânea.

Formou-se uma mentalidade materialista que hoje prospera com a força da imagem ao serviço do consumismo desenfreado da maioria. A fé no cristianismo esconde-se em minorias cheias de medo. A periferia dos excluídos pelo espírito, silencia-se, esconde-se. Os intelectuais vitoriosos exultam na venda dos seus produtos literários, científicos e artísticos sem se distinguirem dos objetivos do materialismo ateu. Têm ao seu serviço os meios de comunicação social e as redes internéticas. A internet contém a pedagogia do materialismo e do ateísmo que o secunda. Tudo gira à sua volta.

Neste romance, procurei espelhar o peso, na sociedade, do racionalismo materialista vitorioso. Simboliza-a um ecrã de computador que dá todas as pistas ao cientista Taoj. A folha de papel em branco significa o vazio do tudo é permitido, mas não vislumbra a felicidade prometida. Na vigília, no sono ou no sonho, Taoj não sai do mundo fictício onde a sociedade materialista contemporânea o lançou.

Tudo o resto, o amor à família não passa pelo seu coração, o amor aos outros é-lhe estranho, porque, para ele, os outros são sempre os outros. Como pode amá-los de verdade, se estão separados pelo muro do egocentrismo? Poderia perguntar Dostoievski, o autor de Os Irmãos KaramazovPara Taoj, o mundo da matéria reduz-se ao mundo do corpo a que falta a sua cabeça. Procura-a sem cansaço, porque só o seu corpo tem sentido e se lhe falta uma parte é o desespero. A personagem Taoj sente-se, como o homem contemporâneo, esmagado pelo fracasso do presente, quando lhe prometem a felicidade, uma felicidade ao seu alcance e a frustração desespera-o como se fosse igual à morte.

Perdido em códigos, endereços, programas, estradas, recursos do ecrã, só descobre becos sem saída ou muros alheios à felicidade. A solução parece estar sempre à vista, sempre à mão de semear, mas a solução é falsa porque a carne está transformada em ídolo e recusa sequer uma espreitadela para o espiritual. Os paradoxos da vida humana tornam-se comuns a todos porque todos esqueceram que tinham alma e assim aceitam costumes por onde passa o sórdido ou o abjecto.

A cabeça perdida representa a razão, única realidade em que Taoj acredita: «Cheio de horror de si e do seu mal-estar-no-mundo» (p.42). Mesmo quando encontra a razão, depois de várias aventuras, afinal, numa terrível imobilidade, não encontra a felicidade. As mil e uma imagens oferecidas pelo ecrã, o diálogo nas redes internéticas acaba por se revelar fictício ou falso. E grita: «o inferno está aqui, aqui dentro de mim (p.103)». Numa procura infindável, cai na procura impossível: os mistérios maiores de um Criador que não sabe nada sobre a sua própria Origem.

Na 2ª parte como que se inicia um outro romance: a procura de Taoj vai transformar-se na procura de um Deus que, como ele e à sua imagem, procura a sua felicidade. Uma ambição mais forte ainda. O ecrã das imagens dos códigos, das autoestradas internéticas continua a guiar Taoj, indiferente aos absurdos em que se encaixa a sua sede impossível de suster o desejo de desvendar todos os mistérios, mistérios que vê como ilusórios porque só são mistérios enquanto não se descobrem.

Indiferente aos valores do espírito que eleva a matéria e a sustenta até à eternidade, mesmo a carregar o peso das imagens dos «corpos amolgados pelos bairros da lata e os uivos das mulheres agredidas e a criança violentada como se fosse o lôdo dos pântanos» (p.270), inicia a nova caminhada centrada em Alfa, o Princípio Originário. Alfa representa o Deus Criador num mundo de nada, em que não vive, e em que a mudança é um atentado.

