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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Que As Crianças Não Tenham Medo De Mim


Portugal dos Pequeninos
                                         (avoco, para a Musa minha, o Arcano da Estrela)

Crianças, não tenham medo de mim,
Não fujam, crianças, aproximem-se, cheguem-se:
Juntos construiremos uma bela casa,
Aquela casa azul e verde que se estende
Para os confins de além-mar e onde vocês
Jogam à bola - uma bola feita de trapos
E de açúcar, de mil delícias africanas
Que só vocês, em sonhos, podem construir:
É nessa casa que vos espero com olhos de girassol.

Lisboa, 25 / 09/ 1979

                                          SIC ITUR AD ASTRA

                                          Paulo Jorge Brito e Abreu

quinta-feira, 12 de março de 2015

Perguntas & Respostas

ACERCA DA MILENAR PERSISTÊNCIA DE UM RATIO DESFAVORÁVEL ENTRE A VARIÁVEL “NÚMERO DE PERGUNTAS RESPONDIDAS” E A VARIÁVEL “NÚMERO DE PERGUNTAS FORMULADAS”





Why do we never get an answer?
The Moody Blues

Pára…
Não te contraias mais…
Não queiras nada…

…Deixa-te estar em frente das perguntas,
No meio das perguntas.
Faz-te pergunta.
Tu mesmo és a pergunta.
Tu mesmo serias a resposta
Se acaso houvesse alguma forma de resposta
Que fosse mais do que a pergunta a que responde.

Não escrevas nada;
Não tentes deter as perguntas a meio do seu voo;
Deixa que esse ébrio bando de brandas borboletas
Repouse apenas quando a tua mente
Lhes oferecer poiso seguro:

A vastidão de uma planície
Sem tocas nem recantos
Nem inesperados ninhos de lacraus
Debaixo de pedras inocentes.

12/3/2015

Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Liberdade e Moral


Se largarmos uma pedra, ela cai. Não há nisto nada de odioso ou assustador. O caso das cargas eléctricas é mais interessante: uma carga eléctrica pode ser repelida ou atraída por outra carga eléctrica, dependendo dos sinais de ambas. Também isto não tem nada de odioso ou assustador. Há uma lei biológica muito parecida: os organismos vivos dotados de sistema nervoso tendem a ser atraídos pelas fontes de prazer e repelidos pelas fontes de sofrimento. Chamemos LPS a esta lei: Lei do Prazer e do Sofrimento. O ser humano é um organismo vivo com sistema nervoso: está portanto sujeito à LPS. Também não há nisto nada de odioso ou assustador. Mas causa um certo incómodo, não causa? Somos como uma pedra que cai? Como um pedacinho de papel atraído por um pente que foi friccionado? Como o pólo norte de um íman repelido pelo pólo norte de outro íman? Bem, claro que não somos. Ou melhor, somos, mas só enquanto crianças de tenra idade. Em adultos não somos assim, pois não? Ou somos um bocadinho assim? Sim, uns mais, outros menos, somos todos um bocadinho escravos da LPS. E isso é desagradável, de facto. Ninguém gosta de ser escravo de nada. Todos prezamos a liberdade, seja qual for a nossa ideologia, não é? Bem, há ideologias que não prezam nada a liberdade, mas nós também não gostamos muito delas, pois não? E depois, há outra coisa. Não vale a pena dar exemplos, qualquer pessoa conhece muitos exemplos, mas a verdade é que se nos deixarmos guiar exclusivamente pela LPS, acabamos muitas vezes por fazer o mal: a outros, ou a nós próprios. E assim chegamos ao problema do mal, e entramos no domínio do odioso e/ou assustador: porque há pessoas capazes de fazer muito mal a outras pessoas, ou a si próprias, em última análise apenas porque se deixaram guiar exclusivamente pela LPS. E aqui entra a moral. A minha tese é a de que, na sua génese, as leis da moral não são os ditames arbitrários de um Deus caprichoso, antes visam apenas libertar o ser humano da escravidão da LPS. E isso é bom por duas razões: 1) pelo simples facto abstracto de ser uma libertação; 2) por acabar com todas as consequências nefastas da obediência cega à LPS. Independentemente de permitir uma reavaliação do verdadeiro significado da moral tradicional, tão ridicularizada pelo pensamento moderno, este ponto de vista parece-me útil para o combate que (quase) todos travamos contra o mal: se pensarmos no mal como o resultado de algo semelhante à tendência de uma pedra para cair, isso já não nos desperta sentimentos nem de ódio nem de medo. O que é bom, porque do ódio e do medo só pode nascer mais mal. (Embora uma pedra que cai sem quaisquer entraves acabe por ir mergulhando em abismos sempre mais e mais profundos, o que também é um bocado assustador…)


20/2/2014

Fernando Henrique de Passos