sexta-feira, 19 de junho de 2015

Num tempo esquisito...

Daniel Oliveira

«Deixamos de precisar de reconhecimento dos outros quando atingimos um determinado estatuto sobre o que somos e o que valemos; e não falo de estatuto social.»

«Não vivi atormentado com a ideia de querer ser alguém na vida. O sucesso e a fama são efémeros e absurdos, não valem nada»

«Tenho imenso orgulho de ser filho de quem sou. Nunca quereria ser o filho de. (...) Não quero que a minha filha seja alguma vez a filha de Daniel Oliveira»

«É uma conquista fundamental ao longo da adolescência que todos fazemos: maldizer os nossos pais, destruí-los, para ganhar autonomia. É isso que nos permite amá-los o resto da vida»

          Excertos de uma entrevista de Daniel Oliveira (jornalista, autor de A Década dos Psicopatas) à revista "Tabu" in jornal Sol de 12 de Junho de 2015.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Deus joga às escondidas?


Há ateus que dizem não conseguir perceber este Deus que “joga às escondidas” com o ser humano, ora revelando-se, ora ocultando-se, e nunca se revelando de forma suficientemente clara, quando o faz. Percebo esta queixa, pois sinto muitas vezes o mesmo. Mas recentemente interroguei-me: é Deus que se esconde de mim, ou sou eu que me escondo dele?

A história de Adão e Eva não é para ser levada à letra, já todos nós sabemos. Mesmo assim, talvez seja ‒ de muito longe ‒ o episódio mais importante do Antigo Testamento, aquele que encerra a explicação que todos nós procuramos para o mistério da existência humana, embora o faça de maneira alegórica, cabendo à nossa imaginação adivinhar o que está a ser representado nessa alegoria. Para o caso presente, interessa-me apenas reter um ponto: a vergonha dos dois após terem sido descobertos.

Será a minha congénita vergonha-não-sei-de-quê ‒ a vergonha com que todas as crianças nascem, e que alguns de nós nunca perdemos completamente, a vergonha que faz com que me esconda constantemente dentro de mim mesmo ‒ será essa vergonha a responsável por este sentimento de que Deus joga às escondidas comigo? Será que, do meu esconderijo, tão fundo me enterrei que só vejo a realidade através de camadas quase opacas de medos e sentimentos de culpa?

Talvez só tenha de me envergonhar desse esconderijo, onde me cerquei de lentes que torcem a realidade, amplificando coisas insignificantes e desvanecendo o que tem significado. Talvez Deus se me ofereça, desde sempre, num gesto largo, rasgado e inequívoco, do qual eu não me apercebo, no entanto, senão como um sinal velado, que atribuo mais à minha vontade de crer do que à realidade dos factos.

10/6/2015

Fernando Henrique de Passos

também em Terra Atípica,
neste blogue

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas


Nau no cais de Vila do Conde

CAMÕES


«(...) O mar entrou por ele dentro - e coube. Disso falam ainda os seus versos, com palavras eternas como as pirâmides. Tomou parte em guerras. Era português. Sofreu injustiças, ódios, erros próprios ou alheios, perseguições... e fome: Era o poeta maior da pátria. Também disso falam ainda os seus versos, com lágrimas que ainda hoje correm. Os seus versos falam de muita coisa! Quis vir morrer a Portugal, a quem trazia os Lusíadas. Quis escrever os Lusíadas - para que pelos séculos dos séculos todos os povos da terra soubessem da existência de Portugal. Morreu tão desgraçado, que ousou queixar-se de seus irmãos: Não mais, Musa, não mais... (...)»

                            José Régio (1901-1969) in revista Presença, nº 13, 13 de Junho de 1928.

domingo, 7 de junho de 2015

«Prelúdio» num dia do Corpo de Deus...



«Correm no campo as ondas das searas,
Fogem as nuvens da manhã
No Céu...
E alguém dá
Às searas
O pão que já lhes deu.

Abrem-se as portas dos casais
E a vida recomeça
Para o povo.
Como se fora, essa,
A mais
Pródiga manhã de um dia novo.

A terra chama o homem. Ele canta,
Canta na luta,
Até ao pôr do Sol.
Cada planta
O ouve e lhe dá a fruta
Ao estender os ramos para o Sol.

Como o rosto de um Deus belo e parado,
O Céu mostra-se calmo.
Na distância
Sinto eflúvios de um salmo
Quase meu. Calado,
Penso na minha infância.

- Visões de longe, formai ala
Ao longe... formai ala...