É ainda «na matéria em ascensão que Alfa descobre asas abertas para as distâncias do impossível» (p.294). O emergir da matéria com todos os seus absurdos (o big bang) é a saída para mais uma vez se enaltecer o mundo nascente da matéria. Na idolatria da matéria, todo o edifício do mundo do pensamento materialista ateu se ergue como se não tivesse limites, como se fosse o único possível e o único a que se deve ascender até uma vida só assente na felicidade terrena, assente no material.

As teorias revolucionárias, sem a dimensão metafísica do Homem, como pensava Dostoievski, não oferecem, acreditamos nós também, uma felicidade como o epílogo de todos os prazeres, prazeres a multiplicarem-se sem contenção e na ausência de uma porta do espírito para ultrapassar os limites da matéria.      

                                                        Teresa Ferrer Passos




[1] Texto escrito pela autora de Um Cientista e uma Folha de Papel em Branco, pouco antes da sua apresentação na Fnac do C. C. Colombo, em Lisboa, a 10 de Outubro de 2015. A apresentação esteve a cargo do Professor Doutor António Cândido Franco da Universidade de Évora.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Morreu o Dr. António Pires de Lima

António Pires de Lima (1936-2017)

A sua estirpe de cidadão, de causídico e de político deixava sempre uma marca de apreço em quem o escutava. Uma palavra sempre inteligente, um comentário político com o humor que criava uma extraordinária empatia, uma postura íntegra. Com uma personalidade forte, de pensamento inesperado e certeiro, repudiou oportunismos e faltas de honestidade na classe política. Poderíamos dizer que o seu afastamento da vida política foi uma peça a menos, e era importante, neste mundo pobre feito pelas linhas com que tantos se cozem. A não perder da memória o seu exemplo.

8 de Maio de 2017
Teresa Ferrer Passos

domingo, 7 de maio de 2017

Uma vocação: a sementeira da Verdade

Perino del Vaga (1501-1547)

«Sei que em Nazaré, Mãe cheia de graça
Viveste pobremente, não querendo nada mais
Nem arroubamentos, nem milagres, nem êxtases
Embelezam a tua vida, ó Rainha dos eleitos!...
O número dos pequenos é bem grande na terra
Eles podem sem receio erguer os olhos para ti
É pela via comum, incomparável Mãe
Que te apraz caminhar guiando-os para o Céu.

Esperando o Céu, ó minha Mãe querida,
Quero viver contigo, seguir-te em cada dia
Mãe, ao contemplar-te, afundo-me absorta
Descobrindo no teu coração abismos de amor.
O teu olhar maternal desvanece os meus receios
Ensina-me a chorar, e a regozijar-me,
Em vez de desprezar as alegrias puras e santas
Tu queres partilhá-las, dignas-te abençoá-las.»

      Santa Teresa do Menino Jesus, «Por que te amo, ó Maria!»
(excerto do poema) in Obras Completas, Edições Carmelo, p.825.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O primeiro Papa que acreditou no testemunho de Lúcia

Papa Pio XII (1878-1958)
Numa Europa dilacerada pelos terríveis extremismos ditatoriais que mutilavam a paz nas nações, numa Europa de povos flagelados por uma segunda guerra mundial dizimadora de milhões de homens e mulheres, o Papa Pio XII, a 13 de Junho de 1940, data em que Portugal celebrava os 800 anos da sua fundação, publicou a primeira Carta Encíclica em que, aludindo ao contributo de Portugal para a missão evangélica, se referia às Aparições da Virgem Maria a três pastorinhos, no ano de 1917, em Fátima.

Em Dezembro desse mesmo ano de 1940, Lúcia escrevia-lhe uma carta solicitando a criação oficial da Devoção no mundo e, em especial, na Rússia, ao Imaculado Coração de Maria. Correspondendo a tão meritório pedido, menos de dois anos depois, em 31 de Outubro de 1942, Pio XII consagra o mundo ao Imaculado Coração de Maria, não deixando de sublinhar os momentos trágicos que a humanidade vivia "abrasada em incêndios de ódio", previstos já em 1917 pela Senhora vinda do céu e que se mostrava mais brilhante do que o Sol .

