terça-feira, 9 de agosto de 2016

Tudo começou aqui


Teresa com 4 meses e sua mãe

Tu nasceste neste dia
Enquanto eu me aborrecia
À espera da minha vez.
Fiquei encantado ao ver-te
E desejei logo ter-te
Para minha companhia.

Liguei lesto pra Viana
(Apesar de ser tão longe)
Onde o meu futuro pai
Já só pensava em ser monge.

Ele ouviu a voz do alto
Dizendo “ruma a Lisboa”
E julgando que era Deus
Tirou como conclusão
Que aquela ideia era boa.

Como era muito indeciso
(O filho fora mais rápido…)
Levou ainda um par de anos
Até se fazer à estrada
Pondo em ação os meus planos.

Correu tudo muito bem
A partir desse momento
E passado o tempo certo
Deu-se o nosso casamento.

E foi assim, querida Teresa,
Que eu te levei ao altar
E mesmo não sendo príncipe
Desposei uma princesa.

Mas tudo sabes tudo isto
Quase melhor do que eu sei
Pois com respeito ao meu pai
Começaste por ser nora
Mas – se o posso revelar –
És a biógrafa agora!

9 de Agosto de 2016

            Fernando Henrique de Passos

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

No 1º Centenário da Morte de Mário de Sá-Carneiro


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quási vivido...

Do poema "Quási" de Mário de Sá-Carneiro in «Dispersão»
Edições Presença, 2ª edição, 1939, p. 47.



quinta-feira, 28 de julho de 2016

O Buda e os seus seguidores


Os crentes budistas frequentam templos,
templos erguidos em louvor do Buda,
templos com altares onde brilha o Buda
e rezam ao Buda e deixam-lhe oferendas
e esperam em troca os favores do Buda.

Mas o bom do Buda não desejou isto.

Ele descobriu coisas espantosas
sobre o ser humano, sobre a existência,
sobre a liberdade que há ao nosso alcance
de nos libertarmos da vil Lei da Dor.

E quis ensinar-nos o que descobriu.

Mas o seu caminho não é estrada plana
e é tão mais fácil construir uns templos
em louvor do Buda, com altares ao Buda,
e fazer em ouro imagens do Buda
e rezar ao Buda e deixar-lhe oferendas
e esperar em troca os favores do Buda…

28/7/2016

Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O mundo hoje

De massacre em massacre, de tortura em tortura...
E é assim que o mundo continua sem saber para onde vai.

27/7/2016
                                                  Teresa Ferrer Passos

domingo, 24 de julho de 2016

Há no firmamento...





"Há no firmamento
Um frio lunar,
Um vento nevoento
Vem de ver o mar.

Quási maresia
A hora interroga,
E uma angústia fria
Indistinta voga.

Não sei o que faça,
Não sei o que penso,
O frio não passa
E o tédio é imenso.

Não tenho sentido,
Alma ou intenção...
'Stou no meu olvido...
Dorme, coração..."


Fernando Pessoa, Obras Completas de Fernando Pessoa, Poesias I, 2ª edição, Editorial Ática, Lisboa, 1943, pp.81-82.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Perseguição



Andorinha-do-mar ártica

A voz que me falou de noite
Não quero escutá-la de dia.
Ah, nada existe em mim que se afoite
A escutar de novo o que essa voz dizia!

Chamou-me abismo de mim;
Chamou-me desencontrado;
Traidor que de longe vim
Crucificar meu sonho alado.

Chamou-me inútil e vão,
Tôrre de egoismo que a si própria mente.

Eu encolhi os ombros, indiferente...

Mas porque não escutaste, coração?

Eurico Collares Vieira, «Flores de Abismo»,
Colecção Poesia Nova, nº2, Lisboa, 1944.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Acontecimento raro


Incêndio das cartas astrológicas
Abismos a abrir-se no espaço sideral
Rajadas de vento a despentear galáxias
Sobressaltos nos ínfimos asteroides
Delírio do pó feito de estrelas
Dança ritual de mil planetas
Sob a chuva de energia cósmica
Que o destino convocou ao provocar
A conjunção de dois sóis…

20/7/2016

Fernando Henrique de Passos

Sintonia sem espaço




(Ao Fernando, no 23º aniversário do nosso primeiro encontro
                                   na Fundação Gulbenkian)


Nos laços do espaço, não há o teu espaço
e o meu espaço. Tudo se mistura numa nuvem
ou num céu azul, como se fosse puro acaso.

