quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A INCÓGNITA



"O mistério do tempo cruza-se com o mistério
da nossa identidade pessoal"
                                    Carlo Rovelli, A Ordem do Tempo

aquela manhã a romper-se de incógnita erguia-se
quando, solitária, olhei a janela do meu quarto.
estava embaciada pela dúvida
de uma chuva finíssima
inesperada e densa. tudo eclodia
num enigma angustiante
dentro de uma floresta
onde a luz não penetrava.
apenas sombras gigantes se
desenhavam no meu horizonte a estreitar-se 
entre palavras a pairar na minha memória
exausta.  entre fragmentos de dias alucinantes
o mundo amortecido despertava
apenas com sinais nunca vistos antes.
e, mesmo assim, tudo me fazia acreditar
numa terra subterrânea
onde haveria alguma luz mesmo débil
na minha caverna ávida
de um tempo de amor desmedido
e a medir-se com o tempo da eternidade.

19/2/2026
Teresa Ferrer Passos


CERTEZA

Tantas horas de amargura te ofertei,
Desde o princípio até este dia,
Que chego a pensar que haja uma lei
A obrigar que me mantenha nesta via.

Mas tal seria acreditar no Mal
Quando eu prefiro acreditar no Bem,
Por mais que o Mal pareça ser normal,
Por mais que o Bem pareça muito além.

Por isso tenho esta certeza
De que me irás sempre perdoar
E que eu acabarei por me emendar,
E que a chama do Amor sempre estará acesa!

19/2/2026
Fernando Henrique de Passos

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

UM POEMA que dedico aos 16 mortos decorrentes da catástrofe que atingiu o nosso país:

IMPENITENTE DESTINO

País devastado nas suas hortas verdejantes
nos seus jardins das casas herdadas de pais e avós
nos seus animais de criação para um tempo longo.
País devastado nas suas vastas redes elétricas
a cobrirem os lugarejos mais afastados.
Torres de conduta elétrica em destroços misturam-se
com árvores centenárias arrancadas da terra.
Tudo isto se deixa tombar por ventos mais fortes
que os fortes Adamastores dos mares.
País devastado nas casas solitárias construídas
em penedos incautos
com estruturas frágeis em desenhos tão simples
como as nuvens mais breves.
Fomos um país devastado em poucas horas.
Horas demoníacas percorreram a pátria.
Abismados, mas intrépidos, ficámos.
Entre Velhos do Restelo de outros tempos, resistimos.
Prontos para o que der e vier, alheios às intempéries,
às perdas. E até ao próprio nada que nos arrasará
no dia em que o sol já não nos iluminar mais.
6/2/2026 Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

UMA CALAMIDADE NUNCA VISTA EM PORTUGAL

 Quem pode, em consciência, após oito dias de sobressalto, de angústia atroz, sem água, sem eletricidade, sem meios de comunicação, sem saber de familiares, de amigos, estar em condições de ir votar num candidato à P.R.?! O PAÍS ESTÁ DEVASTADO, OS BENS ESTÃO arruinados, a paz está destroçada. E as barragens espanholas vão continuar a invadir-nos com milhares de m3 de água por segundo... URGENTE: as eleições devem ser adiadas! O governo deve tomar esta medida. De imediato! Que não se faça do destino do Povo Português uma calamidade maior do que aquela que estamos a defrontar, com uma paz imensa no seu coração solidário e pronto a servir!

5/Fevereiro/2026 Teresa Ferrer Passos




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

COMO SE FOSSE O CÉU


numa orquídea pintei a tua face
desenhada por Deus num dia de céu azul.
era o dia catorze de Janeiro. o sol estremecia 
no horizonte e tu tinhas acabado de nascer.
coberta com uma echarpe de tule
branco olhei-te com a suavidade de um flamingo
que ainda não sabe voar. tu viste-me como uma sombra
de ti próprio e pareceu-te que essa sombra
sempre tinha existido na tua memória.
memória de uma luz que não engana
nem destrói nem abandona.
assim tudo começou.
a hora era vaga e dispersa.
era o dia  catorze de Janeiro
em que uma janela se abria
como se fosse o céu.

14 de Janeiro de 2026

                           Teresa Ferrer Passos