segunda-feira, 13 de setembro de 2021



Cada gesto do dia a dia não pode nunca esquecer as palavras evangélicas que veiculam a doutrina revelada por Jesus. Seja de dia, seja de noite. Para Deus, há sempre luz. Nada se pode esconder.
   
13/9/2021                                                       Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O belo

 A verdadeira beleza está em não se reconhecer nela.

1/9/2021                                                                     T.F.P.

sábado, 28 de agosto de 2021

No dia dos meus anos

Logo pela manhã, recebi um lindíssimo poema ("Nos teus anos") de parabéns do Fernando, como é tradicional, desde o nosso casamento.

Aqui reproduzo os primeiros versos:
«Gosto do dia dos teus anos / porque significa que nasceste / e se não tivesses nascido / não estarias hoje a meu lado. (...)».


Escrever com a emoção nas linhas e entrelinhas da poesia, traz-nos a vida que se vai consumindo nos anos e que o tempo não sabe ou não consegue apagar.
9/8/2021
                                                                      T.F.P.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

No pequeno cacto, a grande flor

Grande flor branca (a primeira) nascida esta noite num pequeno cacto da minha varanda.

 

A vida é tão fácil e, às vezes, há quem a torne tão difícil.
 
 27/8/2021
                                                                                T.F.P.


terça-feira, 24 de agosto de 2021

MEMÓRIA DE MEU AVÔ JOSÉ BERNARDINO

 


“SANTA MÃE”

 

                        Ao meu avô José Bernardino (1888-1962)

                      

Recordo-te na memória imensa da tua “santa mãe”,

assim dizias, como se uma brisa leve

passasse de súbito no teu coração

inquieto e triste. A sua memória era uma

chuva branda a humedecer-te os olhos.

Guardavas dela a lembrança de uma ternura ímpar

que te bafejara desde o nascimento

na casa do perfume dos figos

e das alfarrobas, que se alargava à rua

da pequena Alcantarilha. E a tua voz saudosa

vibrava na cidade distante, o amor da “santa mãe”.

Para ti, ela não cabia na ausência da morte

e davas-lhe a presença nas festas dos dias

de Natal, da Páscoa, dos aniversários…

Ela, a tua “santa mãe”, estava sempre

nessas duas palavras comoventes

vindas da tua alma perdida de carinho.

Ao dizeres "santa mãe”, acendias a candeia

da sua memória e eu, criança ainda,

escutava, julgando ouvir uma oração.

 24/8/2021

                                          Teresa Ferrer Passos

domingo, 15 de agosto de 2021

DA TERRA AO CÉU


«Ao espalharem-se sem rumo,
tornaram-se presas fáceis
e alimento para todos os animais selvagens»
                            Ez 34, 5-6


No dia da Assunção, Maria,
viu do céu todos os corações ofendidos.
Viu a dispersão dos filhos desavindos,
uns abandonados em fragas,
outros em terra dura, ressequida
e tantos entre raios de sol a queimarem insaciáveis.

Derrubados pela injusta palavra de alguns,
as simples gotas de água das anémonas
e dos narcisos secavam, desgostosas.
O fogo vibrava fagulhas e vagueava vitorioso nos
férteis rebentos de róseas amendoeiras.
A cálida planície enegrecia de fumo vasto.

Foi nessa hora amarga que tombou do céu
o manto branco de Maria.
Nele envolvidas, vinham as suas faces
com as lágrimas vertidas pelo mundo todo.

No céu, a Mãe enternecida
recolhia-as e chorava com os filhos.
Daqui. Da terra.

Dia da Assunção de Nossa Senhora ao Céu

Teresa Ferrer Passos


 

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

ACERCA DA BÊNÇÃO DE UNIÕES HOMOSSEXUAIS

O cardeal alemão Gerhard Muller, ex-perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em entrevista à ACIdigital Prensa, debruçou-se sobre a bênção de uniões homossexuais por parte de sacerdotes católicos, em Maio deste ano na Alemanha. Ele explicou que “nós queremos todos os homens, também quando eles têm dificuldades, quando são pecadores, mas não podemos abençoar os pecados. É uma contradição, é um abuso da bênção, porque Deus não abençoa estas atividades que são contra a Sua vontade”. Para o cardeal, “não é possível comungar a Cristo plenamente e contradizer os mandamentos da vontade salvífica de Deus. O que nós temos é de mudar a nossa vida e seguir Jesus Cristo”.

