quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Bom Ano de 2015!


Que o Ano de 2015 traga a cada um de nós,
muitas alegrias, um coração em que viva a paz
e um espírito de fraternidade que encha,
a quem se aproxime, de felicidade.

                        31/12/2014
                                             Teresa Ferrer Passos


Beira-Tempo

Filosoficamente vagabundo
Encerro cardeais cartesianos
Dentro de lírios encarnados

Abro portas de palácios ermos
Pisando o chão de bosques onde há caves
Com janelas abertas sobre o mar

Ao pôr-do-sol, que é feito de zumbidos,
Apascento rebanhos de formigas
Que me levam por linhas sinuosas
Até às fontes do mel não poligónico

Paro o carro em frente dos medronhos
Debaixo de agulhas que se soltam
Dos pilares donde se ergueu o azul
Quando se uniu à última maré

29/12/2014

Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

S. João Batista - 1ª testemunha de quem é Jesus

Pintura de Domenico Ghirlandaio
Igreja de Santa Maria Novella, Florença, Itália.

«Ao oitavo dia vieram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias; mas, a mãe disse: "Não, há-de chamar-se João". Disseram-lhe: "Não há ninguém na família com esse nome!". Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Este pediu uma tábua e escreveu: "O seu nome é João". 

Todos ficaram admirados. Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e começou a falar, bendizendo a Deus. 

Todos os vizinhos se encheram de temor e por toda a região montanhosa da Judeia se divulgaram aqueles factos. Quantos os ouviam, guardavam-nos em seu coração e diziam a si próprios:

"Quem virá a ser este menino?"

E, de facto, a mão do Senhor estava com ele»
                                                                                    Lc 1, 63-66




sábado, 27 de dezembro de 2014

A ilusão da ilusão

Em torno da luz negra:
O fascínio das sombras recortadas nos espelhos,
O zero reflectido pela vírgula
Caleidoscopicamente produzindo
A ilusão do mundo da matéria.

(e no entanto
saber que há uma alma
por trás de cada rosto)

27/12/2014

Fernando Henrique de Passos

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Do nada o tudo

Perto das portas da Promessa
À esquerda o rio
A água espessa
O espaço frio
E o ângulo da cinza submersa:
Campo baldio
Que se atravessa
Até à berma do Vazio

(Imensidão de um vale de nebulosas
Laranjais à espera da manhã
Silêncio de virgem cortejada
Ensaiado langor de cortesã)

23/12/2014

Fernando Henrique de Passos

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

NATAL 2014

O TEMPO DO NATAL 



NASCEU-NOS UM SALVADOR,

JESUS






«E Jesus vem, não como um capitão, um general do exército, um governante poderoso, não, não; vem como um rebento», «humilde» e «manso» para «os humildes, para os mansos», trazendo a salvação «aos doentes, aos pobres, aos oprimidos».
«A grandeza do mistério de Deus» conhece-se unicamente na identidade de Jesus, que é a do «abaixamento, da aniquilação, da humilhação».
                    Papa Francisco (excerto da Homilia na Missa de 2/12/2014)








MENINO DO NATAL


Pintura de Rafael (1483-1520)
Menino do Natal ‒
Deus feito bater de coração,
Ternura em busca de um bafo de animal
Na neve da nossa tradição.

Menino do Natal ‒
Vindo de tão longe, vindo do Além,
Deus sem pompa, até sem enxoval,
Amor que se abandona num amor de mãe.

Menino do Natal ‒
Bem indefeso, esplendor da inocência,
Que vem propor aos seguidores do Mal
Que se deixem amar sem resistência.


21 de Dezembro de 2014

                                    Fernando Henrique de Passos




DA IMACULADA CONCEIÇÃO


( convoco, para a Madre, o Arcano e Arcaico da Estética Estrela )

de todo o coração, ao António de Macedo

I

Prà fome e sede da Via,
Prà Lusitânia, de Luz,
Existe um nome: Maria,
E o «Jovis Pater»: Jesus.

Prà sede e fome amorosa,
Que é festa e fogo, na Fé,
Existe a Rota, que é Rosa,
E o Valentin André.

II

Vede a mente e a mensagem,
O pentáculo, flamante,
Pentagrama, na viagem,
E Mercúrio, já diante.

No templar eu vejo o Canto,
Muita Luz, em toda a chuva:
É o Espírito e o Santo,
São os Filhos da Viúva.

Pois na verve e na divina, 
Na Comédia, que é fiel,
Vede a Cruz, e a matina:
São as Rosas d' Isabel.