(Visões de longe formam ala
Ao longo de outro Céu.
E eu
Para que quero a vida
Senão para contá-la
A quem ma deu?)»

Poema inédito (escrito pelos dezanove anos) de Fernando de Paços (1923-2003)

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O Tempo e a Eternidade

Alguém consegue imaginar um mundo onde reinasse uma total ausência de conflitos?

Não me refiro apenas a guerras e atentados terroristas. Refiro-me a qualquer tipo de conflitos ou atritos, como o conflito no restaurante porque o bife veio muito passado e nós tínhamos pedido mal passado, mas o empregado diz que eu pedi bem passado, “não pedi nada, o senhor é que percebeu mal”, “o senhor é que se deve ter enganado e disse bem passado quando estava a pensar em mal passado”, etc.

Refiro-me a uma espécie de “Paraíso Hippie”, onde só houvesse amor, paz, sorrisos, flores e borboletas. Dito assim, é tão doce que até enjoa, não é verdade? Precisamos de atritos na vida como precisamos de sal e pimenta na comida. Nem o mais guloso dos gulosos concebe a ideia de passar o resto dos seus dias a comer apenas bolas de Berlim, mel e mousse de chocolate. Temos de discutir por causa de qualquer coisa, nem que seja o futebol, ou a falta de gosto da Fulana para se vestir. Quer dizer, então, que não fomos feitos para o Paraíso?

(continua)

Fernando Henrique de Passos

VER TEXTO COMPLETO EM TERRA ATÍPICA,
NESTE BLOGUE

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Carta ao Professor Maquinal

Caro Professor Maquinal

A nossa conversa telefónica de há dias[1] fez-me cair em mim e perceber que continuo seu adversário ‒ tão seu adversário como de todos os outros fundamentalismos religiosos. Repare que lhe chamo “fundamentalismo”, e não “fundamentalista”, porque não combato pessoas, apenas ideias e, na verdade, o senhor não passa de uma ideia criada por mim, pois não há nenhum materialista tão estúpido como o Professor Maquinal.

Pedir-lhe-ia desculpa de o ter chamado a uma existência tão breve e tão despida de sentido, não se desse o caso de o senhor parecer regozijar-se com a falta de sentido que julga descobrir na existência, o que o levará certamente a não lamentar o facto de a sua própria existência se reduzir à exiguidade de um telefonema e de uma carta. Como julgo conhecê-lo bem, presumo, no entanto, que não aprecie a inclusão que faço do seu nome no rol dos fundamentalismos religiosos, pelo que passo de seguida a justificar-me.

(continua)

Fernando Henrique de Passos

VER TEXTO COMPLETO AQUI

sábado, 30 de maio de 2015

A oração esquecida de S. Francisco de Assis


O amor infinito de Deus
pelos ratinhos do campo mais minúsculos
e pelos ínfimos beijos-dentadinhas
com que o ratinho do campo mais minúsculo
mordisca a sua amada:
eu quero ser a mais ínfima parcela
do infinito amor de Deus
pelos ratinhos do campo mais minúsculos.


29/5/2015

                            Fernando Henrique de Passos

Assim é o Reino

«A vida parece ser hoje toda programada: há um tempo para tudo, até mesmo o tempo de repouso. O risco é de aplicar a mesma regra para as coisas de Deus. A parábola [Mc 4, 26-29], porém, oferece uma perspetiva diferente: a semente é plantada pelo agricultor, mas é o Senhor quem a faz nascer e crescer. O convite é claro: confiar e abandonar-se nas mãos de Deus, acreditar e deixar que Deus atue e cresça dentro de cada um. Se por agora a realidade de Deus parece ser insignificante, é tudo uma questão de tempo, pois o Reino já está entre nós.»

Patrick Silva, “Assim é o Reino”, Fátima Missionária, Junho 2015

domingo, 24 de maio de 2015

«Já é tempo de caminhar»



«Já é tempo de caminhar», disse Santa Teresa de Jesus, na hora de partir para Vós, Pai.

«Já é tempo de caminhar», também para nós, Pai, com o sentido de vos reconhecer como o nosso caminho.

«Já é tempo de caminhar», Pai, neste dia do começo da grande caminhada escrita nas “línguas” de fogo do Vosso Amor, todo infinito, a esvoaçarem infinitas sobre os Apóstolos de Jesus, Vosso Filho.

«Já é tempo de caminhar», Pai, neste dia de memória do Batismo de João, o de água pura e, muito mais, neste dia de consagração plena da Ressurreição de Vosso Filho pelo Batismo dos Apóstolos, com o fogo do Vosso Amor e, ainda, neste dia do nosso Batismo a marcar a união Convosco.

