sábado, 26 de maio de 2018

A lei da eutanásia em discussão


Breves palavras acerca da lei da eutanásia
(a discutir em 29/5/2018 na Assembleia da República de Portugal):

1. A decisão de ser posta em prática pelo doente não diz apenas respeito ao interessado.

2. A decisão precisa, pelo menos de um conivente que é o médico. Este passa a ser o executante do crime contra integridade de uma vida humana, o que é universalmente condenado pelo direito civil das sociedades que lhe obedecem.


3. Mesmo que dissesse respeito só ao interessado, não tinha por isso mais legitimidade, porque iria este contra a integridade física do seu próprio corpo, da sua própria identidade pessoal.

4. Assim, deveria ser demovido do seu acto, pois iria violar uma vida humana que era a sua própria vida.

5. O argumento da dignidade humana estar em causa devido ao sofrimento de uma doença, não pode ser considerado como legítimo, porque uma pessoa que sofre, seja física ou moralmente, não é menos digna do que uma pessoa que não sofre.

26/Maio/2018
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O Gnosticismo Atual (5)




«Mesmo quando a vida de alguém tiver sido um desastre, mesmo que o vejamos destruído pelos vícios ou dependências, Deus está presente na sua vida. Se nos deixarmos guiar mais pelo Espírito do que pelos nossos raciocínios, podemos e devemos procurar o Senhor em cada vida humana. Isto faz parte do mistério que as mentalidades gnósticas acabam por rejeitar, porque não o podem controlar».

«Quero lembrar que, na Igreja, convivem legitimamente diferentes maneiras de interpretar muitos aspetos da doutrina e da vida cristã, que, na sua variedade, «ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Palavra. [Certamente,] a quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita».

Papa Francisco, Exortação Apostólica Gaudate et Exsultate, 9 de Abril de 2018 Capít. II, Pontos 42 e 43 (excertos).

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Olhar no silêncio


A grande companhia das árvores!
Parece que não param de nos olhar no seu silêncio.

23/Maio/2018
Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Dom António Marto, Cardeal


O Papa anunciou, ontem, no Vaticano, a nomeação para o cargo de Cardeal de D. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima. Tendo completado 71 anos de idade, no dia 5 de Maio de 2018, tem sido um dos maiores dinamizadores do Santuário de Fátima, o maior Santuário da Europa. Notabilizou-se pelo grande entusiasmo que pôs na participação das crianças na liturgia de Fátima.

Lisboa, 21 de Maio de 2018 
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 15 de maio de 2018

O Gnosticismo Atual (4)


«O Gnosticismo é uma das piores ideologias, pois, ao mesmo tempo que exalta indevidamente o conhecimento ou uma determinada experiência, considera que a sua própria visão da realidade seja a perfeição. Assim, talvez sem se aperceber, esta ideologia autoalimenta-se e torna-se ainda mais cega. Por vezes, torna-se particularmente enganadora, quando se disfarça de espiritualidade desencarnada. Com efeito, o gnosticismo, "por sua natureza, quer domesticar o mistério", tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros».

«Quando alguém tem resposta para todas as perguntas, demonstra que não está no bom caminho e é possível que seja um falso profeta, que usa a religião para seu benefício, ao serviço das próprias lucubrações psicológicas e mentais. Deus supera-nos infinitamente, é sempre uma surpresa e não somos nós que determinamos a circunstância histórica em que O encontramos, já que não dependem de nós o tempo, nem o lugar, nem a modalidade do encontro. Quem quer tudo claro e seguro, pretende dominar a transcendência de Deus».

Papa Francisco, Exortação Apostólica Gaudate et Exsultate, 9 de Abril de 2018, Capítulo II, pontos 40 e 41.

sábado, 12 de maio de 2018

Na morte da escultora Clara Menéres

«Presépio»
de Clara Meneres, datado de 2010
(Igreja da Santíssima Trindade em Fátima)

In Memoriam da escultora Clara Menéres (1943-2018):

«O Santuário de Fátima é um espaço escolhido por Deus»
Clara Menéres

A escultora Clara Menéres atravessou o espírito que imbuiu as Aparições de Fátima. Eis um exemplo: o seu puríssimo presépio guardado na igreja da Santíssima Trindade no Santuário.

