segunda-feira, 10 de março de 2014

As fronteiras dos seres

(para uma Teoria dos Conjuntos não cartesiana)

Filósofo e Matemático René Descartes (1596-1650)


A velha marca fronteiriça,
Coberta de hera, escondida pelo mato,
Num bocejo de paz e de preguiça
Desobedeceu às ordens de Renato.

Regiões contíguas – coisa estranha –
Hesitaram sobre o conceito de pertença.
(Como se, de Portugal e Espanha,
Nenhum soubesse de quem era Olivença.)

O mundo sorriu secretamente,
Aliviado da nitidez em excesso.
Passado e futuro entraram no presente,
Ínfimo ponto assim feito processo.

Sabedoria da pedra desgastada,
Vitória do todo sobre a parte:
Do rosto exacto de René Descartes
Não resta mais que a foto desfocada.

8/3/2014

Fernando Henrique de Passos 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Desesperadamente, à beira das coisas...

«As relações do indivíduo com o meio social passam pelos objectos e pelos produtos transformados nas expressões mais tangíveis da presença da sociedade no seu ambiente, desde o momento em que tomam o lugar das "coisas naturais". A psicologia da vida social orientar-se-á para o estudo das relações do indivíduo com as coisas, uma vez que estas coisas são produtos sociais bem mais caracterizados e mais actuais do que os seres humanos que os realizaram.»
(...)
«Consumir é a nova alegria das massas, consome-se Mozart, museus, Sol, consome-se as Ilhas Canárias, (...). Consumir é muito mais que a simples aquisição pela qual o homem pretende inscrever-se no eterno (...); consumir significa antes exercer uma função que faz desfilar pela vida quotidiana um fluxo acelerado de objectos entre a fábrica e a lata de lixo, o berço e o túmulo, numa condenação necessária ao transitório.»
                
                  Abraham Moles, O Kitsch, A Arte da Felicidade
                   

domingo, 2 de março de 2014

Deformação e/ou arte?

Joan Miró
( pintor espanhol surrealista)

«A primeira consequência da deformação do gosto, enquanto faculdade estética, é a perda total de discernimento ante qualidades e valores: o indivíduo já não consegue distinguir entre o som e um ruído, a palavra e um rabisco, a cor e uma mancha no papel. Mais ainda, não sabe separar utilidade de senso estético, nem funcionalidade de beleza.»

                    Ângelo Monteiro, Arte ou Desastre, Realizações Editora, S. Paulo, 2013, pp. 53-54.

sábado, 1 de março de 2014

O valor da competência

    
     Vítor Gaspar, que consideramos o mais competente Ministro das Finanças de Portugal depois da revolução de 25 de Abril de 1974, desempenhou um papel fulcral no desenvolvimento da política de recuperação financeira de Portugal, sob o Governo de Passos Coelho (após a queda do Governo chefiado por José Sócrates que deixou o País chegar perto da bancarrota), de que se estão agora a ver os primeiros bons resultados.
     Devido a pressões de membros do Governo de coligação, pediu a demissão do cargo. Foi substituído por Maria Luís Albuquerque (sua colaboradora como Secretária de Estado do Tesouro) que lhe assegurou a continuidade da estratégia financeira nacional.
     Actualmente a desempenhar a função de Consultor do Banco de Portugal, Vítor Gaspar foi recentemente nomeado (após candidatura ao FMI) por Christine Lagarde, Directora-Geral do Fundo Monetário Internacional, para o alto e prestigiante cargo de Director do Departamento de Assuntos Orçamentais desta instituição financeira. 
     Como afirmou a Directora-Geral do FMI, Vítor Gaspar "traz com ele credenciais de gestão impressionantes e um registo formidável de experiência em política pública ao nível europeu e nacional". 