E porque «já é tempo de caminhar», Pai, dai-nos a força desse Batismo nas línguas ardentes de Amor do Espírito Santo e seremos, cada dia, um Convosco.

«Já é tempo de caminhar» na verdade, Pai, «já é tempo» de Vos servirmos na confiança de estarmos perante Vós, cada dia, para sorvermos a Vossa pureza. «Já é tempo», Pai, de tocarmos os nossos irmãos nas mãos para que as Vossas mãos nos sustentem.

«Já é tempo de caminhar» ainda para Vos darmos graças, Pai, pela colheita do trigo, o trigo que das nossas mãos de joio possa jorrar, na Festa das Colheitas até chegarmos à Casa do Pão, esse Pão que sacia como nenhum.

«Já é tempo de caminhar», Pai, neste dia da Festa de Pentecostes (o 50º dia depois da Páscoa), o dia do selo aposto à grande Carta que foi a Ressurreição de Jesus, o verdadeiro Deus, a nascer como um simples homem.

24/5/2015


                                                Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Reflexões a propósito do Domingo de Pentecostes

«Fazer pouco da Filosofia é, veramente, filosofar.»
Blaise Pascal



INTRODUÇÃO




Nós seremos breve e leve. Ao longo do nosso labor, nós hemos de aventar: é frutífera, na fronde, é frutífera Éfrata. E vamos, então, ao missal e à messe do Messianismo. Todas as religiões são raios do mesmo Sol que eduzem, conduzem, ao divo e a Deus. A Deus elas conduzem por palavras diferentes. Ou melhor, seguindo e segundo William Blake, o Inglês, todas elas são expressões do «Génio poético» de cada povo, cultura, e civilização. Elas diferem, apenas, devido ao espaço e ao tempo, que são princípios «a priori» da sensibilidade.

Apela, o espaço, à Geografia, e diz respeito, o tempo, à História das palavras. Quando os homens preenderem, ou compreenderem, este facto e o feito, cumprir-se-ão, alfim, as profecias de Isaías, sobre o Templo e o tempo do milenarismo: «Das espadas fabricarão enxadas, e das lanças farão foices. Nenhuma nação pegará em armas contra outra, e ninguém mais vai treinar-se para a guerra.» «Porque nasceu para nós um menino», continua o Poeta, ‘um filho nos foi dado: sobre o seu ombro está o manto real, e chama-se «Conselheiro Maravilhoso», «Deus Forte», «Pai para sempre», «Príncipe da Paz.»’

E citemos, mais uma vez, o filho de Amós: «O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera deitar-se-á ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos, e um menino os guiará; pastarão juntos o urso e a vaca, e as suas crias ficarão deitadas lado a lado, e o leão comerá feno como o boi. O bebé brincará no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfiará a mão no esconderijo da serpente.» E esta, pra mim, é a Liberdade. E esta é a doutrina da não-violência. Fiéis, dessarte, aos seus Profetas, cumprimentam-se, os Israelitas, dizendo, e proferindo, a palavra «Shalom»: significa ela «Paz» em seu sentido pleno. Mas em vez do exílio, isto é, em vez de a procurarmos fora de nós, começa sempre aqui, começa sempre, a Paz, em nosso coração.



TESE



Que o Nazareno é Nazarita e por isso o Nazireu. E sejamos aticista, e no orbe, e urbano, não mataremos, nós outros, ninguém, por ele não professar o «querigma» do Cristo. E do «querigma», e do carisma, trataremos aqui. Se a linguagem, para Heidegger, é a Casa do Ser, façamos, da Escritura, a habitação de Deus, a choruda «Shekiná»: nas águas de Hipocrene, é chama e é chamada a «Sophia» perene. Que a língua liga, e é apanágio dos colegas. É apanágio do ledor. E agora vamos, entanto, às palavrinhas. Por as palavras cria o homem o sobremundo da cultura que o separa e aparta duma animalidade. E quanto ao Pentecostes?, pergunta o leitor. «Pentecostes», do grego «Pentekosté», significa «quinquagésimo».

Quero eu dizer, finalmente: se memora e comemora, a festa pentecostal, sete semanas depós da Páscoa. E por isso ela é chamada de Festa das Semanas, Festa das Primícias, ou Festa das Colheitas. Tem ela a voz, e a vez, 50 dias depois da Festa dos Ázimos. E temos, então, que o número 5 ( não olvidemos que é marcante, na Bíblia, a numérica, etérica, simbologia ), o número 5 nos remete, por isso, ao Quinto Império, ao Éter, à celeste quintessência. Como adiante aduziremos, esse é o culto, imperial, do Espírito Santo. Se «Belém» significa a «Casa do Pão», esse é o rito, o ritual, da Paz e dos pães da proposição.