Publicado in Acidigital, 12/8/2021

terça-feira, 20 de julho de 2021

POEMA INÉDITO:



A PALAVRA ESTÁ NO DESERTO


                                       Ao Fernando                      

Nos valados entremeados de sombras,
os penhascos avançam desenfreados.
Animais fantásticos escondem-se,
depois entram no palco vasto e revelam-se.
Com risos mordazes ferem o som do silêncio
e gritam. Há algazarras de loucos que quebram
a paz dos lugares. Cães ladram como selvagens.

E nós, tu e eu, seguimos num cavalo alado
que nos conduz ao deserto.
A vida resiste aí. E aí ficamos
com todas as palavras nunca ditas.

20/7/2021
                                                  Teresa Ferrer Passos

UM POEMA INÉDITO

Casamento de Teresa e Fernando na Igreja
de S. Nicolau em Lisboa, em 19/2/1994

METAMORFOSE

    No 28º aniversário do dia em que nos conhecemos

Narciso escancara uma janela
Sobre um mar de espelhos em estilhaços
Espelhando a ruína de uma noite
E a súbita vertigem dos espaços.

O fim de um mundo fechado sobre si
Enfim aberto à luz dos outros mundos.
A estéril escuridão a dar a vez
À claridade dos dias mais fecundos.

Mudou Narciso, já tem um novo nome,
Mas quem muda de nome não é um qualquer.
Mudou Narciso ‒ e mais irá mudar ‒
Por obra e graça de uma mulher sem par.

20/7/2021

                      Fernando Henrique de Passos


Comentário no Facebook:

Uma memória linda, Fernando, a reerguer-se das noites e dos dias, das desventuras e das venturas, dos tropeços e das levezas, em anos a vibrarem o Amor, à maneira do belíssimo "Cântico dos Cânticos" que Deus nos ensinou.

                                                                             Teresa Ferrer Passos

domingo, 18 de julho de 2021

UM ARTIGO SEM A ARIDEZ DA NORMALIDADE...




Lembrando Auschwitz, S. João da Cruz e Etty Hillesum, escreveu o Padre João Manuel Teixeira da Costa (Ordem dos Carmelitas Descalços):

«Deus pode também penetrar e adentrar-se por sob a carapaça de chumbo do horror sem nome fabricado pelos homens. (...) "Torna-se cada vez mais claro o seguinte: que tu (Deus) não nos podes ajudar, que nós é que temos de te ajudar, e, ajudando-te, ajudamo-nos a nós próprios" (Etty Hillesum). E evitando-se assim, as garras da águia iníqua, mas sofrendo-as, se chega à união, porque "ninguém fica nas garras de ninguém, se estiver nos teus [Deus] braços" (E.H.).
Sim, o século vinte e um pode oferecer orações e flores a Deus, porque o que porventura Deus não possa fazer haveremos nós de O ajudar a poder fazer. (...) Quando Juan de la Cruz descreve o processo empoderador da 'noche oscura' tem, sem dúvida, diante de seus olhos, o aniquilamento de Jesus, em Quem não houve maior perder para melhor ganhar! (...) Ainda é possível semear flores no coração!»

João Manuel Teixeira da Costa, "Se eu de ti me esquecer! Poderemos ainda oferecer flores no século vinte um?" in «Revista de Espiritualidade», nº 111, Julho-Setembro/2020, pág. 91, 92 e 93.

domingo, 11 de julho de 2021

POEMA INÉDITO

Minha mãe, Natércia Paz Ferrer,
ao centro, com colegas do Hospital (1948)

 CAMINHO

                    A minha mãe

 um caminho abriu-se nas enigmáticas águas

o rochedo soltou-se

das tuas mãos de pó

ávidas de compaixão.

ali ninguém passava

só um delírio de amor cresceu

no teu coração de fogo.

      11 de Julho de 2021 (31 anos depois da despedida)

                     Teresa Ferrer Passos 


segunda-feira, 14 de junho de 2021

POEMA INÉDITO

SILÊNCIO E VOZ

O silêncio é a voz da eloquência maior,
é o som que se esconde e vivifica,
não ilude, não adula
nem faz tropeçar o inocente.
O silêncio não engana com artifícios,
não faz cair em banais palavras,
levanta o enterrado na solidão.

É sentimento forte sem cansaço.
O silêncio engrinalda o sofrimento,
descobre o tamanho da sua alma incendiada
e habita o vento com seus murmúrios.

