quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Oração


PAI, QUE ESTAIS AQUI


Pai, que aqui estais nas horas
dos caminhos e das dores,
que sensação de queimadura entre metais,
entre os ossos quebrados, as longas placas.
O titânio entre os pregos a ferirem a carne,
os dedos da mão contorcidos de dor.
No inchaço e no ardor a palma da mão
dormente e mirrada, oh Pai, que aqui não estais!
E a vossa voz distante escutando
os silvos que eu dou, desfeita,
porque julgo que aqui não estais.
A matéria dura e agreste magoa-me demais,
o tormento dos dias cresce
e as minhas dúvidas não crescem
menos em que vós, Pai, aqui não estais.
“E se caio de novo? Que será deste cotovelo ainda com os ossos acabados de juntar? Que terrível só a ideia de cair de novo, a perna fraca…  posso voltar a cair se a perna vacila…
E se caio sobre o cotovelo entre as picadas das placas,
os ossos fragmentos e não consolidados?”
Que perguntas vos faço, Pai, porque julgo
que aqui não estais!
No dia treze, na hora dos pequenos caminhos,
quase ao fim do dia quente, saio de casa.
Um tufo de folhas secas perto do passeio.
Estão secas. Secas. Piso a primeira vez,
depois a segunda. E, num instante, desamparada,
caio sobre as pedras do passeio sobre
o cotovelo de ossos fragmentados.
“Que susto, Pai! Que perigosa queda”, pensei.
“Não, não estais aqui, Pai!”
“Mas… que dor tão branda!” Em poucos minutos,
a dor suave passava sem explicação.
Lágrimas de alegria caem agora dos meus olhos.
“Como duvidar, Pai, que estais aqui,
quando as vossas mãos forram
as pedras onde caio. Tudo está intacto
como se não tivesse caído.
E eu que, desde a operação ao cotovelo,
tanto temia cair, agora deixo de ter medo de cair.
“As tuas mãos, Pai, com as mãos de Jesus
me sustentam. Como caio tão suavemente?!”
E eu disse ao esposo:
“Vamos fazer precisamente o que íamos
fazer. Andar!”. A Tua voz , Jesus,
dizia-me, baixinho: “Anda. Não tenhas medo.
Confia mais em mim”.
Como posso não confiar, Pai,
porque estais aqui, precisamente
com as mãos de Jesus para me proteger?
Como posso não confiar depois da graça que me deste?
Cinco dias depois… volto a cair na rua
sobre os ossos fragmentados
envoltos  em titânio!
E, mais uma vez, Pai,
para que eu não tivesse dúvidas,
estivestes aqui! E eu continuei
como se as duas quedas não tivessem existido!
“Pai, como duvidar que estais aqui
se me deste as mãos de Jesus para me resguardar?!”


20 de Setembro de 2012*

* Dois meses depois de ter feito, no Hospital de Santa Maria em Lisboa, uma complicada operação ao cotovelo do braço esquerdo.

Teresa Ferrer Passos

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