E na festa, sideral, da Colheita do Pão, assumindo, assimilando, o Pão da Palavra, as primícias da Colheita, elas vão para o Senhor – e assim o professa o Levítico literal. Quero eu dizer: no elemento, ou alimento, do Pão quotidiano, se acura, e acrisola, o sentido de Aliança com o «Abba» e o Paizinho – e o Pão da Aliança é celebrado, adrede, em crisol, e cristológica, Eucaristia. 
Pois a apresentação, do Pão, a Deus Padre, é rito antigo, avito, e deveras arcaico; usando, Melquisedeque, o pão e vinho, Abraão, o hebraico, era alçado e abençoado, e se o nativo é nutrice, caminha, a nutrição, a par da adoração – e a Palavra é deveras medicamento e alimento. E se a Justiça se une à Paz, era Melquisedeque, afinal, o Rei de Salém, o Sacerdote, no altar, do Deus Altíssimo. E do colaço e colação, e da Colheita do Trigo, no Antigo Testamento, se passa, nos Apóstolos, à colecta, e à Colheita, do Espírito Santo. Ele é a signa, a bandeira, o sinal, da universalidade, do arcano, e Cristiano, Catolicismo – e são por isso alteadas as línguas de Fogo. E são por isso orações, e duas ilações se tiram na lição.

E eis a prima, a primeira, e a primordial: a Boa Nova é doutrina pra todo, e todo o mundo, não há, na Boa Nova, a discriminação. Que evangélico e angélico, tem, o Salmista, as portas e janelas todas abertas. Pois não há, para a Verdade, nem grego, nem judeu, nem escravo, nem homem livre, e nem doutor, nem a estultícia – e é a encíclica, na verve, a enciclopédia, e somos todos invitados para o Banquete nupcial. E a sagrada, e a segunda, proposição: o Pentecostes narrado nos «Actos dos Apóstolos» é deveras sacrossanto, ele significa, ou dignifica, o início, caroal, da Igreja cristã. Mas agora, esquadrinhemos: se o Fogo apareceu na Aliança, ou liança, do Monte Sinai, quero eu dizer, na sarça ardente, o Fogo nos aparece, no «liber» de Lucas, qual simpósio e o cenáculo da Fraternidade. E difundindo, e defendendo, a «communio» da eclésia, S. João Crisóstomo chama aos Actos, deveras, o Evangelho, e a Palavra, do Espírito Santo.

O Espírito que atende, ampara e preside à Igreja Cristiana. Pois nos «Actos dos Apóstolos», ouçamos o discurso do Apóstolo Pedro: «Nos últimos dias, diz o Senhor, Eu derramarei o meu Espírito sobre todas as pessoas. Os vossos filhos e filhas vão profetizar, os jovens terão visões e os anciãos terão sonhos. E, naqueles dias, derramarei o meu Espírito também sobre os meus servos e servas, e eles profetizarão. Farei prodígios no alto do céu e sinais em baixo na terra: sangue, fogo e nuvens de fumo.» Ou cotejando, novamente, com o Antigo Testamento, em Génesis, por isso, se narra a história dos homens que, levados pela «húbris», construíram, dessarte, a Torre de Babel: eles queriam ser famosos e chegar até ao Céu, mas seu orgulho, desmedido, deu origem à queda, e à confusão das línguas. E se o «Homo», por isso, vem do humo, quem se humilha será exaltado, quem se exalta, em diabril, será humilhado. Ou no lance e lição: comunicar, no sentido pragmático, ele é qual charla, o boato, e a denotação – mas o comunicar, poeticamente, é qual a Nova, e a «communio», da conotação.

Contra a Marta, que labora, adora, e ora, a Maria do Evangelho; ela toma, pra Jesus, a melhor parte. Pois é da Poesia o «Dasein», o «Mitsein», e o fundamento do Ser, a porfiada atenção ao mundo do Ser. Quero assertar, e proferir: se é existir o «Dasein», será, o «Mitsein», o acompanhar, o estar junto, o coexistir. E por isso o comunal, e por isso os cristianos tudo punham em comum, e comungavam, «companions», do Verbo sideral e do Corpo do Senhor. E por isso, nós afirmamos, em celeste Firmamento: tomando parte, e participando, da unicidade da pessoa, professa o Cristiano a autêntica existência – mas aferrado ao véu de Maya, e ao mundo do ter, participa, o prosaico, da existência, anónima, do homem, dessarte, unidimensional. Mas revertendo, no lance, o Pai assume o Filho – e ao Filho, lilial, desce o Paracleto sob a forma de Pomba.