28 de Fevereiro de 2014
                                                                               Teresa Ferrer Passos





quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Sinais



Os olhos sem luz do nado-morto
(No espelho do quarto do hotel do Porto)
O não descolar do aeroporto
(No espelho do quarto do hotel do Porto)
Os efeitos secundários do conforto
(No espelho do quarto do hotel do Porto)

Três riscos na cinza que cobria os dias
Três rasgões na terra, fecundando-a
Com sangue e profecias

26/2/2014

Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Liberdade e Moral


Se largarmos uma pedra, ela cai. Não há nisto nada de odioso ou assustador. O caso das cargas eléctricas é mais interessante: uma carga eléctrica pode ser repelida ou atraída por outra carga eléctrica, dependendo dos sinais de ambas. Também isto não tem nada de odioso ou assustador. Há uma lei biológica muito parecida: os organismos vivos dotados de sistema nervoso tendem a ser atraídos pelas fontes de prazer e repelidos pelas fontes de sofrimento. Chamemos LPS a esta lei: Lei do Prazer e do Sofrimento. O ser humano é um organismo vivo com sistema nervoso: está portanto sujeito à LPS. Também não há nisto nada de odioso ou assustador. Mas causa um certo incómodo, não causa? Somos como uma pedra que cai? Como um pedacinho de papel atraído por um pente que foi friccionado? Como o pólo norte de um íman repelido pelo pólo norte de outro íman? Bem, claro que não somos. Ou melhor, somos, mas só enquanto crianças de tenra idade. Em adultos não somos assim, pois não? Ou somos um bocadinho assim? Sim, uns mais, outros menos, somos todos um bocadinho escravos da LPS. E isso é desagradável, de facto. Ninguém gosta de ser escravo de nada. Todos prezamos a liberdade, seja qual for a nossa ideologia, não é? Bem, há ideologias que não prezam nada a liberdade, mas nós também não gostamos muito delas, pois não? E depois, há outra coisa. Não vale a pena dar exemplos, qualquer pessoa conhece muitos exemplos, mas a verdade é que se nos deixarmos guiar exclusivamente pela LPS, acabamos muitas vezes por fazer o mal: a outros, ou a nós próprios. E assim chegamos ao problema do mal, e entramos no domínio do odioso e/ou assustador: porque há pessoas capazes de fazer muito mal a outras pessoas, ou a si próprias, em última análise apenas porque se deixaram guiar exclusivamente pela LPS. E aqui entra a moral. A minha tese é a de que, na sua génese, as leis da moral não são os ditames arbitrários de um Deus caprichoso, antes visam apenas libertar o ser humano da escravidão da LPS. E isso é bom por duas razões: 1) pelo simples facto abstracto de ser uma libertação; 2) por acabar com todas as consequências nefastas da obediência cega à LPS. Independentemente de permitir uma reavaliação do verdadeiro significado da moral tradicional, tão ridicularizada pelo pensamento moderno, este ponto de vista parece-me útil para o combate que (quase) todos travamos contra o mal: se pensarmos no mal como o resultado de algo semelhante à tendência de uma pedra para cair, isso já não nos desperta sentimentos nem de ódio nem de medo. O que é bom, porque do ódio e do medo só pode nascer mais mal. (Embora uma pedra que cai sem quaisquer entraves acabe por ir mergulhando em abismos sempre mais e mais profundos, o que também é um bocado assustador…)


20/2/2014

Fernando Henrique de Passos

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A procura divina


«Aquele que caminha sem deixar pegadas não serve para nada»

«Jesus não estava o dia trancado na sinagoga, Ele procurava, procurava todo o dia na rua, procurava as pessoas»

                                                                    Papa Francisco

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Explicação (nos vinte anos do nosso casamento)



Segredo ancestral das sombras góticas
Que espera paciente a hora certa
Em que um raio de sol sobre um vitral
Despertará o Rei desaparecido
De um sono de estepes invernosas
Para a luz ágil de algum Maio
Que sonhe com oiro e com trigais:

É desta matéria volátil mas real
Que é feito e vive o nosso amor.