Queluz, 03/ 12 / 2014

MISERANDO ATQUE ELIGENDO


                                           PAULO JORGE BRITO E ABREU







DIA DA IMACULADA CONCEIÇÃO



«Faz com que em nós, teus filhos, a graça prevaleça sobre o orgulho e possamos tornar-nos misericordiosos, como é misericordioso o nosso Pai celeste. Neste tempo que nos conduz à festa do Natal de Jesus, ensina-nos a andar contracorrente: a despojarmo-nos, a abraçarmo-nos, darmo-nos, a escutar, a fazer silêncio, a descentrarmo-nos de nós mesmos, para deixar espaço à beleza de Deus, fonte da verdadeira alegria. Ó Maria nossa Imaculada, ora por nós!»

           Oração do Papa Francisco (diante da imagem da Imaculada Conceição na Praça de Espanha em Roma, no dia 8 de Dezembro de 2014)






O NATAL E A ÁRVORE DA VIDA




Era adolescente, quando me emprestaram um livro que contava a história da árvore de Natal. Existirão muitas versões, pois trata-se de tema avançado no imaginário popular. A que li referia-se simplesmente à iniciativa de uma família que em busca de algum ornamento para a sala de visitas saiu, neve afora, comovendo-se especialmente de um pinheirinho sobrevivente do rigoroso inverno e ainda mais lindo depois de acomodado no aconchego doméstico e acercado pelas embalagens coloridas dos presentes a serem trocados na noite do nascimento do menino Jesus.

Tão radiante ficou o arvoredo, que os vizinhos imitaram o gesto e, no Natal seguinte, já eram muitas as famílias que iniciaram a tradição, hoje, desgarrada de sua simplicidade original e transformada no luxo e na grandiosidade vistos todo ano nos shoppings do mundo inteiro, ostentação por vezes objeto de concursos promovidos por associações para distinguir as melhores decorações do comércio no contexto das “Boas Festas" e do Ano Novo.

Existiriam, no entanto, razões afetivas profundas para esse gosto que veio a constituir prática quase indispensável: nos lares, nos templos, nas instituições, no comércio e onde quer que se queira marcar uma ambientação natalina, rivalizando apenas com os não menos populares presépios. Ou seja, algo não entra para o imaginário coletivo e para duas de suas fortes marcas – diferença e repetição –, se não reunir elementos enraizadores cuja explicação recorre a fundamentos da Psicologia Social.

E foi justamente nas lides com a literatura acadêmica que vim a estabelecer uma correlação entre a força primordial da “árvore da vida”, uma das mais antigas manifestações arquetípicas da produção humana de símbolos, e este patrimônio imagético e fantástico que é a ‘nossa’ tão estimada árvore de Natal. Da tradição ainda mais antiga, originária, ao que tudo indica, da cultura indo-europeia, a principal característica – que deslizou para a heráldica e seus brasonários –, é a concorrência de elementos laterais para a homenagem de um terceiro, este, ao centro e ao alto. Exemplo típico, dois pombinhos, face a face, cujos bicos se tocam e cujos contornos formam um coração. A própria estrutura do caduceu comporta toda uma variedade de enlaces que adornam um cetro. Vejamos, no entanto, se o mesmo não acontece com a ‘nossa’ arvorezinha.

Ainda que se assemelhe a um triângulo, com a base para baixo, os dois lados da árvore de Natal convergem para o alto e, comumente, para uma estrela ao centro, homóloga à estrela dos Reis Magos. Triângulo, estrela, esferas e luzes combinam-se em tesouro ornamental, que tanto marca em diferença (em contraste com todas as outras árvores, ela é uma árvore sagrada) e em repetição: a eterna novidade, ao mesmo tempo antiga e renovada, simbolizando a vida, que também se renova, em gerações, significado e esperanças.


Luiz Martins da Silva*


* Luiz Martins da Silva, 64 anos, é poeta, jornalista e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, Brasil (UnB).