Neste caminho de louvor à Santíssima Virgem Maria, Pio XII, proclamou, em 1950, o Dogma da Assunção de Nossa Senhora, em corpo e alma, ao céu. As Aparições de Fátima, em 1917, foram para Pio XII, não duvidamos, o alento mais forte para esta decisiva proclamação perante um mundo desencontrado da paz, o seu valor mais forte.

4  de Maio de 2017
Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Uma autêntica espiritualidade na vida cristã

E Lúcia viu o coração de Maria cercado de espinhos...

«O grande desafio para nós, Santuário de Fátima, (...) é que os peregrinos passem de um conhecimento superficial do que aconteceu aqui e de uma devoção a Nossa Senhora sem qualquer outro enquadramento que não seja essa devoção geral a Nossa Senhora, (...) para a perceção de que Nossa Senhora aqui, mais do que falar dela, nos veio falar do lugar de Deus na vida crente, nos veio desafiar a uma autêntica espiritualidade (...). Perceber o que significa a vida cristã a  partir dos desafios que Nossa Senhora aqui nos lança, eis o que nos é proposto»

 Excerto de uma entrevista ao Padre Carlos Cabecinhas, Reitor do Santuário de Fátima, publicada na revista Fátima Missionária Nº Especial Centenário das Aparições, Maio, 2017, p.17)

domingo, 30 de abril de 2017

A Fé é concreta ou vem do espírito?

Comentários publicados no Facebook:
  O materialismo do Papa Francisco acentua-se, como fica patente em palavras proferidas numa missa a que presidiu no passado dia 24 de Abril, no Vaticano: «Por vezes esquecemo-nos de que a nossa fé é concreta: o Verbo fez-se carne, não se fez ideia: fez-se carne.» Ou: «Peçamos ao Senhor esta experiência do Espírito que vai e vem e nos leva por diante, do Espírito que nos dá a unção da fé, a unção da concretude da fé». Ou ainda: «O Senhor nos dê a todos nós este Espírito pascal, de ir pelas estradas do Espírito sem compromissos, sem rigidez, com a liberdade de anunciar Jesus Cristo como Ele veio: em carne.» (In Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura)
Perante isto, só posso responder com as próprias palavras de Jesus Cristo, «a carne não serve para nada» (Jo 6, 63), às quais acrescento a minha interpretação: Deus fez-se carne não porque a carne fosse boa, mas para nos libertar da carne. Do mesmo modo, o bombeiro desce ao fundo do poço não porque a lama e o lodo sejam bons mas porque só assim pode resgatar o sinistrado que aí caiu por acidente.
30/4/2017
Fernando Henrique de Passos

E o Papa Francisco disse ainda, na mesma ocasião, que «Jesus fez-se carne, não se fez ideia: fez-se carne». Ora, Jesus fez-se carne para que, como Deus, pudesse falar connosco; de outra maneira, não entenderíamos a sua linguagem, não poderia dizer-nos o que devíamos fazer para O seguirmos, como desejava... O excesso de concretismo do Papa Francisco pode, na verdade, levar a graves equívocos.

30 de Abril de 2017
Teresa Ferrer Passos

sábado, 29 de abril de 2017

Jacinta e Francisco e as Aparições de Maria em Fátima



«De facto, a partir dessa experiência, as duas crianças passaram “a estar completamente centradas em Deus: convidados a adorar o Mistério da Trindade, vivem focados no rosto de misericórdia do Pai; convidados a oferecer a vida pelo bem dos irmãos, não mais deixam de ter no seu horizonte o cuidado pelos que mais necessitam, os pecadores; convidados a orar continuamente, passarão a rezar todos os dias o Rosário pela paz no mundo; convidados a consagrar-se a Deus, ao jeito do Coração Imaculado de Maria, viverão as suas breves vidas com a intensidade do Magnificat.»