19/2/2014

Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A face comovida de Jesus


     Oh Jesus, meu Bom Deus, é hoje a Tua Noite de Natal! Mas… o que vejo? Vejo as Tuas faces pálidas pelos muitos que rejeitam o amor dos irmãos; as Tuas faces angustiadas pelos que perseveram em não reconhecer os seus pecados; as Tuas faces caídas de tristeza pelos que nada querem receber dos pobres, porque são ricos. As Tuas faces desmaiadas ao veres aqueles que recusam a companhia dos irmãos porque o orgulho não os deixa ver que estão sozinhos.
     Como deves estar magoado, oh Jesus nosso! Na Tua Noite de Natal não vês a alegria do encontro fraterno dos que estão divididos nas vontades. E, mesmo assim, abres os braços porque vês os que não desejam a solidão e sentem saudade do irmão.  Perdoa, Pai, o orgulho que nos afasta uns dos outros e não deixes de ensinar-nos a humildade como naquele Dia em que Tu, coberto de vexames, já a ficar com o corpo desfigurado, dependurado na vileza do madeiro, sentias a alegria da companhia do bandido arrependido, a Teu lado. 
     Nesta Tua Noite de Natal peço, um pouco a tactear a Tua bênção, por todos os que sofrem o desespero da doença, peço a Tua imensa piedade. E peço-Te (atrevimento meu) que cries uma grande família com o cimento do amor a esculpir a verdadeira terra da comunhão. Que sejamos, enfim, capazes de criar laços para o grande Banquete, Contigo, no reino do Pai! Não nos largues das tuas mãos até ao fim dos tempos! Que a Tua carne, esfacelada na cruz, ressuscite todos os dias no mundo, para nos salvar das pedras em que tropeçamos a cada momento.
    
Dezembro de 2013

Teresa Ferrer Passos

A propósito do Dia Mundial do Doente




«Três anos após ter sofrido um atentado na praça de S. Pedro em Roma, experimentando por conta própria o limite da vida, João Paulo II publicou a 11 de Fevereiro de 1984 a carta encíclica sobre o sentido cristão do sofrimento (Salvifici Doloris).»

«É inesquecível a última aparição pública do Papa João Paulo II: no limiar das forças físicas, foi conduzido à janela do “Angelus”, tentando sofregamente dizer algumas palavras à multidão que estava na Praça de S. Pedro e não o conseguindo fazer.»

«Uma bala entrou no corpo do Papa João Paulo II. Saiu-lhe em palavras ensanguentadas na Salvifici Doloris. Trinta anos depois, que entre uma bala no corpo muralhado da Igreja. Quem sabe, ela se esvai em forma de testemunho.»

                               Padre José Vilaça (excerto de artigo «Uma bala... trinta anos depois» publicado em 4 de Fervereiro no “site” da Arquidiocese de Braga)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

?


Faz-te esponja.
Mergulha na pergunta.
Deixa-te embeber pela pergunta.

Vai mais longe:
Dissolve-te agora na pergunta
E esquece-te de ti, primeiro,
E depois, dela.

Quando acordares
Procura entre os cristais
Depositados no fundo dos ecos dos teus sonhos.

A pergunta que olhaste tanto tempo
Aí habita agora
Na sua nova forma –
Isto é, como resposta.


1/2/2014

Fernando Henrique de Passos

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

4 de Fevereiro - Martírio de S. João de Brito

S. João de Brito
Missionário Jesuíta e Mártir (1/3/1647 - 4 /2/1693)

«A culpa de que me acusam vem de ser que ensino a lei de Deus Nosso Senhor, e que de nenhuma maneira hão-de ser adorados os ídolos. Quando a culpa é virtude, o padecer é glória.»

                   Excerto de uma carta do Padre jesuíta João de Brito do cárcere de Oriyur na Índia, na véspera do martírio, dirigida ao Superior da Missão de Maduré, Padre Lainez.


«Como não lembrar, entre outros, aqui em Lisboa, o exemplo de São João de Brito, jovem lisboeta que, deixando a vida fácil da Corte de Portugal, partiu para a Índia, a anunciar o Evangelho da Salvação aos mais pobres e desprotegidos, identificando-se com eles e selando a sua fidelidade a Cristo e aos irmãos com o testemunho do martírio?»

                                                                           João Paulo II, falando aos jovens em Lisboa (Parque Eduardo VII), a 14 de Maio de 1982.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A interrogação

A interrogação é côncava e fechada:
Gruta uterina que constrói
A resposta há eras aguardada.