A flor do incenso a exalar perfume
é um silêncio longo de abandonadas colinas.
Uma semente que cai à terra é o fértil
calor de um silêncio que se eleva até à criação.
A morte segrega o silêncio a cada momento
e transforma-o em vida que irrompe a rodos.

O silêncio está em cada árvore
e nas aves quando cantam ao crepúsculo
e nos lagos calmos que entoam no silêncio
o espelho e a transparência das suas águas.

O silêncio não precisa de palavras,
vê mesmo um simulacro em todas as palavras.
Para quê palavras, pergunta. As infinitas imagens tudo dizem,
responde. As imagens dizem a existência.
Está aqui o silêncio.

13/6/2021

                                                                      Teresa Ferrer Passos  

MEMÓRIA de FRANCISCO MANTERO (1948-2021)

Francisco Mantero

Consultor da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Francisco Mantero morreu no dia 11, aos 72 anos, na sua casa, em Cascais. Francisco Mantero morreu inesperadamente. Conheci-o aos 16 anos, como colega do Liceu de Oeiras. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, desenvolveu numerosas atividades ligadas à economia nacional e aos países lusófonos pelos quais tinha verdadeiro fascínio. De uma simplicidade notória, gostava ainda de conviver com colegas da turma em que concluiu o curso do liceu.

Com muita saudade, lembro neste momento em que nos deixou, a sua carreira ligada à gestão de empresas em África ou relacionadas com aquele continente, em S. Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Moçambique. Do seu percurso, destaco ainda funções na Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa/Associação Comercial de Lisboa, com o pelouro das Relações com os Países Lusófonos e Cooperação Internacional. Tendo integrado a Comissão Nacional da UNESCO. foi presidente e vice-presidente do Conselho Geral da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Económico e a Cooperação. Desempenhou ainda a função de secretário geral da Confederação Empresarial da CPLP-Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Pertenceu também, entre outros desempenhos, ao conselho de Orientação do Instituto de Investigação Científica Tropical. Foi condecorado pelo Presidente da República Portuguesa com o grau de Comendador da Ordem do Mérito.

14/6/2021
Teresa Ferrer Passos

sábado, 12 de junho de 2021

A vida é uma esperança em contínua renovação que se vai renovando sempre, como se fosse eterna! E à morte resta perder a batalha.
12/6/2021
T.F.P.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Um Poema Inédito:

A PALAVRA

A palavra. Quando verte o azul celeste,
refresca-se no mar. Recorte do céu.
Encanto de areais longos 
e de ventos agitados sem seguro lugar.

A palavra. Onde os abismos permanecem,
onde se veem ninhos de cegonhas acabadas de nascer,
prontas a voar, sem medo do largo espaço. 

A palavra. Paira amarga entre penedos. 
Ondas gigantescas contorcem-na.
A espuma branca devora-a.
Esparge sentidos que nem o mar descobre. 

A palavra. Apaga-se nos vales das sombras,
enterra-se nos fundos pântanos,
adia a pureza. Impossível cruzada.

A palavra. Rompe as barragens da voz
e aos mistérios, não retira os grilhões.


Sílabas mortas, entrelinhas, desvarios, 
espantosas armadilhas. Secretas. Vagas.
Indesvendáveis. A palavra.

10 de Junho de 2o21
                                             Teresa Ferrer Passos


quarta-feira, 9 de junho de 2021

DIA de PORTUGAL, de CAMÕES e das COMUNIDADES PORTUGUESAS


"A primeira tarde portuguesa" pintura datada de 1922, representa a batalha de S. Mamede da autoria de Acácio Lino de Magalhães.


Recordando o historiador Damião Peres, uma pequena passagem de um dos seus livros mais empolgantes:

«No dia 24 de Junho de 1128, o conflito teve a sua decisiva crise: as forças de D. Teresa e a hoste com os partidários de D. Afonso Henriques defrontaram-se nos campos de S. Mamede, próximo de Guimarães. Saiu vitorioso Afonso Henriques, que expulsou para a Galiza o conde Fernando Peres e D. Teresa.
Anulada a autoridade de D. Teresa, Portugal passa a ser governado exclusivamente pela gente portuguesa, de que é a primeira figura Afonso Henriques. Essa luminosa tarde foi realmente a 'primeira tarde portuguesa'»

Damião Peres, Como Nasceu Portugal, Portucalense Editora, Porto, 1959, pp.112-113.

terça-feira, 8 de junho de 2021

Ainda a propósito do Dia do Corpo de Deus



O Cristo pregado na cruz: entre a natureza humana e a natureza divina. O sinal de contradição: o sofrimento todo humano e a paz toda divina.