Pelas obras que a escultora Clara Menéres consagrou ao tema das Aparições de Fátima, também pela expressão dramática com que tratou a sua expressão plástica, Menéres captou todo o clima de espiritualidade que, aí, as Aparições de Maria Santíssima, ofereceram ao mundo.

12/5/2018
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 8 de maio de 2018

O Agnosticismo Atual (3)

Nigela dos trigais

«Trata-se duma vaidosa superficialidade: muito movimento à superfície da mente, mas não se move nem se comove a profundidade do pensamento. No entanto, consegue subjugar alguns com o seu fascínio enganador, porque o equilíbrio gnóstico é formal e supostamente asséptico, podendo assumir o aspeto duma certa harmonia ou duma ordem que tudo abrange.»

«Mas atenção! Não estou a referir-me aos racionalistas inimigos da fé cristã. Isto pode acontecer dentro da Igreja, tanto nos leigos das paróquias como naqueles que ensinam filosofia ou teologia em centros de formação. Com efeito, também é típico dos gnósticos crer que eles, com as suas explicações, podem tornar perfeitamente compreensível toda a fé e todo o Evangelho. Absolutizam as suas teorias e obrigam os outros a submeter-se aos raciocínios que eles usam. Uma coisa é o uso saudável e humilde da razão para refletir sobre o ensinamento teológico e moral do Evangelho, outra é pretender reduzir o ensinamento de Jesus a uma lógica fria e dura que procura dominar tudo.»

Papa Francisco, Exortação Apostólica Gaudate et Exsultate, 9 de Abril de 2018, pontos 38 e 39.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Eis a confiança...


Sem confiança em nós próprios, como acreditaremos naquilo que fazemos? A confiança é a luz que guia o nosso pensamento. Com ela, o pensamento vê com nitidez, tal como os nossos olhos vêm, porque têm luz dentro de si.

7/5/2018
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 3 de maio de 2018

O gnosticismo atual (2)



«O gnosticismo supõe «uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos».

Uma mente sem Deus e sem carne

«Graças a Deus, ao longo da história da Igreja, ficou bem claro que aquilo que mede a perfeição das pessoas é o seu grau de caridade, e não a quantidade de dados e conhecimentos que possam acumular. Os «gnósticos», baralhados neste ponto, julgam os outros segundo conseguem, ou não, compreender a profundidade de certas doutrinas. Concebem uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada numa enciclopédia de abstrações. Ao desencarnar o mistério, em última análise preferem «um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo».

Papa Francisco, EXORTAÇÃO APOSTÓLICA GAUDETE ET EXSULTATE (9/Abril 2018), Capít. II, Pontos 36 e 37.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

O niilismo e o mistério

Pássaro Ruisenhor

Para o niilismo, tudo, afinal, não representa senão o visionado. Tudo é vazio, mesmo que seja imenso o mistério da recriação da natureza. As coisas nada têm dentro, que faça sentido. Assim, o belo não se vê porque é estreita a visão interior de quem vê, na sua perspetiva materialista radical. Para o niilista os valores espirituais não têm sentido, são uma ilusão, são irreais. Esquece que os valores espirituais, como, por exemplo, o sonho, criam, de uma maneira outra, a realidade "nua e crua", completam-na dando-lhe um sentido muito mais vasto e são, no fim de contas, a grande força da intervenção do ser humano.
É aqui que começa a força interveniente do mistério que vai muito para além do problema que, esse sim, respeita ao conhecimento científico e que não é já, só por si, nada fácil de resolver!