O CHORO DO MENINO JESUS



Apenas com oito dias,
lá estava Jesus, nos braços de sua Mãe.
Ao entrar no Templo, olhou, curioso, em redor.
Que pedras altas, altas...
Que pareciam elas, assim? Apenas, que estavam ali? 
Ou escondiam alguma coisa?
E o Menino Jesus intrigado, pareceu-lhe ouvir dizer:
Há pouco tempo aqui esteve, como tu, outro menino.
Outro menino?! Outro menino igual a mim?
Não bem igual, é verdade, responderam...
O seu nome, digam-me, que pode ser que eu conheça!
João, João foi o que ouvimos...
Ah, gritou Jesus, já sei quem é.
Nasceu para preparar os meus caminhos,
esses caminhos com que quero romper os difíceis desertos...
E o que são esses desertos, que desconhecemos,
perguntaram as pedras. 
São espaços cheios de gente que não o seguiu...
Ah, disseram as pedras, em uníssono,
mas a vós, Menino, a vós seguiram!
O  Menino começou a chorar.
Porque choras, Menino, perguntaram, aflitas.
É que a mim também não...


16 de Dezembro de 2014

Teresa Ferrer Passos









MATERNIDADE-NATAL



(convoco, para a Musa minha, o Arcano, o Arcaico do Sol)

de todo o coração, ao meu Irmão Luís André

I

Era chave, e Shambhala,
Era a flama, e o flogisto,
Ave e Eva, saravá,
E o coração de Cristo.

Pois do Homem filho e Frei,
Tu imanas Madalena,
Paulo Apóstolo e a Lei,
E a Torah, Sophia amena.

Velo d'Ouro, em parabém,
És o Canto e a Saudade,
Dás-me o Belo e dás Belém,
Dás-me a santa Liberdade.

II

Que és o carme e a Camena,
És o Tau e és actriz,
Nazarita, Nazarena,
Integral Imperatriz.

Pois ao longe, a Lisa lia
Salva, salsa e a camélia,
E olhei: era Maria,
Minha Mãe Maria Amélia...........

EPÍLOGO

São belos sobre as colinas os pés do Deus Menino; em Natal, acordo-acorde, Ele anuncia a Boa Nova. Não já espada, sim a foice. Não já lança, mas arado: Paz na terra, pão na boca, são meladas e ternas as armas da Paz...........


Queluz, 19/ 12/ 2014

MISERANDO ATQUE ELIGENDO


Paulo Jorge Brito e Abreu






A TERNURA DE DEUS



«O "sinal" é a humildade de Deus levada ao extremo; é o amor com que Ele, naquela noite, assumiu a nossa fragilidade, o nosso sofrimento, as nossas angústias, os nossos desejos e as nossas limitações. A mensagem que todos esperavam, que todos procuravam nas profundezas da própria alma, mais não era que a ternura de Deus: Deus que nos fixa com olhos cheios de afeto, que aceita a nossa miséria, Deus enamorado da nossa pequenez.»


Papa Francisco
(excerto da Homilia da Missa da Noite de Natal)

Após a belíssima Homilia do Papa Francisco, ouviu-se um excerto da Missa Solene em Dó Menor de Mozart (composta entre 1781 e 1782, em Viena, resultou de uma promessa pela cura da futura esposa Constanze. O trecho "Et incarnatus est" remete para o Prólogo do Evangelho segundo S. João: «O Verbo fez-se carne e habitou entre nós».


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ex nihilo


Núcleos de vento testando a solidez
Da estrutura pálida do nada
(Borbulhar nocturno de perguntas
Em torno de casa abandonada).

Sombras de luz, aceno do Amor
Ao desígnio imóvel do vazio;
Eco da primeira madrugada;
Primeiro movimento, fugaz como arrepio.

Condensação da névoa matutina:
Barro depois, primeiro lodo;
Depois a vida, a dor e a alegria,
As novas formas que assumiu o Todo.

1/12/2014

Fernando Henrique de Passos

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Do Génesis ao Apocalipse

Passeiam serpentes aos pares pelas arcadas,
Longas e lentas ondas reluzentes
Ofuscando a noite das estradas
Com bátegas de cor e estrondo de acidentes.

Relâmpagos no mar, neve na areia,
Cristais em brasa sobre a rocha fria,
Reacção ácida que desencadeia
A congeminação de um novo dia.

Quando chega enfim a madrugada
Há restos de cobras entre a espuma
Que se dissolvem na nova luz criada
Pelos amores do Verbo com a Bruma.

26/11/2014

Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Matrimónio em crise


«No nosso tempo, o matrimónio e a família estão em crise. Vivemos numa cultura do provisório, em que cada vez mais pessoas renunciam ao matrimónio como compromisso público.

Esta revolução nos costumes e na moral tem muitas vezes desfraldado a “bandeira da liberdade”, mas na realidade levou devastação espiritual e material a inúmeros seres humanos, especialmente aos mais vulneráveis.