O mesmo Paracleto que, falante e aflante, Ele dá testemunho do Pai e do Filho – e com o Filho lavora, no escol e a escola da Nossa Senhora. Quero eu dizer: na eclésia, assembleia, e na egrégora do Cristo. Pura Poesia, afinal, o fanal, e o carisma, da cristificação – e no asmo, e entusiasmo, a parábola, e o Paracleto, do mitificar. Por isso o Vate é Vaticano, e no viático, ou vieira, o Poeta, e a Porta, é construtor de pontes – e eis o Jano e eis o Graal, esse o carme, e a cadeira, pontifical. Ou falando, agora mesmo, por tópicos e tropos: ao ser expressão do inconsciente ( e remembrando, aqui, a escada de Jacob ), também é, a Literatura, a cruzada e a carreira do sobrenatural. Parafraseando, aqui, o Hoené Wronski, não basta, ao homem, conhecer a Verdade – é preciso também criar essa Verdade verdadeira, e eis a escola e o escopo da especulação. Como eis, aqui, a crística lição. 


CONCLUSÃO


E hemos dito e aventado: é pronto e é preste, é preciso o teologúmeno. Álvaro Ribeiro, no lance, já nos tinha avisado: Filosofia sem Teologia não é, ela não é, Filosofia Portuguesa. Ou melhor: se o Deus, deveras, é o Alfa e o Ómega, não conhecer a Deus Pai é ser, na verdade, analfabeto. Se a prece é sobretudo uma Arte da Palavra, é precisa, dessarte, uma oração… do coração. Nos seja feito, por isso, de acordo com a nossa Fé: e surge aqui a Sorte, e surde aqui o querer consorciado com o crer. Pois no escol e na escola do Lusitanismo, a Ideia de Deus ela é, deveras, o arrimo e a base da Filosofia, ela é o fundo, o fundamento e o fundamental.

Em sua gnósica prosa, Fernando Pessoa, forte e fértil, ele tinha, dessarte, toda a razão: se interpretarmos, hermeneutas, os Evangelhos à letra, eles são adrede libertários, são pura e simplesmente anarquistas – e não remembras, aqui, o caso do Tolstoi??? Como quer que seja, seremos, nós outros, os discípulos do Cristo, conheceremos a Verdade, e a Verdade, alfim, nos libertará.

«Mas pra que serve, agora, a Teologia?», pergunta o ledor. Um rapsodo, que nos sopra, um rapsodo, que ressuma, nos dá a resposta. Na vez e na voz do Poeta João Belo, «Procurar o infinito é descobrir o impossível, saber que não se existe é conseguir a existência». É conseguir, deveras, o «Dasein», disserto eu. O desvelar, o alumbrar, o co-mover, uma «ek-stática» insistência na Verdade do Ser.

Queluz, 17/ 05/ 2015

AD MAJOREM DEI GLORIAM

PAULO JORGE BRITO E ABREU

domingo, 17 de maio de 2015

Diálogos no Caminho

       

«A história da Bíblia é do caminho de um povo, dos seus momentos mais dramáticos, das suas partidas e chegadas, das suas pelejas e memórias, dos seus medos e amores, da sua esperança... narrada nas peripécias de sucessivas viagens; é a aventura à descoberta do desconhecido e de um Deus sempre novo, a exaltação das possibilidades do ser humano enquanto ser à procura de sentido para a vida, através de provas ou provações e de aquisição de conhecimentos. Caminhar ajudava a tornar-se "outro"; ajudava a avançar quem estava no caminho certo; ajudava a retroceder/converter-se se estava no caminho errado»

Armindo dos Santos Vaz, «A Relação Bíblica do humano com o divino», Revista de Espiritualidade, Nº 89, Janeiro/Março 2015, pp.13-14.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Ao telefone com o Professor Maquinal