21/Abril/2018 (postagem no Facebook)
Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 30 de abril de 2018

O Gnosticismo e o Pelagianismo (1)



«São duas heresias que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas continuam a ser de alarmante atualidade. Ainda hoje os corações de muitos cristãos, talvez inconscientemente, deixam-se seduzir por estas propostas enganadoras. Nelas aparece expresso um imanentismo antropocêntrico, disfarçado de verdade católica.

Vejamos estas duas formas de segurança doutrinária ou disciplinar, que dão origem «a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. Em ambos os casos, nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente».


Papa Francisco, «Exortação Apostólica Gaudate et Exsultate» («Alegrai-vos e Exultai») 9 de Abril/2018, Capít. II, Ponto 35


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Vários membros do clero regular e secular da Igreja Católica seguem estas tendências racionalistas que desfiguram, e desviam da essência, Cristo e o seu Evangelho. São uma elite de intelectuais que considera secundários conceitos como graça, mistério e fé.

30/4/2018
Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 27 de abril de 2018

A defesa da sobrevivência ou a vida (mesmo em micro-organismos)



Pintura de Salvador Dali

«Até os micro-organismos mais básicos se organizam para sobreviverem.»

«As bactérias não têm sistema nervoso nem mente mas “sabem que uma outra bactéria é prima, irmã ou que não faz parte da família”»

«Estas reacções são ao nível de algo que possui “uma só célula, não tem mente e não tem uma intenção”, ou seja, “nada disto tem a ver com consciência”». 

«Há uma colecção de comportamentos – de conflito ou de cooperação – que é a base fundamental e estrutural de vida”».

António Damásio, Conferência na Escola António Damásio em Lisboa, 31/10/2017 (Lançamento do livro A Estranha Ordem das Coisas)


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Mesmo nos micro-organismos primários, sem mente, sem consciência, se estabelece a solidariedade para a sobrevivência e não para o aniquilamento. A união é para viver, não para morrer. Como podem alguns humanos, com mente e com consciência, em vez de se unirem para a defesa da vida, se unem para a aniquilar? Lembramos a proposta de lei da eutanásia.

1/5/2018
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A eutanásia em Portugal?



«A eutanásia representa “um retrocesso civilizacional”»


«Mesmo quando a sociedade não trata as pessoas com a dignidade que elas merecem, mesmo quando a sociedade não cuida e não responde como deve responder diante do drama e do sofrimento, a resposta não pode ser eliminar essas pessoas, a resposta deve ser vamos melhorar a sociedade»


«A partir do momento em que a lei passa a definir que vidas são dignas e não são dignas, a vida deixa de ser um princípio inviolável para ser um princípio que está nas mãos do legislador»


José Maria Seabra Duque, Federação Portuguesa pela Vida 
(Excertos da entrevista à Agência Ecclesia, 26/4/2018)
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A vida humana é inviolável. Ninguém pode matar o outro porque, num certo momento, esse outro lhe pediu. Há antes que dissuadir a pessoa que, no limite de uma depressão, o solicita. Essa pessoa deve ser conduzida a confrontar-se com uma maior auto-estima, auto-estima que a leve a considerar o valor da sua vida, mais, a importância da sua vida, seja em que circunstância for. 


26/Abril/2018                                                                                                                                       Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Primavera pascal

De mudança em mudança... 

( convoco, para a Musa minha, o 10 de Copas Arcano)
de todo o coração, ao Filipe de Fiúza

Só da Luz, quero a Luz e muita Luz.
Que ela é Pão, que ela é prémio prò dolente,
Ela é Nova, ela é noiva, eu digo sus!!!
Coragem para o pobre e o doente.

Só da Luz. Só d’ Amor, em farta Vinha,
O Sol agora vem, e é bem-vindo…
Ai cânticos e frol duma andorinha!!!
O dia é Primavera, eu digo lindo!!!

Só da Luz, minha leda, e só do Vate.
Vem d’ amora, de poma, e vem de véu,
Vem comigo, a lidar o bom combate:
Eu n’ asa dos teus olhos, vejo o Céu.

Paulo Jorge Brito e Abreu*

* Este poema foi-nos enviado pelo autor.