E tudo se transforma nos segundos
que contamos entre minutos.
As nossas vozes ecoam em silêncio
e tocam-se. São uma só, e distintas.

O nosso amor impõe-se numa   
distância, sem distância alguma.
E o nosso ser tem uma sintonia
que nenhuma razão explica.

E procuramo-la tantas vezes.
Procuramo-la até num tão simples gesto
como ligar um telemóvel.

20 de Julho de 2016

                                  Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A Fantástica Viagem


Estou sob a grande abóbada secreta
No bordo do mapa e no fim do mundo.
Daqui para a frente é sempre em linha reta
Através do vento gemebundo.

Deixou de haver lugares nesta jornada,
Apenas um relógio a servir de guia.
Entre o ponto de partida e a chegada
O espaço só de uma poesia.

Dar corda ao relógio antes de partir
É pôr a funcionar a estranha ponte
Que iguala os pontos que devia unir:
E assim, só de o olhar, já estou no horizonte…

13/7/2016

F.H.P.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Indícios


A forma invisível
Em torno da qual
Se enredam os teus sonhos

A falta de razão
Para um pôr-do-sol
Te parecer tão belo

A sombra rebelde do teu querer
Que te faz ir por outro lado
Diferente do que julgavas procurar

As palavras na música sem voz
Que te dizem aos ouvidos mil segredos
Que tu não tens palavras para repetir

:Eis alguns dos rostos
Do Senhor teu Deus

13/7/2016

Fernando Henrique de Passos

domingo, 19 de junho de 2016

No ventre do vulcão


Teu era o sangue
E lágrimas corriam do teu rosto.

A dor era também tua
E então fizeste dela a tua escrava
E deste-lhe a ordem de escavar a lava.

(Por isso ela agora sua
Abrindo a larga galeria
Por onde jorrará a luz do dia.)

14/6/2014

Fernando Henrique de Passos

sábado, 11 de junho de 2016

A legalização da prostituição

Se nós, como sociedade, queremos pôr termo à violência contra as mulheres, não faz sentido que ao mesmo tempo vamos permitir a legalização da prostituição, como a Juventude Socialista pretende.

Os miseráveis que espancam e chegam a matar as mulheres com quem vivem, fazem-no pela baixíssima conta em que têm a mulher.

Se uma lei do Estado vier dizer que o corpo da mulher pode ser alugado como um quarto de hotel ou como um automóvel, isso só virá confirmar e dar direito de cidadania à ideologia machista que vê na mulher um objeto, ideologia que está na raiz da violência dos homens contra as mulheres.

(Que união da esquerda é esta, que chega a envergonhar quem já um dia se pensou de esquerda?)

Fernando Henrique de Passos

terça-feira, 7 de junho de 2016

Uma folha de papel em branco


                                                                 À Teresa

A folha de papel à tua frente
Onde querias provar que Deus existe
Permanece teimosamente em branco
E Deus olha o teu esforço e Deus sorri-te.

Larga a caneta e ergue os olhos,
Sorri para Deus quando Ele te sorri,
Faz-te tu mesmo folha de papel
E deixa ser Deus a escrever em ti.

7/6/2016

Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A Eucaristia é para os pecadores



«Ainda há bem pouco tempo, o Papa Francisco exortava a aprender que "a Eucaristia não é um prémio para os bons, mas é força para os fracos".»

Darci Vilarinho, in Fátima Missionária, Junho/2016, p.5.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Ação de Graças



Mulher,
Minha Mulher,
Que me guias desde as profundezas de mim mesmo
Até à luz de enfim saber quem sou:
Deus te abençoe pela tua presença inabalável
Como a mim me abençoou com tu seres minha.