8/6/2021
Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Dia do Corpo de Deus


Raminho da 5ªfeira da espiga

Jesus, o Corpo de Deus, a revelar o Pai no diálogo com a humanidade - esta a revolução maior do mundo. E, hoje, parece que poucos dão por ela. A humanidade virou-se tão para dentro de si própria que pouco vislumbra e valoriza o que venha de um Além maior a procurá-la.

3/6/2021

Teresa Ferrer Passos

Em memória do dia 1 de Junho de 1890, dia da morte, em S. Miguel de Ceide, do escritor CAMILO CASTELO BRANCO (1825-1890)



Da obra O Segredo de Ana Plácido (romance) de Teresa Ferrer Passos:

«Só o perfume dos ramos de alecrim, do alfazema e do rosmaninho aromatizava o ar que respirava deitado de bruços e com a cabeça embrulhada nas minhas pequenas mãos... notei um aroma a rosa. Quase imperceptível. De súbito. Sem dar por isso senti as mãos de Camilo com uma rosa vermelha a tocar os meus cabelos anelados. Senti a flor como se a estivesse a ver. Não levantei os olhos da almofada. Mas vi o odor e o seu colorido aveludado ou leve como uma gotícula de orvalho.
Camilo permaneceu a meu lado alguns instantes. Ou dias(?). Não sei dizê-lo. Que os distingue? entrou após ele o Manuel. Pegava em estrelas do Egipto e goivos brancos. Também não os olhei. Conheci-os só pela sua proximidade ou porque as flores sempre me falaram sem que alguém as pudesse escutar? Toma! disse Manuel. A imobilidade estava em mim. Como um som que não sai do piano. Nada disse. Camilo chamou-me. Jorge! escuta meu filho... deixa-me beijar-te os olhos... deixa-me tocar as tuas faces imersas no nevoeiro que me rodeia sem cessar. Não respondi. Percebi que Manuel saíra, mas Camilo ficou ainda. Não dei pela sua saída. A rosa ficou porque continuei a respirar o seu odor intenso. As flores são mais belas do que todas as estátuas mesmo as de granito, mesmo as flores que não são perfumadas. O perfume de todas as flores faz-me chorar porque ouço a sua voz inconfundível. Tão diferente da voz humana é a mais humana das vozes. Choram em silêncio. Riem sem esboçar uma simples ruga nas suas pétalas.»

Obra citada, Edições Gazeta de Poesia, 1995, pp. 122-123.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

MEMÓRIA do Poeta Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

 


Nasceu em Lisboa a 19 de Maio de 1890.

Lembro alguns dos seus versos cobertos de uma grandeza e de uma angústia inapagáveis, versos a saberem ao sal da desdita e a romperem em oceanos do génio, versos que rindo de si próprios se abrasavam numa alma ímpar de humildade.


Recordo o poema «Nossa Senhora de Paris»:

"Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me e eu fujo também ao luar...
Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar...
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos...
Mas o Oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais...
Fico sepulto sob sírios,
Escureço-me em delírios
Mas ressurjo de Ideais...
Os meus sentidos a escoarem-se...
Altares e velas...
Orgulho... Estrelas...
Vitrais! Vitrais!
Flores de Lis...
Manchas de cor a ogivarem-se...
As grandes naves a sangrarem-se...
- Nossa Senhora de Paris!..."

Paris, 1913 - Junho 15

***

ONTEM FEZ ANOS QUE NASCEU MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

"Já não falo para ser ouvido. Não grito para que me oiças. Quem me ouviria, quem? Tu já me sabes de cor. E não há ninguém no mundo senão tu e eu. Ninguém na terra, ninguém no céu, ninguém no universo. Só eu e tu, que nem precisas ouvir-me. Para quê, se me tens na mão? Só tu e eu, que não posso suportar-te: demasiado grande para mim, demasiado belo! Tu que não me poupas, eu que não te poupo... Deus éramos tu e eu, por que fomos separados? Por que atiraram ao chão o Esfinge Gorda, como um trapo que se deita fora, e ao mesmo tempo me deixaram lá em Cima...?"
Excerto da peça de teatro de José Régio, "Mário ou Eu Próprio - o Outro".