Nota:

Chamo a atenção para o verso «Eu n' asa dos teus olhos, vejo o Céu»,

que considero um dos mais belos da poesia contemporânea.

24 de Abril de 2018                                     Teresa Ferrer Passos 

terça-feira, 10 de abril de 2018

1ª Centenário da Batalha de La Lys na 1ª Guerra Mundial (1914-1918)

Recortámos um testemunho do capitão Vicente Silva (Batalhão de Infantaria 9 de Viana do Castelo), combatente na Batalha de La Lys, travada em 9 de Abril de 1918:
«Segundo o plano estratégico, os alemães ocuparam toda a frente que vai de Ypres, na Bélgica, flanco direito das tropas atacantes, até La Bassée, numa extensão aproximadamente de 40 quilómetros. A batalha desenvolveu-se, pois, nos dois flancos do rio Lys (...) Quaisquer que fossem as tropas que guarnecessem o sector português, o resultado seria o mesmo. Seriam quatro horas da manhã. (...) Tinha chegado o dia da tão receada ofensiva alemã. (...)». O Capitão Vicente Silva, tendo sido feito prisioneiro, escrevia, mais adiante: «(...) O que tem sido o meu estado físico e moral desde 1918 até ao momento actual (1940) ninguém o pode compreender (...) No desespero da minha doença, muitas vezes lamentei não ter ficado para sempre sepultado nas ridentes planícies da Flandres...»
Capitão Vicente José da Silva, A Guerra de 14 - Memórias de um Combatente, 1991, pp.72-73 e 77-78.


Na fotografia, vemos um grupo de oficiais de Viana do Castelo no campo de prisioneiros de Bresen. O capitão Vicente está na 2ª fila, sendo o 5º a contar da esquerda.




Comentários deste post no Facebook:

O capitão Vicente José da Silva (1886-1966) é avô paterno de Fernando Henrique de Passos (Silva) e pai de Fernando de Paços (Passos Silva).
Teresa Ferrer Passos

O meu avô paterno era de um temperamento artístico e espiritual e um amante da paz. A sua passagem pela guerra de 1914-1918 provocou-lhe traumas profundos que arruinaram o resto da sua vida. A ruína não foi total, no entanto, pois teve um casamento muito feliz.

A ciência genética diz que os carateres adquiridos não se transmitem, mas eu ainda sinto sombras do meu avô a agitarem-se dentro de mim.

O meu avô materno era o oposto: só se sentia bem na guerra. Quando rebentou a Guerra Civil Espanhola, queria oferecer-se como voluntário mas a saúde não lho permitiu.

É engraçado como nos tornamos uma mistura de todas estas pessoas que nos antecederam. Ter consciência disso pode ajudar a combater excessos de individualismo.


Fernando Henrique de Passos
 (neto do Capitão Vicente José da Silva, feito prisioneiro na batalha de La Lys, em 9 de Abril de 1918)




segunda-feira, 9 de abril de 2018

A luz forte de Maria Santíssima

Maria com seus pais, S. Joaquim e Santa Ana


«No dia de Nossa Senhora da Natividade tenho uma grande alegria. Quando este dia veio, pareceu-me ser bom renovar os votos. Foi então que se me tornou presente a Virgem Nossa Senhora, por visão luminosa, e pareceu-me que os renovava nas Suas mãos e que isso Lhe era agradável. Mantive esta visão, por alguns dias»

Santa Teresa de Jesus, «Relaciones Espirituales», cap. LVIII, Obras CompletasEditorial Plenitud, Madrid, 1958, p.355.

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A visão luminosa da Virgem Nossa Senhora alcançada pela grande mística Teresa de Jesus, identifica-se com a luz fortíssima, mais forte que o Sol, irradiada por Maria nas seis Aparições a Lúcia e seus primos, Jacinta e Francisco, em Fátima, no ano de 1917.