- Bom dia. Estou a falar com O Senhor Professor Maquinal?
- … 
- Como está? Daqui fala o José Ideal. O Senhor Professor não se deve lembrar de mim, mas, se me desse um minuto, gostava de lhe dar uma palavrinha.
- …
- Obrigado. É o seguinte. Há coisa de uns dois anos tivemos uma pequena discussão.
- …
- Percebo o seu espanto. Como é que podemos ter discutido se não nos conhecemos? Eu explico. Foi num daqueles fóruns que alguns canais de televisão promovem. O Senhor Professor tinha lá ido falar do seu último livro. No fim da entrevista abriram a antena a qualquer telespectador que lhe quisesse colocar questões.
- …
- Sim, foi aí mesmo, vejo que se lembra. Eu tinha ficado um pouco espantado pelo à vontade com que o Senhor Professor dizia que somos todos robots e tentei provar-lhe que estava errado, mas o Senhor Professor começou a ficar muito nervoso, e disse que se sentia ofendido por eu estar a pôr em causa o trabalho de milhares de cientistas em todo o mundo que lutam incessantemente para implementar sistemas de inteligência artificial indistinguíveis do ser humano
- …
- Claro que sim, claro que sim, mas eu na altura pensava de outro modo, era completamente insensato, e é por agora o reconhecer que lhe estou a telefonar. Na realidade queria apenas apresentar-lhe as minhas desculpas por aquele incidente de há dois anos e dizer-lhe que, graças ao seu livro, que acabei por comprar, me converti plenamente às suas teses. Agora também acredito ‒ melhor, tenho a certeza ‒ que sou um robot.
- …
- É isso, é isso, não sei como alguma vez pude duvidar.
- …
- Exactamente. E eu por acaso até me lembro de ter pensado na altura, na minha insensatez, qualquer coisa deste género: “já vi muitos filmes de ficção científica em que há robots que ficam desesperados quando lhes revelam que não são seres humanos, mas nunca tinha visto um robot ficar ofendido por alguém lhe dizer que ele é uma pessoa!”

(continua)


TEXTO COMPLETO AQUI
10/5/2015

Fernando Henrique de Passos

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O segredo de Jesus



Há coisas que não se dizem com palavras. Aos que tiveram a bênção de O conhecer, Jesus falava com a Sua própria presença. E isso era tudo, e era o infinito e a eternidade num só olhar, num só gesto, num só sorriso.

Mas a nós ‒ ai de nós! ‒ não nos chegou a presença de Jesus, mas apenas uns fragmentos dispersos e por vezes contraditórios das Suas palavras, que foram o menos importante da Sua passagem pela Terra, porque os mistérios que Ele nos veio revelar não cabem dentro de palavra alguma.

7 de Maio de 2015

                                      Fernando Henrique de Passos

domingo, 3 de maio de 2015

Dia da mãe


Minha querida mãe, deixa-me sair,
Não me sinto bem de aqui estar fechado;
Gosto francamente disto de existir
Mas tudo aqui dentro é muito parado.

Gosto do teu sangue e do ar que traz,
Poupa-me trabalho, não me faz cansar;
Mas gostava um dia, se fosses capaz,
De vir a saber como é respirar.

Gosto do teu sangue, do qual me alimento,
Sem eu fazer nada, sequer mastigar;
Mas anda esta ideia no meu pensamento:
Ir comer a fruta ao próprio pomar!

Quero ouvir o vento e o sino da igreja,
Ver o pôr-do-sol e ver-te sorrir;
Hei-de ser teu filho onde quer que esteja
‒ Minha querida mãe, deixa-me sair.


3/5/2015

                        Fernando Henrique de Passos

Procuramos a paz, Mãe



Mãe, dá-nos a Tua paz, a Tua paz imensa.
A Tua paz de esperança e de ternura dá-nos, oh Mãe!
A Tua paz suave como a chuva silenciosa nos cubra o espírito medroso, inseguro. A Tua paz cheia de Deus nos invada como um relâmpago e incendei o nosso corpo todo.
Em Ti, Mãe, ouvimos murmúrios sem os distinguirmos bem, inábeis nós, inábeis somos, Mãe. Como escutar Teus lábios de ternura a inscrever-se na carne quase surda, Mãe?
Como sentir vinda de Ti, na nossa pele, aquela mãe terrena de que Tu és a súmula eterna? Aquela mãe de que Tu te tornaste a Verdade e a Vida, depois de Jesus te eleger Nossa Mãe?
Mãe. Dá-nos uma paz nova que penetre até ao fundo o nosso coração trémulo e a palpitar. Mãe, presença feita da paz do Céu, ouvi a nossa prece, a prece da saudade de te ver ao pé de nós, como se aqui, na terra, já tivéssemos entrado no Teu Reino e descobríssemos a nossa mãe da terra, tão igual a Vós. Trazei a Vossa paz até cada um dos nossos atos, como se cada um deles fosse movido pelo exemplo da Tua paz, oh Mãe.