Postagem no Facebook de Fernando Henrique de Passos (20/5/2021)

Comentário no Facebook:

Uma peça de teatro de José Régio a retratar de modo exemplar o Poeta Mário de Sá Carneiro, ele próprio dividido entre o corpo e o ser, dividido entre ele e a alma-irmã, entre ele e Deus. Mário de Sá-Carneiro, ele próprio também autor de peças de teatro hoje esquecidas e escritas na adolescência, a prometer um grande dramaturgo que não se deixou chegar ao fim, mas antes foi o autor do seu fim, tão jovem.

Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 12 de maio de 2021

MAIO, 13


Nossa Senhora de Fátima, 
uma escultura de António Teixeira Lopes,
datada de 1931.


 A primeira Aparição de MARIA em Fátima


Uma passagem da obra Stabat Mater. Contribuição para o Estudo de Maria de Teresa Ferrer Passos:

"A Virgem, diz Lúcia nas suas 'Memórias', foi vista por ela, não como uma imagem interior, puramente mental ou subjetiva, mas como uma pessoa real, objetiva, percecionada pelos seus olhos. Lúcia vê. Escreve Lúcia, numa nota íntima escrita em 13 de Janeiro de 1944: 'Não foi uma aparição, foi uma presença'.

A 'presença' é uma palavra mais forte, talvez a mais forte, para não nos inclinarmos para a tese da Visão, mas para a da Aparição de Maria. Por isso, Lúcia aceita ser a humilde serva incumbida de dar a conhecer a sua presença no mundo.

Como S. Luís Maria de Montfort já sustentava, Maria combaterá Satã, em especial, nos últimos tempos, com os 'seus humildes servos, os filhos que ela suscitará para fazerem guerra ao demónio'. Acrescentando: 'Jesus Cristo é o fim último da devoção à Santíssima Virgem'. O Filho é o princípio e é o fim da devoção à Mãe." («Obra citada», págs 168-169)


terça-feira, 11 de maio de 2021

MAIO: mês de MARIA


Escultura de "Nossa Senhora e o Menino"
de Euclides Vaz na capela do colégio
de S. João de Brito, em Lisboa.

Acerca da interpretação psicanalítica de E. Drewermann e das Aparições da Virgem Maria

«O autor de La Parole qui Guérit (1991) insiste no significado das camadas profundas da mente humana no caso de aparições. Sustenta assim, como critério de verdade e de análise de aparições, a existência de fenómenos de natureza psiquiátrica. Nessa linha psicanalítica, afirma ainda que, "não há literatura poética que não o manifeste: uma história inventada pode ser mais 'real' e mais autêntica que a história factual, porque só a história sonhada, poetisada, permite ao leitor de outra geração, reviver por si o acontecimento passado, sonhando-o, vibrando de compaixão e de esperança". Oferece, depois, como exemplo das narrativas religiosas, os mitos. Ora, o mito não passa pelas Aparições de Maria em Fátima. Ao longo desta abordagem das Aparições na Cova de Iria, este ponto de vista não nos parece, em consonância e, muito menos, aplicável, a estes acontecimentos sobrenaturais.
Igualmente contestável é o facto de o autor entender que uma história inventada num enquadramento literário, pode ser mais real e mais autêntica que a história factual. Esquece que, se a história é inventada, essa história nunca existiu antes (como arquétipo na mente do seu autor), nunca existiu tal como o autor a inventou ao modificar o real, tanto mais modificado quanto maior é a sua capacidade criativa ou o seu objetivo.»

Teresa Ferrer Passos, Stabat Mater. Contribuição para o Estudo de Maria, Hora de Ler, Leiria, 2020, pág. 151.

terça-feira, 27 de abril de 2021

EM MEMÓRIA... Fernão de Magalhães

1ª Viagem de circum-navegação do Globo
sob a capitania de Fernão de Magalhães.


EM MEMÓRIA do descobridor da passagem do Atlântico para o Pacífico pelo Ocidente (provou que a Terra era redonda), Fernão de Magalhães. Nasceu em 3 de Fevereiro de 1480, na aldeia de Sabrosa em Trás-os-Montes, Portugal. A viagem foi realizada ao serviço do rei de Espanha e imperador da Alemanha Carlos V.
No V centenário da sua morte numa ilha das Filipinas, atingido por uma flecha indígena em 27 de Abril de 1521:

Poema de Fernando Pessoa intitulado
FERNÃO DE Magalhães

No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.