3/2/2014

Fernando Henrique de Passos

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Campo de forças



Estático defronte do mistério
Mastigas o ar gelado de Avalon.
O perigo é o conforto.
– Cuidado! – Um sofá a nor-noroeste!

As facas de chuva rasgam-te a camisa
E o vapor sobe do lago com volúpia.
– Cuidado! – O perigo é a poesia!

Extático defronte da miragem
Que dança no horizonte frio do desespero.
O perigo é bioquímico.
– Cuidado! – Um café na retaguarda!

Apaga o sonho ao pé da água –
O perigo é o fumo do pinheiro
Quando o sono deambula calmamente
Nos ramos translúcidos parados
Na superfície líquida do espelho.

29/1/2014

Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A mais jovem Doutora da Igreja

Santa Teresa do Menino Jesus
«Entre os "Doutores da Igreja", Teresa do Menino Jesus e da Santa Face é a mais jovem, mas o seu ardente itinerário espiritual demonstra muita maturidade, e as intuições da fé expressas nos seus escritos são tão vastas e profundas, que a tornam digna de ser posta entre os grandes mestres espirituais.»

        Homilia do Papa João Paulo II por ocasião da atribuição do Título de Doutora da Igreja a Santa Teresa do Menino Jesus, em 19 de Outubro de 1997 (1º Centenário da sua morte)

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O engano dos ricos




“A idolatria dos bens, ao contrário, não só afasta do outro, mas despoja o homem, torna-o infeliz, engana-o, ilude-o sem realizar aquilo que promete, porque coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. A tentação é a de pensar, como o rico da parábola: «Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos…». «Insensato! Nesta mesma noite, pedir-te-ão a tua alma…» (Lc 12, 19-20)"

                                    Papa Emérito Bento XVI

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Uma porta aberta



«Ó Jesus, trespassaram vosso lado para nos abrir uma porta; feriram vosso coração para nos abrir nessa sagrada vinha, um asilo seguro de toda a perturbação externa».
                      S. Boaventura, Doutor da Igreja (1217-1274)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O exemplo do amor


«Aquilo que Teresa mais ambicionava era atrair pecadores e fazê-los amar aquele Pai carente, o Pai vítima da sua indiferença e do seu desdém. Por isso, começava ela própria por dar o exemplo, ao amá-los; quem lhe diria se não acabariam por serem capazes de, também eles, amarem o Pai? Daí, escrever: "Procuro fazer da minha vida um acto de amor". Tal é a intensidade do sentimento do amor espiritual de Teresa que chega a confundir-se com a força de um amor de natureza matrimonial, o que lhes dá uma força psicológica de sentido absoluto.»

 Teresa Ferrer Passos, Santa Teresa do Menino Jesus e a Força dos seus Pequenos Caminhos, Edições Carmelo, 2013, pág.79.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Movimento da Mensagem de Fátima

Maria, Mãe de Jesus, na Capelinha das Aparições
«O tema do presente ano de pastoral (2013-2014), Envolvidos no amor de Deus pelo mundo pode ajudar e motivar os mensageiros a viverem este amor. O verdadeiro amor nasce da cruz: renúncia ao egoísmo, aos apegos desordenados, critérios personalistas, etc.

Cada mensageiro deverá partilhar dos bens que possui, em benefício dos outros; os mais saudáveis, ajudar os mais frágeis; os que têm mais talentos, auxiliar os menos dotados; os que possuem mais riqueza, repartir com os mais pobres; os mais novos, acolherem a experiência dos mais velhos, e os mais velhos aceitarem a generosidade dos mais novos.»*
                                                                                   P. Antunes
*Jornal Voz da Fátima, 13 de Janeiro de 2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Sobre a Lei de co-adopção

«(…) O que mais importa é saber se, por princípio, uma criança deve ou não deve ser educada por um pai e por uma mãe.
De facto, os papéis educativos e formativos do pai e da mãe não são iguais; variam na sensibilidade, nas emoções, nas atitudes, nos comportamentos, nos ensinamentos e nos testemunhos. E essa diversidade é preciosa para a formação saudável da personalidade de toda e qualquer criança (…)»

         De uma Nota de Abertura da RR (23 h. de 20/1/2014)