     Dom Antonino Dias, Bispo de Portalegre e Castelo Branco,(excerto de uma nota publicada no Facebook, em 28 de Abril de 2017)

sexta-feira, 28 de abril de 2017

"Eu, Nuno Álvares"




Palavras de Nuno Álvares Pereira extraídas do romance histórico de Teresa Bernardino, "Eu Nuno Álvares"(Publicações Europa-América, 1987, p.88):


« - Por quanto tempo ainda vos propondes estar a discutir que deve ser o legítimo detentor da coroa? Achais que o prolongamento da nossa indecisão convém à causa da Nação? Não vedes como é nefasto ao prestígio destas cortes dividirmo-nos em partidos destruidores da unidade que raramente tem faltado nos momentos de crise nacional?»

Jacinta e Francisco, santos


   Jacinta e Francisco Marto serão as primeiras crianças não mártires, proclamadas santas. O Papa Francisco presidirá à cerimónia no dia 13 de Maio, sendo a primeira vez que se realiza uma canonização em terras de Portugal ou, mais de acordo com o sentimento popular histórico, em terras de Santa Maria. A palavra de Maria foi ouvida pelos pequenos pastores e logo se tornaram seus discípulos. Na verdade, desde as Aparições, quiseram, com heroísmo inexcedível, obedecer, fazendo tudo o que estava ao seu alcance para a salvação dos pecadores, como pedira a Senhora mais brilhante do que o Sol, a Mãe de Jesus e nossa Mãe.

20 de Abril de 2017
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Adriano Moreira, um pensamento fulgurante


Adriano Moreira, um grande pensador português da política contemporânea nacional e internacional. Um pensamento fulgurante, entusiástico e perspicaz, com a sabedoria dos seus 94 anos de idade!
27/4/2017
Teresa Ferrer Passos

Onde está a justiça humana?



«De súbito, Pilatos perguntou: "De que acusam este homem?" (Jo 18, 29)
Todos gritam: "Se este o homem não fosse um malfeitor, não to teríamos trazido" (Jo 18,30)
Um malfeitor!
Perdoava com abundância... Semeava a esperança... Deu a vida ao filho da viúva pobre, beijava as crianças...
Um malfeitor! 
É o destino da bondade, quando esta caminha no meio da maldade; um malfeitor... Jesus, meu filho!»

       Angelo Comastri, LAnge m'a dit  - Autobiographie de Marie, Salvador, Paris, 2010, p.88.

terça-feira, 25 de abril de 2017

"Minha infância"

Cora Coralina (1889-1985) - escritora e poeta brasileira

Minha infância*
(Freudiana)