19/5/2016

Fernando Henrique de Passos

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A lontra


Paro no seio da pergunta

(A lontra nada na líquida doçura
Entre cascatas, água, sombras, luz e nada,
Onde nada suscita uma procura
Que não seja já a coisa procurada)

Eis-me no seio da pergunta

12/5/2016

Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Alta voltagem



Os olhos do céu abriram-se muito
Os olhos do céu abriram-se tanto
Que fulgiu de novo o fogo já extinto
Deixando espelhar o brilho do espanto

8/5/2016

Fernando Henrique de Passos

domingo, 8 de maio de 2016

A lei do Letes


(convoco, para a Musa minha, o 9 de Copas Arcano)

Ó Morte e doce Morte que me zurzes
Com essa luz fatídica e cruel
Que dava a negra cor às verdes urzes
E que ria nas bênçãos de Raquel...

Doce Morte que a rir assim me surges
E que entras disfarçada de batel
Onde os bons e os maus perdem as cruzes
E a vida é um teatro de papel,

Ensina-me a cantar o teu sorriso,
Teu alor liquefeito, o Paraíso,
Ensina-me a ser Deus e não diabo,

Pois se eu hei-de morrer um dia destes,
Que seja ouvindo a voz, entre ciprestes:
«Não começo, não vivo e não acabo.»

ORA PRO NOBIS PECCATORIBUS

Paulo Jorge Brito e Abreu

terça-feira, 26 de abril de 2016

Centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)


«De tudo houve um começo… e tudo errou…

− Ai a dor de ser quási, dor sem fim… −

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se elançou mas não voou…»

                   Mário de Sá-Carneiro, Do poema «Quási» (Paris, 13 Maio de 1913) in DISPERSÃO – Doze poemas, 2ª edição, Edições Presença, 1939, p.48.


*****


Morte Consentida 



Lá, longe da pátria, a morte é consentida! 

Não. Aqui, não! Lá, a asa quebrada
                    [contorce-se e não vive. 

Pode partir, enfim. Aqui, nada lhe
            [escapa, tão pouco a vida. 

A vida a começar. No seu corpo
                                 [incorrupto? 

Ora, morte sim, mas não aqui! 

Aqui, está a alma etérea e viva. 

Aqui, há perfumes alados de mirra. 

Aqui, a dor voa nas folhas escritas, 
  
a seguirem rumo á arte e à vida! 

Aqui, uma estrada de amor curva,
               [cortada, mas com saída. 

Lá sim, a morte é via. Lá sim, há estradas 

enormes entre ramos secos, 

sem cor, pobres, vazios. 

Lá sim, o encontro com a morte. 

Lá, uma estrada toda,

uma estrada cheia de névoas opacas,
                                 [frias, sufocantes.
  

     26/Abril/2016 (1º Centenário da Morte de Mário de Sá-Carneiro) 

                                                Teresa Ferrer Passos

domingo, 24 de abril de 2016

A Paz


«O Coro - Que prazer, que prazer em me ver livre do capacete, do queijo e das cebolas! Não gosto de combates, mas de estar ao canto do lume com os amigos a ver quem bebe mais, depois de ter deitado fogo à lenha mais seca, aos troncos arrancados no verão»

               Aristófanes, A PAZ (Comédia Grega do séc. V a.C), Editorial Inquérito, s/d (1955), p.70 (Tradução e notas de Agostinho da Silva)

sábado, 23 de abril de 2016

Reflexos no Interior de uma Clepsidra



Oh vitrais virtuais das catedrais elétricas
Que encerrais os sonhos devastados de meu pai
Nas vastas galerias geométricas
Onde o sopro do espírito se esvai:

− Devolvei-me o vosso prisioneiro!

Oh lírio com medo de crescer
Que buscavas a sombra de um convento
E me deixaste a luz do querer crer
A mim, teu filho, como em testamento:

− Saberei merecer ser teu herdeiro!

Oh "sonhos não sonhados" de Pessanha,
Cores avistadas num país perdido,
Guardadas na ala mais estranha
Do museu dos monstros sem sentido:

− Resgatar-vos-ei do cativeiro!