9 de Abril de 2018
Teresa Ferrer Passos

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quarta-feira, 21 de março de 2018

Páscoa / 2018

Entrada triunfal de Jesus em Jerusalém

                                                
«Ouvindo a grande multidão, que viera à Festa, que Jesus ia chegar a Jerusalém, tomou ramos de palmeira e saiu ao seu encontro, clamando: "Hossana! Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, O Rei de Israel!"»
                          Jo 12, 12-13



«(...) Perante todas estas vozes que gritam, o melhor antídoto é olhar a cruz de Cristo e deixar-se interpelar pelo seu último grito. Cristo morreu, gritando o seu amor por cada um de nós: por jovens e idosos, santos e pecadores, amor pelos do seu tempo e pelos do nosso tempo.»

Da Homilia do Papa Francisco no Domingo de Ramos (24/3/2018)


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«Estando já próximo da descida do monte das Oliveiras, começou a multidão dos discípulos a louvar alegremente a Deus, em alta voz, por todos os milagres que tinham visto, dizendo: "Bendito seja o Rei que vem em nome do Senhor!". 
Alguns fariseus disseram-Lhe, do meio da multidão:"Mestre, repreende os teus discípulos".
Jesus retorquiu:
"Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras"»
Lc 19, 37-40


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A morte de Jesus, rei dos judeus, na cruz 
                
NA CRUZ, PARA SEMPRE?

Jesus pendurado na cruz
há dois mil anos. Vejo-o com a paz
num corpo imóvel.
Morto. E morto, continua ali,
abandonado, de olhar sem luz.
Ninguém o vê descer
da cruz. Porquê, não sei.
Sei apenas que o escárnio,
o cuspo e o insulto de há dois mil anos
continuam, hoje, pregados
no seu rosto. Sem movimento algum
que lembre uma mudança.
A glória permanece nele, contudo.
É imensa. É eterna. É vitória.
Porém, ninguém parece dar por isso. 

Quinta-Feira Santa, 29/3/2018

                                       Teresa Ferrer Passos


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Na tarde desse dia, o primeiro da semana, veio Jesus e disse-lhes:
 "A paz seja convosco". Jo 20, 19


RESSURREIÇÃO

Ressurreição é muito, muito mais
Do que mera reversão da morte,
Do que voltarmos a ser tão vivos como antes,
Mortais mais uma vez,
Sujeitos à mesma condição,
À mesma tirania,
Cujo ferrete nos marcou
Antes até do nosso nascimento;
Ressuscitar não é voltar a ser,
Ressuscitar é ser de outra maneira.

Os fios físico-químicos da teia que nos prende
Podem romper-se
Como os fios do casulo da lagarta
Que teve de morrer
A fim de que um dia renascesse
Sob uma nova forma.

E Cristo escancara as portas do mistério,
Mostra os motivos da nossa servidão,
Aponta ao longe a liberdade,
Muito para além das grades de uma lógica
Que nos descreve o mundo como Lei
Da qual despontam as ordens mecânicas do medo.

Transformemos o nosso ser em confiança
E mergulhemos, de olhos bem abertos,
No oceano infinito do Amor…

Sexta-Feira Santa, 30/3/2018

             Fernando Henrique de Passos


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Crucifixão de Giotto (século XIV)

PARA ALÉM DE MIM


A dor de um pesadelo penetra no meu sangue,
o pesadelo da cruz que carrego nos dias,
dias intermináveis, esgotados, sem fim.

Ó Maria, o olhar do teu coração de Mãe sangra 
devagar no meu tronco enviesado em sombra.

Ó Maria, Mãe atravessada pelo meu pó 
feito do universo inteiro, pega-me na mão!

Ó Maria, Esposa num silêncio vago, de susto, 
as tuas lágrimas flagelam
a verdade do mundo inteiro.