Éramos quatro as filhas de minha mãe.
Entre elas ocupei sempre o pior lugar.
Duas me precederam, eram lindas, mimadas.
Devia ser a última, no entanto
veio outra que ficou sendo a caçula.
Quando nasci, meu velho Pai agonizava,
logo após morria.
Cresci filha sem pai,
secundária na turma das irmãs.
Eu era triste, nervosa e feia.
Amarela, de rosto empalamado.
De pernas moles, caindo à toa.
Os que assim me viam, diziam:
" Essa menina é o retrato vivo
do velho pai doente".
Tinha medo das estórias
que ouvia, então, contar:
assombração, lobisomem, mula sem cabeça.
Almas penadas do outro mundo e do capeta.
Tinha as pernas moles
e os joelhos sempre machucados,
feridos, esfolados.
De tanto que caía.
Caía à toa
Caía nos degraus.
Caía no lajedo do terreiro.
Chorava, importunava.
De dentro a casa comandava:
"-- Levanta, moleirona."
Minhas pernas moles desajudavam.
Gritava, gemia.
De dentro a casa respondia:
-- Levanta, pandorga.
Caía à toa
nos degraus da escada,
no lajeado do terreiro.
Chorava. Chamava. Reclamava.
De dentro a casa se impacientava:
"-- Levanta, perna-mole"
E a moleirona, pandorga, perna-mole
se levantava com seu próprio esforço.
Meus brinquedos
Coquilhos de palmeira.
Bonecas de pano.
Caquinhos de louça.
Cavalinhos de forquilha.
Viagens infindáveis
Meu mundo imaginário
mesclado à realidade.
E a casa me cortava: "menina inzoneira!"
Companhia indesejável, sempre pronta
a sair com minhas irmãs,
era de ver as arrelias
e as tramas que faziam
para saírem juntas
e me deixarem sozinha,
sempre em casa.
A rua, a rua!
(Atracção lúdica, anseio vivo da criança,
mundo sugestivo de maravilhosas descobertas)
-- proibida às meninas do meu tempo.
Rígidos preconceitos familiares,
normas abusivas de educação
-- emparedavam.
A rua. A ponte. Gente que passava,
o rio mesmo, correndo debaixo da janela,
eu via por um vidro quebrado, da vidraça
empanada.
Na quietude sepulcral da casa,
era proibida, incomodava, a fala alta,
a risada franca, o grito espontâneo,
a turbulência ativa das crianças.
Contenção, motivação. Comportamento estreito,
limitando, estreitando exuberâncias,
pisando sensibilidades.
A gesta dentro de mim,
Um mundo heróico, sublimado,
superposto, insuspeitado,
misturado à realidade.
E a casa alheada, sem pressentir a gestação,
acrimoniosa repisava:
" Menina inzoneira!"
O sinapismo do ablativo
queimava.
Intimidada, diminuída. Incompreendida.
Atitudes impostas, falsas, contrafeitas.
Repreensões ferinas, humilhantes.
E o medo de falar.
E a certeza de estar sempre errando.
Aprender a ficar calada.
Menina abobada, ouvindo sem responder.
Daí, no fim da minha vida,
esta cinza que me cobre,
Este desejo obscuro, amargo, anárquico
de me esconder,
mudar o ser, não ser,
sumir, desaparecer,
e reaparecer
numa anônima criatura
sem compromisso de classe, de família.
Eu era triste, nervosa e feia.
Chorona.
Amarela de rosto empalamado,
de pernas moles, caindo à toa.
Um velho tio que assim me via
dizia:
"-- Esta filha de minha sobrinha é idiota.
Melhor fora não ter nascido.
Melhor fora não ter nascido.
Feia, medrosa e triste.
Criada à moda antiga,
-- ralhos e castigos.
Espezinhada, domada.
Que trabalho imenso dei à casa
para me torcer, retorcer,
medir e desmedir.
E me fazer tão outra,
diferente,
do que eu deveria ser.
Triste, nervosa e feia.
Amarela de rosto empapuçado.
De pernas moles, caindo à toa.
Retrato vivo de um velho doente.
Indesejável entre as irmãs.
Sem carinho de Mãe.
Sem protecção de Pai,
-- melhor fora não ter nascido.
E nunca realizei nada na vida.
Sempre a inferioridade me tolheu.
E foi assim, sem luta, que me acomodei
na mediocridade de meu destino.



Cora Coralina



ACERCA DO POEMA "MINHA INFÂNCIA"

  De uma infância torta entre as horas da humilhação e da desdita; a procurar-se sempre e tanto tempo e tanta mágoa e tanta ausência de amor e era apenas e só uma criança. 
Aqui assume-se. Numa idade avançada como Cora Coralina.    Quantas, quantas crianças hoje semelhantes, espancadas, espezinhadas, não escutadas, só por serem criança!
 Este poema de Cora Coralina foi, hoje, publicado no Facebook, por Cecy Carvalho. Trata-se de um poema incluído no livro Poemas dos Becos de Goiás e Histórias Mais. Só em 1965, aos 75 anos, ela conseguiu realizar o sonho de publicar este livro.
   Cora Coralina é o pseudónimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas que sobreviveu muito tempo como doceira para sustentar os quatro filhos, depois de o marido, o advogado Cantídio Bretas, morrer em 1934. Tornou-se conhecida como Cora Coralina, a primeira mulher a ganhar o Prémio Juca Pato, em 1983, com o livro Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha. 