De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto —
Cingi-lo, dos homens, o primeiro —,
Na praia ao longe por fim sepulto.

Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.

Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.

Fernando Pessoa, Mensagem, Edições Ática, Lisboa, 10ª ed. 1972, pág. 67 (Parceria António Maria Pereira, 1ª edição, 1934 [única obra publicada em vida do autor]).

segunda-feira, 26 de abril de 2021

UM POEMA de Manuel Neto dos Santos:

 


Um dos cactos da minha varanda, começou a florir
nas folhas/caule.  Um cacto (schlumbergera truncata)
que ostenta flores em vez de espinhos.


Vem! partilhemos o mundo, os retalhos de
países com a negação dos "muros" que tornam
insulares a China, Berlim, Israel, o México e a
Irlanda.
Vem, poesia universal, com as tuas lúcidas
bandeiras e derruba a porta estreita populista.
Vem! partilhemos o mundo que é nossa a
fraternidade das palavras
Aprendamos, dos erros, a conquista de ter (pela
alma) a demanda.

Manuel Neto dos Santos, «Azahar. Tributo a al-Mu'tamid», Wanceulen Editorial, Sevilha, 2020, pág. 157.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Acerca do Portugal da interioridade ou Vilarinho das Furnas (Gerês).

O Portugal inteiro, desprezado hoje, mas ainda aí, ainda pronto a ressurgir um dia, em que gente outra o resgate e lhe dê vida!
Vilarinho das Furnas, Gerês
(foto de Patrícia Cardoso)

Quando uma tecnologia avançada destrói a vida de aldeias ou de vilas do interior de Portugal, porque alguns querem esconder esse interior como inexpressivo da portugalidade, agride-se cada um dos seus habitantes, como se nada significassem e como se todos estivessem condenados a um autoritarismo que quer impor o progresso à custa do desprezo pelos habitantes, esses que, apesar da pobreza da terra se foram perpetuando ao longo das gerações e, heroicamente, perpetuaram as fronteiras históricas da sua pátria. As suas casas estão aí, visíveis, porque não os esqueceram; antes sobreviveram com o seu granito capaz de lhes conservar o chão e as paredes quase intemporais, como se tudo continuasse vivo e ainda à espera da justiça de tempos distantes, mas mais clementes, a augurar-lhes um destino em que tinham deixado de acreditar. Resta esperar.

20/4/2021
Teresa Ferrer Passos

segunda-feira, 12 de abril de 2021

 Uma passagem do inovador romance O VENTO de Claude Simon (1913-2005), Prémio Nobel da Literatura, em 1985:


Plátano, uma árvore que pode atingir
50 metros de altura e 2000 anos de idade


«(...) e Montès sempre na mesma posição (não bulira, não abrira a boca, não esboçara um gesto), vendo agora à sua frente, no lugar onde o intruso, vociferando e gesticulando, estivera momentos antes, a parede nua, incolor, vazia. Mas tão pouco se moveu, nem mesmo pensou em levantar-se para ir buscar a revista e retomar a leitura. Disse-me que nem se lembrava de ter estendido o braço para o interruptor. Porque não foi para dormir: foi apenas um reflexo, um gesto maquinal, e ficou tudo escuro, e ele ali estendido, o braço de novo sob a coberta, o corpo não na posição do sono, da descontracção, mas recto, duro como um cadáver, os pés juntos, os grandes olhos abertos para a obscuridade onde, pouco depois, começaram a distinguir o retângulo mais claro da janela, enquanto no tecto iam e vinham sem parar os ramos de plátano. (...)»

    Claude Simon, O Vento, tradução de Mário Cesariny de Vasconcelos, Colecção Contemporânea, 42, Portugália Editora, Lisboa, pág. 196 (1ª edição, Paris, 1959)

domingo, 21 de março de 2021

DOSSIER

 PÁSCOA / 2021


Jesus Cristo:
Vitral  da igreja de S. João Batista,
em Ashfield, Nova Gales do Sul, Austrália.
Autoria de Alfred Handel (1931-2009)




«Eu e o Pai somos um»

                                                  Jo 10, 30


«Eu sou o Caminho, a Verdade  e a Vida.»

                                                                            Jo 14, 6


«Olhai para os lírios do campo, como eles crescem. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.»