É cada vez mais evidente que o declínio da cultura do matrimónio está associado a um aumento de pobreza e a uma série de numerosos outros problemas sociais que atingem em medida desproporcional as mulheres, as crianças e os idosos. E são sempre eles a sofrer mais, nesta crise.»

                        Discurso do Papa Francisco (excerto) na Audiência aos participantes no Seminário Internacional sobre “A complementaridade entre homens e mulheres” (17-19 de Novembro de 2014)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Raízes da Cidade


A ânsia do âmago da selva
Nos pálidos reflexos azulados
Do zumbido dos berbequins eléctricos:
Sobem através das lianas que se enrolam
Nos grossos alicerces de betão
Os sonhos diurnos de animais noctívagos
Vorazes por pétalas macias
Das delicadas flores do Paraíso

24/11/2014

Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Se Deus interviesse...

                      Etty Hillesum (1914-1943 em Auschwitz)


«Deus não é o artesão do mundo. Ele não o fabricou como um relojoeiro o seu relógio. Ele não constrói coisas que ficam logo prontas.

Pelo contrário, Ele retira-Se para que surjam de si mesmos e por si mesmos os seres que Ele suscita…

Se Deus interviesse para que fossem evitadas as desordens, as resistências da inércia, os maremotos, as epidemias, o mundo seria para Ele como um objeto que se pode manipular.

A nossa imaginação, deslizando para o infantilismo, veria nisso um maior amor, sem dúvida. Mas Deus não ama como nós quereríamos que Ele amasse quando projetamos n’Ele os nossos sonhos.»

     Etty Hillesum, Diário 1941-1943 (excerto)

domingo, 23 de novembro de 2014

O mar e a poça


A casa velha, parada,
Desolada, milenar,
Tem aranhas na entrada
Onde ninguém quer entrar.

Tem uma poça cá fora
Onde se pode brincar.
Ninguém sabe quem lá mora
Nem ninguém lá quer morar.

Todos brincamos na poça,
Mesmo suja e lamacenta,
E fazemos até troça
De quem disso se lamenta.

Houve em tempos quem dissesse
Que a casa levava ao mar
A quem quer que se atrevesse
A abrir a porta e entrar.

Mas é tão triste a fachada
Da casa que leva ao mar,
Que a poça mais desgraçada
Lhe usurpa o justo lugar…

22/11/2014

Fernando Henrique de Passos

(também em Outras Direcções, neste blogue)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Abrir a porta a Deus


«Vinde, benditos de Meu Pai, recebei em herança o Reino
que vos está preparado desde a criação do mundo»
Mt 25, 34

«Deus está lá fora. À minha porta. Eu estou cá dentro. E digo que Deus não tenta falar comigo. Que Deus não me dá o mais ínfimo sinal. Que Deus provavelmente nem existe. Mas, se olhar bem para o fundo de mim mesmo, vejo. Vejo que sei que Deus está lá fora. À minha porta. E vejo ainda mais. Vejo que não lhe abro a porta por temer ter de renunciar a muitas coisas. (…) Mas olhando ainda mais fundo dentro de mim mesmo (…) vejo que todas essas coisas, a que tanto apego tenho, [nada são] ao pé dos tesouros não sonhados que Deus tem para me oferecer.»

Escrevi isto há mais de cinco anos. Entretanto, acabei por deixar entrar Deus. (Ele foi muito persistente. Mesmo correndo o risco de parecer blasfemo, tenho de confessar que já não O podia ouvir a bater à porta!) Desde então, a minha vida começou a mudar muito, e para melhor. Por isso, gostava de conseguir ajudar outras pessoas a dar o mesmo passo que eu dei.

Para começar, a melhor ajuda que posso dar é pedir que desliguem a ideia de Deus de todas as palavras, símbolos e conceitos a que ela está geralmente associada na cultura ocidental. Qualquer descrente ocidental que me esteja a ler neste momento, se rejeita Deus, rejeita certamente todo o “folclore” que entre nós o costuma acompanhar, e não é caminhando por um átrio repleto de imagens que abomina que se poderá aproximar dele.

Encorajo então o ateu ou agnóstico que passa os olhos por estas linhas a pensar em Deus de uma forma muito mais abstracta, esquecendo até, se necessário, a própria palavra “Deus”, e imaginando apenas, no seu lugar, uma sabedoria muito antiga, escondida no interior de todas as coisas, mas escondida sobretudo nas profundezas de cada ser humano, talvez nas regiões recônditas do inconsciente, onde a Psicologia já chegou, ou em territórios ainda mais ocultos, que a Ciência terá de cartografar um dia.