25 de Abril de 2017
Teresa Ferrer Passos









terça-feira, 4 de abril de 2017

PÁSCOA/2017




A INFINITA SOLIDÃO DA CRUZ


A solidão de Deus após se ter tornado
exterior às suas criaturas
durava havia trinta anos
e desde então Ele vivia
tão separado das suas criaturas
quanto elas estão separadas entre si,
totalmente dependente da transposição do espaço
para lhes poder sequer tocar,
e, mesmo assim, tocar-lhes só por fora.

E então, o seu louco amor por todos nós
rebentou em ondas gigantescas.
Olhar, gestos, palavras, pensamentos
brotavam d’Ele num furacão dulcíssimo,
submergiam tudo à sua volta,
abraçavam os seres até à alma,
beijavam a vida até ao coração
e curavam todas as formas de doença
pois todas as formas de doença
provêm de nos termos separado,
de termos passado a viver fora uns dos outros,
de termos passado a viver fora de Deus.

Todavia,
nem todos os homens perceberam,
nem todos se deixaram abraçar.
Nalguns foi mais forte aquele apego
a certos tronos pequeníssimos,
foi mais forte o medo que sentiam
de perder aqueles lugarzinhos
tão perfeitamente demarcados
na absurda vastidão do espaço,
o medo de os verem dissolver-se
numa maré de luz e de ternura.

E esses homens feitos só de medo
prenderam Deus, julgaram-n’O depois,
condenaram-n’O à morte numa cruz
e pregaram-n’O nessa quadrícula de espaço,
no chão da terra do degredo,
tornando-n’O incapaz de se mover
em direção aos seres que tanto amava.

E assim Deus morreu de amor, 
na agonia de se ver tão longe
embora tornado mais próximo que nunca,
igualado a nós na finitude,
igualado a nós na impotência.

… Mas isso foi ontem,
e foi o mistério da Paixão,
a sombra enorme que cobriu o mundo,
transformando o mundo em gruta e útero,
donde, pela força do amor,
nascerá amanhã o Homem Novo,
tornado imortal pelo seu Deus,
pela Sua descida às profundezas,
pela Sua vitória sobre a morte,
pela Sua glória incomparável
como Cristo Jesus Ressuscitado…

Sábado de Aleluia, 2017

                    Fernando Henrique de Passos




DAQUELA NOITE NEGRA É QUE VEIO A VIDA


As nuvens negras entrelaçam a noite
mais escura do que o universo,
mais cruél do que os soldados, na tarde longa.
A noite faz estremecer a cruz, a coroa de espinhos
e os pregos enterrados nas mãos de Jesus.
O olhar vivíssimo, firme e calmo,
revela uma certeza imensa e
também um novo caminho a chegar,
embora devagar.
Há nos seus olhos, sem se fecharem,
uma confiança única.
Uma confiança como ninguém teve, 
nem nunca voltará a ter. 
A mãe, afastada para longe pelos soldados,
olha o filho com a força das lágrimas,
inundada de amor, ela, a dolorosa,
à espera que a vida salte da morte.
Espera a salvação pelo Deus em quem confiara,
no tempo da inesperada Anunciação.

Páscoa, 2017
                                      Teresa Ferrer Passos




creio em ti
e também na água que foi vinho
no pão fermentado do nada
pois tudo é fruto do olhar

e assim
o teu corpo caminhando o mar
como fazem os barcos
em certas calmas noites

os peixes buscando
o descanso nas redes
porque tocados foram
em tuas mãos

como se uma flor
um silêncio
um sinal

          Carlos Lopes Pires




«E Maria continua a falar pelas lágrimas e pela dor (...)
Na verdade, Ela só pode dizer um nome:
Jesus!
Só tem uma certeza a propor:
Jesus!
Só tem um segredo a revelar:
Jesus!
Jesus é a estrada a percorrer e é também o fim a atingir: Jesus é Deus que se fez próximo, mas é também Deus a procurar-nos todos os dias, porque o nosso coração se afastou Dele.
E Maria caminha entre vagas de Ave Maria que se dizem de uma ponta à outra da terra (...), para além das guerras. para além das lágrimas e para além da morte.
Sim, porque a Vida será a última palavra: a Vida eterna partilhada com Deus, oceano inesgotável e incessante da verdadeira alegria, a alegria que todos procuramos»

Angelo Comastri, «L'Ange m'a dit - Autobiographie de Marie», Paris, Éditions Salvator, 2010, pp.137-138 (edição original italiana datada de Milão, 2007).