1 de Maio de 2015 (Dia da mãe)

                                                              Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Mito XXI: O verme egoísta



    “Eu batizo-vos em água (…) Ele batizar-vos-á com o fogo”
                                                                      Mt 3, 11

Abeira-te da berma do abismo.

Milénios de dor tornados pedra
Aguardam o eco do teu grito
No interior de longas galerias
Onde escorrem lágrimas ainda
Das pontas enceradas das estalactites.

Faz-te um com as paredes do abismo.
Suspende-te no espaço antes da queda.
Assume a forma sem textura
Das mudas perguntas que esvoaçam
Sob as abóbadas de cinza do crepúsculo.

E então a lava incandescente
Borbulhará no fundo dos poços profundíssimos
Que mergulham na noite e nos desertos
E nas areias que um dia resultaram
Do triturar de estátuas colossais,
Imagens de seres tão puros como deuses
Agora escravizados por fantasmas
Dos quais mal se conhecem as sombras repelentes
Avistadas às vezes por acaso
Quando olhamos segundo um certo ângulo
E surpreendemos por instantes
O fundo falso dos espelhos.

E a liberdade da lava irá correr
Nas artérias e nas veias dos gigantes
Acordando-os do sono em que, sonâmbulos,
Há longas eras percorrem labirintos
Que sem cessar os trazem de regresso
Ao ponto onde uma vez uma ilusão
Os fez pensar não serem mais que vermes.

(A ilusão criada pelos próprios vermes
Que assim conseguem, conforme desejaram,
Viver a vida dos gigantes.)

30/4/2015
                            Fernando Henrique de Passos

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Uma terra para viver em paz - um direito de todos



     A União Europeia inclina-se para a destruição dos barcos dos traficantes que trazem os perseguidos, os esfomeados, os fugitivos de terríveis guerras e de um terrorismo brutal, de gente sem esperança no seu país para lá continuar.

     Será que é assim, impedindo a essas pessoas a saída das suas terras ou recambiando-as para o país de origem (como os irão receber esses países?!), que se defende a liberdade de circulação dos cidadãos, a liberdade de escolher uma terra para viver em paz (apanágio da UE)? Isto não será fugir habilmente do problema metendo, como a avestruz, a cabeça debaixo da areia?

     A destruição dos barcos para que os fugitivos não sofram acidentes, ao não serem salvos pela marinha da Europa, tira um peso de consciência a esta UE? Foi para que estas gentes à beira do desespero, vindas de um Próximo Oriente e de uma África varridos pelo terror, não se salvassem que já tinham acabado com a operação "Mare Nostrum" (não queriam suportar as despesas que só a Itália suportava) e a substituíram pela "Tritão"?!

     Destruindo os barcos "da última esperança", a consciência destes governantes ficará mesmo tranquila? Dividir fraternalmente o que temos por esses pobres entre os pobres, não será a mais óbvia obrigação de uma verdadeira ética da humanidade?

     Porque lhes queremos recusar uma terra que não é mais nossa, europeus, do que deles africanos ou do Próximo Oriente?! O mundo é de todos, sejam cristãos, muçulmanos, budistas ou hinduístas. O mundo não é só daqueles que, por acaso, lá nasceram.

          Lisboa, 23 de Abril de 2015


                                                                                                 Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 22 de abril de 2015

De Praga a Bucareste






                                                                        a Franz Kafka e Mircea Eliade

Abençoado absurdo: ácido balsâmico
Que queima a pele, as vísceras, a alma,
Sublima o lixo, liberta galerias,
Limpa o olhar, prepara a atenção
Para o bailado das luzes principais,
Que o tédio seguro da razão não deixa ver.

Abençoado abismo do horror mais negro:
Os olhos treinados a perscrutar a escuridão
Vão detectar sem custo e com deleite
A luz discreta da noite do solstício,
A noite em que os céus se irão abrir,
A noite de S. João…

22/4/2015
                                            Fernando Henrique de Passos

terça-feira, 21 de abril de 2015

Doutrina para o homem na sua dimensão global


João com a sua humilde pele de camelo a batizar Jesus, o Salvador
    
   «João Batista lançou os alicerces da doutrina de Jesus que se poderia sintetizar no célebre Sermão da Montanha. Uma doutrina mística para o homem na sua dimensão global, uma doutrina para ser levada até aos confins da terra, até às periferias das famílias, das cidades e das nações.