Uma sabedoria muito antiga, sim, mas sobretudo uma sabedoria boa, que só nos deseja tudo aquilo que todos nós sempre quisemos alcançar, tudo o que resumimos na palavra “Felicidade”, embora tantas vezes confundamos felicidade com coisas que só nos tornam infelizes, a nós próprios e aos outros.

Quando conseguimos começar a ouvir o murmúrio permanente dessa sabedoria universal, à qual, vá-se lá saber porquê, os ouvidos das pessoas se vêm tornando cada vez mais surdos, as primeiras lições que deciframos ensinam-nos, por exemplo, que somos tanto mais felizes quanto menos desejamos sê-lo, porque esta sabedoria parece não fazer muito caso do senso comum, e chega a desafiar os dois pilares fundamentais da lógica tradicional, o Princípio do Terceiro Excluído (entre SIM e NÃO não há outra alternativa) e o Princípio da Não Contradição (não pode ter-se ao mesmo tempo SIM e NÃO).

Mas isso são assuntos de que poderão falar outras pessoas, pessoas que conheçam Deus muito melhor do que eu, como por exemplo os teólogos. Ah, voltei a falar de Deus, em vez de falar de Sabedoria! Mas não faz mal: no fim perceber-se-á que mesmo as coisas mais ridículas que vinham sempre agarradas à ideia de Deus, mesmo essas coisas, passam a ter todo o sentido quando iluminadas pela luz da “sabedoria ancestral do universo”.

O que não quer dizer que tudo sobreviva da ideia tradicional de Deus no ocidente. Não sobreviverá certamente um Deus que fica ofendido por não reconhecermos a sua ajuda, ao preferirmos atribuí-la a uma vaga “sabedoria”. Deus não é esse ser mesquinho que quer ser louvado, adorado e glorificado, esse Deus que nós, homens, construímos à imagem e semelhança dos nossos egos. Ele quer desesperadamente ajudar-nos porque nos ama, não porque queira receber louvores.

“Desesperadamente”? Pode aplicar-se esta palavra a Deus? Sim, em certo sentido, porque Deus também não é um ser omnipotente, como nós o idealizámos, necessitando, pelo contrário, que colaboremos com ele na nossa própria salvação.

Mas, acima de tudo, Deus não é um ser ─ Deus é o Ser, e o único verdadeiro mistério que devia preocupar os teólogos devia ser o mistério de o Ser único aparecer pulverizado em tantos biliões de pequenos seres: nós, seres humanos, e toda a restante “Criação”. (Efeito perverso do Tempo, avento eu, que funciona como o prisma de Newton, decompondo a unidade da luz branca em infinitos e diversos cambiantes. A unidade do Ser só será então reencontrada da perspectiva da Eternidade.)

Por isso, quando Deus nos ajuda, o que estaria realmente a acontecer seria “Deus a ajudar-se a si próprio”, ou “nós a ajudarmo-nos a nós próprios”, se o pudéssemos exprimir. Mas o que está realmente a acontecer é qualquer coisa completamente inexprimível pelas nossas palavras, pelos nossos conceitos, pela nossa lógica. Apenas isto é certo: não há ninguém à espera de ouvir “muito obrigado”…

20/11/2014

Fernando Henrique de Passos

(também em Terra de Ninguém. neste blogue)

sábado, 15 de novembro de 2014

O silêncio


«Jesus perante Herodes: "Fez-Lhe muitas
perguntas, mas Ele nada respondeu.
Os príncipes dos sacerdotes e os escribas
que lá estavam acusavam-n'O insistentemente"» 
Lc 23, 9-10

As palavras são tão carregadas de ambiguidade que ninguém consegue responder com palavras à violência das palavras, sem cair em outra violência. Por isso, o silêncio é a resposta para os que nos perseguem, como ensinou Jesus Cristo. 


Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sonar


AH!...