21 de Março de 2018
                                                       Teresa Ferrer Passos


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Flores no deserto de Judá

ACERCA DA PAIXÃO DE CRISTO


Não é possível conceber situações físicas em que a distância de A a B seja diferente da distância de B a A, mas no mundo do Espírito isso pode acontecer, e é de facto o que acontece na relação de Deus com o Homem: Deus vê o Homem infinitamente perto, pois habita no seu interior; o Homem vê Deus infinitamente longe, pois só tem olhos para o exterior. Na Encarnação, para se tornar próximo do Homem, Deus tornou-se exterior a ele. Assim, o Homem conseguiu ver Deus ao pé de si, mas ao mesmo tempo Deus passou a sentir-se infinitamente distante do Homem, porque separado dele como nunca fora. A agonia da cruz é o paroxismo desta separação ─ aquilo que em teologia se chama derrelição. O que nós vemos na Paixão como tortura física deve ser para Deus uma picada de alfinete. (De resto, infelizmente, muitos homens passaram já por torturas semelhantes ou até piores.) Mas essa dor física representa-nos a dor que nós não podemos ver: a dor espiritual, verdadeiramente infinita, do Criador que se vê apartado das Suas criaturas.

15/4/2017 (e Páscoa/2018)
Fernando Henrique de Passos




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«Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está no seio do Pai é que O deu a conhecer»
Jo 1, 18


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terça-feira, 13 de março de 2018

A dinâmica evangélica do Papa Francisco



O Papa emérito Bento XVI escreveu uma carta por ocasião da apresentação de A Teologia do Papa Francisco, da Livraria Editora Vaticana, sublinhando: «Aplaudo esta iniciativa que se opõe e reage ao preconceito tolo segundo o qual o Papa Francisco seria apenas um homem prático, desprovido de uma particular formação teológica ou filosófica, enquanto eu seria unicamente um teórico da teologia que teria pouco entendido a vida concreta de um cristão hoje».

Estas palavras do Papa Bento XVI mostram como estes cinco anos do Pontificado de Francisco trouxeram um sucessor de quem se sente orgulhoso. Nestes cinco anos, o Bispo de Roma foi capaz de dinamizar a Igreja Universal, com uma linguagem certeira, sem lhe retirar uma funda reflexão ao fazer notáveis comentários do Evangelho, com duas dimensões maiores: o rumo aos pobres e o rumo às virtudes.

O Papa Francisco ressuscitou, após quase oito séculos, o espírito bom e sábio daquele Francisco de Assis que orando, perguntou a Jesus: «Senhor, que quereis que eu faça?». E ouviu esta resposta: «Reconstrói a minha igreja que está em ruínas». Os dois rumos - o dos pobres e o das virtudes - também têm estado sempre presentes no espírito e na ação do Papa Francisco.

Em Francisco de Assis e no Papa Francisco, os dois rumos foram seguidos até à ousadia, ao risco, à perseguição dos seus contemporâneos. Este o preço, hoje como no passado, de estar disposto a perseverar, com indomável vontade, numa fé inabalável.

13 de Março de 2018
Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 12 de março de 2018

No 5º aniversário da eleição do Papa Francisco


O Papa Francisco completa, amanhã, dia 13 de Março de 2018, cinco anos de Pontificado da Igreja Católica.

De um desassombro imprevisto, o Papa Francisco soube marcá-los pela coragem de ser polémico para romper com erros; de pôr em causa tradições pouco fiéis a Jesus Cristo; de usar uma linguagem capaz de atrair um mundo hostil.

E soube, sobretudo, defrontar a sociedade laica e eclesial, com um olhar frontal, transparente e audaz apesar de toda a contestação daqueles que não se interrogam, não se conseguem interrogar, perante Deus.

T.F.P.

Recordemos palavras do Papa Francisco, proferidas há poucas horas na capela da Casa de Santa Marta, no Vaticano:

«"Onde está a fé? Ver um milagre, um prodígio e dizer: ‘Mas Tu tens a potência, Tu és Deus’, sim, é um ato de fé, mas pequenino assim. Porque é evidente que este homem tem um poder forte; mas ali começa a fé, que depois deve ir avante. Onde está o seu desejo de Deus? Porque a fé é isto: ter o desejo de encontrar Deus, encontrá-Lo, estar com Ele, ser feliz com Ele." (...)