18/4/2016

                Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A casa


«Quando os perigos espreitam, a morada está à nossa espera, acolhedora como sempre: a casa evita o acaso. É um espaço interior, repositório das emoções, recordações, imagens, frustrações, mágoas, afectos inexprimíveis e sentimentos mais marcantes da nossa existência, sentimentos determinantes do nosso futuro, que nos remetem para o melhor de nós próprios. Tem a ver com o nosso ser e com a narrativa da história pessoal. É um espaço cordial de escuta, de confronto e das comunicações preferenciais, onde até o silêncio é meio de comunicação».

         Armindo dos Santos Vaz «Experiência de Deus nas Moradas de Teresa de Jesus», Revista de Espiritualidade, Nº 93/94, Janeiro-Junho, 2016, p. 39.

terça-feira, 19 de abril de 2016

A Filosofia




«Sempre igual a si mesma, no fundo, mas num fundo envolto, inconsciente e quási impenetrável, é continuamente diversa de si mesma nas suas manifestações, nas afirmações conscientes e sistemáticas do misterioso princípio ideal que forceja por exprimir e que, a cada ensaio de expressão definida, encobre quási tanto quanto revela».

                AS PROSAS DE ANTERO DE QUENTAL, Edições Futuro, Braga, s/d (1942?), p.141 (Selecção, prefácio e notas de Victor de Sá).

domingo, 17 de abril de 2016

As palavras da vida...



«Há livros que falam baixinho, há livros que falam alto. Uns teem por si o encanto, outros a fôrça. Às vezes as palavras murmuradas impressionam mais: passado tempo ainda elas acordam em nós fibras adormecidas.»

«A educação que nos dão, o melhor que há a fazer é esquecê-la. E esquece-se porque ela nada tem com a vida, é uma coisa à parte. A que adquirimos à custa de nervos, de sangue, de suor, a que se aprende na peleja, essa acompanha-nos até ao túmulo. É a verdadeira»

                   Raul Brandão OS POBRES (Com Carta-Prefácio de Guerra Junqueiro), 3ª edição, Livraria Chardron, Porto, 1925, p.101 e 161.

terça-feira, 12 de abril de 2016

(TEORIA DO TUDO)





Um fragmento de Deus
Separou-se do resto do seu corpo.
Corpo e fragmento sofrem atrozmente.
Desejam reunir-se
Mas vogam no espaço que os separa.
Só podem voltar a encaixar
Se no instante em que de novo coincidam
For rigorosamente zero a sua velocidade relativa:
Não poderá haver nesse momento
Qualquer impulso mútuo…
Nem de atração…
Nem de repulsa…


12/4/2016

              Fernando Henrique de Passos

domingo, 10 de abril de 2016

O princípio da incerteza




«Nada permanece. Nada é inflexível. Tudo é um desespero ou uma esperança. As contradições sucedem-se. As dúvidas tornam-se uma certeza. As certezas deixam-se amesquinhar com dúvidas enormes. Nada é fixo nestes instantes de princípio e irreprimíveis.»

Teresa Ferrer Passos, Um Cientista e uma Folha de Papel em Branco, Chiado editora, Lisboa, 2015, p. 332.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Três apontamentos sobre o materialismo



I
A CIÊNCIA E A REALIDADE

A ciência já desvendou algum mistério acerca da realidade? Não, TUDO permanece mistério, e não estou a sofismar nem a escrever poesia. O que acontece é que a partir de certa altura o ser humano começou a descobrir umas leizinhas como “na queda dos graves a distância percorrida é diretamente proporcional ao quadrado do tempo gasto em a percorrer” ou “dois corpos materiais atraem-se mutuamente na razão direta do produto das suas massas e na razão inversa do quadrado da distância que os separa”, e continuou a descobrir mais leizinhas como estas, e foi percebendo que estas leizinhas se encadeavam e se entrelaçavam formando uma espécie de rede que cobria toda a realidade, e acabou por se convencer que essa rede capturava toda a realidade. Mas essa rede captura tanto a realidade como uma rede de pescador captura a água onde é mergulhada.