O cheiro a água fresca que vem do fundo do abismo
Envolto em reflexos de cores desconhecidas
E sons silenciosos como agulhas
(Prata caindo no veludo negro)
E o sabor do sal, da terra e das sementes
E sentir o óleo sobre a pele
Como memória nova de um baptismo

AH!...
(o eco no fundo do abismo…)

13/11/2014


Fernando Henrique de Passos

NOTA: O sonar é uma espécie de radar, mas no qual se usam ondas sonoras em vez de ondas electromagnéticas. Um sonar instalado num navio, por exemplo, permite determinar o relevo do fundo do mar através da análise do "eco" que este devolve, quando atingido por ondas sonoras enviadas desde o navio.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A lógica de Deus

(1515-1582)

a ser verdadeiro
o Princípio do Terceiro Excluído
excluiria do mundo a Santidade
que se situa na Terra de Ninguém
entre o Possível e o Impossível


11/11/2014

                      Fernando Henrique de Passos

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Esposa

 

Violeta guardando do orvalho
Como pérola a gota preciosa,
Presente matinal de que me valho
Se a tarde é seca e tenebrosa;

Princesa de épocas passadas,
Lenda que beijo, que abraço e que possuo,
Lagoa de fetos e esmeraldas
Onde eu, regato, desaguo;

Mel de abelhas criadas num vulcão,
Força da lava, sabor da alfazema,
Tinta dourada da paixão
Com que registo a cores este poema.

10/11/2014

Fernando Henrique de Passos

sábado, 8 de novembro de 2014

Do Deus de Einstein ao Deus dos cristãos




ao meu Pai, que hoje faria 91 anos, e que me falava muito de Deus,
mas também me falava de Einstein, de Newton e de Arquimedes

Durante dezenas de anos, incluindo um longo período de agnosticismo, sempre achei absurda a forma como Einstein falava de Deus, parecendo identificá-lo com a harmonia das leis do universo, ou com qualquer coisa de ainda mais vago e abstracto. Foi o livro Einstein and Religion, de Max Jammer, que me fez perceber melhor a sua atitude face à religião. (Obrigado ao Paulo Martel pelo oportuno presente!)

Se tentarmos isolar a essência do sentimento religioso, talvez encontremos isto: a consciência de que são os nossos medozinhos ridículos e os nossos desejozinhos ridículos que nos tornam infelizes, e de que eles não são nada ao pé de uma certa realidade gigantesca, esmagadora, abrasadora, cuja existência pressentimos, mesmo que às vezes não a consigamos definir, identificar, localizar. Era neste sentido que Einstein era religioso. 

Einstein não era religioso no sentido de acreditar em certos factos espácio-temporais como, por exemplo, “Deus entregou as tábuas da lei a Moisés no Monte Sinai” ou “Jesus ressuscitou ao terceiro dia”. Ser religioso, no sentido lato da palavra, é muito mais e muito menos do que isso. Há pessoas que acreditam nesses factos e que levam vidas tão miseráveis como qualquer materialista. Essas pessoas serão mais ou menos cristãs do que Einstein o foi? A que distância se encontrava Einstein de ser cristão?

Deixemos que seja Deus a julgar e abstenhamo-nos de tentar responder. Mas não nos abstenhamos de perguntar: “em que é que a Fé em Nosso Senhor Jesus Cristo muda a minha vida?” Ser religioso é ver a realidade de uma forma diferente, mas não é só isso ─ é deixar também que essa forma de ver a realidade transforme a nossa forma de a viver. O que também pode ser dito de outro modo: se a nossa forma de ver a realidade não traz automaticamente novidade à nossa vida, então é porque não estamos a ver a realidade de uma maneira realmente diferente, apenas julgamos que o fazemos.

Deus entregou as tábuas da lei a Moisés no Monte Sinai! Jesus ressuscitou ao terceiro dia! Estes factos não são só importantes; estes factos são decisivos. Mas não serão decisivos, nem sequer importantes, se eu ficar pela sua casca espácio-temporal e me esquecer do que eles procuram revelar acerca daquela realidade assombrosa da qual por vezes se tornam uma manifestação quase insignificante (dependendo do modo como são olhados e vividos), sobretudo se já passaram 2000 ou 3000 anos sobre a sua ocorrência e, pior, se as escassas dezenas de anos da minha própria vida, em vez de dedicadas a desenterrá-los das profundidades da História, ainda os vieram cobrir com as teias de aranha da rotina, com a qual o meu egoísmo tão sensatamente (do seu ponto de vista) me protege de desafios e sobressaltos.

Sobressaltos? Sim: a vida, a morte e a Ressurreição de Jesus Cristo devem ter sido para os seus contemporâneos como a explosão de uma supernova. E se, ao fim de vinte séculos, só restam dessa explosão as brasas quase extintas do rescaldo de um incêndio, há mesmo assim a possibilidade, soprando as brasas, de atear chamas que ameacem devorar todo o conforto em que a minha autocomplacência deixou que eu me instalasse.

8/11/2014
                                                        Fernando Henrique de Passos