“Porque existem muitos cristãos parados, que não caminham; cristãos atolados nas coisas de todos os dias – bons, bons! – mas não crescem, permanecem pequenos. Cristãos estacionados: estacionam. Cristãos enjaulados que não sabem voar com o sonho a esta bela coisa para a qual o Senhor nos chama”.»

sexta-feira, 9 de março de 2018

O Sacrifício de Cristo é gratuito



«A Missa não se paga. É o sacrifício de Cristo, que é gratuito. A redenção é gratuita.»

     Papa Francisco na «Oração Eucarística», no Vaticano, em 7 de Março de 2018.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Hildegarda de Bingen, talvez a primeira a lutar pela emancipação da mulher


Pintura de Hildegard von Bingen



     Hildegarda de Bingen (1098-1179), nasceu no Sul da Alemanha e ingressou na ordem beneditina na infância. Aos 15 anos professou. Na biblioteca do mosteiro, o estudo aliou-se à sua inteligência e sensibilidade. O seu gosto pelo aprofundamento dos conhecimentos da época, tornou-a uma das mulheres mais sábias da Idade Média. Cultivou a pintura, a medicina, a teologia, a música gregoriana, a biologia e a poesia.

     A sua vida mística conjugou-se com a sua capacidade profética. Contra aqueles que a olhavam com desconfiança por ser mulher, nunca abdicou de defender a pureza do Evangelho de Cristo. As suas cartas a criticar um clero ávido de benefícios e pouco escrupuloso na prática da doutrina de Jesus, mostraram a sua personalidade arrojada, intemerata mesmo. Não tinha medo de denunciar os que desobedeciam a Deus, de combater heréticos assim como de se impor perante o próprio Papa.

     Fiel aos princípios de uma Igreja unida à volta de Jesus, escreveu lindos poemas à Virgem, «Santa Maria», sempre realçando as suas imensas virtudes. Escreve Hildegarda: «O teu Nascituro do céu enviado deste ao mundo». Na invocação do poema XXI de «Santa Maria», chama a atenção para Maria como «autora de vida» e também aquela que «reedifica a salvação»(1). 

     No poema XXV de «Santa Maria», Hildegarda eleva-A ao ponto de dizer: «Tu a morte destruíste / edificando a vida»(2). Assim, poderemos dizer que Maria é a Mulher única. Maria é a Mãe única. Ela é a «bênção suprema / em feminina forma / mais que toda a criatura», acentua Hildegarda. O seu estatuto é único, como Mulher e como Mãe. Então, não sobe Ela à altura de Deus? Pois, insiste ainda, Maria destruiu a morte: «Ilustre Virgem a destruiu»(3). 

     A Devoção solicitada ao mundo por Maria, a Senhora que «vem do Céu», como se identificou à escolhida pastorinha Lúcia, uma menina de dez anos, que iria transmitir a toda a Terra, as suas mensagens, confirma a altura a que subiu. Como Maria revelou a Lúcia, seu Filho, Jesus, enviava-A ao mundo para A «fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu imaculado coração» (4) 

     Na verdade, a Mulher foi o veículo a quem Deus teve de recorrer para a salvação da morte irremediável da humanidade. Assim o salientava Hildegarda, já no século XII. A salvação para o ser humano alcançar a vida eterna exigira a encarnação de Deus. Mas, o Salvador, o Filho de Deus, só podia salvar todo o ser humano com a plena colaboração de uma Mulher, e essa Mulher chamou-se Maria.

Dia Internacional da Mulher, 8 de Março de 2018

Teresa Ferrer Passos

(1) Hildegard von Bingen, Flor Brilhante (Tradução de Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino de Mendonça), Assírio & Alvim, 2004, p. 71. 
(2) Idem, Ibidem, p.73.
(3) Idem, Ibidem, p.79.
(4) Um Caminho sobre o olha de Maria – Biografia da Irmã Lúcia, Edições Carmelo, 2013, p. 57.