                                                                                    Mt 6, 28


Pequeno campo. na Semana Santa (Páscoa/2021) 
junto à Estrada do Calhariz de Benfica, em Lisboa


POEMAS NA PÁSCOA 

                     de Fernando Henrique de Passos



LITURGIA DO SILÊNCIO


Senhor, na Tua Páscoa

desceste ao fundo mais fundo do silêncio

e regressaste com a partícula de nada

que salvará o mundo.

 

30/3/2021



A PÁSCOA ENTRE AS FLORES

 

Morri na Páscoa,

Morri em plena Primavera.

 

As flores cercaram-me,

Pegaram-me na mão,

Despiram-me do Eu.

 

Quando ressuscitei

Era de novo Deus.

 

21/3/2021

                      

Comentário:

Partindo da ideia de que o Eu de Jesus é Deus, Fernando Henrique de Passos constrói uma belíssima metáfora, chegando a fazer contracenar a real crueldade dos soldados romanos, com a fantasia da bondade das flores. Assim, diz o Poeta: "As flores cercaram-me, / Pegaram-me na mão, / Despiram-me do Eu."
Teresa Ferrer Passos in Facebook



Altar alusivo à Páscoa
na nossa casa

 

POEMAS NA PÁSCOA

                               de Teresa Ferrer Passos


A Palavra de Jesus é a Palavra do Pai,

é a palavra de Deus

na sua santíssima incarnação.


                  

AS MÃOS DE JESUS

  

Não estavas cá… se tivesses estado,

Lázaro não morreria, exclama Maria.

“O meu amigo morreu?!”, diz Jesus.

Jaz no sepulcro há já três dias.

“Vou ter com ele e com as minhas mãos,

viverá”.

Que poder tens nas tuas mãos?

Não respondeu e saiu da casa.

Seguiu-o Maria, à distância.

Jesus entrava no sepulcro.

Maria ficou à porta. Incrédula,

viu as suas mãos apertarem

os braços de Lázaro, como se o abraçasse.

Em silêncio, Jesus erguia-o vivo, vivo de novo.

Maria chora e ri de alegria:

Lázaro, pelo seu pé, redivivo,

abraça-a ao sair do sepulcro.


Nem Lázaro nem Maria, viam Jesus.

Um grande silêncio pairou à volta deles.

Experimentavam, agora, a sua  ausência dolorosa.

 

30/3/2021

                                    

DIVINAS


As flores irrompem nos montes,
irreprimíveis,
impetuosas,
determinadas.
Querem rumar ao azul? Ou à luz? Ou ao mundo?...
Não sabem bem. Só sabem que nasceram
para mostrar o que é amar
sem razões, sem objetivos.

19/3/2021

RENASCEM OS LÍRIOS DA TERRA



Os lírios na intensidade do seu branco
ostentam a pureza. Vem-lhes da terra.
E se oscilam com o vento dos lugares, 
sabem suportar o abalo com as pétalas
arqueadas, como a recebê-lo com um abraço.
Os lírios são como pequenas casas
caiadas com contornos amarelos
em torno das portas e das janelas,
na procura da alegria escondida nas trevas,
nos mares e nas grutas dos rochedos.  
Os lírios restauram o pó e transformam a água  
em veludos levíssimos sem sombra de rudeza.
Sobem para o azul sem perderem
a verdade da sua realidade,
nem a beleza breve e infinita. 
Os lírios mirram devagar   
como se recebessem uma bênção inesperada, 
uma estrela caída e a brilhar, 
quase a ser toda a luz do universo.
Num dia, entreabrem as pétalas
para toda a vida;
num outro, tão próximo deste,
toda a vida se esvai.
Mesmo assim, os lírios diriam:
valeria a pena a vida,
mesmo que fosse um só dia.

18/Março/2021
                                            

VAZIO

 

O mistério da terra:
nua, em torrões, seca, imóvel, nas trevas.
E dela surge e ressurge a vida!


O sepulcro ficou vazio.

"Onde estás, Jesus?"

Não aqui, não aqui, disse a mulher.

"Ressuscitou, como disse?!"

Ele o anunciou dias antes de morrer,

na cruz, num monte triste.

"Para onde foi?"

Eu não sou daqui, dissera.

Para o Seu reino terá ido

numa nuvem branca

a desvanecer-se no vago azul.

"Mas o Seu reino ninguém o conhece!"

Não, ninguém o conhece. Por enquanto.


16/3/2021

E as flores ressuscitaram
nesta Páscoa, de novo,
 a imitar Jesus...