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quarta-feira, 20 de abril de 2016

A casa


«Quando os perigos espreitam, a morada está à nossa espera, acolhedora como sempre: a casa evita o acaso. É um espaço interior, repositório das emoções, recordações, imagens, frustrações, mágoas, afectos inexprimíveis e sentimentos mais marcantes da nossa existência, sentimentos determinantes do nosso futuro, que nos remetem para o melhor de nós próprios. Tem a ver com o nosso ser e com a narrativa da história pessoal. É um espaço cordial de escuta, de confronto e das comunicações preferenciais, onde até o silêncio é meio de comunicação».

         Armindo dos Santos Vaz «Experiência de Deus nas Moradas de Teresa de Jesus», Revista de Espiritualidade, Nº 93/94, Janeiro-Junho, 2016, p. 39.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Que As Crianças Não Tenham Medo De Mim


Portugal dos Pequeninos
                                         (avoco, para a Musa minha, o Arcano da Estrela)

Crianças, não tenham medo de mim,
Não fujam, crianças, aproximem-se, cheguem-se:
Juntos construiremos uma bela casa,
Aquela casa azul e verde que se estende
Para os confins de além-mar e onde vocês
Jogam à bola - uma bola feita de trapos
E de açúcar, de mil delícias africanas
Que só vocês, em sonhos, podem construir:
É nessa casa que vos espero com olhos de girassol.

Lisboa, 25 / 09/ 1979

                                          SIC ITUR AD ASTRA

                                          Paulo Jorge Brito e Abreu

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Do Lado de Fora da Noite



Desce à cidade.
Desce à baixa da cidade,
À parte velha:
Lá tudo são sinais.
Deves ir de noite.
Repara no brilho que há à porta do saloon,
Mas não entres.
(Não podes ainda permitir que a realidade
Se substitua às suas representações.)
Caminha ao acaso em todos os sentidos,
Por todas as ruas,
Mas procura ruas sempre mais estreitas,
E quando encontrares uma rua tão estreita que te esmague,
Nela haverá uma só porta:
Abre-a: estarás em tua casa.
Liga o televisor antiquado.
O preto-e-branco ofusca-te.
Mergulhas nas várias tonalidades de cinzento
E deixas-te ir ao fundo.
Voltas à superfície num jardim diurno
Na parte mais nova da cidade.
Mas não desistes,
Esperas a noite,
Voltas a descer até à baixa,
Até à parte velha da cidade.
E voltarás a encontrar a tua casa,
E inumeráveis vezes a perderás de novo,
Pois será essa a tua forma de existir.
Mas chegará a noite em que tinhas aberto a porta do saloon
E tinhas visto para lá das representações
E tinhas entrado
E tinhas decidido ficar
Quando o aparelho te acordou
E percebes que estiveste acordado todo o tempo.
Mergulhaste então nas várias tonalidades coloridas
E deixaste-te purificar por elas.
Deita-te agora e abre os olhos,
Descobre o que a realidade te guardou:
Estar à entrada seria a tua casa:
Podes entrar.

6/10/2012

Fernando Henrique de Passos