O GRITO DO TRIUNFO




«Que formosos são, sobre os montes,

os pés do mensageiro que anuncia a paz,
que traz a boa nova, que apregoa a vitória»
Is 52, 7



«Hosana ao Filho de David!

Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor»
Mt 21, 9



Montado num jumentinho, vi-Te.

Entravas em Jerusalém, a tua cidade celeste, aqui na terra.
Vi o teu povo gritar pelo teu nome como Salvador, como o Messias, o Desejado.
Eras realmente Tu, Senhor!
Com os ouvidos a ecoar mil clamores, olhavas as gentes a agitar os ramos da paz e da alegria, e Tu estavas pronto para te entregares por eles.
Com o olhar vago, inteiro e a boa nova a brotar do coração, eras o Filho de Deus em carne e osso, como fora a vontade do Pai.
A cruzares-te com cada um daqueles e já com cada um de nós, seguias devagar para a humilhação da hora transformada em vitória eterna.
Seguias confiante e sem deixares de vislumbrar já, a cruz, à espera do Teu suplício. Pronto para as dores da carne e para os insultos ao espírito.
Seguias para que Te víssemos sem olhar para trás, ontem e hoje e amanhã.
Tu, que eras o Rei dos judeus e o Rei do universo!
Tu, o Filho de David, a entrar em Jerusalém como um vencedor!
Tu, que morrerias como um mortal e eras eterno!
Tu, que eras o nosso Redentor!
Tu, que nos perdoavas sem mais lembrança!
Tu sabias que aquele mesmo povo, te condenaria à morte, sem remorsos!
Tu, o Santo de Deus, inocente e manso, num jumentinho emprestado, no mundo que era todo Teu!


Páscoa/2017

Teresa Ferrer Passos




ENTRE SEXTA E DOMINGO

Conheço bem demais a sexta-feira,
O fim da luz às três da tarde,
A sombra adunca da figueira
À espera do cobarde.

Conheço o cheiro do vinho derramado,
Misturado com fel e com suor,
E o horror do pão que foi pisado,
E o forno vazio e sem calor.

Conheço bem a hora em que as promessas
São um corpo descendo à sepultura,
A hora absurda em que regressas
Da vida que não foi senão futura.

Conheço bem demais a sexta-feira,
Mas tanto a conheço que adivinho
Que traz em si a Vida e a Videira
Que voltará a dar-nos do Seu vinho.

12/4/2014
          Fernando Henrique de Passos




A FESTA DA PRIMAVERA

(Que as Tábuas da Lei, agora,
são a Vida eterna em Cristo Jesus...)

Almo Sol e verde gomo
Nesta calma, no jardim;
Deus Apolo que, no pomo,
É flor d' Alma e carmesim.

Santo é o Céu, santo é o cimo.
Musa amena, vive e espera
Por Museu, esse divino,
Pela eterna Primavera.

Que essas aves, tão canoras,
Vão prà festa das olaias...
Vão - tu sabes? - pràs amoras,
Dança lesta, Amor em Maias.

Ah, que toda esta manhã
Eu vi santa a tua luz!!!
Nesta poda vi deus Pã
Hierofanta, com Jesus.

Mas quando o meu Sol se perde
Na vindima em que me afoite,
Vivo olhando o verde, verde,
Morro em lima, e vem a Noite.

Tomar, Cidade Templária, 25/ 03/ 1995

AD MAJOREM DEI GLORIAM
          Paulo Jorge Brito e Abreu



BOM DOMINGO DE PÁSCOA A TODOS OS AMIGOS!