 Nenhum dos Doze discípulos escolhidos por Jesus receberia tantos louvores Seus como João Batista, esse que era «a voz que clama no deserto», como se quis ele próprio definir, um dia. Nenhum dos Doze, Jesus comparou a Elias, o profeta com mais prestígio na Palestina. Nenhum, Jesus escutou, seguiu e venerou como a João Batista. Nenhum, foi tão chorado por Jesus, na hora em que recebeu a notícia da sua prisão e, poucos meses depois, da sua condenação à morte. 

   Uma amizade única nasceu entre Jesus e o mais simples e sábio dos seus discípulos. O maior "nascido de mulher", aquele que era "muito mais que um profeta", "o profeta do Altíssimo". Aqui está João Batista, a batizar no rio Jordão e a pregar o arrependimento para que todos se salvassem da morte e tivessem a vida eterna.» 

                                                      Teresa Ferrer Passos* 

* Excerto final da palestra «João Batista, o amigo predileto de Jesus? - Uma amizade única» proferida pela autora, em 20 de Abril de 2015, no Círculo de Espiritualidade e Cultura, em Lisboa.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A última poesia de Camilo Pessanha


Penetro no centro oco do mistério.

Sinto no escuro a contracção de nervos
Mas não sei se são os meus nervos que se crispam
Ou as raízes húmidas da gruta
Pois já a custo me distingo dos muros que me cercam.

Procuro o réptil responsável,
O longilíneo primevo encantador,
O Rei das Trevas, senhor da ilusão
Que me fez prisioneiro de mim mesmo.

Escuto o longínquo gotejar do tempo
Disfarçado de passos femininos
Que se aproximam por longas galerias.

Se foi aqui que tudo começou,
Será também aqui o desenlace:

Dirijo-me ao encontro da serpente.

16/4/2015
                  Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Horizonte em Deus


Perseguição religiosa e oração

«O espírito de oração é a capacidade de caminhar em contacto com Deus, através de tudo na vida. É a consciência interna de que Deus está comigo – agora, aqui, nisto, sempre.

É uma consciência da presença contínua de Deus.

É o meu diálogo com o Deus vivo, que vive no meu mundo, em Espírito e Pensamento.

O espírito orante vê Deus em todo o lado.

O espírito orante fala com Deus em todo o lado.»

        Joan Chittister, O Sopro da Vida Interior, 2015 (excerto)

domingo, 12 de abril de 2015

Não, não está no sepulcro...

«Maria»! disse Jesus.
«Maria de Magdala foi dar a nova aos discípulos» (Jo 20, 16 e 18)

«Em Jesus Cristo o ser humano vive até ao máximo todas as suas potencialidades ontológicas. Verdadeiramente o ser humano está feito para Deus. Neste sentido, podemos afirmar que Cristo surge como o intérprete supremo da existência humana.»

«Só podemos verdadeiramente falar do cristianismo e do Mistério de Deus se entendermos Deus e o ser humano de uma maneira encarnativa e relacional. Falar de Deus hoje é, portanto, falar das suas entranhas e essas são entranhas de misericórdia»

«Parece-me que a celebração deste tempo privilegiado não pode ficar na contemplação do Ressuscitado, mas deve implicar o testemunho dos frutos da Ressurreição, e esses não podem deixar de passar pela celebração e testemunho das "entranhas de misericórdia" do nosso Deus, ou seja pelo testemunho desse amor que nos faz querer, procurar e promover o bem dos outros, de todos os outros, preferencialmente daqueles que se encontram marginalizados em tantas periferias».

                  Juan Ambrosio (excertos de "Tempo Pascal: Celebração das 'entranhas' de Deus" in Internet, Pastoral da Cultura)

sábado, 11 de abril de 2015

Abre-te Sésamo





A voraz vertigem da verdade:
Os lábios entreabertos femininos
Sorvem as cascatas caudalosas
Que caem desde o sol
Na cega luz dos paradoxos.

Filósofos nocturnos enlouquecem
Perante o espanto das janelas
Abertas sobre céus sem fundo
Cansados da insónia dos milénios
Esperando em vão a vinda de astronautas sábios
Que não deixem pegadas sobre a Lua
Quando ela se espreguiça como gata
Espreitando sombras florentinas
No cimo de torres impossíveis
Que equilibram como por magia
A malícia das leis dos telescópios
E a ternura das penas dos poetas.

Trezentos e sessenta graus de ignorância:
Amplitude côncava de espelhos
Tão sólidos como ângulos sem espaço
No delírio dos árabes algébricos
Perplexos ao saberem que a chave procurada
Deve ser dita sem palavras.

7/4/2015
                        Fernando Henrique de Passos