II
A TERRA PLANA E A CONSCIÊNCIA
COMO FENÓMENO PURAMENTE MATERIAL

Surpreendia-me menos se me dissessem que afinal a Terra é plana do que quando me dizem que um sistema de alavancas e roldanas pode ter consciência.

Se um cientista me responder que ninguém pretende que um sistema de alavancas e roldanas tenha consciência, pois a ciência dá atualmente uma visão da realidade material muito mais sofisticada do que o fazia o mecanicismo, morto e enterrado, eu direi a esse cientista que a ciência vai no bom caminho se substituiu a velha imagem da matéria como pura extensão, mas que só poderá dar a sua tarefa por concluída quando banir da descrição da realidade o próprio conceito que esteve na origem da visão mecanicista da realidade, o conceito de espaço, que a física quântica já esteve à beira de banir. Simplesmente, nessa altura a ciência já não estará a falar de matéria, mas sim de espírito.


III
 A TEORIA DO TUDO

Não há nenhuma teoria do tudo, nem nunca haverá. Qualquer telenovela de segunda categoria está infinitamente mais próxima de ser uma teoria do tudo do que a mais perfeita teoria científica, porque a essência da realidade são as pessoas, as suas vidas, os seus problemas, os seus sentimentos, e não os pormenores quantitativos das leis a que obedece a matéria que serve de suporte à existência dessas mesmas pessoas, com as suas vidas, os seus problemas, os seus sentimentos. Do mesmo modo, o importante na Gioconda é a expressão do seu olhar, e não as características das tintas e dos pincéis usados por Leonardo quando a pintou.

4/4/2016

Fernando Henrique de Passos

domingo, 3 de abril de 2016

A culpa e o seu Sentido

Franz Kafka (1883-1924)

«O pretenso Klamm poderá não ter o menor ponto de comum com o verdadeiro Klamm, a semelhança poderá existir apenas aos olhos de Barnabás cegos de emoção, poderá ser o mais inferior dos funcionários, poderá até não ser sequer funcionário, mas alguma função terá ali junto daquela estante, alguma coisa ele há-de ler no seu enorme livro, alguma coisa há-de sussurrar para o escrivão, alguma coisa há-de pensar quando lá de longe em longe o seu olhar pousa em Barnabás; e mesmo que nada disto seja verdade e que nem ele nem os seus actos tenham o menor significado, alguém o pôs naquele lugar e com isso devia ter alguma coisa em vista. Com tudo isto quero eu dizer que alguma coisa existe, alguma coisa foi oferecida a Barnabás, pelo menos alguma coisa, e que é culpa de Barnabás se com isso nada mais consegue além de dúvida, medo e desesperança.»

Franz Kafka, «O Castelo», Europa-América, Lisboa, s/d, p. 206

A propósito desta postagem de F. H. P. , duas nótulas no Facebook: 

Alguma culpa temos nós todos.
Alguma culpa
porque não vemos,
porque não sabemos,
porque não esquecemos?

3/4/2916                   T.F.P.


Penso ser esse o sentido das palavras de Kafka:
o simples facto de existirem mistérios
dá-nos razão para ter esperança
de que eles escondam o almejado
Sentido; é culpa nossa se caímos no desespero.

3/4/2016                                              F.H.P.

No terreno e na carne dos humanos



«Na Incarnação, o cristianismo oferece a possibilidade de conjugar o que se considera inconciliável: a transcendência entra na história e faz história humana, com os humanos. Deus une-se com eles. Sem se tornar vulnerável, porque permanece Deus em relação na sua transcendência, salva-os não de longe, na sua solidão sublime e imperturbada, mas no terreno e na carne dos humanos».
                         Armindo dos Santos Vaz, «A Relação Bíblica do Humano com o Divino» in "Revista de Espiritualidade", nº 89, 2015, p.23.

Salvos num mar que liga,
em vez de separar,
porque nem sempre 
o mar separa.
                            T.F.P. (comentário no Facebook)